A primeira It Girl

Rowling, J.K. “A primeira It Girl”. The Telegraph, 26 de novembro de 2006.

J.K. Rowling critica Decca: as cartas de Jessica Mitford editadas por Peter Y Sussman

Jessica Mitford tem sido minha heroína desde os meus 14 anos de idade, quando entreouvi minha formidável tia avó discutindo sobre como Mitford havia fugido aos 19 anos para lutar com os comunistas na Guerra Civil Espanhola: ‘e ela colocou na conta do pai uma câmera para levar consigo!’. Foi a câmera que me cativou, e eu pedi por mais detalhes. Minha tia avó, que ensinava Literatura Clássica e aprovava essa sede por conhecimento, mesmo que questionável, produziu uma cópia bem velha de Hons and Rebels, o primeiro volume da autobiografia de Jessica Mitford.

Decca: As cartas de Jessica Mitford mostram, como cartas normalmente costumam fazer, uma imagem muito mais viva do escritor do que suas autobiografias, e eu terminei a leitura adorando-a, e admirando-a, mais do que antes (seria o que Decca chama de ‘maneira educativa’, de certa forma, se eu não tivesse sentido isso, visto que eu nomeei minha primogênita em homenagem a ela).

As cartas abarcam uma vida que foi notável em quaisquer padrões – a adolescente aristocrata que deixou a Inglaterra, eventualmente se tornando uma comunista na América; a esposa fugitiva que se tornou viúva guerreira e virou ativista em direitos civis, jornalista veterana e, finalmente, autora de um best-seller importantíssimo chamado The American Way of Death [O Jeito Americano do Morrer], uma expositora das práticas corruptas da indústria funerária. E tudo isso fora sua filiação com a banda de protótipo ‘It Girls’, as Mitford Sisters.

Decca era caracteristicamente divertida no que ela chamava ‘A indústria Mitford ‘. Depois do sucesso nos EUA com o best-seller I Hate Cats Books [O Livro do Eu Odeio Gatos], ela escreveu The I Hate Mitfords Book [O Livro do Eu Odeio Mitfords] poderia ir bem aqui – publicado nos EUA com o título 100 Maneiras de Matar uma Mitfod’’. Para Katharine (‘Kay’) Graham, editora do Washington Post: ‘As Garotas de Mitford [o musical] está para estrear em Londres, então esse é um trabalho o qual você não precisa se dar (dizem que há a possibilidade de estrear na Alemanha, o que vai bem para aqueles Krauts perturbados).’

Cartas para e sobre suas irmãs serão as primeiras para as quais muitos leitores voltarão suas atenções: Nancy, a escritora apaixonada pela França; Débora, a 11ª Duquesa de Devonshire; e, muito ocasionalmente, Pam, normalmente classificada como a garota Mitford ‘tranquila’ ou ‘caipira’ (Decca ficara verdadeiramente entretida pela paródia privada ‘Eu, Doreen, Memórias da Irmã Mitford Desconhecida’).

Decca nunca perdoou a simpatia pelo nazismo que sua segunda irmã mais velha, Diana Mosley, tinha, embora um cessar-fogo tenha sido convocado para que ambas comparecessem ao leito de morte de Nancy. Por sua própria admissão, o repúdio de Decca fora agravado pela amargura que ela sentira com relação à morte em combate de seu primeiro marido, Esmond Romilly.

Dito isto, foi inesperado e tocante ler a carta que ela mandou para Deborah quando Oswald Mosley morreu: ‘… Diana deve estar tão triste e solitária. Por razões óbvias eu não estarei escrevendo, mas se você se sentir apto a isto, transmita os meus sentimentos de simpatia. Muito amor, Henderson, oh, querido, que carta deveras estranha e constrangedora. Mas você sabe como é, Hen.’

Há fofocas também, as mais quentes com relação à própria indústria de Mitford. “Por que você deveria ser o árbitro final de tudo sobre a família?” ela escreve furiosamente para Deborah em um dado momento. O apogeu se dá quando o segredo mais sórdido da família é retirado à força do armário onde se escondia: a biografia de David Pryce-Jones sobre Unity, a quem Decca era bem próxima em sua juventude, e que se tornou uma arqui-fascista e favorita de Hitler.

Decca crê que a história deve ser contada; as outras irmãs são a favor da supressão; e como as trocas de cartas se tornam cada vez mais inflamadas, o leitor sente aquela culpada sensação de estar bisbilhotando a conversa alheia, e somente os menos ingênuos fingirão que esta não é uma das melhores emoções de ler a correspondência dos outros.

As cartas de Decca cantam com as qualidades que a fizeram tão atraente para mim. Incuravelmente e instintivamente rebelde, corajosa, aventureira, divertida e irreverente, ela gostava de uma boa briga, preferivelmente contra um alvo pomposo e hipócrita. ‘Como você pode ver’, escreve ela durante uma campanha em que se envolveu para fechar a fraudulenta escola que oferecia o curso por correspondência ‘Os Famosos Escritores’, ‘é tudo muito divertido, tudo porque eles são bundões da direita conservadora super respeitáveis’.

Ela era cheia de contradições, e sabia disso; a comunista menos ‘politicamente correta’ que se pode imaginar, ela já foi repreendida pelo partido por promover uma campanha de doações prometendo ‘Garotas! Garotas! Garotas!’ no pôster promocional, o que levou todos a demonstrar uma postura questionável na ‘Questão da Mulher’. Frequentemente reprovada por ser leviana nas reuniões do Partido Comunista, ela descaradamente se divertia com suas incursões acerca de um mundo com mais dinheiro, (‘lambendo o luxo’ em Kay Graham e, claro, ficando na incomparavelmente bonita Chatsworth).

Apesar de sua aversão ao trabalho doméstico e sua indiferença à sujeira e desordem, há, não obstante, lampejos da filha de Lady Redesdale (‘guardanapos de papel, que eu achei esquálidos’). Para um comunista que a enviou uma carta como fã, ela replicou: ‘Eu tento… escrever coisas que serão úteis na luta [comunista], por exemplo, o livro da prisão… eu percebo que muito frequentemente sou completamente apatetada por assuntos triviais que não tem muita relação com a luta da categoria, mas temo que isso seja um defeito de caráter.’

Peter Sussman fez um trabalho mestre ao editar essas cartas, o que deve ter sido um verdadeiro campo minado, já que, como ele próprio diz, ‘As visões de Decca foram muito frequentemente colocadas de maneira provocativa e intensa’. Suas informações de rodapé são exemplares, iluminando ao menos um relacionamento dos Mitford que me iludiu por 27 anos.

Ao agrupar as cartas em ordem cronológica, dividindo-as de acordo com períodos, ele consegue dar forma discreta e estruturada a uma vida vivida de maneira caótica. O único trocadilho possível, e acho que isso era inevitável, é que somos apresentados a todos os detalhes insuportavelmente tristes da morte de seu primeiro marido antes de mergulharmos nas mais tocantes cartas de amor que já li na vida, enviadas a Esmond enquanto ele estava treinando com as formas aéreas do Canadá, de forma que seu humor e calor humano são recobertos com o arrepio do pressentimento desde o início.

A culminância dessa tristeza chega quando lemos a carta de Decca para sua mãe, após receber o telegrama com a informação que Esmond, de 23 anos, estava desaparecido: ‘Estou absolutamente certa de que Esmond está bem. Às vezes dura mais de seis meses para que recebamos informações de prisioneiros.’ À noite, Sussman nos conta que o amigo com quem ela e sua filha mais nova estavam hospedados podia ouvi-la falando enquanto dormia: “Oh, mas a água estava tão fria, tão fria…”

A própria morte de Decca foi relacionada ao cigarro. Como eu me identifiquei com as formas dela de desistir… Terapia da aversão, ela escreve, era inútil. Seu segundo marido, Bob Treuhaft, ‘coletou uma tonelada de tocos e cinzas nojentas e tudo o que eu fiz foi respirá-las e dizer “QUE divino.”‘ Na época em que o câncer foi encontrado ele havia se espalhado para o cérebro. Anos antes, Evelyn Waugh havia criticado o American Way of Death, por conta de sua falta de ‘atitude plenamente estabelecida ao encontro da morte’. Ela respondeu através de sua irmã Nancy ‘… diga a ele que eu obviamente sou contra’.

Na evidência de suas últimas cartas, sua atitude foi de quase alegre aceitação. Seus últimos escritos foram dirigidos ao seu marido (‘Bob, como é ESTRANHO morrer’) e sua adorada Hen, sua irmã Deborah, e estes escritos são dolorosamente tocantes.

No entanto, sua última risada foi dada à custa de seu inimigo antigo, o Service Corporation International, que ela perseguiu por anos, alegando práticas exorbitantes e imorais relacionadas à indústria funerária. Através das instruções de Decca, sua assistente escreveu ao Service após sua morte, incluindo uma conta a ser paga referente ao seu funeral: ‘A Sra. Mitford acredita que vocês deveriam pagar a conta dela. De acordo com suas palavras, “afinal, olhe para toda a fama que dei ao Service!”’

Traduzido por Antônio Kleber em 08/09/2012
Revisado por Marina Anderi em 12/09/2012
Postado por Renan Lazzarin em 16/09/2012
Resenha original no The Telegraph aqui.



 
 
 
 
 
 
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