Um tipo de magia

Rowling, J.K. “Um tipo de magia”. The Daily Telegraph, 9 de junho, 2002.

Um tipo de magia, J.K. ROWLING escreveu o primeiro livro da série Harry Potter vivendo na pobreza, criando sua filha sozinha. Aqui ela reconta seu esforço e apresenta um livro de histórias curtas publicado para auxiliar a Magic Million Appeal, para famílias de pais solteiros.

“Meu envolvimento com a Assembléia Nacional para Famí­lias de Pais Solteiros aconteceu de forma muito simples, ou muito difícil, dependendo de como você vê.”

“A versão simples envolve Andy Keen Downs, deputado e diretor de caridade, sentado na minha cozinha desarrumada, tirando um maço de apontamentos de sua pasta e embarcando no que eu estou certa de que deveria ter sido um discurso maravilhosamente persuasivo, bem-conceituado e belamente proferido. ‘Andy’, eu interrompi, naquela voz aborrecida pela qual pais solteiros podem ser identificados, ‘você gostaria que eu fosse patrocinadora, não gostaria?’. ‘Bom, nós estamos chamando de embaixadora,’ disse Andy tentativamente, interrompido no meio do discurso. ‘OK, eu farei isso’, eu disse, ‘mas nós poderíamos, por favor, discutir os detalhes no caminho para a escola? Porque o Dia dos Esportes começa em cinco minutos.’ E então nós discutimos a Assembléia Nacional para Famílias de Pais Solteiros enquanto assistí­amos as corridas de ovo-e-colher; um começo apropriado, eu achei, por minha associação com uma instituição de caridade dedicada a ajudar os pais cujas vidas são um ato de oscilação constante.”

A versão longa de como eu me tornei embaixadora inclui minha experiência pessoal de mãe solteira e minha raiva sobre a censura por alguns setores da mí­dia. Essa história começa em 1993, quando meu casamento acabou. Eu estava vivendo no exterior e estava em um emprego em período integral; deixar meu ex-marido significava deixar meu emprego e voltar para a Grã-Bretanha com minha filha ainda bebê e duas malas cheias de pertences. Eu sabia perfeitamente bem que eu estava indo para a pobreza, mas eu acreditei sinceramente que seria apenas uma questão de meses até eu voltar a me levantar. Eu tinha dinheiro suficiente guardado para dar o lance em um apartamento alugado e comprar uma cadeirinha de bebê, uma cama e outras coisas essenciais. Quando todas as minhas economias haviam terminado, eu me estabeleci numa vida de pouco menos de 70 libras por semana.”

“A pobreza, como eu logo descobri, é muito semelhante ao parto – sabe que vai doer antes de acontecer, mas você nunca saberá o quanto até experimentar. Alguns dos artigos de jornais escritos a meu respeito chegaram quase a sentimentalizar o tempo que eu gastei com a Auxí­lio de Renda, porque o clichê do escritor morrendo de fome num sótão é muito mais ilustrativo do que a cruel realidade de viver na pobreza com uma criança.”

“As pequenas e infinitas humilhações da vida recebendo benefí­cios e vamos lembrar que seis a cada dez famí­lias lideradas por um pai ou mãe solteiros vive na pobreza, recebem pouquíssima atenção da mí­dia, a menos que sejam seguidas por o que parece ser, no jornal pelo menos, uma reversão para a fortuna rápida e estilo-Cinderela. Eu lembro ter atingido o ápice, contando o dinheiro em moedas, descobrindo que faltavam dois pence para comprar uma lata de feijões cozidos e sentindo que eu devia fingir para a aborrecida garota do caixa que havia deixado cair uma nota de dez libras para fora da carteira.”

“Da mesma forma, habilidades teatrais desconhecidas necessárias em meus saques na loja Mothercare, onde eu fingia estar olhando roupas para minha filha que eu não podia pagar, enquanto ia para cada vez mais perto do fraldário, onde eles ofereciam uma pequena provisão de fraldas grátis.”

“Eu odiava vestir minha filha com roupas grande demais das lojas de caridade, eu odiava depender da benevolência de parentes quando ela precisava de novos sapatos; eu tentei furiosa e arduamente não sentir inveja dos belamente decorados e bem abastecidos quartos das outras crianças quando ela ia para a casa de amigos para brincar.”

Eu queria trabalhar meio período. Quando eu perguntei à minha assistente social sobre a possibilidade de algumas tardes por semana numa creche estadual ela explicou, muito gentilmente, que lugares para bebês eram restringidos àqueles que eram considerados ‘em risco’. Suas palavras exatas foram ‘você está enfrentando muito bem.’ Eu conseguia ganhar 15 libras por semana no máximo antes de meu Auxí­lio de Renda e Auxílio de Habitação serem diminuí­dos. O preço da creche privada e integral era tão exorbitante que eu precisaria encontrar um trabalho integral que pagasse muito mais do que a média nacional. Eu tinha que decidir se meu bebê seria entregue a alguém que cuidaria dela durante a fase da maioria de seus despertares, ou se ela seria cuidada por sua própria mãe, longe de aparatos luxuosos. Eu escolhi a segunda opção, embora constantemente sentisse que tinha que justificar a minha escolha toda vez que alguém fazia aquela pergunta nojenta: ‘Então, o que você faz?’ A resposta honesta para essa pergunta era: ‘Eu me preocupo continuamente, eu dedico horas escrevendo um livro que eu duvido que seja publicado algum dia, eu tento me segurar na esperança de que nossa situação econômica melhore, e quando eu não estou tão exausta de sentir todas essas emoções, eu afundo em raiva pelas descrições de mães solteiras feitas por certos polí­ticos e por jornais irresponsáveis e adolescentes à procura daquele Santo Graal, as Casas Populares oferecidas pelo governo, quando na verdade 97% de nós já deixaram a adolescência há muito tempo.”

“A mensagem oculta de muitas das difamações sobre pais solteiros é que ‘famílias de dois’ são intrinsecamente superiores, ainda que durante meu tempo como professora de uma escola secundária eu tenha encontrado certo número de crianças destruidoras e mimadas que tinham os dois pais. Existem aqueles que ainda acreditam que enumerar cabeças define uma verdadeira família, aqueles que acreditam que o casamento é o único contexto certo para se ter um filho, mas eu nunca senti a mais remota vergonha por ser mãe solteira. Tenho o problema de ser um tanto orgulhosa do perí­odo em que eu estava em três empregos sozinha (o emprego não-remunerado de ser dois pais e o remunerado de ser professora pelo qual eu posteriormente consegui meu Certificado de Educação de Pós-Graduação, graças à generosidade de um amigo que me emprestou dinheiro para creche).”

“Há muitas evidências para indicar que não é a paternidade solteira, mas a pobreza, que faz algumas crianças se saí­rem pior que outras. Quando você tira a pobreza da equação, crianças de famílias com um único pai podem fazer tanto quanto crianças de famí­lias de dois pais.”

“A fuga da minha famí­lia da pobreza para o inverso foi muito bem documentada e eu sou totalmente consciente, todos os dias, do quão sortuda eu fui; sortuda porque eu não tenho mais que me preocupar com a segurança financeira da minha filha; sortuda porque quando chega o que costumava ser o Dia do Benefí­cio, ainda há comida na geladeira e as contas já estão pagas. Mas eu tive uma habilidade que podia exercer sem despesas financeiras: qualquer um que esteja pensando em me usar como exemplo de como pais solteiros podem sair da cilada da pobreza deve também mostrar a Oprah Winfrey e declarar que não há mais racismo na América.”

“Pessoas como eu estão enfrentando os mesmos obstáculos para uma total realização de seu potencial todos os dias e seus filhos estão perdendo as oportunidades que estão ao seu redor. Elas não estão pedindo esmolas, elas não estão planejando viver das Casas Populares oferecidas pelo governo, elas estão simplesmente pedindo a ajuda que precisam para se libertar da vida de receber benefí­cios e sustentar seus próprios filhos.”

“Esse é o motivo pelo qual eu não precisei ouvir os bem-estruturados argumentos de Andy no Dia dos Esportes. Eu já havia decidido que era tempo de investir meu dinheiro onde já havia estado quando provei a realidade da maternidade solteira na Grã-Bretanha. A Assembléia Nacional para Famílias de Pais Solteiros não é nem anti-casamento (afinal, quase dois terços dos pais solteiros já foram casados) nem faz propaganda para as pessoas continuarem sozinhas. Ela existe para ajudar os pais que estão criando crianças sozinhos como conseqüência, por exemplo, do fim de um relacionamento ou da morte de um parceiro, quando as crianças se vêem em um novo tipo de famí­lia e resta apenas um pai para fazer o trabalho de dois, geralmente com uma renda consideravelmente reduzida. Ela propicia incalculáveis conselhos e auxí­lio prático de grande alcance sobre questões que afetam pais solteiros e seus filhos, e eu fico orgulhosa de ser associada a ele.”

A associação de caridade Magic Million Appeal, para a qual o novo livro, Mágica, irá arrecadar dinheiro, deve ajudar a sustentar a abrangente área de serviços oferecidos para pais solteiros que querem nada mais que sair da armadilha da pobreza enquanto criam crianças felizes e bem-ajustadas. Essas famí­lias, muitas vezes transformadas em bode expiatório ao invés de serem ajudadas, ficariam melhor com menos falta de visão semelhante à dos Dursley, e um pouco mais de magia em suas vidas.

Traduzido por: Gabriella G. Mosena.
Revisado por: Adriana Couto Pereira e Vítor Werle em 04/03/2008.
Publicado por: Renan Lazzarin em 24/08/2012



 
 
 
 
 
 
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