Gibbs, Nancy [entre outros colaboradores]. “A verdadeira magia de Harry Potter”. Time, 23 de junho de 2003.

No mesmo dia de verão em que Catie Hoch, de 6 anos, bateu seu recorde pessoal de pular corda – 100 pulos consecutivos – os médicos descobriram que a dor na sua lateral estava vindo de um tumor em seu rim. “Naquele fragmento de segundo,” lembra sua mãe Gina Peca, “sua vida inteira muda. Você enche sua casa de seguranças e tenta dar a seus filhos a comida certa, achando que tem o controle sobre as suas seguranças, e não o tem”.

Capa da revista Time de 23 de junho de 2003

Havia ainda menos controle no decorrer dos dois anos seguintes à medida que o câncer se alastrava, apesar de sete sessões de quimioterapia, três operações nos pulmões e uma no fígado de Catie. Foi nesta época que Gina começou a ler em voz alta os três primeiros livros sobre um estudante bruxo chamado Harry Potter, que dizia algo sobre enfrentar inimigos violentos, mortais. Talvez seja por isso que, quando elas pegaram o trem da sua casa no norte de Nova Iorque em direção à cidade de Nova Iorque para o tratamento, Catie usasse uma capa vermelha, uma cicatriz em forma de raio em sua testa, uma varinha e grandes óculos negros. Ela estava pronta para qualquer coisa.

Em janeiro de 2000, quando parecia que as opções de seu tratamento haviam se esgotado, Catie estava de volta para casa, suas chances de viver para ler o Livro 4 parecendo muito escassas. Foi quando chegou um e-mail de alguém na Grã-Bretanha que ouvira sobre a garota de 8 anos em Nova Iorque que amava muito Harry. “Estou trabalhando muito no Livro 4 no momento,” confidenciou a autora, e conversou sobre o capítulo que estava escrevendo, como o lobisomem professor Lupin era um de seus personagens favoritos, e sobre algumas novas criaturas que fariam sua estreia. “Isso tudo é SIGILOSO,” alertou, então Catie poderia contar à sua família, mas a ninguém mais, “ou você receberá uma coruja do Ministério da Magia por revelar nossos segredos aos trouxas.” Foi assinado, “Com Muito Amor, J.K. Rowling (Jo para qualquer um da Grifinória)”.

Pelos próximos dias e semanas, Catie escreveu para sua nova amiga sobre sua festa de aniversário; seus amigos; seu novo cachorro, Potter Gryffindor Hoch (o primeiro nome em homenagem ao sobrenome de Harry e o do meio, à casa na qual ele foi classificado na escola). Ela parecia estar ficando mais forte, mais brilhante, em sua excitação por sua nova amiga de caneta. Jo respondeu largamente, digitando de sua casa na Escócia, enquanto as janelas rangiam nas ventanias de janeiro. “É um pouco fantasmagórico,” escreveu uma noite. “Durmo no sótão da casa (como Rony) e quando venta muito, como esta noite, fico acordando imaginando o que rangeu… sabe, não sou tão corajosa quanto Harry – se você me dissesse que havia uma cobra gigante vagando pela noite onde moro, me esconderia debaixo do edredom e deixaria outra pessoa resolver”. Jo era franca sobre outras coisas que a assustavam. “Não me importo de conversar com grandes grupos de pessoas na sua idade, porque vocês fazem perguntas interessantes, mas conversar com os adultos me assusta”.

Gina observou a amizade crescer, viu uma coruja empalhada e um gato laranja de brinquedo chegar nas correspondências como presentes. “Não consegui acreditar quando o primeiro e-mail chegou, mas o que não pude acreditar é que eles continuaram chegando,” diz. “Não foi uma vez ou duas de ‘Ouvi que uma garotinha estava doente e mandei um cartão de melhoras.’ Para mim, era uma relação. Não sei o que Jo estava pensando, mas estava tirando tempo de uma agenda muito, muito ocupada para escrever e-mails preciosos para Catie”.

Talvez era simpatia. Mas talvez, era admiração. “Admiro a coragem acima de quase todas as outras características,” contou Rowling à TIME alguns meses depois, quando se sentou para conversar sobre os personagens que criara. “A bravura é uma virtude muito sedutora, mas estou falando de bravura em todo tipo de lugar”. É, como Rowling atesta no primeiro capítulo do primeiro livro, a virtude que não pode ser falsificada: ou você entra numa floresta cheia de aranhas gigantes, ou não. Ou encara as piadinhas, ou se esconde delas. Ou se agarra na esperança, ou se rende ao medo. Ela dirige a palavra às crianças como se elas soubessem tanto ou mais que ela sobre as coisas que importam. As crianças gostam dos personagens que ela criou, Harry acima de tudo, não porque ele é fantástico, mas porque ele é familiar. Rowling, dizem, capta tudo certo e escreve como se soubesse como é ter 13 anos e estar ansioso e espantado ao descobrir o que você pode realmente fazer se tentar. Talvez ela encontre seu caminho em direção aos corações das crianças porque nunca partiu no primeiro lugar.

Este é, ao menos, um lugar para começar a tentar entender por que os livros de Rowling são a série infantil mais popular já escrita. É difícil não acreditar na magia quando você considera o que ela fez. Através de seus livros, ela fala com as crianças de Milão, Marrocos e Minnesota, e estas conversas também são, de alguma forma, particulares, embora sejam conduzidas em 200 países, 55 idiomas, em braile, num volume de 200 milhões. As crianças compram seus livros com seu próprio dinheiro. Elas usam lanternas para ler depois que as luzes são apagadas. As crianças com medo de livros grossos e crianças disléxicas que nunca terminaram um livro, leram Harry Potter não uma vez ou duas, mas dúzias de vezes. Os pais dizem que os níveis de leitura pularam quatro fases em dois anos. Não conseguem acreditar nessa bênção de que, para uma geração inteira de crianças, a experiência de entretenimento mais poderosa de suas vidas não vem de uma tela, de um monitor, ou de um disco, mas de uma página.

Então, muitas destas crianças estarão exaustas na manhã de sábado, 21 de julho, porque na menor noite do ano, a noite em que dizem que o que quer que você sonhe vai se realizar, Harry Potter e a Ordem da Fênix sai à venda um minuto após a meia-noite. Nesta noite, haverá festas Potter repletas de corujas, capas e cerveja amanteigada, e aqueles que puderem vão convencer seus pais a deixarem-nos vestir seus pijamas Potter e dormir num armário sob a escada. Algumas famílias compraram dois ou três livros, para prevenir uma guerra civil. Com 8,5 milhões de exemplares, esta é a maior tiragem inicial da história; e com quase 900 páginas, o maior livro infantil que existe. Ele já tem o topo das vendas por reserva de todos os tempos: era um best-seller da Amazon.com duas horas depois de estar disponível para reserva. E seu conteúdo é tão secreto que o motorista de uma caçamba foi sentenciado por roubar páginas de uma prensa na Grã-Bretanha e tentar vendê-las ao Sun por £25.000, ou US$41.000.

É claro que nem todos os números são bons: a American Library Association classifica os livros de Harry Potter como os mais desafiados no país; os pais têm exigido mais que Harry seja banido das prateleiras do que Huck Finn, mais que O Apanhador no Campo de Centeio.

Pais conservadores cristãos têm argumentado que os livros promovem a bruxaria e o satanismo; um estudante em Houston se levantava e deixava a sala cada vez que o professor lia um trecho de Harry Potter em voz alta. Mas mesmo este escândalo se acalmou ou passou a apoiar uma conversa muito maior sobre o que deveria formar a vida moral das crianças. “Acho que qualquer concentração incomum em coisas como a magia e bruxaria é uma má ideia,” diz Charles J. Chaput, arcebispo de Denver, “mas estas coisas também podem ser uma parte natural da narrativa infantil. Então acredito que o argumento de Potter realmente é sobre as grandes e profundas batalhas que estão acontecendo em toda a cultura sobre nosso personagem nacional”.

Também há uma pequena guerra secular sobre se estes livros são bons o bastante para merecer sua aclamação, se vão perdurar como clássicos ou sumir como modinhas. A acusação, dado o fato de que a popularidade massiva é feita de forma tipicamente quieta, é de que as histórias seguem uma fórmula convencional. O ataque veio, pela primeira e mais famosa vez, de um tedioso professor de Yale, Harold Bloom, guardião das chaves dos reinos da literatura, que descartou o primeiro livro de Harry Potter como fino e repulsivo num artigo de 2000 no Wall Street Journal e, desde então, tem se recusado a dar uma olhada em qualquer uma das sequências. “Acho que, em outra geração ou algo assim,” contou à TIME, “Harry Potter estará nas latas de lixo por todo lugar. Será um lixo periódico, já que é escrito de forma tão atroz”.

Ele está, para não dizer mais nada, numa minoria; Bloom ficaria surpreso pelo número de leitores adultos que esquecem os textos do arquétipo jungiano e procuram as raízes folclóricas dos hinkypunks, criaturas travessas que atraem viajantes aos pântanos. “Acho que ela é uma escritora maravilhosa,” diz Maurice Sendak, autor e ilustrador de 80 livros infantis, que leu o primeiro livro. “E ela gosta de misturar as coisas, como eu. Ela tirou algumas das melhores coisas da literatura inglesa e cozinhou seu próprio ensopado. É brilhante, e tenho a intenção de ler os outros; senão as crianças que conheço vão me matar”.

Os professores que encontram as crianças todos os dias também a apreciam. “Sei que não é uma literatura como The Grapes of Wrath,” argumenta Gail Hackett, bibliotecário da Monroe Elementary em Des Moines, Iowa. “Mas também não é Captain Underpants”. Além da sua gratidão por qualquer coisa que faça as crianças lerem, os pais e professores gostam de como Rowling não menospreza nem superprotege as crianças. “Geralmente, os adultos na literatura infantil são horríveis ou incompetentes,” observa Debbie Mitchel da livraria Magic Tree em Oak Park, Illinois, enquanto Rowling mostra adultos sendo sábios e justos e, através do guardião das chaves Hagrid, o melhor amigo imaginável. Seu tom pode também ficar obscuro e sinistro de formas que muitas fantasias infantis contemporâneas não conseguem. “Os psiques das crianças são muito mais sofisticadas do que acreditamos,” diz Suzanne Ferleger, uma terapeuta infantil em Encino, Califórnia. “Os adultos gostam de pensar que, nas mentes das crianças, o mundo é um mar de rosas. Mas eles caramelizam os sentimentos mais profundos das crianças. Rowling incentiva isso de tantas formas”.

Os leitores mais jovens sentem que ela conhece seu mundo e seus gostos. As crianças se preocupam com as marcas: a vassoura Nimbus 2000 é a melhor no mercado, pelo menos até que a Nimbus 2001 foi lançada. Eles gostam de resolver quebra-cabeças: adoram ver que o Beco Diagonal, lugar de compras para os bruxos, é obviamente disposto diagonalmente. Gostam de um personagem que deixa de ser sem poderes e passa a ser mágico, tendo poderes ainda maiores que os de outros adultos. Harry ser um órfão faz dele muito mais vulnerável e independentes, de maneiras que adolescentes de 13 anos não são; ele teve que se criar, porque não é provável que seu espírito tenha sido gentilmente formado por seus odiosos tios. Não ter uma família regular, dizem as crianças, é algo com o que muitas delas podem se relacionar. Professores de escolas do interior, onde muitas crianças problemáticas são afetadas por um cuidado isolador, ficam estupefatos pelo poder dos livros em seus alunos. “Muitas destas crianças cresceram sem pais, mas ainda têm que fazer escolhas morais em suas vidas,” indica Ebony Thomas, de 25 anos, um professor de inglês da Cass Tech High School em Detroit. “Antes, tais escolhas teriam sido ditadas pela Igreja, pela família, pela comunidade; agora você tem que encarar isso sozinho, e a escolha está dentro de você. Esta é uma geração que realmente precisa de Harry Potter”.

Já havia muitos livros com unicórnios e bruxos antes de Harry chegar, certamente montes de livros sobre órfãos buscando por suas raízes e adolescentes crescendo – o que nos deixa a pergunta do que Rowling fez de diferente. Ao contrário de alguns super-heróis bonitos e musculosos, Harry tem o visual de um nerd, mas o coração de um herói. É pequeno, mas rápido: a varinha é mais poderosa que a espada. “Ele é meio que como eu,” diz Alex Heggen, 12 anos, da Des Moines, que, como tantas crianças, vê algo de si em Harry e espera encontrar mais de Harry em si mesmo. “Ele, às vezes, é corajoso… Tenho cabelos negros, uso óculos, temos mais ou menos a mesma altura… Usar óculos e aparelho dental – ser alvo das piadinhas é simplesmente a sua vida. Você tem que lidar com isso”.

As crianças dizem que em sua representação da amizade entre Harry, Rony e Hermione, Rowling mostra uma misteriosa compreensão de como os adolescentes lidam uns com os outros. “Ela acerta quase tudo,” diz Ligia Mizhquiri, 12 anos, de Chicago. “O que acontece [na escola de Harry], acontece conosco. Alguns de nós são populares. Alguns não são. Alguns são alvo de piadas. Alguns são os fazedores de piada.” A amizade de Harry com Rony remonta a todos os filmes de amizade já feitos; o modelo é tão familiar às crianças que, quando saiu que um personagem morreria no Livro 4, jovens escreveram a Rowling implorando a ela que não matasse Rony, porque nos filmes é sempre o melhor amigo quem morre. Mas na familiar casa da árvore, Rowling acrescenta Hermione, irritante a princípio, indispensável pouco depois, e o tom e o tenor de sua amizade soa verdadeiro a uma geração de crianças para a qual os papéis e a relação de cada gênero têm se modificado.

Hermione seria um estereótipo bastante familiar se fosse simplesmente “a esperta”. Mas Rowling também faz dela engenhosa e, às vezes, a mais resistente. “Hermione ignora muito,” diz Ellis O’Connor, 10 anos, em Evanston, Illinois. “Ignorar enquanto as pessoas estão lhe importunando é muito, muito importante, porque se você não ignorá-las, vão fazer você ficar mais nervoso, e será pior”. Ela sabe um pouco sobre ser importunada por causa de um irmão mais velho de crescimento atrasado, a quem as outras crianças chamam de retardado. As crianças que são zombadas por não terem roupas legais encontram uma alma companheira em Rony. “Se você juntasse os três e os colocasse num liquidificador, chegaria a mim,” diz Ryan Gepperth, 12 anos, de Chicago. “Gosto de tentar coisas novas, como Harry. Amo ler, como Hermione. E tenho problemas próprios, como Rony,” diz Ryan, um garoto robusto com cabelos castanhos desgrenhados. “Rony é muito importunado porque tem muitos irmãos e irmãs e vem de uma família pobre. As outras crianças não gostam dele por causa disso”.

Rowling cria uma ponte para as crianças atravessarem do mundo mágico ao seu próprio mundo, construído fora das regras e restrições que existentes em ambos. A própria existência da Escola de Hogwarts, a academia de treinamento para jovens bruxos, é o testamento para a realidade de que o aprendizado ainda custa tempo e paciência. Não existe feitiço que preencha a cabeça de alguém com conhecimento; o melhor que Hermione pode conseguir no Livro 3 é o Vira-Tempo, para dar a ela mais horas de estudo. Os Weasley, a família de Rony, ainda são pobres – e qualquer mundo em que uma família tão trabalhadora, amorosa e generosa quando a deles ainda luta para pôr comida na mesa é, bem, muito parecida com a nossa. A Sra. Weasley pode lançar um feitiço para fazer louças sujas se limparem sozinhas, mas não pode tirar um novo jogo de panelas do ar. Rowling criou um mundo em que um garoto pode voar numa vassoura, conversar com cobras e ter brânquias como um peixe, mas que não consegue lidar mais facilmente com a tristeza devastadora em relação a seus pais mortos do que qualquer outra criança. “Ela mistura as lutas da vida real com as lutas imaginárias e mágicas,” diz Casey Brewer, 15 anos, de Longwood, Flórida. “Harry e seus amigos têm que passar por obstáculos na vida do mesmo jeito que têm que passar por um obstáculo que é um cão de três cabeças. É meio que inspirador”.

Inspirador, mas graças a Deus, não perfeito. Os bruxos têm problemas, egos, inveja e trajes esfarrapados que têm vergonha de usar. Harry é capaz de ter ciúmes e insensibilidade. Ele quebra regras e não conta aos adultos coisas que certamente seriam de seu interesse revelar. Ele entra no problema. (“Se não fizesse isso, não teríamos todas aquelas páginas para ler,” indica Zack Ferleger, 12 anos, de Encino, Califórnia.) Hermione pode ser esperta, mas pode se tornar rígida; Hagrid é afetuoso, mas ainda mais quando se trata de animais horríveis e assustadores. Rony é leal, mas inseguro. Rowling ama seus personagens e convida os leitores a amá-los, não apenas desconsiderando suas falhas, mas por causa delas. Quando a falha de algum deles surge num adolescente, se torna uma poção bastante curadora.

Então, dadas as lições que estes livros ensinam e os valores que honram, como continuam sendo controversos? Mesmo entre pais evangélicos e cristãos fundamentalistas, há uma divisão profunda sobre o quanto abraçar a cultura popular e usá-la para propósitos missionários. Por um lado, há aqueles que compartilham a opinião de Jack Brock, pastor da Igreja Comunitária Cristã em Alamogordo, Novo México, que fez manchetes por todo o mundo por sua “fogueira sagrada” em dezembro de 2001, no qual Harry Potter estava entre os livros queimados. O incidente foi tirado do contexto, diz Brock. “A mídia me fez parecer Hitler.”Mas dito isso, ele faria tudo de novo. “Eles [os livros] são total, completa e inteiramente sobre a bruxaria,” contou à TIME. “O próximo livro, suponho, terá 700 páginas, e só vai se aprofundar cada vez mais na bruxaria. Qualquer um que acredite que seja saudável, não entendo. Deus diz em Deuteronômio que a bruxaria é uma abominação. O que quer que Deus odeie, eu odeio”.

Mas aqueles que discordam fazem mais do que defender os livros como simples e boa diversão. Eles os elogiam como ferramentas morais poderosas. O Catholic News Service, tocado por bispos americanos, coloca os livros em sua lista de recomendações para as crianças. Os ministros dão sermões comparando a passagem de Harry pela parede da plataforma Nove e Meia a um salto de fé. “Perdemos alguma coisa se não pudermos contar histórias tão convincentes quanto Harry Potter a não ser a Bíblia,” diz John Fleming ministro do First United Methodist em Herietta, Texas. Muitos têm encontrado incrustados nos livros todos os tipos de imagens bíblicas. “Se você lê estes livros com cuidado, não são apenas sobre o mal, são histórias profundas sobre o bem, e são profundamente religiosas,” argumenta o professor de filosofia da Universidade Baylor, Scott Moore, que começou a ler os livros para seus filhos e acabou ficando acordado até mais tarde para terminá-lo sozinho.

O clímax do segundo livro, Câmara Secreta, defende ele, funciona como uma alegoria puramente cristã. “É a história de Harry lutando com uma serpente e a vencendo com a espada de Gryffindor. Ele não consegue fazer isso sozinho e clama por ajuda, que vem de cima, frequentemente na forma de uma palavra verdadeira ou uma espada de dois gumes. Não é simplesmente uma cobra que ele tem que vencer, e sim uma cobra incitada pela memória de [o bruxo perverso] Voldemort. Cada vez mais nestas peças de moralidade de mistério medieval, é a memória de nossos pecados a quem devemos vencer. A fênix – um símbolo clássico de Cristo, que morre e se ergue de novo – vem para ajudá-lo. Ela mata a serpente e, então, num momento bastante chocante – fiquei surpreso de que Hollywood o tenha mantido – a fênix derrama lágrimas em sua ferida para curá-lo. É um símbolo clássico da paixão de Cristo. São as lágrimas de Cristo que nos faz inteiros”.

Talvez a apropriação mais surpreendente do mundo de Rowling teve lugar na conservadora Igreja Vanguard no subúrbio de Colorado Springs, Colorado. Alojada num velho cinema, a igreja de seis anos tem 1.100 membros, incluindo muitas famílias jovens. Usar Harry Potter para ensinar a catequese foi uma ideia original de Tosha Williams, a jovem esposa do pastor sênior Kelly Williams. “É uma questão sobre os Southern Baptists – somos muito pragmáticos,” indica, “e nosso objetivo é alcançar as pessoas com o gospel.” Então os professores se vestem de bruxos e a igreja é inteiramente decorada, com salas escurecidas, balcões que brilham no escuro e cachorros quentes batizados como dedos de duende. Quando as crianças põem o Chapéu Seletor que determina o destino dos jovens bruxos no livro, todas são colocadas na Sonserina, casa do malvado Voldemort; a saída dela, lhes disseram, só aconteceria se seguissem o que Deus ensina. “Nunca vi crianças tão excitadas num evento de igreja, simplesmente hipnotizados em absoluto,” diz William. E o que eles aprenderam de tudo isso? “Ninguém pode fazer milagres a não ser Deus,” diz Abigail Haggerty, 5 anos. “Mostrou como a mãe de Harry Potter sacrificou sua vida por Harry, como Deus sacrificou a sua por nós,” diz America Copeland, 9 anos.

Quando chega o momento em que os pais devem confiar os corações de seus filhos a outro, eles rezam para quem quer que seja este outro – um professor, um treinador, um personagem num livro – seja digno de poder e o use bem. Um mês depois do nono aniversário de Catie Hoch, os médicos descobriram que o câncer se alastrara para o seu cérebro e que ela só tinha algumas semanas. Foi quando o telefone tocou.

Nos dias seguintes, Rowling leu em voz alta para Catie parte do Livro 4, que finalmente terminara, mas não seria lançado até o verão. “Ela estava deitada no sofá,” diz Gina, lembrando de como sua filha estava extasiada, “só escutando e escutando”. A família resistiu a colocar a chamada no viva-voz. “Era a hora de Catie com Jo,” diz Gina. “Não queríamos invadir a sua privacidade”. Nas últimas vezes que Rowling ligou, Catie estava doente demais para ir ao telefone. Ela entrou em coma e morreu em 18 de maio de 2000.

Rowling escreveu para seus pais três dias depois. “Me considero privilegiada por ter tido contato com Catie,” escreveu. “Só posso esperar ser o tipo de mãe que vocês dois foram para Catie durante a sua doença. Estou chorando muito enquanto digito. Ela deixou pegadas discretas no meu coração”. Os pais de Catie criaram a Fundação Catie Hoch para ajudar jovens pacientes do câncer. Em novembro, um cheque de US$100.000 apareceu, da melhor amiga inglesa de Catie.

Com colaboração de Amy Bonesteel/Atlanta, Cathy Booth Thomas/Dallas, Amanda Bower/Albany, Harlene Ellin/Chicago, Rita Healy/Denver, Broward Liston/Orlando, Jeanne McDowell/Los Angeles, Betsy Rubiner/Des Moines e Andrea Sachs/Nova Iorque.

Encontre este artigo em:
http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1005057,00.html

Traduzido por: Renan Lazzarin em 15/01/2009.
Postado por: Vítor Werle em 22/01/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.