Couric, Katie. “Entrevista com J.K. Rowling”. Dateline NBC, 20 de junho de 2003.

As muralhas podem parecer as da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, mas, na verdade, são do antigo Castelo de Edimburgo. Estamos na Escócia, lar de J.K. Rowling, autora da história que conquistou o mundo: Harry Potter. Seus livros sobre o menino bruxo venderam mais de 200 milhões de exemplares e deixaram Rowling mais rica que a Rainha da Inglaterra. Em apenas algumas horas Harry Potter e a Ordem da Fênix vai a público, e várias livrarias abrirão suas portas à meia-noite, esperando que o quinto volume da série voe das prateleiras com mais velocidade que uma Nimbus 2000. Os fãs esperaram três longos anos desde o último livro. Mas, por que demorou tanto? Em uma entrevista exclusiva, J.K. Rowling dissipa alguns mitos e entrega alguns segredos sobre seu misterioso mundo mágico.

Chamando todos os trouxas – isso é a língua de Potter para não-bruxos entre nós. É o livro infantil mais esperado de todos os tempos e, hoje, meia-noite, é a hora mágica. Harry Potter e a Ordem da Fênix continua a saga do menino bruxo com a cicatriz em forma de raio – e leitores de todas as idades estão morrendo de curiosidade para saber o que vai acontecer.

Garoto: “Eu acho que Voldemort vai voltar”
Homem: “Provavelmente vai ter alguma tragédia no meio de tudo…”
Mulher: “… e romance”
Homem: “…é, e romance”
Garota: “Eu acho que Voldemort pode morrer e Harry Potter virar o diretor da escola”.

Eu imagino o que o Professor Dumbledore diria sobre isso? Segredos profundos, poderes das trevas, magia poderosa. Então, decidimos ir direto à fonte – a autora que jogou esse feitiço em todos nós, meros trouxas: J.K., também conhecida como Jo Rowling.

JKR lê uma passagem do livro:
“Dumbledore baixou os olhos, estudou Harry através de seus oclinhos meia-lua, e falou:
– Está na hora de lhe dizer o que deveria ter-lhe dito há cinco anos, Harry. Sente-se, por favor. Vou lhe contar tudo.”

Katie Couric (KC): Dun, dun, dunnnn…

J.K. Rowling (JKR): Dun, dun, duuh… ha, ha.

Por mais excitante que aquela frase do livro fosse, eu estava esperando por mais informação. Claramente, senti que era minha missão fazer Rowling despejar seus Feijõezinhos de Todos os Sabores.

KC: Você pode me falar um pouco sobre esse livro, ou terá de me matar?

JKR: [risos] Eu terei que te matar. Mas… sabe… se você estiver preparada para correr esse risco…

Continue ligado, pois daqui a pouco ela vai nos dar algumas dicas. Mas existem boas razões para Jo Rowling guardar sua câmara secreta. Nos últimos meses, capítulos falsos apareceram na internet, e um funcionário de uma empresa gráfica britânica foi pego em flagrante tentando vender páginas roubadas do livro. Manter os segredos é crucial para a campanha multimilionária de publicidade. Então havia uma preocupação de que o caldeirão estivesse furado. Mas, é claro, sendo uma jornalista experiente, tive a capacidade de fazer as perguntas tão cuidadosamente, não lhe deixando outra escolha que não me contar os segredos.

KC: Você pode me dizer, basicamente, o que acontece com Harry nesse livro? É uma pergunta específica.

JKR: É, precisa como um bisturi. Ele tem momentos bem difíceis nesse livro, eu diria.

KC: Ele esta entrando na puberdade?

JKR: Sim, ele está mais nervoso.

KC: Espinhas, ele tem espinhas?

JKR: Não, ele não tem. Eu vejo Harry como alguém com uma pele ótima. É algo que ele tem, graças a Deus. Quero dizer, espinhas além de tudo o mais iam ser terríveis para ele. E ele, sim, vai ter alguns… ritos de passagem próprios da adolescência.

KC: Alguns amassos com Hermione?

JKR: [franzindo um pouco o cenho] Hermione e Harry! Você acha?

KC: Não, estou brincando.

JKR: Rony e Hermione, eu diria, tem mais potencial.

KC: Provavelmente deveríamos explicar que amassos, aqui, significam beijos.

JKR: É.

KC: Algumas pessoas podem pensar que eles estavam transando.

JKR: Algumas pessoas podem pensar que você está falando de alguma coisa totalmente inapropriada.

A história de como J.K. Rowling trouxe Harry Potter à vida se tornou lendária. Ela costumava passear com sua filha Jessica no carrinho até que ela adormecesse. Então, J.K. parava no Nicolson’s Cafe para escrever enquanto o bebê dormia. Naquela época, ela era uma mãe solteira vivendo de pensão. Mas, agora, cinco anos e cinco livros depois, ela casou novamente, teve mais um filho, a sua fortuna é estimada em 500 milhões de dólares. Ah, e, a propósito, agora o Café Nicolson é um restaurante chinês.

JKR: É verdade. Eu estava mesmo quebrada e eu sei como é estar quebrada, passar por isso e não saber que está prestes a mudar. Essa é a parte mais importante. Eu não conseguia ver luz alguma no fim do túnel, e todo dia agradeço por nós termos comida na geladeira, por não ter mais que me preocupar com as contas e por saber que posso comprar roupas para a Jessie e… sim, eu agradeço por isso todos os dias.

KC: Tem alguma coisas que você sente falta agora que é tão conhecida, Jo, tão rica e uma celebridade?

JKR: Sim, eu sinto falta do anonimato. Sinto falta disso, completamente.

Aqui na Europa ela é mais reconhecida que nos Estados Unidos, e tem horas que Rowling gostaria de se esconder sob uma daquelas capas de invisibilidade.

KC: Que tipo de coisas eles falam pra você, quando está no mercado, ou caminhando…

JKR: Normalmente começam com, “é você, não é?”. Eu acho que não sou muito diferente, então, com freqüência, estou no supermercado perto das maçãs e vejo alguém aparentemente pensando “hmm, deve ser ela”. Então, continuo… passo perto dos iogurtes e eles pensam “sim, é ela”. Se tiver uma criança junto, a criança fala “é mãe, é mãe, é ela!”. Vou então para a seção de papel higiênico e estou procurando minha marca favorita, é quando eles me abordam, sempre.

KC: Isso já aconteceu quando você estava comprando absorventes?

JKR: Sempre. É, isso aconteceu outro dia. Eu estava lá parada com um pacote na mão – sim, claro, eu vou autografar. Posso colocar isso na prateleira primeiro?

KC: Melhor que antidiarréico ou algo do gênero.

JKR: Ligeiramente.

Ainda assim, a autora de 37 anos diz que a Escócia lhe garante mais anonimato que sua terra-natal, a Inglaterra. Ela se mudou em 1994, depois que o primeiro casamento, com um jornalista português, acabou.

KC: Você teve notícias do seu marido? Aposto que ele diz [bate na testa]: “o que eu estava pensando?”

JKR: É, um grande “sem comentários” nisso aí.

O segundo casamento dela, em 2001, com um médico escocês chamado Neil Murray (que tem aparência de um Você-Sabe-Quem mais velho) foi complementado no último março pelo nascimento do primeiro filho, David.

KC: Ele usa óculos e tem uma cicatriz na testa?

JKR: Bem, você entende porque o dei o nome de David, porque tínhamos de encontrar um nome que não rimasse com Harry, que eu não tivesse usado nos livros, sem qualquer conexão com o mundo mitológico ou mágico ou que não significasse “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado” em hebreu… você sabe.

Enquanto isso, o dinheiro dos Rowling continua… bem, rolando. Os primeiros quatro livros de Harry Potter continuam a desaparecer das prateleiras em 200 países sob 55 idiomas diferentes. E o fenômeno escapa das páginas diretamente para a telona. Os dois primeiros Harry Potter lucraram juntos 1,8 bilhões de dólares ao redor do mundo. Mas, depois da enorme venda dos quatro livros em apenas cinco anos, alguns se perguntaram se a longa espera pelo livro cinco significava que Rowling havia perdido seu toque mágico.

KC: Rumores intermináveis e especulações sobre esse livro.

JKR: Sobre o quê?

KC: Demorou três anos para você escrever.

JKR: Hmm, hmm.

KC: As pessoas disseram que você teve bloqueio criativo…

JKR: É.

KC: …que você não estava mais interessada em Harry…

JKR: É.

KC: …que estava distraída com sua família…

JKR: É.

KC:…e sua fortuna.

JKR: É, é. [risos]

KC: Então, esclareça de uma vez por todas, por que demorou tanto?

JKR: Ah, bem, só para escrevê-lo – é um livro longo – e isso é quanto tempo demorou para escrever. E eu disse pros meus editores, eu não quero um prazo dessa vez, porque eu sabia que precisava ter um tempo. Então, não é verdade que eu tive bloqueio criativo e, até onde, você sabe, ser distraída por outras coisas… quero dizer, acho que eu teria me distraído bem antes. Sabe, escrevi Harry enquanto mudava de país três vezes, passava por um casamento, um divórcio… sabe… nascimento da minha filha, desemprego, emprego. Quero dizer, não é por conseguir um pouco de dinheiro que vou sair dos trilhos justamente agora.

Harry Potter e a Ordem da Fênix se ergue das cinzas para enormes 896 páginas. Mas, antes mesmo do lançamento, o livro cinco foi pesado em ouro de Gringotes, estabelecendo recordes como o maior livro pré-vendido da história.

JKR: Tem muita coisa nesse livro. Vou dizer apenas que tive de colocar certas pistas no livro cinco. Algumas pistas são resolvidas, algumas coisas são resolvidas no livro cinco e há informação ali que você realmente precisa saber para não se sentir trapaceado quando certa conseqüência acontecer.

KC: Você disse que quando o último livro saiu, a morte de um personagem seria, citando, “o começo das mortes”, ieks!

JKR: É, isso é bom, não é? Haverá um banho de sangue. [risos]

KC: Quentinho e fofinho. O que significa?

JKR: É uma guerra. Essencialmente, uma guerra estourou novamente e, quando eu digo “começo das mortes”, eu falo de mortes significantes – suponho – para o leitor. Nesse livro, um personagem que eu considero principal morre. Foi horrível escrever. Absolutamente horrível. Literalmente. Bem, eu fiz… eu chorei depois de matá-lo e então… er… depois, eu entrei na cozinha ainda cheia de lágrimas. E Neil disse pra mim: “qual o problema?”, e eu respondi: “Bem, eu acabei de matar a pessoa que estava para matar”. E ele não sabe quem é. Então Neil disse: “então não mate”. O que mostrou que ele não entende em absoluto que você precisa ser desagradável e perverso com os personagens para escrever livros que toquem o coração das crianças.

[Couric: risos]

JKR: Ele é um médico, simplesmente não entende. Ele é… você sabe… mais a favor de salvar pessoas do que matá-las.

A impiedade de Rowling tem virado alvo. Alguns pais criticam a exploração de temas soturnos tais como a morte, e alguns grupos religiosos vão mais longe, dizendo que as histórias são potencialmente perigosas e promovem o ocultismo.

JKR: Acho que é uma grande besteira. Eu não acredito no ocultismo ou pratico ocultismo. Eu nunca… eu já encontrei milhares de crianças até agora… nem uma delas sequer me disse “você realmente me iniciou no ocultismo”, nenhuma delas. Agora, tenho certeza de que se meus livros fizessem isso, a essa altura eu teria conhecido alguma criança que viesse até mim, coberta de pentagramas e diria “podemos, você sabe, sacrificar um bode juntos depois… você faz isso comigo?”. Estranhamente, isso nunca aconteceu.

KC: Posso ver que você se incomoda com isso.

JKR: Bem, de vez em quando me incomodo… só de vez em quando. Porque estou sendo acusada de algo horrível, então, é claro que vou me defender.

KC: No que você acredita? Só estou curiosa sobre seu sistema de crenças… Deus, paraíso?

JKR: Bem, eu acredito em Deus.

KC: Acredita?

JKR: Sim, eu já disse isso antes, mas isso parece irritá-los ainda mais por algum motivo. Acho que não me querem do lado deles de forma alguma.

Rowling também acabou com o rumor de que haveriam mais do que os sete livros prometidos de Harry Potter.

JKR: Eu não sei de onde veio esse rumor.

E, firme em seu propósito, ela não vai aceitar prazos para escrever os últimos dois. Mas, uma coisa é certa: agora que a palavra “trouxa” foi incorporada ao Dicionário Oxford, Jo Rowling assumiu um lugar de imortal na literatura.

KC: Isso lhe faz perceber: a) o tipo de impacto que você teve, e b) quão duradouros esses livros podem ser, porque, até onde sei, eles não tiram muitas palavras do dicionário.

JKR: [rindo] Isso seria tão constrangedor, não seria? Seria como ser derretido no Madam Tussads*. Acho que essa é a maior humilhação. Por isso eu não quero ir para o Madame Tussads, porque quando chegar o dia, eles vão derreter para me transformar em outra pessoa.

KC: É mesmo? Ah, não, eu estou lá!

JKR: [cobre a boca com a mão] AH!

KC: Tudo bem, tudo bem.

JKR: Bem, algumas pessoas eles guardam.

O terceiro filme de Harry Potter acabou de ser filmado na Escócia e será lançado em 2004.

*NT: Madam Tussads é um dos mais importantes pontos turísticos de Londres: um museu de figuras de cera.

Traduzido por: Renata Schüller em 07/05/2007.
Revisado por: Patrícia Abreu em 08/05/2007, Antônio Carlos de M. Neto em 21/03/2008 e Fernanda Midori em 05/01/2011.
Postado por: Fernando Nery Filho em 07/05/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.