Entrevista – Lia Wyler – Omelete

LIA WYLER
Conheça a tradutora da série Harry Potter

Omelete ~ Ederli Fortunato
6 de dezembro de 2005

 

Lia Wyler, a tradutora da série Harry Potter, revela um pouco dos bastidores do trabalho de transportar o texto de Joanne Rowling para o português, sua visão das crí­ticas feitas pelos fãs e como encontrou a solução para o tí­tulo do sexto volume.

 

Quanto tempo a senhora teve para traduzir Harry Potter e o Enigma do Prí­ncipe? Havia uma meta de quantidade de páginas traduzidas por dia?
Tive 78 dias úteis para traduzir, cotejar e revisar as alterações feitas. Quando se aceita um livro cuja entrega é determinada pela data de lançamento é preciso estabelecer uma disciplina de trabalho e uma produção diária, calcular do fim para o princí­pio. Isto se aplica à serie Harry Potter ou a qualquer outro livro.

Para A Ordem da Fênix a senhora trabalhou numa sala da editora. O plano se repetiu para o sexto livro ou desta vez foi possí­vel trabalhar em casa?
Desta vez foi possí­vel trabalhar em casa e enviar/receber os arquivos pela Internet. Houve problemas, no entanto. Tive o computador invadido e quase inutilizado.

A senhora passou a utilizar o Via Voice em todas as traduções ou esse recurso é reservado para trabalhos de grande porte em curto espaço de tempo como Harry Potter? A senhora acha que o software de reconhecimento de voz vai se tornar um instrumento obrigatório para os tradutores?
Infelizmente não utilizei o Via Voice. Era necessário um ajuste no programa que eu não fiz e um treinamento mais eficaz dele e meu com relação ao reconhecimento de voz. Acredito, porém, que o programa é a opção dos tradutores à uma tendinite futura.

O enredo de Harry Potter vem se tornando mais complexo a cada volume. Que alterações a senhora notou nas estruturas usadas pela autora ao longo dos seis livros?
Do primeiro a cada um dos seguintes foi sensí­vel a ampliação do vocabulário e o uso de estruturas gramaticais mais complexas. Neste sexto, embora os principais referenciais estejam ancorados nos livros anteriores, estamos diante de um livro que pode ser lido como uma continuação ou por si só, como um bestseller “adulto”. E esta caracterí­stica foi tão marcante que traduzi duas vezes o primeiro capí­tulo e precisei rever com redobrada atenção os demais para manter o tom que imagino desejável: um que atendesse, ao mesmo tempo, a crianças e adultos.

O sucesso de Harry Potter fez com que os fãs se interessassem muito pelo trabalho de tradução. Como a senhora vê as crí­ticas dos leitores com relação à tradução feitas em blogs e sites Internet afora?
O tradutor é um profissional liberal exatamente como um médico, um advogado, um jornalista. No mundo profissional a crí­tica é feita entre pares, gente que conhece, no caso do médico, fisiologia, patologia, endocrinologia, ginecologia, oftalmologia, neurologia, obstetrí­cia e outros aspectos do ser humano, e que é capaz de dizer que o profissional errou e por que errou com conhecimento de causa. Há crí­ticas que procedem e que a editora procura atendê-las imediatamente e outras completamente descabidas.

O caso da tradução no Brasil é trágico porque a maioria das pessoas acha que se traduz lí­nguas e que basta falar uma lí­ngua para saber traduzi-la. A proposta aceita mundialmente é que se traduz culturas e cada uma das culturas envolvidas impõe limitações à outra. Isto significa que temos de optar. É o caso do Slug, é o caso do Half-Blood Prince.

A senhora acha que a preferência de parte do público por manter os nomes no original está ligada à influência do inglês no nosso dia-a-dia e um sentimento de nação colonizada?
Tenho a impressão de que as pessoas que insistem nessa tecla não perceberam que o Harry Potter e a pedra filosofal foi escrito para crianças de 7-12 anos que não sabem inglês suficiente para entender o humor que os nomes contém. A influência do inglês no nosso dia-a-dia não é suficiente para que todos os leitores percebam o significado dos nomes. Por outro lado, as decisões tomadas no primeiro volume de uma série são obrigatoriamente mantidas até o último volume. As pessoas que ainda hoje criticam, certamente não leram com atenção as explicações que vêm sendo dadas desde o ano 2000.

Em sua entrevista anterior, a senhora comentou que a decisão inicial foi de traduzir os nomes de batismo e manter os nomes de famí­lia. No sexto livro, no entanto, essa decisão afeta o tí­tulo do livro e também os trocadilhos com a palavra slug, como Slug Club. Como a senhora encontrou uma solução para esse impasse?
Slug é a apócope de Slughorn, o professor que inventou um clubinho em que todos se beneficiam mutuamente de apresentações, nomeações e vantagens. A graça para mim estava na rima: mantive a rima O Clube do Slugue. Quanto ao tí­tulo do livro, a questão era bem mais complexa. O fato de ter usado mestiço anteriormente me permitiu usar prí­ncipe mestiço. Até quase o fim do livro não sabemos que Prince é um nome de famí­lia e um tí­tulo nobiliárquico (em inglês grafado com inicial maiúscula) o que ajuda a sustentar a ambigüidade. A tradutora foi salva pela Hermione que diz “- O nome dela era Eileen Prince. Prí­ncipe, Harry.”, legitimando a tradução que eu fiz. A palavra chave no tí­tulo não era mestiço, era Prince, como fica explicado no último capí­tulo. Enigma me pareceu dar conta do personagem e da situação.

A senhora sente que tem uma vantagem em relação aos tradutores de Harry Potter em outros idiomas pelo fato de Joanne Rowling saber português, ou saber que ela é capaz de compreender sua tradução é uma pressão a mais sobre seus ombros?
Tenho uma vantagem: suponho que ela ache a minha tradução suficiente, pois jamais reclamou de deficiência alguma. Nunca fui pressionada pela editora inglesa nem pela brasileira.

Como tem sido seu contato com a autora? O glossário de nomes é encaminhado a ela a cada volume para aprovação ou a senhora entra em contato somente quando necessário?
Entrei em contato com a autora no primeiro livro; ela me mandou uma lista de nomes e pediu que eu os traduzisse. Pediu o meu currí­culo e me deu carta branca para recriar. Nunca me pediu explicações posteriores.

A senhora já disse gostar de Harry Potter. Há espaço para sentir curiosidade sobre o enredo ou o primeiro pensamento é sempre “como vou traduzir esse trecho”?
Gosto do Harry Potter. Tenho enorme curiosidade pelo enredo, mas leio cada volume passo a passo: isto me ajuda a acelerar a tradução porque quero saber o que vai acontecer e como vai terminar. Alguns coordenadores de sites acham isso engraçado e não me revelam nada. Acho que a pergunta que faço é: será que este capí­tulo ficou bom?

A senhora ficou surpresa com o desenrolar da história?
Acho que eu já esperava outra perda importante na vida de Harry, elas são necessárias ao amadurecimento.

A senhora tem assistido aos filmes? Sente falta de alguma cena que a impressionou ou deu trabalho na tradução e que desapareceu na adaptação para a tela?
Assisto a todos os filmes depois da primeira onda, mas encaro o filme como um veí­culo com regras próprias. Alguém não disse que uma imagem vale por dez/cem/mil palavras? Não espero que o filme seja uma cópia exata do livro, ficaria extremamente monótono. Livro se lê um pouquinho hoje outro tanto depois. Filme se vê de uma sentada.

Espera-se que dentro de dois anos Joanne Rowling publique o sétimo e último volume. A senhora vai sentir falta da história, da maratona, dos fãs comentando a tradução e de toda a agitação em torno do seu trabalho?
É provável, principalmente dos comentários dos alunos de tradução, fãs de Harry Potter, que encontro em palestras e congressos de tradução. É respondendo às perguntas deles que entendo melhor o que fiz, o que deixei de fazer e o que ainda poderei fazer. É óbvio que haverá uma Lia a.HP e outra d.HP, mas a Sibila já tinha me alertado para isso.



 
 
 
 
 
 
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