Levine, Arthur A. “Porque paguei tanto por um livro infantil”. New York Times, 13 de outubro de 1999.

Arthur A. Levine é diretor editorial da Arthur A. Levine Books, uma prensa da Scholastic Inc., que tem publicado três livros infantis best-sellers sobre um menino bruxo, Harry Potter. A Scholastic pagou mais de US$100.000 pelo primeiro manuscrito de uma autora que era desconhecida até então.

Eu nunca pagara tanto por uma aquisição antes. Comprei Harry Potter em 1997 na feira de livros de Bolonha, Itália, antes que tivesse sido publicado em qualquer outro lugar. É assustador quando você está fazendo suas ofertas e o preço sobe cada vez mais. Recebi um tremendo apoio da minha companhia. É uma coisa maravilhosa, mas é um grande risco. Se as pessoas acreditam e você fracassa, você sai na perda e à francesa.

Uma coisa é dizer que amei esse primeiro romance dessa mulher desconhecida da Escócia e que queria publicá-lo. Outra é dizer isso enquanto as ofertas sobem cada vez mais.

Você o ama tanto assim? Você o ama por US$50,00? E a US$70.000,00?

Minha primeira reação foi ligar para a escritora, J.K. Rowling, e dizer para que não se amedrontasse, porque sabíamos que seria uma tremenda pressão sobre ela.

Liguei para ela muito tarde, e tivemos uma conversa muito legal – a nossa primeira. Eu disse para que ela não ficasse com medo e ela, “Obrigada; eu estou.” Ambos dissemos que agora que tínhamos pago, teríamos que nos concentrar para fazer este livro funcionar.

O que mais adorei na leitura de Harry Potter foi a idéia de crescer sem afeto, se sentir deslocado e, então, a grande satisfação de ser descoberto. Essa é a fantasia de cada pessoa que cresce se sentindo marginalizada de alguma forma. Junto com a imaginação e a maravilhosa escrita, essa foi a conexão emocional que me atraiu ao livro.

É a experiência de ser uma criança esperta numa escola pública e não ser particularmente atlético. Acho que qualquer criança que tenha essa experiência é marginalizada.

Eu era judeu numa cidade não-judaica, em Elmont, Nova Iorque. Era um músico, e isso era ótimo entre os músicos, mas não necessariamente valorizado na escola pública. Fui o primeiro clarinetista. Ótimo, isso vai lhe dar cinco centavos. Não tive uma infância infeliz, oprimida, mas tive esses sentimentos.

Acho que a maior lição do sucesso de Harry Potter é que você precisa tentar não seguir uma tendência. É quase um clichê. Você tem que seguir seu coração. Em Harry Potter, a varinha escolhe o bruxo; e quando ela o escolhe, você a toma. Você não tenta descobrir quais outros livros estão vendendo, quais são quentes agora.

A questão da publicação é que estamos continuamente lamentando as mudanças na nossa indústria.

Nós, editores, lamentamos por isso não funcionar mais e há toda essa pressão por encontrar livros que funcionem, e entender o que faz um best-seller.

A coisa mais legal de Harry Potter foi que ele foi gerado à moda antiga – da discussão de publicar um livro que é bom.

Traduzido por: Renan Lazzarin em 21/12/2008.
Revisado por: Daniel Mählmann em 16/05/2010.
Postado por: Vítor Werle em 10/01/2009.
Artigo original no Accio Quote aqui.