Murphy, Candace. “Pottermaníacos celebram o mês de Harry: fãs aguardam o lançamento do próximo filme e, 10 dias mais tarde, do último livro da série”. San Jose Mercury News, 01 de julho de 2007.

De acordo com o calendário juliano, hoje é dia primeiro de julho.

Mas de acordo com outro calendário, hoje é o primeiro dia do Mês de Harry Potter.

Primeiramente, o lançamento do quinto filme de Harry Potter, Harry Potter e a Ordem da Fênix, em cartaz dia 11 de julho. Então, 10 dias depois, quando os fãs de Harry Potter mal sentiram o êxtase de ver seu herói sempre crescido na telona, é que surge o boom! da literatura, o desenlace – o lançamento do sétimo e último livro da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte, à meia-noite do dia 21 de julho.

O lançamento do livro, que certamente chamará muita atenção, marca o fim de uma corrida de 10 anos para Harry Potter e para a autora J.K. Rowling, que fizeram sua estreia quando Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado pela primeira vez no Reino Unido.

O primeiro lote de impressão do último livro de Harry Potter quebrou um recorde de 12 milhões de cópias nos Estados Unidos, montante este que irá se unir às 121 milhões de cópias dos outros seis primeiros livros no país. Tudo isso se soma às escandalosas propagandas da marca Harry Potter, às discussões de como Harry Potter mudou o mundo da leitura das crianças e o que poderia possivelmente equiparar-se a ele futuramente.

“Oh, eu estou realmente triste por ver o fim dos livros da série”, disse Jane Kraut, bibliotecária na Eden Gardens Elementary School em Hayward. “Harry Potter deixou as crianças animadas com o mundo da fantasia. Mais ainda, fez com que elas acreditassem que são capazes de ler livros mais longos – o que é o mais importante”.

O que ofuscará discussões cerebrais, pelo menos à primeira vista, será a propaganda da mídia, que logo chegará à sua velocidade máxima.

À meia-noite haverá grupos de leitura, passeios de ônibus e sorteios de exemplares da biblioteca pública. Haverá óculos redondos de armações pretas e falsas tatuagens em forma de raio por todos os lugares. Haverá lanchonetes com comidas inspiradas nos quitutes de Hogwarts, preparados especialmente para os Pottermaníacos de qualquer idade espalhados pelo país.

E haverá o dilúvio de clichês relacionados a Harry Potter: frases como “mania trouxa”, “a magia está no ar” e “tem alguma coisa com o Harry”. Haverá aquelas críticas avaliativas dizendo como as vendas dos livros são “mágicas”, e que o livro “fez sua magia funcionar”, e que Rowling “lançou um feitiço em seus fãs”. Haverá referências para “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”, mesmo que o “Aquele” em questão não seja Lord Voldemort.

Esses clichês não são exagero. A maioria deles vem de uma lista de Harry-Potterismos a serem evitados, como decretado pelo Porta-Voz em Spokane, Wash.

“Não tenho certeza se usaria o termo ‘exagero’ para me referir a tudo isso”, disse Kathleen Horning, presidenta da Associação de Serviços Bibliotecários para Crianças, um departamento da Associação Bibliotecária Americana. “Acho que é mais um fenômeno. A animação que gira em torno do lançamento do último livro, a informação que corre entre crianças e adultos – é isso que faz Harry Potter ser tão incomum. As pessoas estão literalmente contando os dias até o lançamento do livro. E elas têm feito isso para todos os livros, desde o primeiro”.

Os tambores rufaram pouco no Reino Unido para o primeiro livro de Harry Potter; ele ganhou seu espaço através da propaganda boca-a-boca no pátio da escola.

Bibliotecários americanos, no entanto, tinham um palpite de que havia algo estranho quando a editora Scholastic Inc. pagou $105.000 em um leilão, valor sem precedentes, pelos direitos de um livro infanto-juvenil escrito por uma autora desconhecida.

“Já havia fofoca antes mesmo de o livro ser publicado aqui”, disse Horning, que ainda trabalha como diretora na Cooperativa Centro de Livros Infanto-Juvenis em Madison, Wis. “Primeiro, os direitos autorais foram vendidos nos Estados Unidos através de um leilão, e os bibliotecários começaram a ouvir comentários dos leitores mais jovens. Eu me lembro que, antes mesmo de tê-lo lido, já o tinha comprado e dado ao meu sobrinho de 5 anos, que era fascinado por bruxas. Quando vi que Harry Potter tinha sido lançado e que seu personagem principal era um menino bruxo, eu mandei o livro para ele sem nem tê-lo lido antes, o que não é algo que eu normalmente faça. Meu irmão me ligou algumas semanas depois e disse, ‘Você leu aquele livro que você mandou pro Joseph?’, e eu pensei ‘Uh oh’. Mas ele continuou ‘Eu o leio em voz alta e… é maravilhoso!’”.

A larga atração da série Harry Potter ajudou a ressoar uma resposta emocional nos leitores. Primeiro e mais importante, Rowling sempre descreveu seus livros mais como um longo livro dividido em sete partes do que uma série. E, enquanto séries como Nancy Drew e Hardy Boy apresentaram protagonistas sempre numa mesma idade, os livros de Harry mostraram personagens que envelhecem.

“As pessoas têm que fechar o livro no meio da história e o pegá-lo novamente dois anos depois”, disse Horning. “É por isso que as pessoas aguardavam cada livro tão avidamente”.

Os livros também têm um apelo que supera qualquer panelinha. Crianças que gostam de livros de fantasia, magia, esportes, órfãos, humor, animais, aventura, mistério e, agora, até mesmo romance, todas têm um motivo para virar as páginas de Potter.

É claro, a pergunta de $64.000 é se a série realmente causou o efeito revolucionário na leitura das crianças, previsto na época em que o terceiro livro, Prisioneiro de Azkaban, foi lançado em 1999. Naquele ano, Rowling participou de um tour de autógrafos que incluía uma parada na Willow Glen High School de San Jose. O evento foi planejado para acomodar 150 pessoas, mas acabou tendo que aumentar para um tamanho que incluísse 1000 pessoas.

A esperança, então, era de que o interesse pela leitura se espalhasse para outros livros enquanto os leitores esperavam ansiosos pelo próximo Harry Potter.

Uma evidência engraçada sugere que tais profecias se realizaram. Há dois anos, um estudo com 1000 crianças do Reino Unido mostrou que quase 6 entre 10 crianças achavam que os livros tinham ajudado a melhorar suas habilidades com a leitura, e 48% delas disse que a série Harry Potter era o que os tinha impulsionado a ler mais.

E apesar de não haver nenhuma estatística concreta que ligue outros títulos ao interesse gerado pela série Harry Potter, alguns bibliotecários afirmam que as crianças têm procurado por outros livros.

Kraut, a bibliotecária de Eden Gardens, diz que as crianças de sua escola têm navegado em livros como “As Crônicas de Prydain“, de Lloyd Alexander, e “Desventuras em Série” de Lemony Snicket.

“É impossível dizer se existe mais interesse pela leitura, mas o que eu sei é que a procura por textos na internet realmente aumentou”, disse Kraut, a respeito das crianças de sua escola. “Elas procuram pelos livros com mais interesse em acabá-los do que antigamente”.

Mas, sem dúvidas, o negócio mais lucrativo é Harry Potter. Vivian Lee, do Desenvolvimento das Coleções Infanto-Juvenis da Biblioteca Pública de Oakland, já encomendou 252 cópias de Harry Potter e as Relíquias da Morte para as bibliotecas do sistema – 50 das quais foram pedidas por Um Bom Lugar Para Os Livros em Montclair, em uma demonstração de apoio vinda de uma livraria independente. Dos 306 clientes que já puseram as mãos nos livro mais cedo esta semana, 200 poderão lê-lo quando a biblioteca principal disponibilizá-los à meia-noite do dia 21 de julho.

Para aqueles que vão comprar seus próprios exemplares, lojas como Amazon.com criaram seções inteiras em homenagem a Harry Potter meses antes. A Amazon tem um “contador trouxa” que, em seu último acesso, contava com 993.703 encomendas. O site ainda lista as 100 cidades com mais pedidos dos Estados Unidos. Em uma nota local estão Mill Valley, Sebastopol e Sonoma no top 50 (a número 1 é Falls Church, Va.)

“Para um bibliotecário, tem sido bem animador – os livros incentivaram leituras em família, discussões entre crianças de vários países, o que é muito animador de se ver”, disse Horning. “Só ouvi falar de algo parecido com isso quando Charles Dickens estava escrevendo livros em forma de série e as pessoas ficavam sentadas em bancos, esperando por eles. Mas não acredito que haverá outra coisa parecida com Harry Potter de novo. Não em quanto eu estiver viva”.

Traduzida por: Bruna Moreno em 09/08/2008.
Revisado por: Pablo Júnio em 08/10/2008.
Postado por: Vítor Werle em 08/10/2008.
Matéria original no Accio Quote aqui.