Engraçado como muitas vezes atores ficam presos a seus personagens. Leonard Nimoy nunca conseguiu se desvencilhar da enigmática imagem do Dr. Spock de Jornada nas Estrelas (Star Trek), exorcizando seus demônios, inclusive, em livros em que rejeitava totalmente o brilhante cientista do planeta Vulcan e outros em que abraçava o orelhudo como sua única âncora ao mundo das celebridades. Personagens fortes têm esse poder de superpor seu carisma ao do ator que o dá vida, e todo mundo se pergunta desde 2001 se o mesmo acontecerá com os atores que interpretam os mais amados adolescentes do século 21, graças à obra da espetacular escritora J.K. Rowling, especialmente no que diz respeito ao protagonista, vivido nas telas por Daniel Radcliffe. Mas essa imagem do rapaz de 17 anos vem mudando desde que foi noticiado que ele atuaria na mais nova versão do complexo texto de Peter Schaffer para os teatros londrinos. Junto com o talentosí­ssimo Richard Griffiths (para os que não lembram o tio Válter da série cinematográfica potteriana), ele encara dois atos de palco, numa presença quase constante em cena e num desafio que poucos encarariam, especialmente pela polêmica criada ao redor de uma nudez total, muití­ssimo bem contextualizada no belí­ssimo script (mas que ainda encara a lí­ngua ferina dos críticos mais caótios). É isso mesmo, estamos falando da montagem londrina de Equus.

A complexidade do texto vem do desafio imposto ao Dr. Martin Dysart (personagem de Griffiths) em tentar salvar da prisão um garoto de 17 anos que teria cegado seis cavalos num estábulo inglês, de extremo prestígio, em que trabalhava. Quem implora pela ajuda do grande psicanalista é sua amiga Heather Saloman (vivida por Jenny Aguter, de Um Lobizomem Americano em Londres e Logan’s Run), que verifica que o caso do pobre rapaz é muito mais de tratamento psicológico que de correção num centro penitenciário. Inicialmente Alan Strang (Radcliffe) se mostra extremamente introvertido, agressivo e pouquí­ssimo disposto a ajudar. Como inicial ponto de defesa as perguntas do analista ele recita cantigas de antigos comerciais ingleses, compreendidas no desenvolver da peça, inclusive do porquê de serem tão antigas. Dysart descama a mente do garoto Alan aos poucos, juntando as peças de um quebra-cabeça que originam de um lar desfuncional e que vão criando forma dentro da mente do pobre rapaz até o mal-fadado acontecimento no estábulo. Os diálogos são formidáveis, inserindo o caracterí­stico senso de humor inglês numa estória que passeia sempre em campos de grande densidade. A montagem é perfeita, com atores interpretando os cavalos (sempre de grande relevância), usando máscaras e patas metálicas que simulam com perfeição a frieza que o universo eqüino representa para o jovem Strang, bem como a imponência como este cai em cima do texto. Caixas de madeira, presentes no palco, possuem uma interessante composição não são para dar uma idéia bastante sólida de tridimencionalidade (representando móveis, entradas e saí­das de salas por exemplo) como para indicar a onipresença de alguns personagens no decorrer da atuação (no caso do personagem Alan Strang, onde mesmo ilustrando sonhos que o garoto esteja tendo ou seu simples comportamento frente ao tratamento, faz com que Daniel Radcliffe esteja sempre em cena). A fotografia é escura como os cenários, em preto e cinza, ilustrando o peso da história. A iluminação também reflete o isolamento dos protagonistas e vai alterando o contato quase simbiótico que ambos tem mentalmente no decorrer das uma hora e quarenta minutos de atuação. A direção é também fantástica, com um domí­nio impressionante do texto pelo grupo e de tudo fluir de maneira tal, que em nenhum momento a peça se torna lenta ou cansativa. Um trabalho que merece todos os aplausos.

Acredito que o campo das atuações é o que mais chama a atenção aqui. Em relação a Richard Griffiths eu, infelizmente, não posso opinar. O ator estava adoentado no dia da apresentação em que comprei a entrada. De qualquer maneira ele foi magnificamente substituído por Colin Haigh, que faz parte do cast no papel de Harry Dalton (dono do estábulo em que Strang trabalha), o cara tem um quê de John Cleese e Billy Connolly misturados. Um excelente timing para as piadas que estão inseridas no texto e um tom tipicamente inglês, completam o restante do pacote. Acima de qualquer crí­tica, ao menos que se faça uma comparativa. Daniel Radcliffe (acredito o que todos anseiam desesperadamente por saber sobre), dá conta do recado de maneira exemplar. O garoto dosa muito bem a, aparente, raiva contínua (colocada, especialmente num bom trabalho de impostação de voz) que o personagem Alan Strang parece ter, com momentos nervosamente cômicos. Sua expressão corporal dita muito da composição, mostrando a fragilidade e timidez do jovem, inclusive nas cenas em que aparece somente enquanto figura ilustrativa, de costas para o público e encolhido em sua cama, muitas dessas vezes. A imagem de bruxinho amigo da vizinhança é quebrada com os gritos, palavrões e cigarros fumados atachados ao jovem ator, de certo esse é o ponto mais forte de sua interpretação. O seu maior, e acredito que mais grave, problema é a falta de expressão. Infelizmente o garoto-celebridade peca em mostrar emoções mais sutis, extremamente necessários no final do segundo ato, quando tudo é revelado. A cena de nudez é muití­ssimo bem contextualizada. Vem de uma seqüência de eventos que culminam no ato sexual entre o personagem Alan e Jill Mason, interpretada pela belí­ssima (e talentosa) atriz Joanna Cristie, e por consequência na mutilação dos cavalos. A cena dura cerca 10 minutos e o rapaz se mostra a vontade em palco, ele não sai do personagem em nenhum momento e ainda mantém o controle da seqüência de forma profissional. No final das contas ele passa na matéria, mas sem méritos. O principal cavalo, chamado de Nugget, com quem Adam possui uma relação extremamente interessante e que conduz a linha dedutiva do Dr. Dysart, é interpretado pelo ator Will Kemp (o lobisomem de Van Helsing), que assim como os outros do elenco de apoio, precisa de uma expressão corporal impecável. A cena em que Alan cavalga no cavalo Nugget, é de certo uma das mais belas da peça, com o cenário se movendo, Radcliffe preso a cordas e Kemp tendo que realizar o malabarismo de se equilibrar nas pesadas patas de metal. Sensacional. O ator também interpreta o primeiro contato do personagem com um cavalo, em que ele é um jovem e pretensioso cavaleiro. Muití­ssimo interessante. O elenco de apoio (pais do garoto, enfermeira, e os já citados cavalos) também estão perfeitos, com cenas memoráveis. Muitos deles, claramente, veteranos dos palcos ingleses.

No geral Equus se mostra muito mais que uma peça. Depois de conferir, não fica difí­cil de entender o porquê das montagens anteriores terem ganho tantos prêmios (como o Tony na Broadway, na montagem que tinha Richard Burton). O texto é de alta qualidade, mas nada que o deixe incomprienssí­vel, especialmente para os não nativos. Algo que fascina os amantes do teatro, e inicia bem os que não tem um contato tão íntimo com os palcos. A sensibilidade com que tudo é conduzido ajuda a criar uma atmosfera livre de preconceitos ou julgamentos, que em mentes menores sempre surgem. O contexto, escrito no iní­cio da década de 70, continua atual, mas sem perder o leve charme que tinha outrora. Os conflitos entre pais e filhos, as descobertas trazidas com a adolescência, a perda da inocência em diversas escalas e a compreensão acima da punição, está todo lá descrito de uma maneira passional. Uma obra para ser vista por muitos, com certeza, e mesmo que não seja perfeita está acima de qualquer preconceito, ou polêmica, pois isso diminui, e muito, os caminhos que ela tenta traçar. Caminhos estes que definiram a excelente escolha do menino Harry Potter para a libertação de um estigma, resta saber se ele não será dragado de volta de alguma forma.

Resenha de Kelnner França cedida com exclusividade ao Potterish.com