Stahl, Lesley. “A Magia por trás de Harry Potter”. Sixty Minutes (CBSNews), 3 de outubro de 2002; re-editado em 2006.

Contexto: Turnê publicitária para o Livro 5
Vídeo: 10 videoclipes com cerca de 2 minutos cada

Aviso! Transcrição relacionada: esta transcrição é da versão que foi lançada em 2006. A transcrição da entrevista como ela foi originalmente transmitida também está disponível. Obrigado ao ‘daydreamcharms’ pela transcrição!

“Por que J.K.?”
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Lesley Stahl: Agora nos fale sobre por que os livros são publicados sob “J.K. Rowling”. Era para que os garotos que lessem os livros pensassem que um homem o tinha escrito?

Agente: Sim.

J.K. Rowling: Escrevi “Joanne Rowling” em meu manuscrito e cerca de um mês antes que ele fosse publicado, meu editor britânico me ligou e disse “Poderíamos usar suas iniciais?” E eu disse… “Hmmm… sim… mas por quê?”

Agente: Tradicionalmente, os garotos não gostam de ler livros escritos por garotas. As garotas leem livros escritos por qualquer um. Mas os garotos têm esse tipo de coisa sexista meio particular.

JKR: E a sua teoria era de que era um livro que seria ótimo para os garotos, mas achavam que eles não o leriam se uma mulher o tivesse escrito. E eu era uma escritora de primeira-viagem ridiculamente agradecida e queria fazer qualquer coisa para deixar meus editores felizes e disse “Sim, sim, sim, usem minhas iniciais.” E então cerca de três meses depois de o livro ser publicado, estava no “Blue Peter”, que é um programa televisivo infantil muito popular por aqui, o que tornou isso completamente inútil, porque todos sabiam que eu era uma mulher de qualquer forma, então eu posso pôr Joanne em primeiro lugar…

LS: Sim, mas eles foram fisgados.

JKR: Sim, é tarde demais agora. Hahaha.

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“Onde é Hogwarts?”
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Lesley e JKR estão nos terrenos do Castelo de Edimburgo.

Lesley Stahl: Isso meio que parece com Hogwarts, não é?

JKR: Bizarramente, cheguei a viver na sombra do que poderia parecer muito com Hogwarts, exceto que Hogwarts tem um lago.

LS: Isso é estranho. Você escreveu antes de se mudar para cá…

JKR: Aham.

LS: …antes de vê-lo…

JKR: É, eu não conhecia Edimburgo totalmente.

LS: Você sabe o que é… é magia!

JKR: Seria isso.

LS: É simplesmente espetacular aqui…

JKR: Hogwarts é um lugar muito real para mim, e embora não estivesse vivendo na Escócia na época, sempre imaginei que seria na Escócia… o que… nunca foi explicitado nos livros, mas o leitor britânico sabe disso, porque se você viaja por um dia da Estação de King’s Cross em Londres e vai para o norte, acaba chegando na Escócia. Então ela está onde sempre deveria estar.

LS: Então é por isso que você se mudou para cá….

JKR: Não, não, não, não. Não me mudei para cá para tentar conseguir uma cópia nem nada, foi pura coincidência. Minha irmã estava morando aqui e vim para o Natal e fiquei. Tenho estado aqui desde então.

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“Os desenhos de JKR”
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Lesley Stahl e JKR estão no escritório de JKR.

JKR: Fiz desenhos dos personagens…

LS: Ah, você fez?

JKR: É. Ninguém nunca viu essas antes, também.

LS: Oooh. Estes são seus próprios desenhos?

JKR: Sim…

LS: Ah, nos mostre…

JKR: (dá a Lesley um desenho) … de séculos atrás….

LS: Ah, olhe só isso! Oh… (a câmera mostra um desenho de Hagrid, Dumbledore e McGonagall, quando Hagrid traz o bebê Harry à rua dos Alfeneiros) você sabe desenhar… (Lesley aponta para Hagrid no desenho) Hagrid… estou dizendo o nome certo.

JKR: Aham.

LS: Hagrid.

JKR: Sim.

LS: Dumbledore, a Professora McGonagall… e isso é em que noite?

JKR: Na noite em que trazem Harry da casa de seus pais aos Dursley, então é quando a sua vida tem uma queda considerável.

LS: Então, o que mais você desenhou? Você já desenhou o Harry?

JKR: Este é o Harry. Harry na casa dos Dursley… (JKR dá a Lesley um desenho de Harry na frente da chaminé da casa dos Dursley, com imagens de Duda no console).

LS: Ah, olhe o Harry! Oh, Duda! (aponta para Duda no desenho)

JKR: É.

LS: Olhe para o Duda. Nariz de porquinho. E nenhum destes desenhos jamais esteve na versão inglesa…

JKR: Não.

LS: … nas edições inglesas…

JKR: Não. Simplesmente foram coisas que fiz para minha própria surpresa… (segura um desenho de Harry olhando o Espelho de Ojesed) e isso era Harry olhando no Espelho para sua família morta…

LS: Suas mãos estão maravilhosas, porque parece que ele está tentando desesperadamente trazê-los para ele… e são todos tão bons! Digo, olhe para essas caras comparadas a…

JKR: Eu sei…

LS: (segura o desenho com as fotos dos Dursley ao lado do desenho do Espelho de Ojesed) estas aqui….

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“Infância”
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JKR: Não tenho nenhuma nostalgia, de todo… A infância… digo, hummm, não voltaria nem se você me pagasse. Nunca. E consigo me lembrar dos momentos de alegria na infância, como você não poder ser capturada porque é leviana, não é, então não tem responsabilidades. Então quando você é um garoto feliz, é alegre. Não havia nada no fundo de nossa mente como agora, agora mesmo, durante esta entrevista, dizendo “você não pagou a conta de gás, e então eles vão cortá-lo enquanto você está sendo entrevistada!”. Então você tem isso. Você esquece… bem, não esquece… mas os adultos me surpreendem parecendo esquecer o quanto você se sente impotente quando criança, quantas pressões desesperadoras… e simplesmente… enormes estão sobre você quando criança, mesmo como uma criança feliz…

LS: E o quanto as outras crianças podem ser cruéis.

JKR: Elas podem ser horríveis! Eu fui intimidada. E, humm, odiei isso. Tinha ótimos amigos que me ajudaram a passar por isso, sem problemas. Mas consigo me lembrar, sim, de ir para casa em lágrimas, é. Consigo me lembrar de não vestir as roupas certas. Sim…

LS: Você foi uma criança infeliz.

JKR: Não, não acho que tenha sido uma criança infeliz. Não olharia para trás e diria que fui uma criança infeliz. Houve vezes em que fui infeliz. Acho que o que quero dizer é que consigo me lembrar do quanto fui infeliz, ao contrário de muitos adultos que olham para trás, e todos tendo sido tão infelizes quanto eu, mas diriam “ah, eram tempos dourados, tempos dourados”. Se esquecendo. E se você realmente conversasse com eles, “sim, havia um garoto que costumava esperar por mim na esquina da nossa rua todos os dias com um taco de críquete”. “é, isso soa ótimo. Você deve ter realmente gostado disse”. Mas as pessoas se esquecem.

LS: Mas a mente não é uma coisa maravilhosa que deixar você apagar isso…

JKR: A minha claramente não é, porque não me deixaria apagar.

LS: Então isso está espalhado pelos livros, mas você explica ao resto de nós, é ótimo.

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“Bastante excêntrica”
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LS: Você é bastante excêntrica, não é?

JKR: Sim, em partes. Mas isso é bom. Só um pouquinho. Apenas um quarto do normal, nada…

LS: O que tem de errado com ser excêntrico? Você está praticamente pedindo desculpas, é maravilhoso.

JKR: É porque, sabe, tem algo bastante nauseante quanto a alguém dizer “sou excêntrica e lunática”. Geralmente, as pessoas que dizem isso sobre si mesmas são na verdade…

LS: Não.

JKR: Bastante tediosas. Então fico um pouco nervosa em afirmar isso. Mas diria que, sim, talvez, talvez eu seja, um pouco.

LS: Qual é a coisa mais excêntrica em relação a você? Além dos seus livros de Harry Potter.

JKR: (dá um riso abafado) É quase como perguntar a alguém “o que você menos gostaria que o público soubesse sobre você?”. Eu não (risos)

LS: Você me descobriu.

JKR: Ótima! E realmente não estou afim de dizer.

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“Sobre o quadribol”
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LS: O Quadribol. Tenho que lhe perguntar sobre o Quadribol. Como você pensou nele? É… é um jogo emocionante…

JKR: Se os bruxos estão vivendo em segredo por toda a Grã-Bretanha, eles têm sua própria sociedade, e obviamente vão ter seu próprio esporte. Sabe, todas as culturas o têm, então é uma parte muito importante da sua cultura separada, não é. É parte da sua identidade. Então certa vez decidi que eles teriam seu próprio esporte, e tinha que ser em vassouras. Simplesmente tinha que ser. Para fazer dele mais excitante.

LS: É um jogo executado no ar com vassouras.

JKR: Quinze metros no ar, sim. E você tem grandes… eles têm meio que aros de basquete, mas os de basquete não são assim. Na minha imaginação é como, sabe, uma baliza vertical. E existem quatro bolas no jogo ao mesmo tempo, com seus próprios nomes particulares. Sempre quis, para minha própria diversão maquiavélica ver um esporte onde quatro bolas estivessem em jogo.

LS: No ar.

JKR: Sim. Isso só acrescenta.

LS: São só sete jogadores para quatro bolas. E quais são aquelas criaturinhas… hmmm, balanços, ou…

JKR: Ah, balaços. Certo.

LS: Balaços.

JKR: Balaços são bolas realmente perigosas. São como balas de canhão. Eles voam por aí tentando fazer os jogadores caírem de suas vassouras. E a goles é com a qual você pontua através dos gols. E o pomo de ouro é a realmente boa. Cento e cinqüenta pontos extras se você pegá-la, e o jogo termina.

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“Dando nome aos personagens”
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Lesley e JKR dão uma olhada em seus cadernos.

JKR: Este é um caderno velho. Esta sou eu tentando inventar nomes, encontrei noite passada quando estava escavando esse material também.

LS: Ah, bom. Me perguntava de onde você tirava todos estes nomes fabulosos!

JKR: (mostra caderno) Tudo bem, então, esta sou eu tentando inventar sobrenomes. Temos que ter cuidado quanto a ceder muita coisa aqui, mas (vira a página) costumo saber qual estou procurando. E então eu simplesmente… gasto muito papel assim. Fico apenas experimentando, experimentando e experimentando até que, finalmente, no fundo você encontra um círculo e…

LS: Podemos escolher uma página e realmente observá-la?

JKR: Sim, seria…

LS: Ooh, esta aqui. Realmente. Rapaskey. Rapeskey. Rapor…

JKR: Só tenho uma boa ideia do que estou tentando encontrar. Mas não sei que encontrei até que encontre.

LS: Não há nenhum círculo, não acho que você tenha encontrado ele aqui.

JKR: Não o encontrei nessa página. E estas eu encontrei também (mostra um pedaço de papel). Estes são nomes gaélicos. Bem, estas são palavras gaélicas. É simplesmente uma língua maravilhosa. E acabei usando “Mosag,” que significa “fêmea suja ou asquerosa,” e realmente gostei. E Mosag é a mulher de Aragogue no Livro 2.

LS: O que você fez foi pegar algumas palavras gaélicas e colocar os significados…

JKR: Tenho muitas delas, mas esse é só um papel que mostrava a você o quanto…

(o arquivo de vídeo deste segmento foi cortado aqui)

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“Tramando Potter”
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JKR: (segura um caderno com uma tabela) Esta seria uma tabela, a tabela para o livro no qual estou trabalhando no momento, mas não precisamos chegar muito perto disso, porque ela revela muita coisa. Vou ter que escondê-la (cobre uma parte da tabela com sua mão).

LS: Bem, ninguém consegue ler a esta distância. Mas nos conte o que é cada coluna.

JKR: Então, é isso que chamo de andamento. Tenho que saber exatamente, mesmo que o leitor não chegue a saber, quando tudo acontece. Então, você tem o mês em que está acontecendo, então tenho o clima certo e tudo mais. O título do capítulo… alguns deles ainda estão para ser decididos. E.. ah, Deus… sinto muito… (cobre outra parte da página).

LS: Não acredito que alguém consiga ver…

JKR: Este é o fio da história, o tipo de coisa que tem que acontecer em cada capítulo. No verso, tem mais linhas com outras sub-tramas para que você saiba o que está acontecendo. Entende o que quero dizer? Você tem que preencher alguns destes no percurso, porque como estou escrevendo, me ocorrem como e quando as coisas terão que acontecer.

LS: Então, este é um ano…

JKR: Sim. É um ano na vida de Harry, é.

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“Matando os pais de Harry”
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JKR: Não tenho vergonha de dizer que amo uma boa história. Mas, ao mesmo tempo, estes são assuntos mais profundos nos livros. Por exemplo, no meu primeiríssimo rascunho de roteiro do primeiro livro, e quero dizer realmente cedo, na primeira semana em que estava escrevendo… eu realmente matei os pais de Harry de uma forma brutal, mas sem sangue. Você não via nem um pouco da dor que existe em perder os pais. Mas então, primeiro de tudo, comecei a pensar genuinamente que não podia fazer isso. É inconsistente com o tom do que sei que virá depois, por que a morte… muitas facetas da morte são examinadas nos livros como um todo. E simplesmente fazer isso como se fosse descartar cartas, sabe, tirá-los e se livrar deles, não é justo. Então, minha mãe morreu. Seis meses depois que comecei a escrever o livro. Eu já estivera disposta a abrir mão da minha posição inicial de matar os pais de Harry. Mas estou te dizendo, você não perde sua mãe assim e escreve sobre a morte de pais sem parar para pensar no que está fazendo. Eu, isso realmente, isso definitivamente, foi um ponto no qual minha experiência de vida tem um efeito muitíssimo profundo no livro.

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“JKR acredita na magia?”
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LS: Então você trouxe alguns livros…

JKR: É…

LS: (pega um livro) E ainda não vi esse, então… “Fortune Telling By Cards

JKR: Sim, encontrei este no mercado. E eu apenas olhei para a capa. Simplesmente tinha que tê-lo.

LS: E uma das aulas que Harry tem no Livro 3…

JKR: É, ele começa a aprender a Adivinhação, e então…

LS: Descobrir o futuro…

JKR: Aham, prever o futuro. Sei muito de previsão de futuro sem, tenho que dizer, acreditar, o que às vezes decepciona as pessoas. As crianças me dizem “você acredita em magia?” E sou forçada a dizer “não, não de verdade. Lamento”.

LS: Você não acredita na magia?

JKR: Não, não nesse sentido. Acho fascinante e divertido, e poderia ler cartas para você agora e esperar que ambos achássemos incrível, mas não quero que nenhum de nós saia daqui acreditando nisso.

LS: E o que é isso? Você trouxe outro livro que não vi.

JKR: Ah, sim. Este é útil para mim, porque não sou nem um pouco jardineira. E meu conhecimento de plantas não é bom. Costumava colecionar nomes de plantas que parecessem mágicos, e então encontre isso. “Culpeper’s Complete Herbal“, e foi a dádiva para qualquer oração. Flax-weed, toad-flax, flea-wort, gout-wort, gromel, knotgrass, mugwort… simplesmente tudo o que você poderia… sabe, então quando estou criando poções, me perco nisso por horas. E o melhor é que ele diz o que eles acreditavam que tal coisa fazia, então você pode realmente usar os ingredientes certos nas poções que você está fazendo. Então foi um livro muito conveniente de se encontrar.

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“Escrevendo na pobreza”

LS: Então você costumava vir a este café e escrever. Por que você vinha aqui? Qual era o motivo?

JKR: Particularmente porque eu descobri rápido quais cafés em Edimburgo me permitiam sentar num canto e escrever por horas a fio e pedir, talvez, dois cafés.

LS: Você só comprava duas xícaras de café porque realmente não podia comprar mais…

JKR: Estava um pouco quebrada na época.

LS: Você estava na assistência social.

JKR: Estava, é.

LS: Como você chegou a tal ponto?

JKR: Bem, resumidamente, meu casamento acabou. Estava morando em Portugal e trabalhando lá. E então meu casamento acabou, e voltei aqui à Grã-Bretanha e não tinha nenhum lugar para viver.

LS: Com uma bebê, a propósito.

JKR: Com uma bebê. Uma bebê de quatro meses.

LS: Então com a bebê, você veio aqui.

JKR: Andava por Edimburgo empurrando ela no carrinho de bebê e esperava até que caísse no sono e corria literalmente ao café mais próximo e escrevia pelo tempo em que ela estivesse adormecida.

LS (para o gerente do café): Então Jo Rowling se sentava no seu café, por ali no canto escrevendo. O que você pensava?

Gerente: Na época, não muito sobre a reviravolta que viria depois. Outra, ela era só alguém mais, outro cliente comendo, bebendo.

LS: Mas entrando com um bebezinho no carrinho de bebê, sentando no canto, escrevendo. Você achava… uma lunática, ou…

Gerente: Não! Não, digo, ela ficava escrevendo, ela fazia o que quisesse. Viajava até onde seus sonhos e ideias do que queria fazer a levassem.

LS: Você acha que, de alguma forma, você teve algo a ver com algum dos capítulos ou algum dos personagens?

Gerente: Bem, posso afirmar a responsabilidade por uma palavra e…

LS: Uma palavra?

Gerente: Uma palavra só. Era “wrathful” (N.T.: traduzida para o português como “atenta”, mas também podendo significar “colérica”). Ela estava no segundo livro. Ela simplesmente queria uma palavra para a fúria, e aí estava…

LS: E você a tinha.

Gerente: Ah, sim.

Traduzido por: Renan Lazzarin em 13/01/2009.
Postado por: Vítor Werle em 22/01/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.