O’Malley, Judy. “Conversando com… J.K. Rowling”. Book Links, julho de 1999.
Nos dois lados do Atlântico, Harry Potter e a Pedra Filosofal, primeiramente publicado na Inglaterra como “Harry Potter and the Philosopher’s Stone” (Bloomsbury, 1997), tem arrebanhado prêmios de prestígio, críticas aclamadas e fãs leais. Joanne Rowling, uma ex-professora e a autora do que será uma série de sete livros sobre Harry Potter, viajou pelos Estados Unidos em outubro de 1998. Durante sua estadia em Chicago, ela conversou comigo sobre suas propostas em escrever estes livros; o segundo deles, Harry Potter e a Câmara Secreta, foi lançado neste país em junho de 1999 pela Scholastic e está recebendo aclamações e críticas positivas como aquelas recebidas pelo primeiro livro de Harry. O terceiro livro da série, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, será publicado nos Estados Unidos pela Scholastic em outubro de 1999.
JOM: Suas observações das crianças e suas respostas a fatores de humor foram a escolha para os assuntos de Harry Potter?
Rowling: Sempre me perguntam se escrevi esse personagem porque tenho uma filha ou se apareceu de quando ensinava. Mas eu não tinha tido minha filha ainda quando comecei essas histórias e não estava lecionando naquela época. Os pontos de vista das crianças vêm das minhas memórias do que realmente é ser uma criança, ao contrário de uma resposta ao que as crianças podem querer ler. Meu senso de humor foi considerado “cruel” pelo jornal inglês The British Guardian. Isso me fez refletir um pouco. Um pouco do humor no livro realmente é um tanto sombrio, mas então é apropriado ao assunto quando você está falando de fantasmas e criaturas ferozes.
Neste país, nós vimos recentemente muitos romances para pessoas jovens serem taxados “desanimadores” em suas preocupações com a seriedade pessoal e problemas sociais. Você tomou outra direção intencionalmente com Harry Potter?
Sim, é isto que estou tentando fazer com os livros dessa série. Eles podem ser um antídoto para todos os livros desagradáveis. Houve o mesmo movimento em editoras na Grã-Bretanha. Nós tivemos uma explosão de livros muito realistas, corajosos, bastante desanimadores. Alguns deles são escritos de forma brilhante e eu acho que seria uma tragédia se não fossem escritos. Tendo dito isto, no entanto, eu não acho que Harry seja um livro completamente frávolo. Existem dificuldades que nós vemos Harry passar, a morte de pessoas proximas é uma bastante óbvia, mas não é um livro de “assuntos” que você se sentaria depois de lê-lo a pensar sobre o que o livro trata, o que ele tenta explicar. Você vê Harry entrando em períodos com coisas em sua vida, e eu espero que tudo isso seja íntegro com a história. Mas isso não foi feito pra ser a principal idéia da história. E, eu penso que em um livro realista e corajoso o sentimento de diminuição de um ponto está estampado em cada página.
Como você já escutou e já falou com crianças americanas, você acha que elas interagem com os personagens e o cenário tão facilmente quanto os leitores britânicos?
Aparentemente, elas o fazem, e realmente isto não me surpreende. Na verdade, o livro acontece sob um contexto muito diferente até mesmo do que a maioria das crianças inglesas e escocesas teria vivenciado. Não fui educada em uma escola interna e não tenho nenhuma experiência dentro de colégios internos. Eu fui educada no que chamamos escola estadual, uma escola diária que vocês chamariam escola pública aqui. Então Hogwarts é obviamente um lugar fantástico e a idéia que as crianças podem ter que alcançar para entenderem o que um monitor é realmente não é tão difícil assim. E a natureza humana, e a natureza da criança, é universal.
Muitas mudanças foram feitas pelo seu editor nos EUA antes do primeiro livro ser lançado aqui?
Meu editor americano, Arthur Levine – que eu acho brilhante – e eu concordamos nesse ponto. Nós estabelecemos regras básicas que nós só faríamos mudanças se em caso de nós dois concordássemos que o que escrevi fosse criar uma imagem errônea na mente de uma criança americana. Inicialmente, eu pensei ‘eu não quero que mude uma palavra’, mas depois eu percebi que aquela atitude era similar a esperar que crianças francesas aprendessem todas inglês antes que pudessem ler meu livro. Nós traduzimos isso e outros livros para pessoas que falam outras línguas e não pensamos nada disso. Mas, se eu utilizo a palavra jumper para significar sweater, uma criança Americana verá Harry vestindo algo completamente diferente e constrangedor para um garoto usar neste país. Então, eu não acho que esteja entregando minha arte se mudar aquela palavra. Existem partes no livro que se não fizéssemos mudanças, a criança americana perderia definitivamente a piada ou perder o sentido, enquanto que um leitor italiano ou francês não. O tradutor colocaria a palavra apropriada exatamente lá para eles. Nós realmente mudamos muito pouco, mas cada mudança foi somente por um motivo: eu senti e Arthur sentiu que sem tais mudanças nós faríamos os leitores se confundirem sem necessidade.
O título do primeiro livro também foi mudado da versão britânica, Harry Potter and the Philosopher’s Stone. A substituição por “Sorcerer’s Stone” enfatiza o foco na mágica e magia. Você teve alguma reação dos pais ou outros adultos que se opuseram ao tratamento de assuntos ocultos em seu livro?
Eu esperei a mesma reação na Inglaterra, embora daquilo que eu ouvi na imprensa americana, eu não acho que tenha exatamente o mesmo nível de ansiedade sobre essas coisas na Inglaterra. Se esse assunto ofende as pessoas, isto não é o que quero fazer, mas eu não acredito em censura para nenhuma faixa etária, e isso é o que eu quis escrever. O livro é realmente sobre o poder da imaginação. O que Harry está aprendendo a fazer é desenvolver todo o seu potencial. Magia é somente a analogia que utilizo. Se alguém espera que este seja um livro que realmente defenda o aprendizado de mágica, eles ficarão desapontados. Não menos porque a autora não acredita em mágica dessa forma. O que estou dizendo é que crianças tem pode e podem usá-lo, o que pode em essência ser mais ameaçador para algumas pessoas que a idéia deles verdadeiramente aprenderem feitiços a partir do meu livro.
Você acha que as crianças entendem conscientemente os níveis de entendimento do seu livro?
Definitivamente algumas entendem, porque as conheci. De fato, eu conheci um garoto esta manhã que me fez uma pergunta que pensei que todos me perguntariam quando o livro fosse publicado, mas esta foi a primeira vez que alguém a fez. Ele me disse, ‘Se a tia e o tio de Harry odeiam tanto ele, porque eles simplesmente não o colocam para fora de casa?’ Bem, este é um ponto bastante sensível, e só será explicado no quinto livro. Mas eu esperei ter que explicar isso no dia em que o livro se tornasse popular. Eu vivia me perguntando porque ninguém tinha perguntado, como eu iria gostar de saber se fosse um leitor. Então, finalmente, Dennis, em Chicago, percebeu que esta é uma questão fundamental que precisa ser respondida. Ele está certo e descobrirá no quinto livro.
Você sabia desde o começo que Harry Potter seria uma série de livros?
Sim, eu planejei para ser uma série desde o começo, e quando eu conheci meu editor britânico face a face, eu sabia que, em algum ponto durante aquela primeira reunião na hora do almoço, eu teria de dizer bastante tentadoramente, ‘Você acha que pode querer uma seqüência… ou duas? Porque basicamente eu planejei sete’. Partes de alguns deles já estavam escritas na época, então eu continuava pensando, por favor, queiram mais. Graças a Deus, depois da primeira refeição, ele se virou para mim e falou, ‘Então, obviamente nós estamos pensando em seqüências’. E eu fiquei tão aliviada. Eu acho que falei algo como, ‘Bem, sim, Eu acho que posso fazer uma – ou seis’. E ele gostou do plano. Existem algumas perguntas não esclarecidas no final de cada livro, então a história pode continuar. Como eu imaginei, vai haver sete anos na escola de bruxos, então Harry será um bruxo completamente capacitado e será quando estará autorizado a usar mágica fora da escola. Então, vocês o verão em seu ano final em Hogwarts. O capítulo final do sétimo livro já está escrito. É para minha própria satisfação, para eu saber aonde estou indo quando escrevo os outros livros. E o capítulo final lida com o que acontece com os sobreviventes depois de tudo. Porque haverá mortes.
Harry é bastante subversivo na forma como volta para seus terríveis parentes. Ele é um personagem completamente desenvolvido, não uma vítima nem um santo.
Sim, ele quer dar o troco em Duda. Ele é um garoto humano, e nós os leitores queremos que ele dê o troco em Duda. E, em longo prazo, acredite, ele dará. Mas Harry é também inatamente honorável. Ele não é um garoto cruel. Ele é competitivo, e é um guerreiro. Ele não se acomoda e aceita a agressão. Mas ele tem sim uma integridade nata, o que o faz para mim um herói. Ele é um garoto normal, mas com estas qualidades, a maioria de nós realmente o admira.
Você teve que acreditar bastante neste personagem e em sua história desde o começo?
É verdade, e foi a primeira vez que eu realmente acreditei em algo que escrevi. Antes desse trabalho, eu nunca tentei publicar nada porque sabia que quando eu fosse reler, nunca estaria bom o bastante. Mas esse livro eu amei mais que tudo que já tinha feito antes. Amei os personagens tanto que eles simplesmente tinham que evoluir.
Você previu que o livro teria tanto apelo aos adultos quanto às crianças?
Isto foi um pouco chocante para mim, porque eu tinha escrito para adultos antes e os manuscritos nunca foram publicáveis. Então eu escrevo o que penso ser uma história para crianças – embora eu tenha realmente escrito para mim em primeira mão. De fato, quando comecei a escrever, eu acho que estava pensando muito nas crianças que o leriam. Então, eu pensei, ok, simplesmente escreva para você mesma. E essa foi a decisão correta, porque depois, como escritora, você não consegue falar com seu público. Quando cartas dos fãs começaram a chegar nas duas editoras na Inglaterra e nos EUA, muitas foram de adultos que não estavam dizendo ‘Minha filha lê seu livro’, mas estavam dizendo, ‘Eu comprei, li, e amei. Posso entrar no seu fã clube?’ e esses comentários foram de uma mulher de 60 anos. Isso foi incrível.
A complexidade das informações anteriores em Harry Potter nos mostra grande respeito pelo que o leitor infantil vai entender. Você é de alguma forma instigada nesse ponto por adultos?
Sim, as pessoas frequentemente querem saber se eu acho que as crianças entendem tudo no livro. Eu digo, ’E daí se elas não entendem?’ Elas entendem o bastante para apreciá-lo, e se eles gostam do livro, elas o relêem. E se elas entendem uma piada lendo pela segunda vez que elas não entenderam quando leram na primeira vez, isto é maravilhoso. É mais uma recompença para elas. É como foi para mim com os livros que li muito jovem. Eu com certeza não entendi todas as palavras. Mas depois, eu queria lê-los novamente quando poderia entender mais dos significados. Mas, de qualquer forma, existem definitivamente crianças de oito ou nove anos que parecem ter entendido tudo no livro. A prova que não devemos subestimar as crianças está em torno de nós, mas nós continuamos a fazer isso.
As crianças parecem captar essa ênfase nas crianças ganhando seu próprio poder e tendo controle das circunstâncias?
Eu acho que, bem resumidamente, é o porquê delas gostarem do livro. Ele trata de uma fantasia bastante comum a grande parte das crianças: eu tenho que ser especial. Essas pessoas não podem ser meus pais! Eu acho que todos passamos por isso em algumas partes da vida. É uma parte normal do crescimento. Todos queremos ser diferentes. E, ainda que crianças felizes sejam, ainda que bem cuidadas, as crianças são incrivelmente sem poder. Sempre há alguém dando as ordens, ou um pai, professor ou um irmão mais velho. Então eles adoram a idéia de poder sair disso. Esta é uma das razões pela qual Hogwarts tinha que ser um colégio interno – para que os personagens principais pudessem estar principalmente com seus companheiros sem a intervenção dos pais.
Você fica de alguma forma surpresa pelo que as pessoas encontram no seu livro?
Eu tive algum tempo pra me distanciar do primeiro livro e posso agora falar sobre ele de modo bem mais objetivo que eu poderia quando estava escrevendo-o. Tive várias acusações contra mim. Algumas pessoas disseram que é muito tradicional. Agora, existem na história elementos que são sem dúvida muito tradicionais. Em vários livros infantis, você achará o mesmo padrão básico que ocorre em contos de fadas. Há boas razões para contos de fadas durarem. Eles nos tocam em um nível de subconsciente emocional. Eu creio que você possa dizer muitas dessas mesmas coisas sobre Harry. Você tem as trocas de bebês, os terríveis padrastos (mesmo que um deles é um parente consangüíneo, no caso de Harry). Você até tem um irmão feio, de certa forma. Mas eu certamente não sentei e parei pra pensar em incorporar todos esses elementos. Tudo veio de dentro. Suei sangue sobre essa história para fazê-la dar certo, mas sinceramente veio do meu coração. Somente depois você pode começar a analisar isso. Mas não pode analisar demais também. Uma mulher me contou que estava claro para ela que Harry sofria tantos abusos que se tornava esquizofrênico, e que tudo que acontece do ponto onde as cartas de Hogwarts chegam são sua forma de escapar para um tipo de tortura-fantasia. Eu tentei ser educada e dizer algo como, ‘Bem, essa seria uma forma de ver isso, eu acho’. Mas eu fiquei um pouco assustada. Uma das melhores coisas em escrever para crianças é que você não as vê desconstruindo o romance. Ou elas gostam, ou não gostam.
É um pouco assustador ter obtido tanto sucesso com o primeiro livro quando você sabe que ainda haverá seis mais que serão comparados com ele e entre si?
Oh sim. É aterrorizante. E as pessoas estão acostumadas a terem favoritos. Eu tenho o meu preferido dos livros de Nárnia. E há a certeza que um desses as pessoas vão gostar menos que os outros. Eu encaro isso bem. Mas eu ainda sinto como se estivesse olhando uma vitrine. Eu ainda não consigo acreditar que o livro foi publicado, que estou sentada aqui conversando com você sobre isto. O momento mais aterrorizante para mim foi quando o acordo com a Scholastic aconteceu. Eu estava recebendo muita publicidade na Grã-Bretanha pelo primeiro livro, já que o livro realmente saiu quando eu ganhei o Prêmio Smarties, o que é provavelmente o prêmio de maior prestígio para livros infantis na Inglaterra. Então, isto deu um grande solavanco e o perfil começou a crescer. Depois, com a venda do livro a Scholastic, também, eu fiquei incrivelmente assustada e tive bloqueio por volta de um mês. Não podia escrever nada depois, e fui da extrema alegria do livro dois á pensar que não estava bom o bastante, não se comparava ao primeiro. Agora, que paro para pensar sobre o segundo livro, já que faz um ano e eu acabei de terminar o terceiro, eu acho que o número depois talvez esteja melhor, de fato, que o primeiro. Já está muito bem no Reino Unido, e acabou de chegar na América. E devo dizer que a edição americana de Harry Potter e a Pedra Filosofal é a minha preferida. Eu vi seis edições diferentes, e adorei todas porque são todas o meu livro. Mas a capa da Scholastic se parece bem mais com o que eu fantasiei com o livro antes dele ser publicado. Para mim, ela parece mágica. Parece um livro de feitiços por causa das cores e o estilo da ilustração.
Você já está pensando sobre o que virá depois do último livro de Harry?
Já pensei sobre o assunto. Tenho algumas idéias na minha escrivaninha em casa. Talvez eu me volte para elas e faça algo com elas, mas talvez quando eu voltar para elas, eu posso descobrir que são pura porcaria. Harry é meu trabalho em tempo integral agora. Eu sinceramente não tenho muito espaço mental para pensar em outros projetos. Não sei se o que vier a seguir será para crianças. Mas, se eu acabar me tornando uma escritora para crianças, estará bem para mim, porque eu não vejo a literatura infantil de forma alguma como inferior e o nível da literatura para adultos como o auge das conquistas. Mas, igualmente, se a próxima idéia que agradar tanto assim for para adultos, então eu a farei. As coisas que sou boa em escrever são exatamente as coisas que adoro. Então eu tenho que esperar a idéia chegar. Alguns escritores conseguem pegar uma idéia resumida da editora e seguir além e fazer disto um livro muito bom. É um tipo particular de dom que pode se desviar mais para o jornalismo. Mas eu sei que não poderia fazer isso. A idéia tem que me conquistar desde o começo como Harry fez.
Traduzido por: Matheus Barbosa em 27/06/2007.
Revisado por: Adriana Couto Pereira em 11/05/2007.
Postado por: Fernando Nery Filho em 04/05/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.