Stahl, Lesley. “A mágica por trás de Harry Potter”. Sixty Minutes (CBSNews), 22 de outubro de 2002.
Na próxima semana, crianças e adultos em todo mundo finalmente poderão comprar o livro que esperam há três anos: “Harry Potter e a Ordem da Fênix”.
Esse quinto episódio da saga de Harry Potter irá sem dúvida superar todos os tipos de registros de novas publicações. Agora, 8,5 milhões de cópias foram impressas apenas para o mercado americano.
O 60 Minutes apresentou inicialmente a vocês J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter, há quase quatro anos. E naquela época ela estava apenas começando a entender o fenômeno que produziu.
O correspondente Lesley Stahl entrevistou Rowling em uma transmissão que foi ao ar em 3 de outubro de 2002.
Quando nós os apresentamos a Harry Potter pela primeira vez há alguns anos, muitas pessoas por aí disseram: “Harry quem?”.
Hoje, pode haver alguém em algum lugar que não o conheça, mas nós não podemos encontrá-lo.
Harry Potter é o herói bruxo dos livros mais populares do mundo – quatro até agora, com mais três que virão. É também a estrela de dois filmes blockbuster.
Nada jamais aconteceu no mundo da literatura infantil, ou de qualquer outro tipo, que se aproxime do fenômeno Harry Potter.
Mas quando nós primeiramente apresentamos ao público Joanne Rowling, criadora de Harry Potter, o terceiro livro estava para sair, e o tamanho do seu sucesso estava justamente começando a ser compreendido.
Joanne Rowling, 36, no momento a autora mais bem sucedida do mundo, vive e escreve à sombra do castelo de Edinburgo, na Escócia.
“O enredo básico é que Harry não é apenas um bruxo, ele é um bruxo famoso, o que ele não descobre até ter 11 anos,” diz Rowling.
“Ele descobriu o porquê de ter essa cicatriz em forma de raio na sua testa. Ele descobre que seus pais foram assassinados e que deve fazer algo a respeito disso, e também confrontar a pessoa que os matou.
Harry Potter é uma história à moda antiga do bem triunfando sobre o mal, cheia de artimanhas e surpresas: rapazes voando em vassouras, corujas que enviam o correio. Ela ocorre em um internato britânico de jovens bruxos chamado Hogwarts.
Há milhões de nomes engraçados como: diretor Dumbledore, o demoníaco Lord Voldemort, a amiga-sabe-tudo de Harry, Hermione. É muito claro que Joanne Rowling nasceu para brincar com as palavras.
“Eu cortumava guardar nomes de plantas que soavam mágicos, e depois eu encontrei isso: ‘Culpeper’s Herbário Completo’, que foi a resposta às minhas preces: erva de linho, linária, tanchagem, hipérico, gromel, grama de laço, artemísia”.
Harry Potter nasceu na imaginação de Rowling há aproximadamente 10 anos atrás. Ela disse que começou desenhando figuras dos personagens.
Os desenhos, que ela uma vez pensou em usar nos livros, são incrivelmente detalhados: Harry, seu terrível primo Duda, poções mágicas de Hogwarts, professora McGonagall.
Aquelas imagens se transformaram em palavras vivazes que estão agora cativando muitas crianças: “Professora McGonagall ajudou-os a transformar um rato numa caixa de rapé. Pontos foram dados para a beleza da caixa de rapé, mas removidos se tivesse pêlo”.
“Eu encontrei essa mãe há pouco tempo que me disse, ‘Oh, meu filho está aqui e quer conhecer você, mas ele está muito envegonhado do estado do livro para pedir-lhe que o autografe,'” recorda Rowling.
“O livro estava todo amassado e rabiscado, e a capa estava para cair. E eu a fiz trazê-lo até mim com o livro, porque esse é exatamente o estado que eu queria ver meu livro. Eu não tenho nenhum sinal com essas pessoas, essas pessoas muito retentivas, que não estalam a espinha quando lêem um livro. Eu digo para estalar e lê-lo porque é para isso que eles servem”.
Harry Potter agora tranformou Rowling numa imagem da editoração de proporções históricas.
“Não tem precendentes na literatura infantil na América. Nem na literatura infantil inglesa,” diz Eden Ross Lipson, editor de livros infantis do The New York Times. “Não há nada que se compare à velocidade do sucesso de Harry Potter”.
O que faz de todo o sucesso de Rowling ser o mais notável é como ele aconteceu. Em 1994, quando seu casamento com um jornalista português acabou, ela se mudou para Edimburgo, Escócia. Ela tinha poucos amigos e muito poucas esperanças, e terminou no abrigo, pulando refeições para ter certeza de que teria dinheiro suficiente para seu bebê de quatro meses.
E enquanto pensava nela mesma como escritora, nunca tinha publicado nada.
“Alguém, um jornalista, na verdade, me disse outro dia, ‘então você escreveu seu primeiro livro inteiro em guardanapos de papel,'” diz Rowling. “Não, eu não escrevi em guardanapos de papel. Eu podia arcar com a despesa de canetas e papel, sim”.
Mas ela estava em abrigo, e em um grande aperto. “Eu estava no maior aperto que já estive antes,” ela disse.
Até lá, ela estava brincando com a ideia de Harry Potter, e diz que sempre escreveu, desde quando era uma criança crescendo ao sul da Inglaterra. Mesmo quando trabalhava como professora, ela só estava ordenando o tempo.
Ela mostrou ao 60 Minutes uma fotocópia de um texto de quando estava lecionando em Portugal, rabiscado de notas. “Isso era o que eu deveria fazer com as crianças, e atrás, você tem todos os fantasmas da Grifinória”.
Grifinória é uma das casas de Hogwarts. E o seus rabiscos aleatórios na verdade foram partes de um plano maior. Muito antes de ser publicada, Rowling já tinha os sete livros de Harry Potter meticulosamente tramados em rascunho, um para cada ano que Harry estaria na escola de bruxos.
Mas antes que você suponha que ela é compulsivamente organizada, deveria saber que seu sistema de arquivos consiste em muitas, muitas caixas em seu quarto.
Uma coisa é ter caixas cheias de notas, outra coisa é transformá-las em um livro. Voltando para 1994, com uma filha bebê e sem dinheiro, Rowling sabia que teria que escrever rapidamente ou esquecer.
“Eu decidi que seria minha última tentativa de ter esse livro publicado. E assim eu andava por Edimburgo empurrando-a no carrinho de bebê e esperava até que ela adormecesse. E então eu literalmente correria ao café mais próximo e escrevia enquanto ela permanecesse adormecida”.
Com frequência escrevia no Nicolson’s Cafe, onde eles a deixavam ficar por horas, bebendo apenas um copo de café. Finalmente ela tinha um manuscrito para enviar – somente para vê-lo ser rejeitado.
“Quatro ou cinco editoras rejeitaram, eu acho, e a crítica mais comum era, ‘é um enredo muito longo para crianças'”, diz Rowling, que então começou procurar por um agente literário. Ela foi atrás do nome de Christopher Little.
“Essas coisas podem ficar paradas por anos. São conhecidos por pilhas de lama. Não foram solicitados e, você sabe, é meio corrido geralmente,” recorda Little. “E apenas por acaso, dois dias mais tarde, escolhi esta pilha e fui para um almoço porque alguém estava atrasado. E assim eu comecei a ler sobre o Harry Potter e, você sabe, meus joelhos tremeram”.
Ele diz que sabia que seria um sucesso. Contudo, várias editoras recusaram Harry Potter antes que a companhia britânica Bloomsbury finalmente o comprasse.
“No momento em que ele me disse que a Bloomsbury queria levar o livro, exceto somente pelo nascimento da minha filha, foi o momento mais feliz da minha vida,” diz Rowling, que percebeu que não era todo dia que as vendas de um livro infantil crescem constantemente sem nenhuma publicidade.
“Ninguém sabia nada sobre mim. E a únca explicação para isso foi que as crianças comentavam entre si”, disse Rowling.
“As editoras imprimiram, você sabe, poucos livros, como eles freqüentemente fazem, e a demanda veio não de qualquer lugar, mas de fora dos parquinhos,” adiciona Little. Crianças em Stamford, Conn, são típicas fãs criando uma avalanche de Harry Potter.
“É muito diferente. Não é como um livro normal, médio,” disse R.J. “É, tipo, tão imaginativo. É tão detalhado, que é quase como assistir ao livro ao invés de lê-lo”.
“Ela tem um jeito de fazer as coisas engraçadas e misteriosas ao mesmo tempo,” diz Lauren.
Por isso há crianças desligando a TV e os jogos de computador. E não apenas crianças – adultos estão por dentro de Harry Potter, também. Na Grã-Bretanha, há até uma edição especial desenvolvida apenas para eles. Todos estão mergulhados na mesma coisa: aventura e suspense em um mundo bruxo que é mágico mas, ao mesmo tempo, reconhecível.
“Ela fez esse universo paralelo, apenas um pouco descentralizado, que tem um sistema de operações bancárias, um jornal, tem um ministro, um ministro da magia,” diz Lipson. “É tão completo. E porque é completo ela pode manter-se tirando coelhos da cartola”.
Só o fato de que tanto garotas quanto garotos estão empolgados sobre o mesmo livro, já coloca Harry Potter à parte. Na verdade, a editora de Rowling originalmente tentou disfarçar o fato de que ela é mulher usando as suas inicias, J.K., nos livros.
“Tradicionalmente, meninos não gostam de ler livros escritos por garotas,” diz Little. “Garotas lêem livros escritos por qualquer um. Mas garotos têm um tipo de caráter sexista”.
Agora, crianças que não gostam de ler ou que nunca leram, estão escolhendo os livros de Rowling, lendo-os e querendo ler mais.
“Não há nada melhor que isso,” diz Rowling. “Eu encontrei duas vezes mães de filhos diléxicos e uma delas me disse que seus filhos leram todos os livros sozinhos… Isso absolutamente apóia meu ponto de vista de que crianças são muito subestimadas”.
Rowling amaria ser deixada sozinha para concluir o resto da sua série numa mesa quieta no canto em um café de Edimburgo. Mas ela é tão famosa agora que está ficando difícil de fazer isso. Há também uma enorme pressão para tornar Harry Potter uma máquina publicitária.
“Nós estamos recebendo mais de 100 requerimentos por dia, desde empresas como Sony Corporation ou Microsoft ou Boeing, até pessoas que fazem, você sabe, xícaras e pires,” diz Little.
“Se as pessoas pudessem ver os tipos de ofertas que eu recebo para usar Harry em propagandas e comerciais e todos os tipos de coisas, honestamente, ridículas,” diz Rowling. “Eu disse não para absolutamente todas elas”.
Mas Rowling não é a próprietária exclusiva de Harry Potter. Ela vendeu à Warner Bros. os direitos de colocá-lo na telona e tudo o que compõe o pacote.
O filme Harry Potter e a Pedra Filosofal foi um grande sucesso, o maior de 2001.
Quanto a Rowling, ela ainda está trabalhando no livro de número cinco, e ela recentemente se casou… não, não com um bruxo, mas com um médico escocês.
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Fonte: http://www.cbsnews.com/stories/2003/06/12/60minutes/main558428.shtml
Traduzido por: Juliana Maron dos Santos em 06/12/2006.
Revisado por: Adriana Couto Pereira em 18/04/2007 e Antônio Carlos de M. Neto em 16/03/2008.
Postado por: Fernando Nery Filho em 12/04/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.