Harry Potter em português deve sair antes do Natal
G1
13 de fevereiro de 2007
Em entrevista ao G1, Lia Wyler diz que lançamento em inglês gera “enorme pressão”. Ela afirma que faz o melhor que pode dentro das limitações de prazo.
Ainda no fim da década de 90, quando o mundo começava a ler as aventuras do bruxinho Harry Potter, criado pela escritora inglesa J. K. Rowling – e que já venderam, entre os seis primeiros volumes, mais de 325 milhões de cópias em todo o mundo, em 64 idiomas diferentes -, um leitor brasileiro “muito desaforado” mandou uma carta para Lia Wyler, tradutora do livro (e que viria a se tornar tradutora de toda a série) no Brasil.
Ele tinha calculado que Lia poderia traduzir e revisar 96 páginas por semana, 348, em quatro semanas, e que a editora levaria mais 14 dias para lotar as prateleiras brasileiras com a versão em português das aventuras que ele estava ansioso para ler. Causou gargalhadas em Lia e seus colegas tradutores.
O processo não é tão ágil quanto o leitor pensava, mas é, sim, apressado. “Harry Potter and the deathly hallows”, sétimo e último volume sobre o aprendiz de feiticeiro, com título provisório de “Harry Potter e as insígnias mortais”, só chega às mãos de Lia Wyler depois de 21 de julho, quando será lançado oficialmente na Inglaterra, e, em seguida, em todo o mundo, em inglês.
Certamente, será lido no original pelos mais ansiosos, que já engrossam as filas virtuais de pré-compra. Isso “provocará enorme pressão para traduzi-lo em tempo de entregá-lo antes do Natal”, adianta Lia, que resume, assim, sua rotina quando está diante das histórias de Potter: “Como, durmo e vejo o jornal na TV. Todo o resto do tempo é dedicado à tradução”. A seguir, você confere a entrevista que ela concedeu ao G1 por e-mail.
G1 – Você está ansiosa para pôr as mãos em “Harry Potter and the deathly hallows”? Quando vai começar o trabalho?
Lia Wyler – A ansiedade é provocada justamente porque o livro será lançado e lido em inglês antes de chegar às minhas mãos, o que provocará enorme pressão para traduzi-lo em tempo de entregá-lo antes do Natal aos leitores brasileiros que compram Harry Potter em português.
G1 – A pressão e a ansiedade dos leitores afetam você, afetam seu trabalho? Lembra de alguma história curiosa?
Lia Wyler – Afeta a todos que participam do processo de aquisição, tradução, preparação de originais, revisão, impressão. Nesses nove anos é claro que houve muitos casos curiosos, divertidos, comoventes, aplausos e vaias, mas acho que isto é normal quando uma pessoa ou fato se torna público. Recebi logo no início a carta de um leitor aborrecido, e muito desaforado, com a demora do lançamento. Depois de um complicado cálculo ele concluía que a tradutora poderia traduzir e revisar 96 páginas por semana, 348 em 4 semanas, e com mais duas semanas a editora poderia perfeitamente colocar o livro nas livrarias. A carta provocou muitas gargalhadas na comunidade dos tradutores e até sugestões igualmente divertidas de respostas.
G1 – À medida em que você foi traduzindo as histórias do bruxo, ficou mais fácil o trabalho ou cada livro é um livro?
Lia – Na minha experiência o conteúdo de um livro para outro muda, mas a forma de escrevê-lo é a impressão digital do autor; em seis livros o leitor, e mais ainda o tradutor, já sabe como as linhas dessa impressão irão se apresentar.
G1 – Saber, antecipadamente, que o livro vai ser lido por milhares de pessoas te assusta? Você já perdeu o sono durante o processo de tradução?
Lia Wyler – Não assusta, muito ao contrário, estimula o profissional a dar o melhor de si, dentro das limitações de prazo que lhe são impostas pela ansiedade do público. A produção de um livro é um trabalho de equipe e, quanto maior o número de pessoas que participa desse processo, maior é a possibilidade de erros, porque o erro é inerente à natureza humana. Nem mesmo o original de uma obra chega perfeito; é comum a editora que compra o original receber páginas e mais páginas de correções durante todo o processo de produção. O que importa é saber que fiz todo o possível e o impossível para não jogar problemas nas costas dos outros. Quanto a perder o sono é coisa que acontece com todo tradutor que vai dormir com um problema não resolvido. Acontece muitas vezes de eu acordar com a solução na cabeça ou ouvi-la da boca de alguém que passa por mim na rua, no shopping, na condução.
G1 – Como você avalia seu papel dentro deste mundo de culto ao Harry Potter?
Lia Wyler – É difícil avaliar uma situação que ainda não terminamos de vivenciar. Acho que só depois do último livro poderei computar as boas e más lembranças deixadas por esses nove anos de trabalho com uma série que começou obscura e se transformou em fenômeno mundial – não apenas um fenômeno de vendagem, mas de retorno à leitura de livros que tinha sido abandonada pelos jovens em favor dos entretenimentos audiovisuais.