LIA WYLER
“A tradução é uma ponte entre duas culturas”
Revista Época – Gisela Anauate
29/10/2007
Época – O estilo de J.K. Rowling é fluido, mas cheio de construções sofisticadas. Essa característica está bem preservada na sua tradução da saga de Harry Potter. Como resguardar a alma do autor em uma obra e, ao mesmo tempo, transpô-la para um português que não soe artificial?
Lia Wyler – Quando se trata de literatura culta o leitor brasileiro advoga que a tarefa do tradutor seja procurar reproduzir o estilo do autor. O que acontece, nesta tradução, é que eu tive o mesmo cuidado com uma obra que pertence à esfera da chamada ficção comercial que, para muitos, é um gênero menor. Mas não é. A legibilidade é uma exigência deste gênero; na série Harry Potter essa legibilidade é facilitada pelo excepcional talento da contadora da história. Tornar o texto traduzido fluido, no entanto, não é o tradutor impor o seu estilo pessoal, “domesticar” o texto, distanciando-o de tal forma do original que ele deixe de pertencer à J.K.Rowling. Quanto às construções sofisticadas, elas são perfeitamente traduzíveis para o português, uma língua de extraordinária riqueza a que não faltam palavras para descrever cenários, acontecimentos e diálogos. A artificialidade a que você deve estar se referindo é conseqüência do “tradutês” e do “internetês” linguagens das Trevas introduzidas no Brasil pela falta de senso crítico dos que escrevem.
Época – “Imberbe”, “ofídico”, termos que aparecem no primeiro capítulo de Harry Potter e as Relíquias da Morte, são bonitos e combinam com o universo do bruxo. São também pouco usuais. A esperança é de que os leitores consultem o dicionário?
Lia – Teoricamente, o sétimo livro se destina a jovens de 17 anos, uma idade em que encontramos barbudos e imberbes empenhados em passar no vestibular. Imagino que no início foi intenção da autora desenvolver gradualmente o vocabulário dos seus leitores, os mais novos auxiliados pelos pais, os mais velhos, pela consulta aos dicionários informatizados. Procurei apenas acompanhar o registro da autora em português mantendo intocados os costumes e maneirismos da cultura britânica.
Época – O jovem leitor brasileiro tem um repertório comparável ao de um leitor inglês, por exemplo? Como lidar com isso?
Lia – Não. Na Grã Bretanha a taxa de iletramento é mais baixa. A leitura é incentivada desde a mais tenra idade por razões religiosas – a obrigação de ler a bíblia. O latim continua a ser ensinado, ao contrário do que ocorre no Brasil. Você me pergunta se procuro facilitar a leitura? De certa forma, sim. Os dicionários que mais consulto são o Houaiss e o Aurélio, à procura de alternativas mais inteligíveis para palavras que já caíram em desuso em português. Usei no entanto o verbo boquiabrir-se. Acho que é a tradução mais perfeita para o “gape” da língua inglesa.
Época – Você se tornou uma referência na área de tradução. Diante do grande público, deu cara e voz ao profissional da tradução. Ainda pensa ser “invisível”, como já disse sobre a figura do tradutor?
Lia – Diariamente a vida nos prega peças, e essa é a maior que a vida me pregou. O teórico norte-americano Lawrence Venuti afirmou que o tradutor era invisível no texto. Eu acrescentei: é invisível dentro e fora do texto. Pois bem, tornei-me a tradutora mais visível do Brasil. Mas Venuti também acaba de ser desmentido: com o uso de bancos de dados é possível identificar o tradutor de uma obra por sua escolha de palavras. Isso se chama avanço científico. As afirmações são descartadas à medida que surgem novos dados que as atualizam.
Época – O seu trabalho na série Harry Potter mostrou que a tradução é uma criação literária. Mas o tradutor é considerado um autor, no Brasil?
Lia – O volume de traduções produzido no Brasil sem qualquer salvaguarda para a nossa língua é de tal ordem que as pessoas não acreditam que a tradução seja uma obra de recriação. Um tradutor é perfeitamente substituível por outro mais barato, e pagam-se preços diferenciados em São Paulo e no Rio de Janeiro como se os neurônios fossem mais numerosos e mais ágeis, dependendo da localidade. Felizmente consegui preservar uma parte dos meus.
Época – Pretende continuar com seus estudos sobre teoria e história da tradução?
Lia – Sonho em continuar, mas sem ajuda financeira o meu trabalho se tornaria tão lento que nem sei se vale a pena. A tradução é a atividade que paga as minhas despesas. A pesquisa acarreta mais despesas, que têm de ser pagas pela tradução.
Época – Qual é a grande questão que o tradutor enfrenta hoje, no país?
Lia – A tradução, como qualquer profissão liberal, é segmentada e cada segmento tem especificidades que não permitem afirmar que exista apenas uma grande questão. Explicando melhor: na área de filmes há tradutores para legendas, narração e dublagem de filmes, vídeos e DVDs, que por sua vez são usados em cinema, televisão, escola e empresa, cada uma dessas finalidades exigindo diferentes habilitações do profissional. Qual é a grande questão para cada um desses grupos de tradutores? Não sei, mas se existe uma grande questão, e não será apenas para os tradutores, mas para todos os brasileiros, é a deficiência do ensino do português em todos os níveis.
Época – Você é professora de pós-graduação na área de tradução. É possível ensinar a traduzir? O que alguém interessado em tradução deve ter em mente, antes de se lançar nesse mundo?
Lia – É possível fazer reflexões sobre a arte de traduzir, é possível aprender procedimentos para produzir traduções mais legíveis. Eu mesma dou oficinas particulares para mostrar que é possível enxugar até as melhores traduções publicadas – obviamente na posição de “criticador” e não de fazedor. Para ser tradutor, imagino que seja preciso acreditar que o conhecimento das culturas do país de origem e do nosso são fundamentais. A tradução é uma ponte entre duas culturas, a nossa tarefa é construir essa ponte. Por outro lado, traduzir palavras apenas, já dizia o saudoso poeta e tradutor José Paulo Paes, é tarefa para lexicógrafos.
Época – É possível esboçar a proporção de talento envolvida num trabalho de tradução literária?
Lia – Até hoje ninguém tentou porque não há uma tradução única e genial para um texto estrangeiro. Há variações e coincidências nas traduções feitas por diferentes pessoas que agradam mais a uns e desagradam a outros e isto não significa que cada tradução não apresente rasgos de genialidade que recriem os do autor estrangeiro.
Época – Como tradutora de autores como John Updike e Henry Miller, fica decepcionada por ser reconhecida principalmente por Harry Potter?
Lia – Não. Fico decepcionada com a incompreensão que cerca o ato de traduzir, a falta de percepção do quanto de inventividade empregamos para evitar a repetição de palavras, o exercício que é a reestruturação de frases visando a maior legibilidade do texto e mil outros recursos de que se lança mão, por vezes instintivamente dados os curtos prazos que temos para refletir. Considero o Harry Potter, com a sua multiplicidade de registros – narração, diálogos entre iguais e superiores e inferiores hierárquicos, artigos de jornal, avisos escolares, livros-texto, textos medievais, contos folclóricos, aulas, cartas entre garotos e cartas ministeriais, jogos de palavras – o maior desafio que já enfrentei depois de A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe.
Época – Quais foram os desafios deste último Harry Potter? Você estacou em alguma palavrinha? Lembra-se de alguma passagem particularmente difícil?
Lia – Houve jogos de palavras desafiadores como o já famoso “abro no fecho”, uma frase necessariamente ambígua para não estragar o suspense. Ou o rock contraposto a roque, uma solução fonética para uma pequena dificuldade. Mas se eu contar tudo não haverá surpresas.
Época – Qual é o encanto de traduzir um livro infanto-juvenil? Quais as especificidades desse trabalho?
Lia – Ser capaz de trazer à luz a criança que existe dentro de todos nós. Imaginar-se sentindo, falando e agindo como cada um dos personagens, imaginar-se má, boa, ressentida, entusiasmada, curiosa, enfim, ser capaz de se colocar no lugar do outro ficcional e produzir um texto tão verossímil quanto o original estrangeiro.
Época – Quais são seus projetos para o futuro?
Lia – Não faço projetos de longo prazo porque estou vivendo o futuro, não o que sonhei quando criança mas um futuro que foi se desdobrando à minha frente a cada opção que fiz. Gostaria, no entanto, de retomar a minha História da Tradução porque há numerosos acontecimentos de grande conseqüência nas três últimas décadas do século XX cujo conhecimento poderia ser útil aos estudiosos da área.
Época – Harry Potter deixará saudades? A sensação de terminar a tradução da saga é de alívio ou de perda? É como você se sente toda vez que termina um trabalho?
Lia – Certamente deixará saudade. Não é todo o dia que um tradutor tem a oportunidade de trabalhar durante oito anos com o mesmo autor. Quanto à sua segunda pergunta não há absolutos, a perda e o alívio são faces da mesma moeda. Quando termino um trabalho normalmente começo outro. Depois de um Harry Potter em 62 dias precisaria de outros 62 de férias.