Stephen Fry
Stephen em Wilde

Cineman Syndicate ~ Prairie Miller
Tradução: Raquel Monteiro

Combinando sagacidade com o seu personagem, o cômico ator Stephen Fry tem o enorme desafio de reencarnar o imortal Oscar Wilde no filme Wilde dirigido por Brian Gilbert. Fry, que é mais comumente conhecido como o sereno Jives no TV’s Jives And Wooster, assombra como uma imagem perfeita de Wilde em carne e mente no filme. Também à mão em Wilde está Tom Wilkinson, que não se importou de ir aos extremos em Ou Tudo Ou Nada, mas faz uma volta feroz em Wilde como Lord Queensberry, o homem mais responsável pela condenação pública de Wilde e sua queda depois de ser acusado de homossexualismo.

Fry falou sobre a sua fascinação ao longo da vida com o personagem que ele fez mais de uma vez. Ele também falou sobre a contínua controvérsia que rodeia tanto o homem como o filme.

PRAIRIE MILLER: Quando você ficou fascinado por Wilde?
STEPHEN FRY: Tomei conhecimento dele quando ainda era um menino muito jovem. Minha mãe lia as suas histórias infantis para mim. Fui fascinado por isto. Ele meio que esteve sempre lá, como a rainha, ou os Beatles. Algo que esteve na sua cabeça todo o tempo. Eu somente sempre sabia que ele estava por perto.

Ele causou uma espécie de devoção que todos que sentaram em uma mesa de jantar com ele concordam, que quando você levanta você se sente três metros mais alto. Você pensa que ele foi brilhante, mas ele não o fez sentir-se menos brilhante. Foi o tipo de brilhantismo que pode modificar as cores das coisas, e fazer o mundo repentinamente parecer a um lugar mais notável. Pode fazê-lo participar da inteligência daquela pessoa. Isto é o que Wilde tinha, uma enorme generosidade de espírito.

Eu o fiz duas vezes antes. Uma vez eu fiz Wilde em uma participação especial para uma série de faroeste de televisão nos Estados Unidos. Lembro-me de ir à cidade montado em um carrinho de bebê. Era no Texas, e lembro-me de socar um vilão. Não foi muito Wildeano, mas foi excitante. Foi um bom divertimento. Wilde, naturalmente viajou por toda a América.

PM: Você retrata Wilde como alguém muito diferente da imagem elegante que normalmente temos dele. Que idéia você teve de Wilde como pessoa para este filme?
SF: Vi Wilde como um sentimentalista, que é uma coisa muito boa de ser. Como Humphrey em Casablanca. Mas conforme eu estou envolvido, sim, é muito importante que não o vejamos como este tipo de pavão, esta espécie de pose, rainha empinada.

PM: Wilde é visto como um bonito cara confuso em suas relações românticas. O que você pensa disso?
SF: Eu acho que todos experimentaram a paixão que não é em nenhum sentido razoável. A razão e a paixão não são tão conectadas assim. Você não senta e escreve uma lista de desejos sobre a pessoa com quem você vai se apaixonar violentamente. Não acontece assim. Mas há uma coisa chamada raio. É simplesmente um enorme amor que não tem nada a ver com a razão.

Algumas pessoas vêem o filme e pensam, como pode alguém tão inteligente como Oscar Wilde, alguém com tanta perspicácia, tanta sabedoria e propensão ao amor com alguém tão indigna como Bosie. Ele escreveu sobre ele próprio, quando escreveu para Lord Alfred Douglas da prisão. Existem muitas outras pessoas que teriam apenas considerado os sentimentos de Oscar, e Bosie nunca fez isso.

Mas é por isso que vale a pena contar a história, porque todos precisam relembrar. Sentimo-nos culpados pelas nossas próprias impropriedades emotivas, e até alguém tão grande como Oscar Wilde não é melhor do que somos. Ter um grande intelecto não é o caminho de ser feliz. O grande intelecto, o discernimento e a obra artística de Wilde nunca iam fazê-lo feliz, dentro e fora dela.

Mas ele foi pelo menos valente o bastante para saber que ele devia viver quem ele era, que ele devia realizar a sua natureza. Ele estava em algo muito mais importante, que era ser um ser humano próprio. Tem muito mais a ver, como arte crucialmente, com realização pessoal. E ele foi maravilhoso nisto.

PM: Você se incomodou com a controvérsia em volta do seu retrato do homossexualismo de Wilde?
SF: Há dois tipos de puritanos. Há um puritano que acharia qualquer uma das cenas sexuais no filme desagradável e desnecessário. E o outro é o que participa de grupos de direitos gay, que queriam que Oscar fosse algo que ele não era. Aqueles que veriam como, oh é outro drama sobre como é triste ser gay.

Eu realmente esperei que algumas revistas gays britânicas viessem para mim cheios deste tipo de absurdo. E na verdade eles não o fizeram, o que foi um grande alívio. É um insulto a todo o mundo se você começar a revisar a história para agradar um grupo único.

PM: Por que a decisão foi tomada para ser gráfica sobre a sexualidade de Wilde no filme?
SF: Foi extremamente importante mostrar que a sexualidade de Wilde não foi somente alguma idéia intelectual. Foi verdadeiro, e foi sobre o corpo humano. Apenas mencionar e não ter mostrado teria sido, eu acho, peculiar e incorreto.

PM: Depois de viver dentro da pele de Wilde para este filme, o que você sente é a sua durável significância?
SF: Wilde é profundamente importante e simbólico. Ele simboliza algo muito poderoso sobre arte, e sobre não fechar-se. Sobre experimentar e descobrir quem você é, aquele impulso de comprovar quem você é no mundo. Eu acho que é por isso que Wilde é tão profundamente importante, e continuará sendo. Ele é, colocando-o de um modo bastante vulgar, possivelmente a primeira camisa T de todo o tempo! Ele nesse sentido é um ícone que nunca irá sumir. É que você acredita em algo fora da normalidade da fixidez moral, que você acredita em uma abertura, liberdade e individualidade.

PM: Com o que você irá nos surpreender depois?
SF: Eu acabei de concluir um filme com John Travolta chamado ‘A Simple Action’, e deve estrear mais tarde neste ano. Realmente foi-me enviado um papel em algum filme do Macaulay Culkin para fazer um mordomo. E pensei, não posso fazer isto! Se eu começar a fazer isto, ficarei fazendo mordomos britânicos por todas as partes, portanto não o fiz.

Penso que atores muito melhores do que eu, como John Gielgud fizeram mordomos. Você pode ficar um pouco associado a isto, embora haja piores coisas a ser associado. Mas vamos ser realistas, eu nunca iria ganhar nenhum papel que DiCaprio recusou. Portanto você tem de ser realista neste mundo!

PM: Você alguma vez foi afetado por más noticias?
SF: Eu acho que estou melhor nisso do que costumava ser. Quero dizer, eu nunca serei como eles. Eu poderia rir de uma crítica porque é tão desagradável, e tão errada. Não é a crítica, mas é quando as pessoas interpretam os seus motivos erroneamente. Eu acho que isso é irritante. Pode ser errado o que eles dizem. É quando pessoas que nunca te conheceram pensam que eles o conhecem como uma pessoa, que é uma coisa muito peculiar. Mas naturalmente eu fiz a mesma coisa!