Seaton, Matt. “Matt Seaton conhece J.K Rowling”. The Guardian (Reino Unido), 18 de abril de 2001.

“Se eu pudesse falar com minha mãe novamente, eu diria que tive uma filha – e que escrevi alguns livros e adivinha o que aconteceu?”.

“Chegou um ponto em que eu realmente senti como se tivesse ‘divorciada sozinha pobre’ tatuado em minha testa”, relembra J.K. Rowling mordazmente. “Você não conseguiria ler sobre Harry Potter sem ver isso em alguma parte”.

“Então eu pensei, ‘ok… vamos pegar isso e usar’”.

“Usar” significou sacrificar o relativo anonimato que Jo Rowling ainda aproveitava antes de decidir no ano passado que iria apoiar o Conselho Nacional de Pais Solteiros. A origem de “J.K.” vem do conselho de sua editora Bloomsbury de que as aventuras de um menino de 11 anos que vai para uma escola de bruxaria não atrairiam garotos de 11 anos se fosse muito identificável que foram escritas por uma mulher.

Ironicamente, as iniciais providenciaram uma espécie de anonimato e mistério, sob o qual Rowling podia manter sua privacidade. Além do fato de ela ter sido uma jovem mãe solteira que tinha escrito partes do primeiro livro sentada em um café em Edimburgo porque seu apartamento não era aquecido o suficiente, relativamente pouco era conhecido. Apenas quando seu terceiro livro (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) foi publicado que a curiosidade da mídia a forçou: “Então eu decidi que eu daria entrevistas. Quando eu tivesse algo para dizer”.

Ela tinha muito para dizer sobre como pais solteiros levam a culpa por tudo, desde os problemas morais até ao aumento da criminalidade. “É desejo universal da humanidade que nós temos através da história: se nós os transformarmos em demônios, nós não temos que ajuda-los. É tão mais fácil para algumas áreas da sociedade dizer ‘Você mesmo causou isso com sua irresponsabilidade; você que arrume’ do que dizer ‘Você foi uma vítima das circunstâncias’. Ou ‘Hey… casamentos acabam, mas o que vamos fazer para te ajudar a se ajudar?’”.

“Eu nunca me vi como uma mãe solteira, mas ali estava eu”, ela disse. “É inegável; tem um estigma anexado. Mas eu era a mais desavergonhada mãe solteira que você já encontrou. Eu dizia ‘E qual é o seu problema? Eu estou fazendo um ótimo trabalho’. Sou muito impaciente com a idéia de algum de nós deva se envergonhar disso”.

Rowling se tornou mãe solteira quando seu casamento com o jornalista português Jorge Arantes acabou logo após o nascimento de sua filha Jessica. “Era meu momento Pamela Anderson e Tommy Lee”, ela brinca. “Era a coisa mais humilhante, na verdade. Você supostamente tem que ter uma relação desastrosa em sua adolescência, não é, e depois amadurecer?”.

Rowling deixou Portugal no início de 1994 e veio para Edimburgo planejando ficar na casa da irmã Di por algumas semanas até conseguir se arrumar. Ela nunca partiu. “Edimburgo é lindo”, ela explica. “Tem um ótimo sistema de transporte público e tinha museus gratuitos, e eu pensei, ‘Eu terei uma vida muito melhor com um salário baixo aqui, com minha filha’. Eu podia ver que quebrar a solidão de mãe solteira aqui seria mais fácil”.

“Pobreza é o problema”, ela continua. “Eu de fato digo isso em parte pela minha própria experiência, mas eu tenho consciência de que quando falo que mães solteiras são pobres, para mim foi um estado temporário e sempre me pareceu assim. Eu nunca ficaria rica se fosse professora, mas não nunca seríamos completamente pobres. E eu tenho amigos de classe média que me emprestariam um trocado”.

O sucesso de Rowling como autora – as quatro séries de livros Harry Potter venderam mais de 90 milhões de cópias pelo mundo até agora e foram traduzidas para 42 idiomas – claramente removeu o problema. Os dias de ficar sentada em um café, escrevendo por algumas horas enquanto Jessica dormia em sua cadeirinha, se foram. Jessica, agora com sete anos, vai para escola, tem uma babá que a busca duas vezes na semana enquanto Rowling cuida de seus outros três.

“Ela é embaraçosamente precoce e fala sobre os lugares em que já esteve”, ela diz. “Eu a ouço falar: ‘Eu fui para o Space Needle em Seattle, mas mamãe não pode ir. Mamãe estava em uma livraria’, eu dizia ‘Claro… eu sei’”.

Então dinheiro resolve todos os problemas de pais solteiros? “Não, mas certamente ajuda. O pior de ser uma mãe solteira é ficar sempre pensando ‘Eu não posso te dar o que eu quero te dar’”.

Rowling escolheu o nome de sua filha em homenagem a Jessica Mitford, irmã de Nancy, autora declaradamente comunista, cuja autobiografia Rowling leu quando era adolescente. “Basicamente (Mitford) tinha cada componente possível que você poderia querer quando se tem 13 anos e é de esquerda”.

Rowling parece uma rebelde incomum. Ela era monitora na sua escola em Chepstow – mas era do tipo, ela diz, que foi “pega fumando nos pontos de ônibus com garotos de jaquetas de couro”. Agora, aos 35 anos, ela é magra e chique em seu cachecol negro e calças pretas que se abrem no joelho. Ela balança a cabeça e então tira a franja loira de seu rosto – um costume que dá a ela um ar de timidez. Mas quando ela olha para você com seus olhos azuis acinzentados, você não duvida que ali esteja uma pessoa forte.

“É engraçado”, ela diz, “mas duvido muito que tivesse tido Jessica se minha mãe não tivesse morrido quando morreu. Eu só fui para o exterior nove meses depois que ela morreu: eu realmente precisava ir embora. Muitas coisas ruins haviam acontecido e eu precisava de um tempo para mim. E obviamente, eu conheci meu ex-marido e Jessica foi resultado, então a vida continua”.

“Eu estava fazendo um grande trabalho”, ela acrescenta. “É quando você está mais vulnerável”.

Sua mãe, Anne havia morrido em 1990 de esclerose múltipla aos 45 anos. Com apenas 20 anos de diferença entre elas, Jo e sua mãe eram muito próximas. “Por eu ser a filha mais velha, para mim ela era como uma irmã mais velha. Eu sempre fui consciente de que ela era minha mãe, mas esse tipo de relacionamento estava lá. Eu poderia conversar com ela com mais liberdade do que meus amigos com as mães deles”.

Anne Rowling tinha 35 anos quando foi diagnosticada com sua doença- “a mesma idade que tenho agora, o que é um tanto quanto estranho né?”. Por causa da experiência de perder sua mãe, Rowling recentemente se juntou à Sociedade de Esclerose Múltipla da Escócia e irá ajudar a divulgar mais sobre a doença. Anne tinha estado em uma cadeira de rodas desde que Jo se formou na Universidade Exeter, mas o fim, quando chegou, ainda assim pareceu repentino.

“A última vez que a vi antes de ela morrer, eu estava de volta para o Natal”, ela relembra. “Eu não consigo acreditar, pensando agora, como não percebi o que estava prestes a acontecer porque ela estava muito doente. Sua mobilidade era muito limitada; ela parecia doente, muito doente – como nunca a tinha visto antes. Ela estava absolutamente exausta”.

“Ela morreu em casa, de falência respiratória. Papai subiu as escadas e a encontrou morta”.

Parte da atração das histórias de Harry Potter é o modo como a ficção de Rowling se liga a coisas sombrias. Rowling começou a trabalhar no primeiro livro apenas seis meses antes de sua mãe morrer. É um dos fatos conhecidos que a idéia do mundo de Harry veio à Rowling em um trem para King’s Cross; mas foi também em um trem dessa estação que os pais dela se conheceram. “Era óbvio por que estava em minha mente”. ela comenta ironicamente.

A morte de sua mãe, ela diz, fez o fato de Harry ser um órfão e o tema da morte e perda ser “de importância sem medidas”, e ela cita o agora o famoso episódio do capítulo 12 em Harry Potter e a Pedra Filosofal quando Harry vê seus pais mortos no espelho de Osejed (desejo escrito de trás para frente). O que, eu me pergunto, Rowling veria no espelho?

“Eu veria minha mãe”, diz Rowling sem hesitar. “Você iria querer cinco minutos para dizer ‘Eu tenho uma filha, o nome dela é Jessica, ela é assim e gosta disso, e eu escrevi uns livros e mãe, advinha que aconteceu?”.

“Eu ficaria falando sem parar e no final dos cinco minutos eu perceberia que não tinha perguntado a ela como é estar morta. É o egoísmo infantil, não é? – pelo menos eu tenho consciência disso. Mas não poderia ser por muito tempo. Isso tudo estava no episódio do espelho, eu acho: reconhecer que não é saudável, não faz bem para você ficar insistindo, insistindo e insistindo”.

“Eu não estaria esquecendo, mas você precisa seguir em frente”.

Traduzida por: Paula em 20/05/2007.
Revisada por: Renata Grando em 30/11/2007.
Postado por: Vítor Werle em 26/09/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.