Treneman, Ann. “O segredo de Joanne Rowling foi revelado”. The Independent (Londres), 21 de novembro de 1997.

Na velocidade da luz, o primeiro livro de Joanne Rowling impulsionou-a de mãe solteira esforçada a autora infantil ganhadora de um prêmio. Ela diz a Ann Treneman que é como se ela tivesse entrado em uma de suas histórias.

Joanne Rowling agora é uma estrela, mas você pode afirmar que ela ainda não acredita nisso. Há apenas alguns anos era uma mãe solteira sem dinheiro, vivendo de pensão em um flat em más condições em Edimburgo. Agora, aos 32, ela está a caminho de ser uma escritora de livros infantis rica e famosa.

Seu livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal, vendeu 30.000 cópias – um número fenomenal para um livro infantil – e essa semana ganhou o Smarties Book Prize. Ela está empolgada, mas quando nos encontramos, parecia mais com uma caminhoneira do que com um estrela.

“Eu nunca sonhei que isso fosse acontecer. Meu lado realista me permitiu pensar que eu poderia ganhar uma resenha positiva em algum jornal nacional”, ela diz enquanto Jessica, sua filha de quatro anos, brinca com um boneco do Hércules perto dela. “Essa era minha idéia de topo [a resenha]. Então todo o resto tem sido como dar um passo em direção ao País das Maravilhas, para mim”.

E esse não foi um passo pequeno, de inúmeras maneiras. Joanne foi secretamente uma escritora durante toda sua vida. – “Eu me lembro claramente de escrever um livro quando eu tinha cinco anos, sobre um coelho chamado Rabbit que tinha catapora” – mas ela nunca viu a si mesma como escritora.

Seus textos eram somente pra seus olhos e as únicas pessoas que sequer sabiam sobre eles eram aqueles que moravam com ela e viam como os papéis continuavam a formar pilhas.

Era uma compulsão que iria acompanhá-la por toda a sua infância na Floresta de Dean, nos seus dias de universitária em Exeter e, mais tarde, pelos dos almoços intermináveis quando trabalhava como secretária e como professora.

“Era segredo. As pessoas do escritório costumavam me perguntar se iria descer ao pub e eu dizia que estava indo fazer compras. E então eles me perguntavam o que eu havia comprado! Sentia-me envergonhada de dizer que, bem, estava escrevendo um livro. Encontrei muitas pessoas em bares que diziam estar escrevendo um livro e isso pra elas significava ter colocado algumas idéias num caderno”.

No caso de Joanne, contudo, isso significa livros no plural. No momento suas gavetas estão cheias com dois romances para adultos – “Eu devo me lembrar de queimá-los antes que alguém os leia” – e de caixas de manuscritos de Harry Potter, o garoto bruxo que é resgatado por corujas e freqüenta a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Harry é mágico e certamente está para se tornar uma lenda como a estrela dos romances fascinantes de Joanne.

A história de como Potter veio a existir é quase tão envolvente quanto a do garoto bruxo em si. Joanne teve a idéia em 1990, durante uma viagem de trem de Manchester a Londres. “Foi extraordinário porque eu nunca tinha planejado escrever pra crianças. Harry ‘veio a mim’ imediatamente, como também vieram a escola e alguns dos outros personagens como Nick-Quase-Sem-Cabeça, o fantasma cuja cabeça não está inteiramente decepada. O trem saiu da estação e por horas eu fiquei lá sentada, pensando, pensando e pensando”. Quando ela chegou em casa, começou a escrever.

Ela ainda estava escrevendo no ano seguinte quando viajou ao exterior para ensinar inglês como lí­ngua estrangeira. Então, casou-se com um jornalista português e teve Jessica. O casamento não durou e, quando Jessica tinha somente três meses, Joanne voltou à Inglaterra com uma maleta cheia de fraldas e de aventuras de Harry Potter. Ela foi a Edimburgo para visitar sua irmã no natal e decidiu ficar por lá.

“Decidi que seria mais fácil viver sendo bastante pobre em Edimburgo do que em Londres”. Pela primeira vez em sua vida Joanne não tinha um emprego. Ela não podia pagar pelos cuidados de sua filha e por seis meses viveu de pensão. “Eu decidi que aquela era realmente a hora do aperto. Eu disse a mim mesma que ia arrancar um livro desse monte de papéis”. Por esse motivo iniciou-se um extraordinário – e secreto – esforço. “Eu não contei a ninguém. As pessoas me perguntavam o que eu estava fazendo e eu respondia que saí­ra para caminhar. Acho que eles pensavam que eu era muito estranha e possivelmente depressiva. O que estava fazendo, na realidade, era caminhar pela cidade com Jessica num carrinho de bebê. Quando ela dormia eu ia pra um café e escrevia por duas horas”.

Digo que isso soa muito estranho. “Eu estava consciente de quão esquisito isso parecia e eu realmente acho que os poucos a quem contei pensaram que isso era loucura. Eu acho que eles pensaram: ‘Oh, meu Deus, ela é realmente importante e agora quer escrever um livro!'”. Ela foi à livraria e olhou uma lista de agentes de livros infantis. Não conseguiu acreditar quando o primeiro para o qual ela escrevera, Christopher Little, escreveu de volta e pediu para ver o resto do livro. Ela leu aquela carta oito vezes. “Foi um momento extraordinário porque foi um pequeno feixe de luz no fim do túnel”.

Aquele pequeno feixe rapidamente começou a acender e então a brilhar. O livro foi comprado rapidamente pela Bloomsbury e Rowling recebeu um adiantamento volumoso. Ela está particularmente agradecida por receber o Smarties Prize (de 9 a 12 anos), porque o prêmio é julgado por adultos e crianças. O livro agora foi vendido para oito paí­ses – o acordo americano sozinho vale algo como US$100.000 – e Hollywood está interessada, também. “Quando o acordo americano deu certo, significou segurança. Significa que você pode comprar um flat. Significa que você não precisa se preocupar. A preocupação que martela constantemente a cabeça, de se perguntar se você vai ser capaz de levar a semana sem comprar outro pacote de fraldas. Era assim que costumava ser e era uma maneira horrível, horrível de viver”.

Gradualmente ela está se ajustando à vida boa. “Tenho meus momentos. Outro dia em Edimburgo fui ao meu café favorito para reler a versão editada do segundo livro de Harry (ela planeja sete ao todo). Jessie estava numa creche, porque agora eu tenho dinheiro para pagar uma que ela goste. Eu tinha um bolinho doce e uma caneca de chocolate quente e tive um momento de revelação divina. Eu pensei que sou a pessoa mais sortuda do mundo. Estou agora sendo paga pra fazer algo que por toda minha vida fiz sem receber nada. Posso sentar aqui e saber que esse livro realmente será publicado. Então de repente me dei conta: sou uma escritora. Estou sendo paga por isso agora. Isso não é mais meu hábito vergonhoso, do qual eu não falo para ninguém”.

Traduzido por: Matheus de Almeida Barbosa em 05/01/2006.
Revisado por: Junior Gazola em 15/02/2008.
Postado por: Fernando Nery Filho em 29/04/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.