ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
Alice no país de Tim Burton

Filmes Polvo ~ Leo Cunha
Abril de 2010

Ao trazer Alice de volta às telas, Tim Burton enfrentou pelo menos duas espécies de desafio: um estético e outro narrativo. No primeiro aspecto, o desafio tem a ver com o fato de que os livros de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas e Alice Através dos Espelhos), nos quais o filme se inspira, brincam muito com a imaginação do leitor, sugerindo mais do que detalhando seus cenários e personagens, em situações que mesclam o sonho, o delírio e o absurdo. Além disso (e apesar disso), já foram retratados, nos livros infantis, por incontáveis ilustradores, e recriados por dezenas de filmes, desde o curta de 1903, passando pela célebre versão animada da Disney, de 1951. O desafio, portanto, era criar um universo estético próprio, que remetesse às descrições de Carroll sem se limitar a elas e sem evocar demais as outras tantas traduções visuais.

Como era de se esperar, Tim Burton tira de letra esta primeira tarefa. Afinal, sempre foi um cineasta capaz de imprimir sua marca a personagens e lugares desconhecidos do público (como em Beetlejuice, Edward Mãos de Tesoura, A Noiva Cadáver e mesmo em Peixe Grande, que até então só existia nas páginas de um livro não ilustrado) ou mais do que conhecidos (como em suas versões para o Batman, A fantástica fábrica de chocolate, O planeta dos macacos). Com influências visuais que passeiam pelo expressionismo, surrealismo, gótico, film noir, ficção científica trash, pop art e grafite, entre outros, Burton não tem pudor nem respeito excessivo por nenhuma destas correntes ou estilos, obtendo um visual peculiar e facilmente reconhecível.

No caso de Alice no País das Maravilhas, o risco era maior, talvez, pelo fato de o filme ser produzido pela mesma Disney que há décadas vem espalhando seus personagens (da animação de 1951) por roupas, toalhas, canecos, brinquedos, etc. Como fazer uma Alice nova, mas que não “destronasse” os personagens antigos da própria Disney? Burton optou pelo morde e assopra: em alguns casos a referência visual à animação é mais evidente: o gato de sorriso largo, o coelho, a centopéia; mas na maioria dos personagens o aspecto visual é bastante distinto, como o Chapeleiro Maluco, que na animação se aproximava de um velhinho atarracado e agora, encarnado por Johnny Depp, surge muito mais jovial, um punk drag esquizofrênico, que muda de cor e de sotaque dependendo da cena.

Nas mãos de Burton, todos os elementos visuais – fotografia, cenografia, figurinos, maquiagens, efeitos especiais – se somam e se complementam, num trabalho meticuloso, embora bem menos gótico que a média do cineasta. Os elementos mais macabros são o rio repleto de cabeças decapitadas, nas quais Alice precisa pisar como se fossem pedras, e o olho arrancado do monstrengo Bandersnatch, que remete a uma longa série burtoniana de olhos furados, múltiplos, distorcidos, tapados, de vidro etc.

Mas se faz jus ao desafio estético de reinventar o país das maravilhas, é no segundo desafio, de natureza narrativa, que o diretor parece menos à vontade. Nos dois livros de Lewis Carroll, encontramos somente um fiapo de trama, pelo menos no sentido da narrativa clássica hollywoodiana. Alice não é uma heroína típica, que desperta a nossa preocupação ou interesse, e que é confrontada por um grande dilema ou conflito a ser resolvido num final catártico e/ou apoteótico. Nada disso: ela só quer fugir de um tédio abissal. E sua viagem é claramente episódica.

A roteirista Linda Woolverton tinha plena noção disso quando encarou a tarefa de criar a adaptação. Em entrevista à revista Script, afirmou que procurou manter o tom lírico e non-sense do livro, mas assumiu que seu roteiro é revisionista, sem o menor constrangimento de dar ao filme uma sensação de “crescendo” narrativo.

“Eu me senti à vontade para impor [ao livro] uma estrutura em três atos. Esta é a linguagem que o público cinematográfico fala, portanto é a linguagem na qual decidi falar com ele. Senão não seria um filme, mas uma série de personagens vagando por aí. (…) Eles vagueiam de forma brilhante, mas não há uma ação levando a história adiante. Então foi confortável saber que eu não estava tentando recriar os dois livros, e sim criando uma situação na qual Alice voltaria àquele mundo, impondo uma estrutura menos caótica, embora, em alguns pontos, permaneça o tom absurdo.”

Outro desafio que Woolverton se impôs foi o de atribuir à sua protagonista alguma motivação “maior”. Se a Alice do livro (assim como a do desenho de 1951) está apenas entediada quando é atraída pelo “outro mundo”, aqui a moça ganha um contorno mais definido e um motivo mais premente: no prólogo, ela nos é apresentada como uma figura libertária e feminista, prestes a ser aprisionada por um casamento arranjado, com um sujeito fútil e asqueroso. Neste sentido, a Alice criada por Woolverton é coerente com a maioria dos protagonistas burtonianos, que também querem distância de uma sociedade calcada na aparência, na hipocrisia e na conveniência.

Por outro lado, é questionável a eficiência da contextualização psicológica e sociológica que o roteiro propõe. Afinal, apesar do esforço da roteirista, pouca coisa do prólogo mantém relevância a partir do instante em que mergulhamos com Alice no buraco e deparamos com o universo fantástico lá de baixo (no filme, o mundo se chama Underland, e não Wonderland). As aflições pessoais da moça (o casamento, as regras sociais, o sofrimento pela perda do pai) são tragados pelos personagens e pela loucura imaginada por Carroll e reinventada por Burton. Só perto do final do filme a conexão com o mundo “real” retoma força, quando Alice dá seu grito de auto-afirmação: “Eu é quem faço o meu caminho!”, o que vai ter uma implicação direta quando ela retorna ao local do casamento.

Um dos dilemas que a moça traz lá de cima é: seus constantes sonhos com um tal “país das maravilhas” eram somente pesadelos ou eram uma lembrança perdida da infância? É um esperto truque narrativo que justifica a apresentação de Alice não mais como uma criança, mas sim como uma moça, e afasta dois rótulos que poderiam ser limitadores, em termos mercadológicos: o de ser um filme infantil (não é, com sua Alice quase adulta) e o de ser um remake (não é, configurando-se muito mais como uma seqüência).

Por outro lado, não é uma solução particularmente inovadora, pelo contrário: a própria Disney já fizera, em 2002 uma sequel de Peter Pan, chamada De volta à terra do nunca, cuja trama traz similaridades à de Alice. Na animação de 2002, Wendy cresceu e tem uma filha, Jane, a quem sempre conta de sua viagem para a Terra do Nunca. Jane, porém, acredita que o relato da mãe não é uma lembrança, mas mera fantasia. Somente voltando à Terra do Nunca, capturada pelo Capitão Gancho, é que a história se revelará uma lembrança e um elogio à famosa “magia da imaginação”.

Enfim, mesmo cedendo a algumas recomendações típicas dos manuais de roteiro (sobretudo as que mandam explicitar a estrutura em três atos, as motivações, as relações causais e criar um embate final emblemático), Tim Burton não consegue (talvez nem mesmo tente) fazer com que o espectador realmente se preocupe com o destino de Alice. Se o filme nos envolve, não é pela trama, que inclusive parece ter sofrido vários cortes, apresentando algumas passagens e personagens de maneira corrida demais, talvez para abrir espaço para mais cenas com o Chapeleiro Maluco.

O que nos envolve é a pura curiosidade de ver até onde aquela maluquice vai chegar (inclusive, e talvez, sobretudo, em termos visuais). Não estamos ali para acompanhar uma jornada interior, ou o desenvolvimento de um arco dramático da protagonista, mas pelos eventos e personagens mesmo, inclusive por muitas cenas que, mesmo soltas, valem a viagem, como a festa do chá, as de mudanças de tamanho, as que envolvem os gêmeos e todas as cenas da Rainha Vermelha, uma personagem tão adorável em sua repugnância que mereceria um filme de Tim Burton só pra ela.

Filmes citados:

Alice no país das maravilhas (Alice in wonderland, 1903 / Cecil M. Hepworth e Percy Stow)
Alice no país das maravilhas (Alice in wonderland, 1951 / Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske)
Alice no país das maravilhas (Alice in wonderland, 2010 / Tim Burton)
Batman (idem, 1989 / Tim Burton)
Beetlejuice, os fantasmas de divertem (Beetlejuice, 1988 / Tim Burton)
De volta à Terra do Nunca (Return to Never Land, 2002 / Robin Budd)
Edward mãos de tesoura (Edward Scissorhands, 1990 / Tim Burton)
A fantástica fábrica de chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, 2005 / Tim Burton)
A noiva cadáver (Corpse Bride, 2005 / Tim Burton)
Peixe grande (Big Fish, 2003 / Tim Burton)
O planeta dos macacos (Planet of the apes, 2001 / Tim Burton)

Entrevista citada:

“Adventures in Wonderland”. Entrevista de Linda Woolverton à revista Script. Volume 16, nº 2, Mar/Abr 2010, p. 52 a 57.