“Deveria J.K. Rowling ganhar o Prêmio Nobel?”. Huffington Post, 13 de janeiro de 2012.

Na última semana, revelou-se que, em 1961, C.S. Lewis indicou J.R.R. Tolkien para o Prêmio Nobel de Literatura e que Tolkien foi sumariamente desclassificado pelo comitê. Até onde eu sei, nunca houve muita discussão pública sobre os méritos de Tolkien como ganhador de um Nobel, mas ainda assim foi interessante ver alguns comentários “em off” sobre sua indicação. Anders Osterling articulou a principal objeção a Tolkien, que segundo ele “não chegou de maneira nenhuma ao nível dos contadores de história da melhor qualidade”.

Qualquer pessoa que acompanhe o Nobel de literatura não ficará surpresa com isso, ela sabe que o Nobel está interessado em obras que sejam decididamente literárias (e, cada vez mais, que sejam não muito reconhecidas e/ou políticas). Isso faz sentido, já que o prêmio é o árbitro supremo do que significa excelência em literatura.

Mas o que significa excelência literária? No testamento que estabelecia os prêmios, Alfred Nobel queria que o prêmio de literatura fosse para “a pessoa que tiver produzido no campo da literatura o melhor trabalho em uma direção ideal”. Essa frase é ambígua; a “direção ideal” da literatura não está expressa, mas o prêmio é claramente destinado a autores cujo trabalho siga na direção de algum tipo de ideal literário.

Hoje em dia, nós temos o bom senso de não apontarmos nenhuma qualidade central e inflexível que torne uma obra escrita literária, mas nós podemos ter uma ideia do que literário significa para o comitê do Nobel ao olharmos para algumas das indicações recentes. O último vencedor, o poeta sueco Tomas Tranströmer, recebeu o prêmio “porque, por meio de suas imagens condensadas e translúcidas, ele nos dá um novo acesso à realidade”. A ganhadora de 2009, a escritora alemã Herta Müller, foi citada por sua “concentração de poesia e franqueza da prosa” que “representa o cenário do despejado”.

A estrutura desses dois elogios é repetida na maioria das descrições dos prêmios recentes, e mostra como o comitê imagina o sucesso máximo da literatura – a combinação de confecção exemplar (concentração de poesia, imagens condensadas e translúcidas) e assuntos importantes (“o cenário do despejado” e “novo acesso à realidade”). Essa fórmula parece tanto sensata quanto desejável, já que captura a estética e as exigências de tópicos que a maioria dos leitores de literatura valoriza.

Mas é também uma fórmula limitada de qual poderia ser a “direção ideal” da literatura. Há outras maneiras de se pensar sobre quais seriam as metas da literatura, e a que primeiro me vêm à mente é a leitura em si. Ler é uma finalidade em si e, portanto, a escrita que inspira as pessoas a lerem trabalha de fato em “uma direção ideal”. E que autor vivo inspirou mais pessoas a lerem e mais amor à leitura que J.K. Rowling?

Ponha a importância artística de lado por um momento e considere isto: ela é a escritora que influenciou milhões e milhões de crianças. Ela não escreve frases ótimas, e seria difícil argumentar que o assunto é extremamente importante. Mas as questões, os personagens, as histórias e os valores em seu trabalho ecoaram pelo mundo.

E o que mais os livros podem fazer?

Traduzido por: Bárbara Waida em 25 de julho de 2014.
Revisado por: Carolina Portela em 25 de julho de 2014.
Postado por: Daniel Mählmann em 29 de julho de 2014.
Artigo original aqui