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Posted by on jul 10, 2007 in Uncategorized |

OdF – Crítica – Veja

ORDEM DA FÊNIX
Transgredir para crescer

Veja
07 de julho de 2007

 

A Ordem da Fênix mostra que a série HarryPotter está de novo implorando por uma transformação. A barreira, claro, são os fãs.

Uma coisa não se pode negar a respeito do time que cuida de fazer rodar a gigantesca engrenagem que é a série Harry Potter: a despeito de ela não guardar mais nenhuma surpresa, apesar das limitações de seu elenco jovem, contra todas as imposições do enredo estabelecido nos livros da autora J. K. Rowling e, principalmente, não obstante o fato de que o dia dessas pessoas já está ganho (a mais baixa bilheteria individual da franquia foi de 790 milhões de dólares), esse time não desiste de, a cada novo filme, tentar oferecer algo diferente a seu público e avançar no teor dramático da história — nem que seja um pequeno passo. Em Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, Inglaterra/ Estados Unidos, 2007), o quinto título da marca, que tem estréia mundial nesta quarta-feira 11, o ataque se dá por dois flancos.

O primeiro é o da crescente agitação do protagonista, pressionado não apenas pelo fortalecimento de seu arquiinimigo Lorde Voldemort (Ralph Fiennes, que recuperou muitos de seus poderes, mas ainda não o nariz), como também por seus próprios hormônios. Não há varinha de condão que dê jeito na adolescência, e Harry oscila aqui entre aqueles estados de ânimo típicos da fase — da paixonite por Cho Chang (Katie Leung), com quem ele finalmente troca um beijo, às explosões de raiva e tristeza da variante ninguém-me-entende. O outro flanco em que o diretor David Yates se desdobra é o do visual, que, desde a grande virada operada pelo diretor Alfonso Cuarón no terceiro filme, vem se tornando progressivamente mais sombrio e cheio de presságios.

O ministro da magia, que conduz uma campanha contra Harry, é visto por toda parte em telas imensas, à semelhança do Grande Irmão de 1984. A escola de Hogwarts, antes um refúgio, abriga cada vez mais penumbra e estranheza. E até a vila do interior na qual Harry passa o verão com seus detestados tios e primo se tornou ameaçadora. Na cena que abre o filme, enquanto ele enfrenta o perigo bem bretão de um grupo de valentões, uma tempestade se forma, trazendo em seu interior um outro terror, este mágico — os Dementores, espectros que sugam a alma de suas vítimas.

É um começo cheio de atmosfera. Mas A Ordem da Fênix não tarda a revelar que, em que pesem os esforços de sua equipe criativa, o crescimento da série enfrenta barreiras muito claras.A mais desafiadora delas é que Harry Potter já há tempo entrou no território do culto, e seu público cativo tolera uma dose não mais do que moderada de transgressão. Em nenhum momento, também, se achou solução mais eficiente para os novos papéis que surgem a cada capítulo do que preenchê-los com nomes tirados do quem-é-quem das artes dramáticas britânicas.

Imelda Staunton e Helena Bonham Carter são os acréscimos da vez, juntando-se aos veneráveis Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, David Thewlis etc. E, como eles, estão ali acima de tudo para desviar a atenção das deficiências dos atores mais jovens. Recrutar crianças na esperança de que elas mantenham sua promessa de carisma e talento ao se tornarem adolescentes foi sempre tomado como um risco necessário à franquia. Mas, à exceção de Daniel Radcliffe, que há pouco encerrou uma bem-sucedida temporada de Equus no teatro londrino (muito comentada, também, por ele ficar nu no palco) e que vem melhorando à custa de esforço visível, nenhuma das promessas se cumpriu.

De onde se volta à questão inicial, a da liberdade muito restrita de que a série usufrui. Fosse sua matéria-prima menos sacrossanta para os fãs, ela poderia sofrer as transformações mais profundas pelas quais está implorando e crescer para além de todas essas barreiras. Essa é a possibilidade com que o início de A Ordem da Fênix acena. Harry, porém, pertence a um clube. E este, ao que parece, é quem dita que tamanho ele deve ter.

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