Rowling, J.K. “A vida não particularmente fascinante até agora de J.K. Rowling”. Autobiografia, 1998.
Eu nasci em Chipping Sodbury General Hospital, o que eu acho ser apropriado para alguém que coleciona nomes engraçados. Minha irmã, Di, nasceu apenas dois anos depois, e ela foi a pessoa que sofreu minhas primeiras tentativas de narração de estórias (eu era muito maior que ela e podia segurá-la). Coelhos apareciam sempre em nossas primeiras sessões de narração; nós queríamos muito um coelho.
Di ainda se lembra de mim contando para ela uma estória em que ela caía em uma toca de coelho e era alimentada com morangos pela família de coelhos que morava lá dentro. Certamente, a primeira estória que escrevi (quando tinha cinco ou seis anos) foi sobre um coelho chamado Coelho. Ele pegou sarampo e foi visitado por seus amigos, incluindo uma abelha gigante chamada Srta. Abelha. E desde Coelho e Srta. Abelha eu quis ser escritora, embora raramente contasse a alguém. Eu temia que me dissessem que eu não tinha esperanças.
Nós nos mudamos duas vezes enquanto eu crescia. A primeira mudança foi de Yate (perto de Bristol) para Winterbourne (do outro lado de Bristol). Uma gangue de crianças, incluindo a mim e a minha irmã, costumavam brincar juntas para cima e para baixo em nossa rua em Winterbourne. Dois membros do grupo eram um irmão e uma irmã cujo sobrenome era Potter. Eu sempre gostei do nome, mas naquela época eu sempre gostava muito mais do sobrenome dos meus amigos do que do meu próprio (“Rowling” é pronunciado como ‘rolling’, o que costumava ser o alvo de irritantes piadas infantis sobre ‘rolling pins’(1) ).
Quando eu tinha nove anos, nos mudamos para Tutshill, perto de Chepstow, na Floresta do Deão. Nós estávamos finalmente afastados, no campo, o que sempre foi o sonho dos meus pais, ambos sendo londrinos, e minha irmã e eu passamos a maior parte de nosso tempo vagando sem supervisão pelos campos e pela margem do rio Wye. O único problema era o fato de que eu odiava minha nova escola. Era um lugar muito pequeno e muito antiquado onde todas as mesas ainda possuíam aberturas para potes de tinteiros. Minha nova professora, Sra. Morgan, me assustava muito. Ela aplicou um teste de aritmética na manhã da minha primeira aula e depois de um grande esforço eu consegui tirar um zero, de dez – eu nunca tinha feito frações antes. Então ela me colocou na fila de mesas bem à direita dela. Levou alguns dias até que eu percebesse que estava na fila dos ‘burros’. A Sra. Morgan posicionava todos na sala de acordo com o grau de inteligência que ela achava que tinham; os mais espertos sentavam à sua esquerda, e todos que ela considerava serem limitados sentavam à direita. Eu estava o máximo à direita que alguém poderia ficar sem precisar se sentar no parquinho. Ao fim do ano, eu havia sido promovida para a segunda esquerda – mas teve um custo. A Sra. Morgan me fez trocar de lugar com minha melhor amiga, de forma que em uma pequena troca de lugares na sala eu me tornei inteligente, porém impopular.
De Tutshill Primary eu fui para Wyedean Comprehensive. Eu ouvia sobre Wyedean os mesmos rumores que Harry ouve Duda falar sobre Stonewall High (leia em Harry Potter e a Pedra Filosofal). Mas não era verdade – pelo menos nunca aconteceu comigo. Eu era quieta, sardenta, míope e um lixo nos esportes (eu sou a única pessoa que conheço que conseguiu quebrar o braço jogando netball). Minha matéria preferida era, de longe, Inglês, mas eu gostava bastante de línguas também. Eu costumava contar aos meus amigos, que também eram quietos e estudiosos, longas estórias em série na hora do almoço. Elas geralmente envolviam-nos fazendo algo heróico e nos aventurando em feitos que certamente nunca teríamos realizado na vida real; nós todos éramos muito nerds. Eu de fato briguei uma vez com a garota mais valentona da minha série, mas não tive escolha, ela começou a me bater e era bater de volta ou deitar e me fingir de morta. Por alguns dias eu fiquei famosa porque ela não conseguiu me derrubar. A verdade é que meu armário estava bem atrás de mim e me amparou. Eu passei semanas após isso espiando nervosamente pelas esquinas, no caso de ela estar esperando para me emboscar.
Eu me tornei menos quieta conforme crescia. Uma das coisas foi que comecei a usar lentes de contato, o que me deixou com menos medo de ser acertada no rosto. Eu escrevi muito na minha adolescência, mas nunca mostrei para nenhum dos meus amigos, exceto as estórias engraçadas em que nós todos estávamos levemente disfarçados nos personagens. Eu fui nomeada monitora chefe no meu último ano, e só consigo me lembrar de duas coisas que tive que fazer; uma foi mostrar a feira da escola para uma Lady Alguém, e a outra foi promover uma reunião para a escola inteira. Eu decidi tocar para eles uma gravação a fim de diminuir o tempo que eu teria que falar. A gravação estava riscada e tocou a mesma parte da música várias vezes até que a Diretora Substituta o chutou.
Eu fui para Exeter University logo após a escola, onde estudei Francês. Esse foi um grande erro. Eu tinha ouvido demais aos meus pais, que pensavam que línguas iriam me levar a uma grande carreira como secretária bilíngüe. Infelizmente, eu sou uma das pessoas mais desorganizadas do mundo e, como provei mais tarde, a pior secretária de todos os tempos. A única coisa de que sempre gostei sobre trabalhar em escritórios era poder digitar estórias no computador quando ninguém estava olhando. Eu nunca prestava muita atenção às reuniões porque eu estava geralmente rascunhando partes das minhas últimas estórias nas margens das folhas, ou escolhendo nomes excelentes para meus personagens. Isso é um problema quando você deveria estar tomando nota das atas da reunião.
Quando eu tinha vinte e seis anos, desisti completamente de trabalhar em escritórios e fui para o exterior ensinar Inglês como idioma estrangeiro. Meus estudantes costumavam fazer piadas com meu nome; era como estar de volta a Winterbourne, exceto que as crianças portuguesas diziam “Rolling Stones”, em vez de rolling pin. Eu amava ensinar Inglês, e como eu trabalhava à tarde e à noite, eu tinha as manhãs livre para escrever. Essa particularmente era uma boa notícia, pois agora eu tinha começado o meu terceiro romance (os dois primeiros tinham sido abandonados quando eu percebi como eles eram ruins). O novo livro era sobre um menino que descobriu que era um bruxo e foi estudar em uma escola de magia. Quando eu voltei de Portugal metade da mala estava cheia de papéis cobertos com estórias sobre Harry Potter. Eu fui morar em Edimburgo com minha filha muito pequena, e me impus um prazo; eu terminaria o livro sobre Harry antes de começar a trabalhar como professora de Francês, e tentaria fazer com que fosse publicado.
Foi somente um ano depois de eu ter terminado o livro que uma editora o comprou. O momento em que descobri que Harry seria publicado foi um dos melhores de minha vida. Nessa época eu estava trabalhando como professora de Francês e recebendo serenatas nos corredores com a primeira frase do tema de Rawhide (‘Rolando, rolando, rolando, mantenha aqueles vagões rolando …’ – ‘Rolling, rolling, rolling, keep those wagons rolling…’). Alguns meses depois de ‘Harry’ ter sido levado para publicação na Inglaterra, uma editora americana comprou os direito por um valor suficiente para me permitir abandonar a profissão de professora e escrever por tempo integral – a ambição de minha vida.
E eu tenho um coelho de verdade agora. Ela é grande e preta e me arranha ferozmente toda vez que eu tento pegá-la. Algumas coisas são melhores se deixadas na imaginação.
N.T.:
(1) rolling pins são rolos culinários usados para esticar massas.
Traduzida por: Renata Grando em 07/12/2008.
Revisado por: Fabianne de Freitas em 11/12/2008.
Postado por: Vítor Werle em 18/12/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.