Jones, Malcolm. “Bruxos para milhões”. Newsweek, 23 de agosto de 1999.

Deixe de lado os jogos violentos, “Harry Potter” de J.K. Rowling lançou um feitiço de grande procura sobre crianças e pais ao redor do mundo.

Julgando pelos milhões de leitores que ele enfeitiçou até agora, Harry Potter é certamente um bruxo muito poderoso. Toda a família Newcombe, por exemplo, está sob o feitiço de Harry. Lizzie e Laura, gêmeas com 8 anos de idade,escutam seus pais lerem os livros de J.K. Rowling sobre o aprendiz de bruxo que usa óculos toda noite. Depois que elas já foram deitar, o irmão delas, Jimmy, de 10 anos, pega o livro e lê até dormir. Catie, a sua mãe, acha que Harry e seus amigos na literatura são excelentes modelos exemplares. E Jim Newcombe, um executivo de propaganda, é tão fã que ele mal pode esperar pelo terceiro, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban“, a ser publicado aqui no país no ínicio do mês que vem. Então, bem como outros fãs de Potter, ele encomendou o livro pela Internet da Inglaterra, onde foi lançado no final do mês passado. E no seu aniversário de 44 anos, ele levou toda a família para a livraria local em Lake Forest, Illinois, para um grupo de encontro do livro que era focado nas façanhas de Harry na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. “Logo quando eu pensei que eu precisava de algo com uma ‘magia própria’ para entreter meus filhos”, diz Newcombe, “aparece o Harry Potter”.

A criação da autora de Edimburgo J.K. Rowling, esse bruxo de 13 anos, órfão com um talento especial para bruxaria é a estrela de três dos livros mais folheados já escritos — para crianças ou qualquer outra pessoa. Os livros já foram traduzidos para 27 línguas em 130 países, e Rowling está atualmente vendendo mais rápido que outros livros famosos de qualidade como os de Tom Wolfe.

Mesmo que muitos fãs de Harry sejam pequenos, os 5 milhões de livros sendo imprimidos ao redor do mundo provam que são uma massa fanática, embora qualquer pessoa que leia as histórias podem ver o porque. Firmado na tradição original de histórias inglesas para crianças, Harry, como Peter Pan e Mary Poppins, pode voar. Como o Bilbo Baggins de Tolkien, ele é rodeado de criaturas fantásticas. Sua escola fechada é cheia de caducos e pirralhos esnobes, mas também é um mundo onde corujas entregam as cartas e ao invés de química e aulas de ginástica eles estudam poções e transfiguração. Sobre tudo isso está a sombra de Lord Voldemort, o arqui-inimigo de Harry e um vilão tão ruim que outros personagens tem medo de chamá-lo de qualquer coisa a não ser de Você-sabe-quem. Adivinha quem ganha?

Mas o apelo de Harry é maior do que a soma de todas as partes – ou certamente mais subconscientes. Rowling focaliza o olhar quando diz, “Harry é esperto e bom em esportes e muitas coisas que crianças gostariam de ser, mas as crianças sentem mais por ele porque ele perdeu seus pais. Se um autor faz de um personagem órfão, poucas crianças gostariam de ser órfãs também. Mas é uma coisa libertadora, porque tira o peso de uma expectativa ao redor dos pais”.

As aventuras de Harry mantém as crianças lendo seis ou sete vezes cada livro. As crianças montam peças e inventam jogos baseados nos livros. Eles fazem camisetas, montam shows com bonecos, lêem para outros. Um garoto de 11 anos até imprimiu cartões de negócio escritos “Formado em Hogwarts” para dar aos amigos. É rotina para os fãs de Potter ler um livro em apenas um dia, algo memorável dado o fato de que cada um dos livros contém mais de 300 páginas. Até Rowling está impressionada. “Eu conheci um garoto em uma escola na Inglaterra que recitou a primeira página do primeiro livro para mim que havia memorizado”, lembra a autora de 33 anos. “Quando ele parou, ele disse, ‘Eu posso continuar!’. Ele continuou recitando as primeiras cinco páginas do livro.Aquilo foi inacreditável”.

Mas não tão inacreditável quanto a história de Cinderella de Rowling. Uma desempregada, sem publicações, mãe divorciada com uma filha pequena, ela escreveu a maior parte do primeiro livro de Harry sem abreviações, sentada em uma cafeteria enquanto sua neném dormia. Algo sobre a valentia de Harry inspirou a sua criadora a pensar grande. Ela visualizou um épico em sete partes, um para cada ano de Harry em Hogwarts. “Quando você sonha,” ela fala, “você pode fazer o que você quiser. E eu sempre pensei que 7 era um bom número”.

Os publicadores de Rowling na Scholastic sabem todos os números. Eles publicaram as séries “Goosebumps” de R.L. Stines e “Baby Sitters Club“, de Ann M. Martin. Mas eles alegremente jogaram as mãos pra cima quando foram questionados porque os livros de Rowling vendem tão rápido quanto eles imprimem. “Você pode dizer que Harry é um grande personagem ou que Joanne Rowling é realmente uma grande autora,” fala Michael Jacobs, vice-presidente senior de marketing da Scholastic, “mas não há modelos, nem regras de livros infantis ou adultos publicados para explicar isso”.

O primeiro e o segundo livro de Harry cada um vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos, e há um grande sinal de que o terceiro livro vai se sair ainda melhor. Quando essa continuação foi às vendas na Inglaterra no início de julho, vendeu 68.000 cópias em três dias e até hoje, vendeu 440.000 cópias.

Nos últimos tempos até adultos sem filhos estão comprando os livros em grandes números. Bloomsbury, a publicadora dos livros de Rowling na Inglaterra, foi mais longe e imprimiu capas separadas, uma para crianças e outra para adultos, para poupar os adultos do embaraço de andar por aí com um livro para crianças. Até agora a versão “adulta” para “Pedra Filosofal” vendeu 30.000 cópias. Isso não surpreende Rowling. Antes de ela vender o primeiro manuscrito, ela diz, “Eu não estava realmente ciente de que era um livro infantil. Eu escrevi ele para mim na verdade, sobre o que eu acho engraçado, o que eu gostava”.

Verdadeiro o suficiente. Rowling nunca cede para seus personagens ou leitores. E ela trabalha duro para dar à seus leitores uma história admiravelmente construída em cada livro. Como bônus, ela é engraçada: a lista de coisas que Harry deve levar para a escola inclui “três vestes comuns de trabalho (pretas), um chapéu pontiagudo (preto) para uso diário. Por favor, lembre-se que todas as roupas infantis devem ter uma etiqueta com nome”. Qualquer um que ler essas histórias não podem evitar não aparecer com um alto padrão para como uma boa história deve ser – e o conhecimento de que uma boa história não precisa de um filme ou uma mochila de lanche para que seja melhor.

Mas, os bonecos estão chegando. Warner Brothers comprou os direitos de marketing junto com os direitos de filmes para as sete partes. Quando o filme sair em uns dois anos, você verá as vassouras de Harry Potter e video-games. A parte engraçada é, muitos dos fãs de Harry Potter se importam. “Os livros são o suficiente,” diz Wendy Beauchamp, uma vendedora de livros infantis em Boston. “Se você lê eles nove vezes, as chances são que você não vai estar pensando em bonequinhos”. Agora, isso sim é magia.

Traduzido por: Letí­cia Vitória em 18/04/2006.
Revisado por: Helena Alves em 26/05/2006.
Postado por: Fernando Nery Filho em 30/04/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.