Suarez, Ray. “Magia de publicação: um olhar sobre o poder mágico de um livro infantil”. Jim Lehrer NewsHour (PBS), 10 de julho de 2000.
CRIANÇAS: Quatro, três, dois, um… (Crianças gritando)
RAY SUAREZ: Crianças em ambos os lados do Atlântico aglomeraram-se nas livrarias neste fim de semana à procura do livro do verão, o último Harry Potter. “Harry Potter e o Cálice de Fogo” é o quarto da série infantil de sete livros projetada pela autora britânica J.K. Rowling. As façanhas do jovem bruxo com a cicatriz na testa em forma de raio encantaram tanto crianças quanto adultos. Harry Potter estuda na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e participa de aventuras muito perigosas.
GAROTINHA: Eu comecei a virar as páginas com tanta intensidade, tipo ‘Eu tenho que ler, eu tenho que ler’. E então quando você acaba o primeiro, é assim ‘compre o segundo e o terceiro’. Então eu mal posso esperar para ler o quarto.
RAY SUAREZ: A publicidade do pré-lançamento foi cuidadosamente construída em um fim de semana de explosão de marketing.
GAROTINHA: Eu estou muito feliz que o novo livro foi lançado.
RAY SUAREZ: Inéditas 3,8 milhões de cópias foram lançadas no país, no sábado, um minuto após a meia-noite. Os fãs de Potter fizeram filas na sexta-feira à noite para colocarem suas mãos no volume de 734 páginas.
RICH HORTON, Gerente, Livraria Cleveland Park: Tem sido maravilhoso. É simplesmente muito bom ver as pessoas animadas com um livro – não só crianças, mas adultos também, e a atenção da mídia. As coisas estão simplesmente… É incomum para um livro. É como um filme, como o lançamento de um filme.
RAY SUAREZ: Foi a maior primeira impressão de um livro até agora. As pré-vendas inundaram as livrarias e o site de vendas pela Internet, o gigante Amazon.com, vendeu antecipadamente mais de 300000 cópias. A trama do livro de fantasia foi estrategicamente envolvida de mistério antes de seu lançamento. Até o título era um segredo até que vazou na imprensa britânica duas semanas atrás. Os livreiros assinaram uma cláusula de sigilo prometendo manter o livro protegido até a data de lançamento, 8 de julho. Alguns fãs sortudos obtiveram cópias antecipadas quando lojas da Wal-Mart na Virginia e Nova Jersey quebraram inadvertidamente o embargo da editora.
Desde que o primeiro Harry Potter foi publicado pela Scholastic em 1998, a série vendeu aproximadamente 21 milhões de cópias na América. Os livros sobre Potter passaram quase 100 semanas na lista de mais vendidos do The New York Times, e eles simultaneamente ficaram nas três primeiras posições. Isso induziu o The New York Times a criar uma lista de mais vendidos dedicada para livros infantis, começando no fim deste mês. A história do bruxo órfão foi traduzida para 35 idiomas. Até a autora não consegue explicar a atração universal exercida por Harry.
J.K. ROWLING, Autora: Essa é a pergunta que mais ouço, e eu honestamente não tenho uma resposta. Você pensaria que eu já teria inventado uma resposta interessante para ela, mas realmente não tenho, porque a verdade é que, eu os escrevi para mim mesma. Eu não sei, eu não sei.
RAY SUAREZ: Sábado, na Grã-Bretanha, Rowling lançou sua turnê em um trem a vapor especial chamado o Expresso de Hogwarts, em homenagem ao trem que leva Harry Potter à sua escola de magia. Rowling já vendeu à Warner Brothers os direitos para adaptar Harry para a telona, ano que vem.
RAY SUAREZ: Para mais sobre o fenômeno Harry Potter, nos juntamos a Valerie Lewis, co-proprietária da Hicklebee’s, uma livraria infantil em San Jose, Califórnia. Ela também é a autora de “Valerie and Walter’s Best Books for Children: A lively and opinionated guide“; a Diane Roback editora de livros infantis da Publishers Weekly, o jornal do ramo que abrange a indústria literária, e a Leonard Marcus, que é um historiador, autor e crítico de livros infantis – sua biografia, intitulada “Margaret Wise Brown: Awakened by the Moon” foi publicada ano passado. Diane Roback, nós acabamos de ouvir que J.K. Rowling não conseguiria explicar o que exatamente está acontecendo. As pessoas do ramo da editoração reconheceram um sucesso, quando os livros começam a vir da Grã-Bretanha?
DIANE ROBACK: Desculpe-me, eu não consigo ouvi-lo.
RAY SUAREZ: As pessoas da indústria literária conseguiram reconhecer que havia algo diferente, que eles tinham um sucesso com esses livros, quando eles começaram a vir da Grã-Bretanha?
DIANE ROBACK: Eu acho que na verdade isso cresceu. Cresceu pouco a pouco. Os livros tinham uma espécie de sucesso no começo, mas pelo terceiro livro, eles eram grandes best-sellers. E este quarto livro está realmente além do que qualquer pessoa poderia esperar.
RAY SUAREZ: É incomum ver um livro infantil, ou o que está sendo vendido como um livro infantil, sinceramente existe alguma coisa como essa?
DIANE ROBACK: Eu não consigo pensar em nada desse porte, tanto em tamanho quanto em valor a que tem sido vendido. Tem sido realmente inédito.
RAY SUAREZ: E, Valerie Lewis, o que os seus jovens consumidores dizem para você sobre o que eles gostam nesses livros?
VALERIE LEWIS, Livraria Infantil Hicklebee’s: Bem, um garotinho fabuloso veio outro dia e disse: “Eu gosto de Harry Potter. Você sabe, ele é um cara normal, e ele não se diverte às custas dos amigos”. Eu achei que isso era bom – ele é um personagem decente e ele consegue lidar com a coisa toda do bem sobre o mal.
RAY SUAREZ: E não há diferença entre meninos e meninas quando se trata do fenômeno Potter?
VALERIE LEWIS: Não parece haver diferença. Aliás, se referindo ao que você disse momentos atrás, quando recebemos a primeira cópia do livro de Harry Potter em nossa loja, nós ficamos tão excitados que ligamos para a editora e dissemos que se um dia essa pessoa vier para a Califórnia, mande-a aqui. Ela era desconhecida para nós, mas o livro desde o início foi simplesmente incrível.
RAY SUAREZ: Você precisa ler os primeiros livros para poder entender este novo? Você poderia começar no terceiro livro e meio que entendê-lo como a uma série de filmes antigos?
VALERIE LEWIS: Oh, eu acho que você deve começar no início. Agora… as outras duas pessoas podem pensar de modo diferente, mas eu acho que há tanto a perder, porque é um diário escrito tão lindamente e a cada ano o personagem fica um ano mais velho. E faz sentido começar do início.
RAY SUAREZ: Bem, Leonard Marcus, eu acho que as pessoas que realmente nunca ouviram falar sobre Harry Potter, pensariam que ele é mais familiar com o gênero infantil. Ele é órfão. Ele é posto sob os cuidados de pessoas que… de adultos que não cuidam muito bem dele, na verdade, e então tem que recorrer à própria esperteza. Essa não é uma história de 500 anos de idade?
LEONARD MARCUS, Historiador de Livros Infantis: Bem, é um dos temas clássicos da literatura infantil, e eu acho que uma das razões para os livros serem tão atrativos é que Rowling conseguiu sintetizar uma série de temas clássicos. Harry é um dos excluídos da literatura infantil, assim como o patinho feio, ou Tom Sawyer ou Huckleberry Fin. Ele também está vivendo em um mundo mágico, no meio de nós. Essa é uma das fascinantes premissas da fantasia, o pensamento que você não tem que ir para Marte para encontrar um mundo diferente, ele está realmente ao nosso lado se nós soubermos como procurar por ele.
RAY SUAREZ: Esta é parte da explicação para o sucesso dos livros entre as crianças, que ele cria um mundo aprovador, que é confortável para elas e também um mundo paralelo ao mundo dos adultos?
LEONARD MARCUS: Bem, isso também faz parte, mas não é só confortável, porque o mundo em que Harry vive é cheio de perigos reais e palpáveis. Eu acho que é porque é uma realidade intensificada. Essa é uma boa parte do que o torna excitante. É como o nosso mundo, elevado ao quadrado ou ao cubo. Então há mais sobre ele. E eu acho que há outra razão para isso… esta é uma das razões porque os adultos se interessam tanto. É uma realidade intensificada. Rowling é também uma piadista, e de muitas formas ela está falando sobre o mundo que conhecemos de uma forma indireta.
RAY SUAREZ: Diane Roback, muita atenção foi prestada, durante o fim de semana, à publicidade esbanjada neste livro. Perguntam-se se eles tinham mesmo que passar por tudo isso desde que os livros… para começar havia tanta agitação sobre eles. Mas será que chega um momento no qual podemos assumir que é realmente a qualidade dos livros que tem sustentado tudo isso, que você poderia pegar algum livro não tão merecedor e divulgá-lo até a morte e talvez ninguém o lesse?
DIANE ROBACK: Bem, eu diria isso sobre o que está sendo chamado de a publicidade sobre o livro: parte das crianças, de qualquer forma, essa fama está na verdade seguindo a história ao invés de criar mais procura pela obra. As crianças realmente amam esses livros. E elas não têm nada a ver com essa publicidade. Eles não estão ouvindo o que a mídia está dizendo. Eles não estão vendo os anúncios sobre os livros ou esse tipo de coisa. Eles só estão interessados no livro. Eu acho que o que essa fama está fazendo, assim como a mídia, é informar muitos adultos sobre os livros que nunca seriam expostos a eles, talvez não foram… eles não tem filhos, eles não tem netos, e eu acho que Harry Potter se tornou um nome familiar agora graças a essa publicação.
RAY SUAREZ: Você, que é do ramo de editoração, tem um jeito de saber quantos adultos estão lendo esses livros?
DIANE ROBACK: Bem, recentemente foi feito um estudo que disse que quatro de dez livros comprados de Harry Potter foram comprados por adultos e para adultos. Agora, isso foi obviamente antes de sábado quando o novo livro foi lançado. Mas eu acho que essa é uma boa indicação de quão grande é o interesse pelos livros.
RAY SUAREZ: Na série, Harry Potter está ficando mais velho assim como os leitores. Isso significará uma mudança real na história quando J.K. Rowling estiver escrevendo sobre um adolescente?
DIANE ROBACK: Bem, será interessante de ver. Você está certo, os adolescentes – os leitores ficarão mais velhos junto com Harry. Mas para as crianças que são mais novas do que a faixa etária de Harry, eles podem comprar esses livros em um ano ou dois, e eu acho que… Não é realmente sobre isso, mas existe alguma coisa no fato de que os livros, serão sete livros, é uma série finita. As crianças podem crescer com os livros. E eu acho que isso aumenta muito o interesse sobre eles.
RAY SUAREZ: Valerie Lewis, como uma vendedora de livros, eu estou certo de que você está simplesmente encantada com essa idéia. Sete, uma nova geração de cada geração de jovens de quinze anos e de oito ou nove anos podem querer adquirir os livros e começar pelo início.
VALERIE LEWIS: Certo. Eu quero dizer, é muito animador. Isso é sobre um livro. E é emocionante para aqueles de nós que têm tentado levar livros às mãos das crianças.
RAY SUAREZ: Você se sente constrangida pela forma como esses livros são vendidos, ou isso a ajudou como vendedora a lidar com a procura pelo livro?
VALERIE LEWIS: Tem sido bem divertido. Eu meio que gosto do desafio de ter que descobrir como será a próxima maneira usada para receber esse livro. Esta manhã, quando fui trabalhar depois deste fim de semana agitado de Harry Potter, eu fui até a porta de frente, e lá estava uma coruja feita de origami e eu a tirei da porta. Dentro do bico dela tinha um bilhetinho vermelho, eu o abri e dizia simplesmente, “Obrigado por tudo o que você faz”. E cada um de nós, da equipe, pensou que é sobre isso mesmo. Nós deixamos a comunidade tão animada que eles estão nos agradecendo porque conseguimos entregar-lhes esse livro que eles tanto querem ler. E isso é muito emocionante.
RAY SUAREZ: E não fui ruim para você também desde –
VALERIE LEWIS: Não foi ruim para nós.
RAY SUAREZ: – humanos não deviam ser capazes de receber aquelas mensagens das corujas. Aquelas são para os bruxos, certo?
VALERIE LEWIS: Está certo. Mas os adultos têm lido livros infantis. Harry Potter não é o primeiro – pois eu tenho lido muito sobre Harry Potter estar interessando os adultos. Nós temos tido adultos que vem à nossa loja e leem autores como David Almond ou Philip Pullman, outras pessoas que escrevem basicamente para os jovens – tem um bom número de fãs entre leitores adultos.
RAY SUAREZ: Leonard Marcus, você pode classificar este livro, de certo modo, na vasta gama de obras que têm sido escritas para crianças atualmente, ou este pertence a uma classe própria?
LEONARD MARCUS: Bem, cada livro é um pouco diferente. E como eu disse antes, este livro representa um tipo de convergência de diferentes gêneros. Tem histórias de mistério. Histórias de amizade. Tem o ponto de vista do super jogo de futebol que eles praticam. Então temos um tipo de livro de esportes, também. Há uma longa tradição de romances para adultos, assim como para crianças, sobre estudantes, estudantes que estão aprendendo sobre a vida e estão se preparando para ela. Eu acho que uma das maneiras pela qual esta série está determinada a evoluir é porque nós iremos aprender mais e mais sobre os usos da magia que estas crianças estão treinando – para o quê será usada, para o bem ou para o mal.
RAY SUAREZ: Algumas pessoas disseram que esses livros são meio sombrios e eles têm em mente, especialmente, a faixa etária dos jovens leitores. Existem assassinatos casuais. Existe morte frequente. Os pais deviam saber que isso está acontecendo?
LEONARD MARCUS: Bem, sim, eles também deviam perceber que as crianças, de uma idade muito tenra, sabem sobre morte e outros assuntos sombrios. E o que os livros têm a oferecer é uma forma de adaptar essas experiências e colocá-las no contexto da vida. Uma história tem o poder único de colocar esses assuntos desagradáveis dentro da estrutura de um começo, um meio e um fim. De alguma forma, isso é consolador, ao mesmo tempo em que oferece um tipo muito valioso de compreensão.
VALERIE LEWIS: Você sabe, eu gostaria de interromper nesta parte, porque eu acho que aqueles que sobreviveram a João e Maria… fala sobre abuso. Nós temos um pai que manda seus filhos ficarem na floresta. As crianças, inteligentes, conseguem encontrar seu caminho de volta. Eles não são recebidos com alegria, exatamente. O pai deles os leva para um ponto ainda mais longe, dentro da floresta. Lá está escuro. Eles encontram um caminho, não para casa dessa vez. Mas eles se encaminham para uma casa feita de guloseimas que eles logo descobrem ser a morada de uma bruxa, uma canibal interessada em… ela prende o irmão mais velho em uma jaula e tenta alimentá-lo. E então a irmã tem que matar a bruxa incinerada, para poder salvar o irmão. E aí então, eles acham o caminho de volta para casa.
Essa é uma história terrível. E não conseguimos evitar a pergunta: como nós sobrevivemos a isso? E eu acho que é porque as crianças que ouvem esta história não estão se concentrando na bruxa ou no pai abusivo. Eles estão pensando “uau, aquelas crianças sobreviveram”. E todo ano quando pais vêm até mim e dizem, “Eu tenho um filhinho que está tendo pesadelos e quer ler ‘Onde Vivem os Monstros’, o que você recomenda?”. Eu sempre digo, nós estamos olhando para os meses breves. Há uma chance que a criança esteja vaiando um garotinho que vê o menino que diz coisas selvagens e as doma absolutamente. Então quem sabe – talvez as pessoas – eu quero dizer, essa é a solução perfeita para os mais jovens que estão lendo um livro onde existem crianças capazes de vencer todos aqueles vilões.
RAY SUAREZ: Bem, conselho, muito obrigado a todos por estarem conosco.
Fonte: http://www.pbs.org/newshour/bb/media/july-dec00/rowling_7-10.html
Traduzido por: Fabianne de Freitas em 31/01/2009.
Revisado por: Thais Teixeira Tardivo em 22/02/2009.
Postado por: Vítor Werle em 24/02/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.