Treneman, Ann. “Eu não estou escrevendo pelo dinheiro: é por mim e por lealdade aos fãs”. The Times (Londres), 20 de junho de 2003.

Passado um minuto da meia- noite, o quinto livro de Harry Potter irá atingir as livrarias. Em uma entrevista exclusiva, J.K. Rowling conta a Ann Treneman como ela finalmente chegou a um acordo com a celebridade, e como o casamento e seus filhos fizeram-na mais feliz do que ela jamais fora.

JOANNE KATHLEEN ROWLING é uma mulher feliz nesses dias, e isso é visível. Ela me encontra no topo das escadas em sua casa, bebê nos braços. O nome dele é David e ele é redondo e macio e fofo. Nós todos vamos para o cômodo da frente e lá, na prateleira, está o outro bebê da sua vida: um pára-porta de 1 kg que é o quinto livro da série Harry Potter, Harry Potter e a Ordem da Fênix.

“É grande. Muito grande”, diz ela. “Eu não ousei contar as palavras”.

Então que tamanho é grande? Afinal de contas, Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto livro, tinha 636 páginas.

Joanne espia a última página. “Tem 766 páginas. Quando eu o terminei, pensei, meu Deus, é maior que Cálice. Eu já sabia que era, mas pensei, ‘bem, talvez seja ligeiramente maior’ e então eu falei com minha editora na Bloomsbury e ela disse, ‘você sabe como ele é longo, óbvio?’, e eu disse, ‘não, na verdade eu não sei’. E tinha duzentas e cinqüenta mil palavras”. Sua voz soa como um sussurro. “Eu quase morri.”

Você não tem um editor que corta as coisas?, perguntei abruptamente.

Ela ri e assume uma voz de ator: “Você não tem um editor? Ninguém jamais tenta te parar!”. Ela volta a sua voz normal. “Sim. Claro que eles tentam. Mas sinceramente eles sentiram que a informação contida no livro era necessária.”

Essa foi a terceira vez que eu entrevistei J.K. Rowlling. A primeira vez foi em 1997, após a publicação do primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ela era uma estrela em ascensão sem ter idéia da galáxia em que ela e Harry iriam adentrar. “Eu nunca sonhei que isso aconteceria,” ela então disse, quando as vendas atingiram os 30.000. “Meu lado realista tinha me permitido pensar que eu poderia receber uma boa crítica. Esta era a minha idéia de auge. Então todo o resto realmente tem sido como pisar no País das Maravilhas pra mim.”

País das Maravilhas, fato. Três anos depois, em maio de 2000, nos encontramos em um quarto de hotel em Edimburgo. Ela tinha acabado de terminar Harry Potter e o Cálice de Fogo e estava impaciente e engraçada e nervosa, fumando cinco Marlboro Lights em duas horas e falando como uma metralhadora. Naquela época ela tinha vendido 30 milhões de cópias, um filme estava para ser lançado e o mercado estava se preparando. Sua riqueza estava estimada a 15 milhões de libras, mas sua vida, que girava em torno de sua filha, escrever e amigos, não tinha nada do lustre que o dinheiro podia trazer.

Três anos passaram-se rapidamente. Agora Rowling vendeu quase 200 milhões de livros e vale aproximadamente 280 milhões de libras. Ela é mais rica que a Rainha e é enumerada como a 122ª pessoa mais rica (e a nona mulher mais rica) da Grã-Bretanha. Algumas pessoas iriam festejar por causa desses fatos, cintilando como um diamante sob a luz do sol. Eu duvidava que Rowling iria: a última vez que nos encontramos ela negou que era famosa e disse que a sua única maior compra tinha sido um anel de água-marinha que ela chamava de seu anel “Ninguém Está Me Colocando Para Baixo”.

Eu estava curiosa para encontrá-la de novo e ver como ela tinha mudado. É verdade que eu não tenho visto Joanne exibindo sua adorável mesa de jantar nas páginas da revista Hello! ou algo do tipo , mas nunca se sabe: dinheiro e fama podem corromper tanto quanto o poder. Os fatos são poucos. Ela tem 37 anos de idade agora e se casou com o Dr. Neil Murray, um anestesista, 18 meses atrás. Jessica, sua filha de um casamento anterior, tem quase 10 anos, e David nasceu em março. A família tem casas em Edimburgo, Perthshire e Londres.

Sua casa principal é a de Edimburgo e foi lá que nos encontramos. Por alguma razão eu tinha decidido que ela deveria ser uma minimalista – restos, ou minha lógica se foi, dos dias de pobreza. Errado. Sua casa é vibrante com cores e decorações, e o cômodo frontal é cheio de livros e fotografias. Não é um mostruário, mas uma casa bem “família”. Aparentemente, há um cachorro em algum lugar da casa. Certamente há um bebê no cômodo que oferece um murmúrio como música de fundo para a entrevista.

J.K. Rowling é incrível. Ela parou de fumar três anos atrás e, como está amamentando, teve até que deixar de usar Nicorette. Ela explica isso enquanto alcança um pacote de Wrigley’s e me aconselha a comprar ações na empresa. A entrevista, assim como os acontecimentos tendem a ser quando bebezinhos estão envolvidos, é o resultado de um planejamento meticuloso. Ela passou todo o final de semana se perguntando como ia alimentar e trocar o bebê e estar apresentável “com todos os meus botões fechados apropriadamente” na hora correta.

Leva apenas um minuto para se ver que ela mudou. Definitivamente. Ela está mais relaxada, suas bordas arredondadas. A máquina de chicletes foi substituída por uma voz mais baixa e macia, embora sua risada exagerada continue a mesma. Eu digo que ela parece diferente, mais calma.

“Estou mil vezes mais calma. Sim. Mil vezes. Eu acho que estou mil vezes mais feliz agora, o que me faz ficar mais calma.”

Bem, digo, você não estava na última vez que nos encontramos.

“Mas você me viu provavelmente durante minha pior fase. A última vez que você me entrevistou não era uma época feliz. Escrever o livro quatro foi um pesadelo absoluto. Eu literalmente perdi o enredo no meio do projeto. Meu próprio prazo de entrega era totalmente irrealista. Foi minha culpa, porque eu não contei pra ninguém. Eu só segui em frente, como eu costumo fazer na vida, e então percebi que eu realmente tinha me metido em problemas. Eu tinha que escrever com fúria para cumprir o prazo e isso meio que me matava e eu estava mesmo, oh, acabada no final disso. Realmente acabada. E a ideia de seguir para outro livro do Harry Potter me encheu de medo e horror. E aquela foi a primeira vez que eu me senti daquele jeito. Eu vinha escrevendo Harry Potter por 10 anos até 2000 e aquela foi a primeira vez que eu pensei, Oh Deus, eu não quero continuar.”

Rowling, que teve a ideia para a série de sete livros chamada Harry Potter em um trem atrasado para Manchester em 1990, não teve um intervalo desde que começou a escrever a sério como uma mãe solteira sem dinheiro. Até então, ela escreveu a maior parte do tempo em cafés. Quando ela terminava um livro ela começava o próximo imediatamente, às vezes no mesmo dia. E então, tendo escrito recentemente Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto livro, ela sentiu imensa pressão para começar o próximo.

Esta não foi a primeira vez que ela sentiu a tensão dos prazos de entrega. “A primeira coisa que eu fiz quando eu terminei Prisioneiro de Azkaban foi discutir o reembolso do adiantamento para o próximo livro.” Eu fico chocada com isso. “Sim, você pode imaginar. As pessoas estavam um pouco agitadas, eu acho. Eu disse: eu quero devolver o dinheiro e então eu estarei livre para terminar no meu próprio tempo e não ter que produzi-lo para o ano que vem.”

E agora, depois do livro quatro, ela disse novamente para seu editor que não poderia fazer um calendário tão apertado para o próximo livro. “Porque eu sabia que não poderia fazer. Bem, eu provavelmente poderia ter feito sim. Porque eu trabalho muito pesado. Eu PODERIA ter feito isso, mas o livro teria ficado péssimo e então eu teria tido um colapso e dito: ‘É isso, não mais. Não posso mais fazer isso’. Então, eu disse isso a eles.” Seus editores disseram para ela produzir o livro em seu ritmo.

Ela tirou umas férias de Harry, mas continuou escrevendo porque, como ela diz, “eu tenho que escrever”. Ela não disse muito sobre o que estava escrevendo, exceto que aquilo era “totalmente para mim” e uma história. Como um romance? “Sim,” diz ela. “Está incompleto.

“As férias duraram a maior parte de um ano. Eu estava muito consciente – e não precisava de ninguém para me dizer isso – de que eu precisava parar e que precisava tentar chegar a um acordo com o que tinha acontecido comigo. Eu tinha mesmo que tentar lidar com o que tinha acontecido porque eu não estava lidando. Não estava mesmo. Por um bom tempo as pessoas me perguntaram, ‘Como é ser famoso?’, e eu dizia ‘eu não sou famosa’. Agora, isso era evidentemente mentira. Essa era a única forma de eu poder lidar com isso, estando em tanta negação que ficava praticamente cega.

“Eu sempre me senti como se eu estivesse correndo para alcançar a situação. Então, agora, eu poderia lidar com o fato de que eu estava sendo entrevistada na minha casa mas não com o fato de que eles estavam indo atrás da minha vida privada. Eu sempre estive vários passos atrás. Eu não conseguia compreender o que tinha acontecido. E acho que muitas pessoas não conseguiriam. A coisa ficou muito grande.”

Sempre perguntam a ela o porquê de Harry Potter ter ficado tão famoso. “E eu não posso responder a essa pergunta. Não posso. Isso soa modesto. Soa insincero. Nunca penso nisso desta forma. Eu acho que seria perigoso para mim pensar nisso dessa maneira, me sentar e analisar isso, decidir o porquê. Seria um exercício de quem olha para o próprio umbigo. Isso também possivelmente me levaria a deduzir que eu estava fazendo certas coisas corretas e talvez certas coisas que eu deveria deixar de fazer e se você começa a escrever dessa maneira…”

Com a cabeça e não com o coração, eu digo.

“Exatamente. Então eu acho que você está perdido. Eu certamente estaria perdida se eu parasse de gostar disso. E no fim das contas eu preciso fazer isso. Quero dizer, qual é o sentido disso? Eu poderia ter parado de escrever há quatro anos e nós estaríamos bem financeiramente. Então eu não escrevo pelo dinheiro. Eu poderia muito bem fazer isso sem a fama. O único sentido é satisfazer a mim mesma agora e por lealdade aos fãs.” E ao Harry também, eu digo.

“Absolutamente. Quando é para mim, é para Harry… sendo verdadeira com o que eu sei que será o fim dele.”

Como você descreveria seus sentimentos em relação à fama?

“Eu nunca a quis e nunca a esperei e certamente não trabalhei para isso e eu a vejo como algo que eu tenho que superar, de verdade. Tem aspectos bons, mas para mim, particularmente, os negativos provavelmente superam os positivos. E estamos conversando aqui sobre ser famoso em oposição a ter o dinheiro porque o dinheiro obviamente me aliviou de muitas preocupações e fez com que minhas crianças ficassem seguras no sentido de que eu sei que elas terão o suficiente para comer e assim por diante. E é isso o que o dinheiro significa pra mim.”

Sim, eu digo, mas você está muito além disso.

“Com certeza. Isso foi para muito além disso.”

É estranho?

“Sim, é muito estranho. E você se sente culpada por isso. Um amigo meu disse pra mim outro dia, ‘mas eu apenas iria a uma loja e diria que eu quero um daquele, um daquele e um daquele em todas as cores. Por que você não faz isso?’. Mas o fato é que uma vez que você pode fazer isso, você não quer muito fazer. A quantidade de coisas que você realmente quer comprar, quando pode, diminui muito. Enquanto que, quando eu estava completamente dura, eu teria comprado tudo.”

Então você queria comprar coisas, naquela época?

“Sim. Porque eu não podia. Simplesmente não podia. Quero dizer, uma nova toalha de chá poderia me deixar muito empolgada. Você acha que eu estou brincando!”

O que você quer dizer por sentir-se culpada?

“Parece que, bem, isso veio para mim através da coisa que eu mais gosto de fazer. Então eu acho que eu me sinto como se não tivesse sofrido muito por isso.”

Eu digo que não é assim que as coisas funcionam.

“Eu sei. Eu sei. Todos nós sabemos que não é assim que funciona. O mundo está completamente ferrado. Quando David nasceu tinha uma empresa me enviando roupinhas de bebê de graça. Eu achei isso muito chato e realmente fiquei muito triste por um tempo. Eu me lembro da Jessica, se alguém tivesse me dado roupinhas de graça naquela época, teria sido uma grande coisa. Eu teria ganhado a semana inteira. É muito injusto, não é?”

Rowling diz que ela ama escrever, tem que escrever, feliz ou triste, mas que é muito mais fácil se ela está feliz. O livro novo foi escrito durante a fase mais feliz da vida dela. Ela já tinha começado a trabalhar nisso antes do seu casamento no Boxing Day (um dia depois do Natal) em 2001. Eu digo que deve ter sido emocionante conhecer alguém novo. “Foi incrível. Sempre quis ter mais filhos e eu alcancei o objetivo quando eu pensei, ‘ok, eu tenho sido tão sortuda’. Eu tenho os livros. Tenho a Jessie. Não posso reclamar e então tudo tem sido maravilhoso.”

É verdade, eu pergunto, que você conhece alguém quando não está procurando?

“Sim. Definitivamente. Eu não esperava conhecer ninguém, de verdade. Eu achava que a bagagem era muita e é uma banalidade quando você fica famoso, não é que eu não encontrei ninguém, é que eu não encontrei ninguém que valia um relacionamento, muito menos casamento. Claro, você conhece sim pessoas, mas tende a ser aquelas que querem se aproximar de você e talvez não aquelas que você realmente gostaria de conhecer.”

Ela diz que é sorte tanto para ela quanto para seu marido que suas carreiras são tão divergentes. “Na noite em que nos conhecemos ele me disse que tinha lido as primeiras dez páginas de Pedra Filosofal em um expediente noturno no hospital e achou que era muito bom. Eu achei que aquilo era fantástico. Ele não tinha lido os livros. Ele não tinha uma ideia muito clara de quem eu era. Isso significava que a gente poderia se conhecer melhor de uma maneira muito normal. Eu acho que ele quer se apressar agora. Na época ele não tinha a menor ideia de tudo isso.”

Ela escreveu maior parte do novo livro em Edimburgo e algumas partes em Perthshire. Ela não escreve mais em cafés porque as pessoas a vêem e isso a torna autoconsciente. Em casa, ela escreve durante a manhã toda em seu escritório, que é do tamanho de uma cama de solteiro e o menor cômodo da casa, até sentir fome, por volta das 12h30min, normalmente. Ela prepara um sanduíche e então volta para o computador até Jessie voltar da escola (ela não tem uma babá desde que se tornou parte de uma família com os dois pais). Elas caminham com o cachorro, um Jack Russel. Ela faz chá. Neil volta para casa. Dependendo do tanto que ela está cansada, ela pode escrever mais à noite.

Um dia na semana é reservado para “coisas de caridade”. Ela tem um fundo de caridade e é a protetora de vários grupos, incluindo um para pais solteiros e a Multiple Sclerosis Society da Escócia (sua mãe morreu da doença em 1990 aos 45 anos). Eu digo que acredito que ela dá muito dinheiro anonimamente e ela encara o tapete, lábios pressionados.

Rowling engravidou quando estava no meio do livro e soube que ela queria terminar antes do bebê nascer. “Eu estava ficando cada vez maior e então, um pouco antes do Natal, eu percebi que eu tinha terminado o livro e isso foi a coisa mais maravilhosa. Uma coisa incrível. Isto realmente me pegou de surpresa. Eu estava escrevendo o último capítulo, reescrevendo algumas partes como você faz, e então eu me vi indo para o último parágrafo e pensei: ‘Oh meu Deus, terminei o livro!’ Eu não podia acreditar que eu tinha conseguido!

Eu faço alguns comentários sobre quão longo ele é e ela diz: “É histérico. Levou um dia para eles deixarem de dizer ‘ela tem bloqueio de escritor’ para dizer ‘ela tem sido auto- indulgente’. E eu pensei, ‘bem, que diferença 24 horas fazem’.”

O “eles” naquela frase é a imprensa. Ela se ofende com a ideia de que foi falado que ela tinha bloqueio de escritor tanto quanto ela se ofende com a pressão de um prazo. Ela admite ser “muito sensível”. “Mas essa é quem eu sou e eu não poderia escrever os livros se eu não fosse quem sou.” Ela estava genuinamente aflita pelas acusações, acusada pela escritora americana Nancy Stouffer, por ser uma plagiadora e festejou quando uma corte de Nova Iorque julgou que ela era inocente no ano passado. Ela é feroz sobre proteger a privacidade de Jessica, nunca a usando em publicidade ou indo com ela a estréias de filmes. Raramente ela fala sobre a filha, embora, quando eu pergunto porque ela comprou a casa de Londres, ela ri e diz que tinha ficado no hotel Claridge e que “minha filha estava ficando acostumada demais com serviços de quarto”.

É fácil esquecer, sentada nesse cômodo iluminado e aconchegante, do lado negro da Potter mania. Mas está lá fora. Algumas pessoas são obcecadas com a ideia de que os seus livros estão ensinando as crianças sobre o mau e magia e acreditam que Rowling é uma espécie de bruxa. “Eu encontrei ameaças de morte a mim na Internet,” diz ela, descrevendo como ela estava procurando por algo quando ela se achou em um site de odiadores de Potter. “E então, em meio a essas mensagens que eu encontrei, bem, pessoas sendo aconselhadas a atirar em mim, basicamente. O que não foi uma coisa legal de se encontrar. É bizarro.” Ela suspira. “Mas o que você pode fazer?”

“A fama é uma experiência muito estranha e isoladora,” diz ela. “E eu sei que algumas pessoas anseiam por isso. Muitas pessoas anseiam por isso. Eu acho isso muito difícil de entender. De verdade. É incrivelmente isolador e coloca uma grande corrente em seus relacionamentos.” A maioria de seus amigos foi abordada na porta de suas casas e receberam ofertas de dinheiro de jornais por suas histórias e isso faz Rowling se sentir culpada.

Pelo seu ponto de vista, alguns jornalistas estão encarnados em Rita Skeeter, uma personagem que, quando foi vista pela última vez, tinha se transformado em um besouro e presa em uma jarra. “Sou fascinada pela Rita e sinto um respeito relutante,” diz Rowling. “Ela tem o rinoceronte escondido que eu gostaria muito de ter, mas não tenho. E você tem que admirar sua persistência e habilidade. Mas não gostaria de conhecê-la.”

É difícil fazer uma entrevista em cima de um livro que eu não tive autorização de ler. Ela compreende, mas também não se importa muito. “Esse livro é meio que uma renúncia. Harry está muito nervoso. Muito nervoso. E está assim na maior parte do livro. Mas eu acho que é bem justo dado o que aconteceu com ele e pelo fato de não o terem dado muita informação. Então não é uma história muito gentil. E há uma morte horrível também. Horrível porque é alguém que eu gosto muito como personagem.”

Ela acrescenta: “Dessa vez é alguém que eu considero como uma personagem principal.” Ela chorou quando escreveu a cena da morte, assim como ela chorou duas vezes ao escrever Harry Potter e o Cálice de Fogo.

Agora Harry “está na puberdade, tendo uma fase tão fácil quanto a que eu tive”. E como esta fase foi? “O que eu fui, eu não tinha certeza e não acho que alguém tinha também! Eu só acho que é uma fase bastante confusa. Sim, ele está muito confuso em uma maneira de garoto. Ele não entende como funciona a cabeça das meninas”. Eu digo que, aos 15 anos, os meninos não dizem nada. Ela ri e diz que Hermione está mais que feliz de preencher todo esse silêncio com seus conselhos.

Dessa vez Harry realmente, pela primeira vez, tem um relacionamento daqueles. A ênfase está no “daqueles”. “Foi muito divertido de escrever, na verdade. Eu acho que você vai achar triste. Você deveria achar triste, é triste, mas foi tão divertido de escrever. Pobre Harry! Pelo quê que eu o fiz passar.”

Ela já começou a escrever o livro seis. “Eu o comecei quanto estava grávida. Foi uma situação diferente porque eu sabia que eu não precisava dele pronto mais rapidamente do que eu queria! Você sabe, absolutamente o contrário de Cálice de Fogo. Eu também estou numa posição adorável. Contratualmente, eu nem preciso escrever mais nenhum livro. Então mais ninguém pode escrever que eu perdi um prazo de entrega porque na verdade eu não tenho nenhum prazo contratual para o seis e para o sete.”

Então você tem liberdade, eu digo.

“Com certeza eu tenho liberdade. Eu quero passar algum tempo com o David porque eu ainda não o tive para então entregá-lo a um batalhão de babás. Mas eu quero muito fazer o seis e o sete.”

Certamente, eu digo, o sexto será menor. E ela concorda. “O sétimo, por outro lado, provavelmente será maciço… isso tem sido uma parte tão maciça da minha vida. Eu posso me ver muito assustada de perder isso. Provavelmente eu vou chegar no fim do sétimo e pensar, eu só vou me divertir mais um pouquinho, só mais um pouquinho. O fato de que eu terei terminado será extraordinário.”

Mas o último capítulo do sétimo já não está escrito? “Sim,” ela diz, “está escondido”. Em um lugar secreto? “Guardado por trasgos.”

Alguém sabe de algo?

“Eu não contei pra ninguém. Literalmente ninguém. Se alguma vez você ouvir alguém dizer que sabe o que acontece no final, ele está sem dúvidas mentindo. Nunca contei pra ninguém.”

Talvez se você ficar bêbada…

“Eu jamais contaria pra alguém. Apenas sei que não. Você não conseguiria me deixar bêbada suficiente!”

É hora de ir. David já enjoou de seus celulares e balanços e nós conversamos por uma hora e meia. Essa entrevista é muito diferente da anterior, e me parece que nos três últimos anos Joanne Rowling cresceu. Ela encarou seus medos pessoais em relação à fama, dinheiro e insegurança. Ela tem equilíbrio na sua vida e agora, além de todo o resto, liberdade. É uma mistura inebriante, certamente um País das Maravilhas, mas ela vai pôr os pés com calma lá. “Eu sou o tipo de pessoa que espera o Senhor Catástrofe se espreitando na esquina porque ele tem feito isso freqüentemente. Eu tento descobrir um equilíbrio entre ser muito agradecida pelo que aconteceu – porque eu estou agradecida demais por isso – e estar morrendo de medo porque eu acho que tudo pode dar errado amanhã.”

Traduzido por: Priscila Elen Gonçalves em 19/02/2011.
Revisado por: Fernanda Midori em 20/02/2011.
Postado por: Fernando Nery Filho em 24/04/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.