Martin, Sandra. “Saí­do da dificuldade, Harry nasceu”, The Globe Review (Toronto), 23 de Outubro de 2000

JK Rowling conta a Sandra Martin como, sendo uma mãe solteira, lutou contra a depressão e a miséria. A filha e sua escrita foram a sua salvação.

TORONTO – Falando rápido, engraçada daquele jeito rude do sul da Inglaterra, JK Rowling tem todos os enfeites de celebridade, mas nenhuma atitude. Ela deixa o trabalho pronto, seja escrevendo o sucesso fenomenal dos seus livros de Harry Potter ou falando com jornalistas sobre o seu trabalho, sua vida e o próprio Harry.

Rowling está programada para se apresentar na maior leitura de todos os tempos na SkyDome na terça-feira de manhã como parte do Festival Internacional de Autores em Toronto. Antes que possa se associar com seus leitores, se isso for possí­vel em um equipamento tão cavernoso (ela admite estar apavorada), têm negócios para completar. E isso significa, eventos, programações, coletivas de imprensa, um almoço de caridade e rápidas entrevistas com a impressa e repórteres televisivos.

Porque ela não perde tempo com entradas, eu não conseguia nem vê-la a princí­pio, no meio da agitação dos organizadores no quarto de hotel reservado ontem especificamente para uma entrevista exclusiva. Parcialmente porque ela é tão pequenina. Ela usava calças de lã xadrez cinza, um casco preto e botas pretas de salto alto. O cabelo dela ainda cai sobre seus olhos com rimel preto, mas ela mudou a cor de vermelho para loiro com raiz escura. Ela parou de fumar em maio e agora é viciada em chiclete de nicotina, tudo isso ela admite alegremente no primeiro minuto de nossa conversa.

Os fatos sobre Joanne Kathleen Rowling são quase tão conhecidos quanto os detalhes miseráveis da criação de Harry Potter pelos seus guardiões, aqueles trouxas terrí­veis, os Dursley. Rowling, que nasceu 35 anos atrás, na cidade bizarramente chamada de Chipping Sodbury, perto de Bristol na Inglaterra, é uma mãe solteira, que fugiu de um casamento ruim pouco depois de sua filha, Jessica, nascer, e conseqüentemente se viu muito pobre e deprimida.

O que importa para Rowling é o que aconteceu tanto para ela quanto para Harry Potter. “Eu tive muita sorte”, ela diz. “Eu não sofri de depressão por muito tempo, mas me lembro vividamente de como me senti. Eu não tinha esperança e eu não acreditava que iria me sentir alegre de novo”.

Depressão e morte são os temas centrais nos livros de Harry Potter, mesmo que eles sejam vendidos como simples histórias de aventuras sobre bruxos e poções mágicas. O objetivo do malvado Lorde Voldemort é vencer a morte, presumidamente vivendo para sempre. Rowling concorda que a idéia é muito importante para a historia, mas ela não revela sua visão sobre a finalidade da morte ou a possibilidade de uma vida imortal até que ela termine todos os sete livros da série.

“Eu sinto que eu estou na metade do caminho de escrever um enorme livro, e eu estou muito frustrada que as pessoas estejam fazendo suposições sobre o que vou dizer quando eu ainda não disse”.

Ela não dará muita cosia pelo motivo “óbvio e banal” de que ela não quer que seus leitores adivinhem o que está pra vir. O que ela permitirá é que no livro cinco que está para sair, Harry Potter e a Ordem de Fênix, os leitores dêem “um grande passo comigo” em examinar o que a morte quer dizer para sobreviventes e perdedores.

Harry sabe muito mais sobre morte do que a maioria das crianças. Ele é um órfão cuja mãe foi assassinada tentando protegê-lo de Voldemort. Sua tarefa no livro não é apenas enfrentar o mal, mas também descobrir sobre ele mesmo e seu passado.

A saudade dos pais dele é profunda e reflete a própria saudade de Rowling por sua mãe, que morreu de esclerose múltipla quando ela tinha 45 e Rowling 20. Ela definitivamente estava pensando em sua mãe no primeiro livro, quando Harry olha no espelho e vê seus pais. Mas “cinco minutos nunca seriam o suficiente para vê-la”, diz Rowling. “Isso é uma coisa que você tenta superar”.

O que ela ama em Harry como herói é a sua vulnerabilidade e sua crença na esperança. É isso que o torna frágil para os Dementadores, criaturas desprezíveis que sugam toda a esperança pela boca de suas ví­timas. Rowling criou os Dementadores para simbolizar a depressão, o mal-estar que quase a fez tombar seis anos atrás.

“Eu não quero dizer se sentir triste”, ela diz. “Isso é normal, é uma emoção saudável. Depressão é perder a capacidade de sentir certas emoções, e uma delas é esperança”. Pelo bem de sua filha, ela procurou ajuda. “Ela era meu amuleto de sorte. Se não tivesse sido por ela, eu provavelmente nunca teria tido coragem de ir ao médico e dizer que eu precisava conversar sobre coisas”.

Outra salvação foi escrever. Rowling inventou Harry Potter num momento quando viajava de trem de Manchester para Londres, uns seis meses depois da morte de sua mãe. Mas ela começou a escrever muito mais intencionalmente, sentada em cafés e escrevendo a mão enquanto sua filha dormia. “Escrever ajudava muito a minha sanidade. Dava algo em que me focar”.

Ela admite que teve sorte por poder escrever, mesmo quando estava diagnosticada como clinicamente depressiva, e que ela tinha disciplina para desligar a televisão à noite e usar qualquer tempo que tivesse enquanto sua filha estava dormindo, durante o dia. “Eu não podia me dar ao luxo de ter um bloqueio. Eu tinha no máximo duas horas”. Ela diz que ela provavelmente nunca foi tão produtiva desde então, em termos de números de palavras que ela produz por dia.

“Se você sabe que ela talvez não vá cochilar amanhã, você vai aproveitar a oportunidade. Então, saí­do da dificuldade…” ela ri. Essa disciplina nunca a deixou como é óbvia por sua produção de quatro livros em tantos anos. Mesmo assim, Harry Potter e a Ordem de Fênix provavelmente não aparecerá no verão de 2001.

Rowling achou o quarto livro, Harry Potter e o Cálice de Fogo, uma verdadeira pancada. “Eu nunca trabalhei tantas horas em um livro, e eu não quero fazer isso de novo. Dez horas por dia não é bom quando você tem uma criança”.

O problema não é a severidade da Pottermania e sua celebridade, mas que ela quer ficar mais tempo com sua filha, que agora tem sete anos. Quem não queria? “Sim”, ela ri, brincando que ela irá adiantar a escrita de novo quando Jessica for adolescente. “Ela não vai querer me ver de qualquer forma, mas enquanto ela quer, eu acho que seria uma boa idéia passarmos um tempo juntas”.

Criação e construção da história são suas obsessões como escritora. Rowling discorda da descrição de construção de enredo de Nancy Mitford como uma virtude fatal. Para ela é muito importante. Seu modelo favorito de criação de todos os tempos é Jane Austin, o que é surpreendente, pois seus estilos e ritmos são tão diferentes.

“Eu não estou dizendo que sou ótima nisso”, ela acrescenta rapidamente, “mas é para isso que estou mirando. Eu amo ler um livro bem planejado e sentir que o ritmo está te levando como música”.

Sua outra paixão é corrigir informações erradas da mí­dia. No topo da lista de coisas é noção de que ela é nostálgica sobre os romances de internatos que ela lia em sua infância. Não é a infância que ela ama, são as crianças com toda sua complexidade e vulnerabilidade. Isso é o que os leva para ela e seus livros.

Traduzido por: Roberta Escher em 24/08/2006
Revisado por: Patricia M. D. de Abreu em 25/04/2007 e Antônio Carlos de M. Neto em 22/03/08
Postado por: Fernando Nery Filho em 29/04/2007
Entrevista original no Accio Quote aqui.