SETE DIAS COM MARILYN
Viagens fantásticas

The New Yorker ~ David Denby
28 de novembro de 2011
Tradução: Renan Lazzarin

O sorriso não é tão largo, o busto não é tão grande, nem a carne, tão palpável como aquela que levava todos à loucura, mas, sim, Michelle Williams consegue interpretar Marilyn Monroe. Em Sete Dias com Marilyn, Williams dá vida à estrela. Ela tem os trejeitos de Marilyn ao caminhar, a leveza e movimento do pescoço, o rosto que responde a tudo como uma flor balançando à brisa. E o mais importante: ela tem a doçura sexual e o olhar perdido e doído que se transforma, num átimo, em resistência e lágrimas.

Essa charmosa e tocante produção anglo-americana escrita por Adrian Hodges e dirigida por Simon Curtis, é baseada em dois livros de memórias de Colin Clark (Eddie Redmayne), um jovem rapaz bem relacionado que, em 1956, tornou-se o assistente de Laurence Olivier (Kenneth Branagh) enquanto este dirigia e atuava na versão fílmica duma comédia teatral de Terence Rattigan. O filme se chamava O Príncipe Encantado — um romance ruritânico¹, hoje completamente esquecido, no qual Olivier, caracterizado por um forte sotaque da Europa oriental e um monóculo, se apaixona por uma entertainer despreparada interpretada por Monroe.

Dentre outras coisas, Marilyn é uma impressionada e impressionante exposição da luta entre duas formas de vida: o professionalismo duro dos veteranos do teatro britânico (chegue na hora, saiba suas falas e finja) e o estilo do Método², preferido pelos americanos, cujas emoções baseavam-se em traumas ou prazeres da vida do próprio ator. Paula Strasberg — esposa de Lee e guru da atuação de Monroe quando em Nova Iorque — acompanha Marilyn a Londres e está sempre no set, falando-lhe ao ouvido (“Pense naquilo de que você gosta… Frank Sinatra. Coca-Cola”) e se metendo no caminho de olivier.

Branagh criou certa papa na meia idade, mas sua aparência é satisfatoriamente próxima à de Olivier. O ator conseguiu dominar a graciosidade elegantemente formulada e retumbante indignação. Tudo em Monroe exaspera Olivier. Mesmo sabendo que ela não é uma atriz na concepção normal do termo, ele inveja sua intimidade com a câmera e quer exibi-la. Mas ela não tem jeito: aparece no set com horas de atraso, erra as falas e só escuta o que quer. Ela está tão alerta a qualquer possível rejeição que mal consegue ir a lugar algum.

Perdida, Monroe precisa de um amigo, e o jovem Colin, atrapalhado, mas persistente, aparece de vez em quando no seu camarim. Num dado momento, vão ao interior para traquinar. Eddie Redmayne alcança um jeito virginal, uma admiração bobona quando a mulher mais famosa tira as roupas na sua frente e pula num rio congelante. Imagine nadar nu com Marilyn Monroe! Monroe brinca com ele, ganha sua obediência, mas se desmancha, e ele tenta, como muitos outros antes e depois dele, cuidar dela.

O toque da produção é um bocadinho acanhado: Monroe podia ser tão forte e desagradável quanto era gentil, mas não vemos esse lado seu. Sete Dias com Marilyn, em essência, preserva o ponto de vista dum garoto atônito. É um filme hábil, intencionalmente menor, embora quando Monroe, se dopando com tudo o que estivesse à mão, deita-se, confusa e infeliz, haja sugestões depressivas da conclusão ainda por vir.

Notas do tradutor:
¹ Romance ruritânico: narrativa situada num país fictício, geralmente na Europa centro-oriental, como a Ruritânia, que dá nome ao gênero.
² Método: técnica de interpretação desenvolvida por Elia Kazan, Robert Lewis e Lee Strasberg seguindo os preceitos propostos por Stanislavski baseada na necessidade de o ator entrar no espírito do personagem, criando em si mesmo as emoções e pensamentos do personagem.