Grice, Elizabeth. “Harry está em chamas novamente, jogando um feitiço que sua criadora não pode mais ignorar”. The Daily Telegraph, 10 de julho de 2000.
[A bordo do Expresso de Hogwarts em Didcot, J.K. Rowling fala para Elizabeth, em sua primeira entrevista pós-publicação, sobre seus planos para Harry Potter, como ela está se ajustando à fama em 37 países e o que sua filha pensa de quadribol]
Pequenos feiticeiros em chapéus pontudos e treinadores estavam sendo entrevistados como celebridades na plataforma do centro ferroviário Didcot. As mães dos pequenos feiticeiros eram surpreendidas e interrogadas sobre o feitiço que foi jogado sobre suas crianças por Você-Sabe-Quem. Os pais dos feiticeiros pressionavam seus narizes na janela opaca do vagão de ferroviária, pulando para dar uma olhada dentro da cabeça dourada de Você-Sabe-Quem.
E misteriosamente, inacreditavelmente, ainda existem locais do país onde a identidade de Você-Sabe-Quem ainda não é universalmente entendida. A despeito de seu papel de estrela na extravagância editorial do fim de semana, Didcot, em Oxfordshire, é um desses lugares. Alguns dos empregados da estação tinham apenas um conhecimento imperfeito sobre quem a multidão de pessoas de capas estreladas estava se embaralhando para encontrar. “Nós ouvimos que o Harry Potter estava vindo”, disse um controlador de multidão desuniformisado. “Mas qual o nome dela?”.
J.K. Rowling, a mulher de olhos tristes no centro do fenômeno de publicações de nosso tempo, não se importa com esse tipo de confusão. Harry, além de tudo, também é seu herói. Ela flui para dentro desse órfão de cabelos relaxados todos os sentimento de excentricidade e fracasso que ela mesma experimentou quando criança e deu a ele poderes mágicos que ele não sabia que tinha. Na maioria dos dias ela parece querer pular no cabo de vassoura dele, gritar “Accio firebolt!” e decolar sobre as cabeças de multidão que está celebrando a muito divulgada chagada de seu quarto livro, Harry Potter e o Cálice de Fogo.
Mas como seu herói, ela não é do tipo que desiste facilmente. Ela enfrenta seus fãs com a estabilidade que Harry teve quando encarou sua primeira tarefa do Torneio Tribruxo. É um teste de resistência e de habilidade. Ano passado ela fez diferente. Quando Harry Potter e o Prizioneiro de Azkaban foi lançado, ela tentou tampar a histeria e deu só uma entrevista de rádio. Isso não funcionou. A histeria foi varrida para sua firmemente fechada porta da frente e se infiltrou debaixo do parapeito de sua janela. Pessoas vinham com livros para assinar e perguntas para fazer e quando ela não respondia, eles a chamavam de reclusa.
“A onda continuou sem mim”, disse ela. “Não acho que alguém possa dizer que não teve propaganda, eu acho que o quanto a minha participação atrapalharia é um ponto controvertido. Minha decisão esse ano era sair batante e depois sentar em casa em direção à posição de reclusa porque as pessoas estavam martelando a minha porta”.
As 5 milhões de cópias sem precedência do último livro foram impressas em todo o mundo, nas melhores condições de segredo e segurança. O tesouro foi posto junto numa caixa turquesa brilhante com selos amarelos e uma aviso – ‘A posse não autorizada desse conteúdo pode constituir numa ofensa’ – estampado do lado. As caixas estavam sendo levadas para a plataforma em carrinhos de mão, sob vigilância, que continuaram sob guarda como bombas não explodidas até a sessão de autógrafos.
“Não tinha palavras para expressar o choque com o que tinha acontecido”. Rowling diz, desesperadamente. “Eu estou assombrada. Pense numa palavra muito forte e duplique”. Ela não precisava dizer isso, porque o choque estava em sua face e em sua voz e seu quase imperceptível jeito abstrato de se permitir ser transportada de um golpe publicitário para outro.
Depois de todo o anúncio chocante e despercebidos tumultos adultos anteriormente naquele dia em King’s Cross – onde o trem a vapor Expresso de Hogwarts, carregando-a numa turnê de quatro dias de Londres a Perth, começou sua jornada – Joanne Rowling chegou a uma organizada boas vindas em Didcot no sábado.
Ela estava vestida muito colorida para a ocasião. O céu ficou carregado com chuva assim que ela tomou seu rumo através dos vagões-leitos da rodoviária numa sandália de salto alto rosa brilhante e saia fina. As torres de refrigeração da estação inflaram como um caldeirão na aula de poções de Hogwarts.
Alguém segurou um guarda-chuva sobre seu claramente vestido ombro, do jeito que fazem com a realeza. Rowling é maior que a realeza, com certeza – mas, como eles, tende a não corresponder as expectativas “na carne”. Espectadores querem que ela seja mais glamurosa, menos limitada, talvez mais efusiva. Mas seus encontros com crianças são energéticos e pouco profissionais.
“Eu gosto de crianças, mas eu não sou sentimental em relação a elas.” diz.
“Ela é simplesmente uma pessoa comum”, diz um garoto com a cicatriz de raio do Harry Potter em sua testa e um óculos Potter pintado em volta de seus olhos. “Eu estou aqui por Harry Potter”.
Comparada com suas recentes e lustruosas fotos de estúdio, Rowling é pálida e preocupada. Dez horas por dia trabalhando no último capítulo de HP4 deu à sua pele uma palidez de escritora. Quando ela sorri para a câmera, seus lábios não abrem e sua boca vai para baixo nos cantos.
“Se eu vou ser lançada por todo o mundo, passando duas semanas em cada país que for publicada [37 até hoje] e voar através do Atlântico cada vez que alguém quiser me entrevistar, quando é que eu vou ver minha filha?”
Jessica está com quase 7 anos agora. Rowling jurou não apresentá-la aos livros Potter até que ela fizesse 7, mas todos seus amigos da escola estavam falando sobre as últimas façanhas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
“Eles ficariam pergutando a ela sobre quadribol mas ela não teria idéia. Ela estava tendo muita atenção na escola e isso chegou ao ponto de eu sentir que estava excluindo-a de grande parte da minha vida, assim como das conversas sobre Potter. Agora ela está totalmente obcessiva sobre as histórias.”
“Isso é louco porque é a minha filha. Mas eu acho que há uma grande diferença em sua cabeça entre mim e os livros. Ela gostar dos livros facilitou a minha vida. Agora quando eu digo: ‘Jessie, vou estar pronta em meia hora. Eu tenho que terminar de escrever isso’, no mínimo ela fica olhando para frente pelo que está por vir.”
Rowling reclama que apesar da chegada da fama e fortuna, sua vida é bastante comum. É composta das coisas mais comuns: levar a filha para a escola, responder montanhas de cartas com seu assistente, ir ao café para escrever, retornar para casa para fazer o chá, adiando escrever mais, parando para ver The Royle Family (”totalmente inspirador”) e tentar lembrar de trazer o coelho e o porquinho da índia para dentro antes de ir para cama.
Mas esse catálogo chato engana. Isso disfarça um movimento sísmico do jeito que ela pensa agora. “Se você tivesse me conhecido um ano atrás,” ela admite, “Eu ainda estaria dizendo: ‘minha vida não mudou’. Aquilo era um sonho acordado. Era uma coisa de controle. Eu já estava me perguntando: ‘o que foi que eu pari?'”.
Embora estivesse ficando fora de controle, eu gostaria de fingir que, no coração, tudo era mais normal, mas não era. Eu sou mais honesta comigo mesma agora.
Entretanto, ela tem que admitir que está muito rica de fato – possivelmente vale £15 milhões, embora nunca mencione números – e precisava de um aviso sensível. Ela tinha que mudar de casa porque sua casa com terraço, na rua em Edinburgo, era regurlamente cercada – embora ela negasse ser espreitada.
“Comprei aquela casa antes de ter noção do que estava por vir. Não era tão assustador quanto cansativo, tem horas que você só quer fechar a porta no final do dia e ficar com a família.”
Outra mudança interssante é que ela poderia ser extravagante, se ela desejasse. E ela poderia ser confiante, caso se atrevesse. Um dia, quando estava se sentindo para baixo por causa de uma falsa história que tinha aparecido no jornal, ela lembrou de ter visto um anel de águas-marinhas na vitrine de uma loja na rua Prince.
Eu pensei: ‘Bom, tem uma coisa boa na sua situação: você pode ir e comprar o anel’. Nunca na minha vida pude entrar em uma loja sabendo que ia deixar muito dinheiro, sem nem ter perguntado o preço.
“Esse é um bom jeito de ser rica, isso me ocorreu em retrospecto. Foi a coisa mais extravagante que eu já fiz. Ninguém realmente precisa de uma enorme pedra em seu dedo. Isso foi comodista e amei.”
Após o término de seu curto casamento com um jornalista português (eles se divorciaram em 1995), Rowling ficou bem pobre. Ela foi para Edimburgo com sua filha bebê e com o começo de Harry Potter na mala. A depressão sobre a morte de sua mãe três anos antes estava começando a alcançá-la.
Ela morava num apartamento frio. Sua filha era muito pequena para qualificá-la para a ajuda financeira do Estado. Então, nessa parte mais familiar da lenda Rowling, ela vagou entre amigáveis cafés, fazendo pausas para café por duas horas enaquanto escrevia no calor.
Ela diz que suas fictícias criaturas sugadoras de almas chamadas de dementadores, que sugam a felicidade das pessoas, saltaram de sua depressão nessa hora. “Eles saíram da minha própria experiência: essa ausência de ser capaz de imaginar que você vai ser alegre de novo. Esse sentimento de prostração, que é muito diferente de triteza”.
Dentro de três anos, ela perdeu a mãe, que tinha só 45 anos, para esclerose múltipla, e ganhou uma filha. “Essas são as coisas que mais afetaram a minha vida – incluindo Harry Potter. Nada se compara a elas. Ele estaria em terceiro”.
Não é concindência que a mãe de Harry Potter exerce uma poderosa influência em todos os livros. Ela morreu protegendo seu filho do malvado Lord Voldemort, e ele esteve ciente de que “ter sido amado tão profundamente, mesmo que a pessoa que nos amou já tenha ido, nos confere uma proteção para sempre”.
Rowling diz que ela sentiu a verdade disso no momento em que viu sua filha bebê. “Aquele dia em 1993, eu entendi o quanto inevitavelmente e objetivamente você protegeria sua criança. A primeira coisa que pensei quando olhei para ela, vi que era essa a pessoa que eu sempre colocaria na frente. Não aquela coisa dramática de esquecer da sua vida mas sim de colocar suas considerações de lado”.
Ela estava “muito preparada” aos 27 anos, para ter uma criança. “Eu tinha feito a minha parte, tinha feito minha viagem. Eu tinha feito meus desafios e levado uma vida muito independente. Eu vivi muito como uma pessoa sem filhos. É bom você tirar algumas coisas do caminho antes de ter um bebê porque vai levar um tempo até que você tenha outra chance. Mas eu nunca olho para ela e sinto que fiz grandes sacrifícios. Ela não levou nada, ela adicionou.
Para a sorte de Rowling, ser rica e despreocupada não soa tão natural quanto estar preocupada. “Eu me lembro vivamente de como é estar quebrada. Nem um dia passa sem que eu esteja agradecida por não ter que me preocupar mais com dinheiro. Mas é improvável que eu vá sempre considerar isso como algo garantido. Isso é parte minha personalidade e também porque quando você já esteve quebrado, você não fica louco. Parece ser uma suposição que quando você tem dinheiro, vai querer revolucionar sua vida. Eu estava feliz com a minha vida, eu tinha bons amigos, uma filha que amava, estava fazendo o que amava. Essas são coisas grandes. Eu não quero revolucionar minha vida, ela está extremamente boa”.
À parte da óbvia reunião de forças do mal em Cálice de Fogo – e tem uma tremenda acumulção de antipatia, lodo, derramamento de sangue e morte – o que você mais sente além de todos os acontecimentos frenéticos é preocupação, Potter é uma garoto preocupado, um feiticeiro inseguro mas também muito valente, o alvo de valentões e intrigas.
Embora Rowling diga que nunca foi provocada “com P maiúsculo” em sua escola perto de Bristol, ela muitas vezes se sente deslocada. “Eu soava muito do sudeste, oposta do sudoeste. Eu era esperta demais para o meu próprio bem. Eu entendo como é se sentir um completo idiota, estar muito confuso, ser um lixo nos esportes, a última pessoa a ser escolhida para o time. Eu ouvia reclamações porque eles tinham que me ter no time. Harry se sobressai – e ele não busca isso. Ele simplesmente se supera. Ele passa uma combinação de coragem e sorte, que é bastante autobioagráfico”.
Rowling diz que adoraria ter outra criança mas acha isso “altamente improvável de acontecer”. Não tem um homem em sua vida exceto Harry. Ela está tão acostumada com ele e seus personagens companheiros que não precisa entrar de volta na hisória. “É como pegar o telefone e ligar para alguém que você conhece”. Eles se sentem como amigos. Eu posso fazer uma visitinha a eles. Vai partir meu coração dizer adeus a eles. Vai parecer muito com um luto. Mas tem alguns aspectos que eu não vou sentir falta alguma.
Vai ter mais livros? “Eu vou continuar escrevendo, mas não sei se vou publicar de novo”.
Traduzida por: Vivian Meneses em 23/05/2007.
Revisada por: Adriana Couto Pereira em 31/08/2008.
Postado por: Vítor Werle em 26/09/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.