King, Stephen. “Loucos por Harry: O quarto livro da fantástica série”, New York Times crí­tica literária, 23 de julho de 2000.

Eu li o primeiro livro na série de Harry Potter, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” em abril de 1999 e fiquei só um pouco impressionado. Mas em abril de 1999 eu estava muito bem. Dois meses depois eu estava envolvido em um sério acidente de carro que necessitou de um longo e doloroso perí­odo de recuperação.

Durante a primeira parte desse tempo eu li o segundo e terceiro livros da série de Harry Potter (“Câmara Secreta” e o “Prisioneiro de Azkaban”) e me vi muito mais do que um pouco impressionado. No miserável e quente verão de 99, Harry Potter (e os excelentes romances policiais de Dennis Lehane) se tornaram um tipo de motivação para mim. Durante julho e agosto eu me encontrava passando pelos meus dias desagradáveis esperando pela noite, quando eu iria arrastar minha perna duramente sobrecarregada até a cozinha, comeria frutas frescas e sorvete e leria sobre as aventuras de Harry Potter em Hogwarts, uma escola para jovens bruxos (lema: “nunca cutuque um dragão adormecido”).

Por essa razão, eu esperei pela continuação da mágica saga de J.K.Rowling nesse verão com quase tanto interesse quanto qualquer criança louca por Harry Potter. Eu tinha gostado dos primeiros três, mas tinha lido os dois últimos enquanto tomava analgésicos suficientes para fazer um cavalo levitar. Nesse verão, não era esse o caso. Eu estava aliviado em informar que Harry Potter 4 “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, era tão bom em cada pedaço quanto o primeiro ao terceiro livros. Era improvável. “Cálice” é tão grande quanto “Câmara” e “Prisioneiro” juntos. É mais elaborado que os três primeiros? Mais perturbador? Desculpa, mas não. Essas coisas são necessárias em uma fantástica aventura que pretende atingir, antes de mais nada, crianças e ser publicada no gramado rico e verde das férias de verão? Claro que não. Crianças nas férias de verão querem e provavelmente merecem simplesmente diversão. “Harry Potter e o Cálice de Fogo” traz a diversão, e não só durante pouco tempo. Em 734 páginas, “Cálice” traz diversão aos montes.

A coisa mais marcante desse livro é o senso de humor do tipo que tem trocadilhos e uma sobrancelha erguida que Rowling usa. Em mais de 700 páginas, alguém poderia se cansar de explosivins, dragões suecos de focinho-curto e dispositivos como penas de repetição rápida (um tipo de gravador mágico utilizado pela repórter satisfatoriamente repugnante do Profeta Diário, Rita Skeeter), mas ninguém o faz. Pelo menos esse leitor não. Talvez isso seja porque Rowling não insiste por muito tempo em invenções como a pena, que vaga no ar e invade com pedaços floridos a prosa de tablóide em momentos ociosos. Ela dá ao leitor uma piscadela rápida e um sorriso amarelo antes de sacudi-lo de novo, o tempo inteiro contando sua história em velocidade máxima. Nós a seguimos com vontade, sorrindo e esperando a próxima cotovelada, piscadela ou sobrancelha levantada.

A Imprensa Associada
# Autora convidada: J.K. Rowling

Trocadilhos e sorrisos à parte, a história por acaso é muito boa. Nós talvez estejamos um pouco cansados de achar Harry em casa com seus horrí­veis tios (e seu primo ainda mais horrí­vel, Duda, que tem como seu jogo de PlayStaion favorito Mega-Mutilation Part 3 (Mega-Mutilação Parte 3), mas uma vez que Harry está presente na obrigatória partida de Quadribol e de volta a Hogwarts, a história fica muito melhor.

Em uma entrevista com Malcolm Jones pela Newsweek, Rowling admitiu ter lido Tolkien só mais, mas é difí­cil de acreditar que ela não tenha lido nenhum livro de Agatha Christie ou de Dorothy L. Sayers. Embora eles sustentem a fantasia, e a mistura do mundo real e o mundo dos bruxos e vassouras voadoras seja muito bom, a saga Harry Potter é, de coração, satisfatoriamente perspicaz e misteriosa. Potter 3 (“Azkaban”) trata dos pais de Harry (como todo garoto herói, Harry é um órfão) e esclarece os múltiplos mistérios de suas mortes de uma maneira que teria provavelmente satisfeito Ross Macdonald, aquela antiga criadora de passados obscuros e confusas árvores genealgicas. Agora, voltando para Hogwarts aós ir a Copa Mundial de Quadribol, Harry e seus amigos estão excitados por descobrir que o Torneio Tribuxo está para ser reintroduzido após uma lacuna de 100 anos ou quase isso (muitos dos jovens participantes tiveram machucados fatais, pelo que parece). Aspirantes a bruxo de duas outras escolas (Beauxbatons e a divertidamente fascista Academia de Durmstrang, de localização desconhecida) foram convidadas a passar o ano em Hogwarts e a competir no torneio, que é composto por três tarefas belamente imaginadas. Essas só podem ser bem executadas por competidores que possam solucionar os mistérios que as envolvem; tanto crianças como estudantes de mitologia grega gostariram deste aspecto da história de Rowling.

Como o Chapéu Seletor, uma das invenções de Rowling, o Cálice de Fogo também é um dispositivo de escolha. Supostamente ele deveria cuspir três pedaços de pergaminhos chamuscados com o nome dos três competidores, um participante de cada escola. Em uma cena vivida e maravilhosamente tensa, o Cálice de Fogo cospe quatro pedaços de pergaminho ao invés de três. O quarto, claro, como o nome de nosso herói. Embora Harry seja muito novo para participar de provas tão difí­ceis, o Cálice disse, e por isso ele deve competir. Se você pensa que crianças e jovens leitores não vão fazer agitação sobre isso, você nunca teve uma criança em sua casa (ou nunca foi uma). Adultos ficam mais interessados em saber como o nome de Harry foi parar no Cálice em primeiro lugar. Esse é um mistério em que Rowling trabalhou rápido e com muito entusiasmo. E, embora eu me lembre da solução dos mistérios da minha juventude de Nancy Drew e Hardy Boys, onde o acusado normalmente se revela algum marginal vil de baixa estirpe, a solução para o mistério do Cálice, como as resposta para os enigmas do Torneio Tribuxo, para mim foram bastante justas. Durante o livro, Rowling nos mostra o primeiro encontro de Harry, (não com a atraente quintanista de seus sonhos Cho Chang, infelizmente), pelo menos uma trama menor para provocar seus pensamentos (envolvendo elfos-domésticos que gostam de sua vida de escravos de cozinha) e uma dose extremamente grande de humor adolescente, (uma piada suavemente descolorida, com um trocadilho com a palavra Urano, vai provavelmente alegrar estudantes de ensino médio). Também há uma cansativa disputa adolescente. Adultos podem passar rapidamente por esta parte, é uma coisa de adolescente. Alguém podia imaginar o sucesso fabuloso destes livros? A série Harry Potter é uma versão sobrenatural de ”Tom Brown’s Schooldays (Dias de escola de Tom Brown)”, atualizado e dá uma dica de como as crianças realmente são. E Harry é o garoto que a maioria das crianças gostaria de ser, sem propósito em um mundo sem imaginação e muitas vezes com adultos desagradáveis – trouxas, Rowling os chama de “que não entendem nem se preocupam com nada”. Harry é, de fato, um Cinderelo, esperando por alguém que o convide para o baile. Em Potter 1, seu convite vem primeiro por uma coruja (no mundo de J.K.Rowling, as corujas entregam o correio) e depois pelo Chapéu Seletor, no quarto livro ele é convidado pelo Cálice de Fogo, que produz chamas fascinantes. Que forma mais agradável de ser convidado para o baile! Mesmo para uma pessoa relativamente velha como eu, ainda é bom ser convidado para o baile. Seria deprimente anunciar que o livro mais vendido da história do mundo, a posição que esse livro provavelmente ocupará até o 5 chegar, é péssimo. “Cálice de Fogo” está longe disso. Antes de Harry entrar em cena, crianças famintas por uma escapada tiveram que se virar como R. L. Stine, o autor sem inspiração mais admiravelmente bem sucedido que inspirou o fenômeno ”Goosebumps”. Os livros de Rowling são mais naturais, melhor planejados e melhor escritos. Eles se destacam no grande número de detalhes divertidos de que somente as fantasias inglesas parecem ser capazes: tem o Salgueiro Lutador, que baterá em seu carro e em você se chegar muito perto dele, aperitivos como bolos de caldeirão e varinhas de alcaçuz e o satisfatoriamente malvado Lord Voldmort (tão malvado, que, na realidade, a maioria dos personagens de Rowling só o chamam de “Você-sabe-quem”). Os Dursley, os desagradáveis tutores de Harry que explicam a grande ausência do garoto em casa dizendo a seus amigos que ele freqüenta o Centro St. Brutus para Meninos Irrecuperáveis. E o livro abre com o assassinato (fora de cena, não se preocupem) de uma bruxa chamada Bertha Jorkins. Rowling não diz exatamente que é isso que a pobre Bertha merecia por tirar suas férias na Albânia, mas ela certamente deixa isso implí­cito.

Há mais acontecendo aqui do que diversão? De novo, não muito. Com uma quantidade considerável da ficção de fantasia inglesa, as divertidas invenções são balanceadas por temas de incrí­vel obscuridade – a trilogia do “Anel” de Tokien, por exemplo, traz a ascensção de Mordor começando com um cheiro ruim no ar e se tornando uma penetrante atmosfera de medo, ou os livros de C.S. Lewis, onde as preocupações religiosas do escritor começam como inofensivas aventuras faz-de-conta com um significado que se torna, no final, quase insuportável (e para esse leitor, cansativo). Levada aos extremos, a identidade da fantasia inglesa criou de Richard Adams, onde a infeliz conversa dos cachorros Snitter e Rowf que sofrem de inarráveis dificuldades e o deus da luz Shardik chega para representar a promessa religiosa sempre feitas e depois quebradas, onde qualquer campo iluminado pelo sol com coelhos fujões tem sua própria corda brilhante de morte. No trabalho de Rowling, algumas assombrações podem ser percebidas, mas elas são pequenas assombrações, rapidamente dispersadas. As aventuras de Harry são na maior parte do tempo otimistas e iluminadas pela luz do sol, apesar de ocasionais épocas frias; mais Lewis Carroll do que George Orwell. A fantasia inglesa deles talvez atualmente esteja perto do “Peter Pan” de J. M. Barrie. Como toda escola, onde os clientes são sempre jovens e até os professores assumem caracterí­sticas psicológicas imaturas de seus alunos, Hogwarts é um tipo de “Terra do Nunca – Nunca”. Mesmo assim Harry e seus amigos mostram alguns sinais de estarem crescendo. No volume atual há alguns amassos discretos, e algumas mágoas, sofrimentos e desapontamentos com que se tem que arcar.

O trabalho de um escritor de fantasia é conduzir o leitor desejoso do mundo real para o da fantasia. Essa é uma façanha que somente uma imaginação superior é capaz, e Rowling tem tal equipamento. Ela diz frequentemente que os livros não miram nenhuma audiência ou idade particular. O leitor pode logicamente questionar isso após ler o primeiro livro da série, mas quando ele ou ela tiver lido “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, se torna claro que a sabe o que está falando. Nem que sobra qualquer questão sobre o fato de ela se recusar a baixar o ní­vel da linguagem em seus livros (o atual tem alguns termos ingleses como petrol, pub e cuppa inalterados*) o que tem concedido uma atração para os adultos que a maioria dos livros infantis não têm. Nem todas as notí­cias são boas. Harry Potter em breve irá aparecer em um cinema perto de você. O projeto inicial está nas mãos de Chris Columbus, um diretor sem muita ingenuidade; há uma dúvida se o diretor de “Goonies”, um dos filmes mais desagradavelmente escandalosos, tolo e barulhento jamais feito para crianças, está pronto para trazer a imaginação brillhante e vibrante de Rowling para as telas. (Eu espero, em nome de milhões de crianças que amam Harry, Hermione e Rony Weasley, que Columbus me prove errado). Fantasia, mesmo sendo tão simples como o progresso deste jovem bruxo, é difí­cil de se trazer para um filme, onde maravilhas ficam frequentemente aptas a aparecer e se tornar banal. Talvez o lugar de Harry Potter seja a imaginação de seus leitores. E se esses milhões de leitores estiverem acordados para as maravilhas e recompensas da fantasia aos 11 ou 12… bem, quando eles chegarem aos 16 ou mais, haverá esse cara chamado King.

*NT: combustí­vel, bar britânico tí­pico e caneca. O autor da matéria é americano e está comentando o fato de serem mantidos os termos ingleses ao invés de mudarem para os correspondentes americanos.

Traduzido por: Lucas Emmanuel em 14/08/2006
Revisado por: Patrí­cia M. D. de Abreu em 29/04/2007 e Antônio Carlos de M. Neto em 22/03/08
Postado por: Fernando Nery Filho em 29/04/2007
Entrevista original no Accio Quote aqui.