Gray, Paul. “A Magia de Potter”. Time Magazine, 25 de dezembro de 2000.

Três anos e meio atrás, ninguém na Terra havia ouvido falar em Harry Potter a não ser por J.K. Rowling, a escritora que o idealizou, e os leitores das editoras que haviam rejeitado o manuscrito de seu primeiro livro, que apresentava o jovem bruxo de óculos. E agora? Após quatro romances da série, traduções para 42 línguas e 76 milhões de cópias vendidas mundialmente? Coisas muito estranhas acontecem onde quer que o fictício jovem herói e seus amigos possam ser encontrados.

– Na Alemanha, Eberhard Barmann, presidente do clube Zauberfreunde de mágicos de Berlim, relata que “mais e mais avós e pais estão me ligando porque querem saber onde seus netos e filhos podem aprender truques de magia”. Wilfried Possin, colega de Barmann e diretor de uma organização de mágicos em Frankfurt, atribui essa onda de interesse a Harry Potter: “Os livros trouxeram nosso trabalho aos holofotes”.

– Em julho passado, o New York Times Book Review revisou sua lista dos mais vendidos, criando uma categoria separada para livros infantis. A jogada veio a tempo de prevenir Harry Potter e o Cálice de Fogo de alcançar o topo da lista de ficção – e juntar-se aos três anteriores títulos de Harry Potter, firmemente estabelecidos entre os 15 primeiros lugares. Ao desviar os livros do bruxinho da lista principal, o Book Review brincou com a lógica, mas acalmou editores e autores que acreditavam terem sido “Potterizados” – o status negado de mais vendidos pelo furacão de J.K.Rowling.

– Na China, a People’s Literature Publishing House, que já publicou a coleção de poemas de Chairman Mao, lançou, este ano, 600.000 caixas com traduções dos três primeiros livros da série Harry Potter, a maior impressão de estréia de uma obra de ficção desde que os comunistas assumiram o poder em 1949.

Os livros de Rowling reduziram os abismos políticos e culturais; eles alteraram a indústria de publicação de livros; eles até estimularam movimentos de censura por parte de alguns fundamentalistas religiosos. Mas qualquer avaliação de seu extraordinário impacto deveria focar principalmente na transação particular, tão antiga quanto o ato de contar histórias, entre o falante e o ouvinte ou, em uma inovação mais recente, entre o escritor e o leitor.

Aqui, no silêncio da imaginação, é onde Rowling faz sua magia funcionar. Escute seus leitores; escuta as crianças.

Tyler Walton, de 9 anos, que mandou uma redação para o concurso da Scholastic: How the Harry Potter Books Changed My Life, tem sido submetido a um difícil tratamento contra a leucemia. “Harry Potter me ajudou a enfrentar alguns momentos muito difíceis e assustadores”, ele escreveu. “Algumas vezes penso que Harry e eu somos um pouco parecidos. Ele foi forçado a viver situações que não podia controlar e teve que encarar um inimigo que não sabia se poderia derrotar”.

Ashley Marie Rhodes-Courter, de 15 anos, também uma participante do concurso, viveu em 14 lares adotivos em um período de 10 anos. “Harry possui uma cicatriz em forma de raio em sua testa para lembrá-lo de seu passado”, ela escreveu. “Há uma nas minhas costas para me lembrar do meu”.

Uma criança que não passou por nenhum trauma pessoal, mas que já testemunhou um conflito social é Magda Anastasijevic, de 8 anos, que mora na Sérvia. Graças às sanções internacionais implantadas após a guerra da Sérvia no Kosovo, os livros de Harry Potter só começaram a ser traduzidos recentemente. Mas o pai de Magda sabe inglês e leu todos os quatro livros para ela, traduzindo simultaneamente do original para o sérvio. “Eu gosto de Harry Potter porque ele nunca desiste”, diz ela, “mesmo que algumas vezes seus melhores amigos estejam contra ele”. Ela sabe que Lord Voldemort, o vilão nos livros de Potter, é um cara mau, e ela pensa o mesmo do deposto ditador sérvio Slobodan Milosevic. Isso provoca algumas críticas literárias e análises políticas: “Eles eram totalmente diferentes, pois você consegue ver logo de cara que Voldemort é mau. Milosevic sempre fingia ser um homem bom e gentil”.

E quanto a uma criança encarando nada mais nada menos que o assustador processo de amadurecimento, que pode, como alguns adultos se lembram vagamente, parecer realmente muito assustador? Greta Hagen-Richardson, de 12 anos, mora em Chicago e diz, orgulhosamente, já ter lido cada livro de Harry Potter diversas vezes – 15, 11, 22 e 24, por ordem de publicação, de acordo com suas contas. “Quando eu os li pela primeira vez”, diz ela, “pensei, ‘Os personagens realmente se relacionam com você — eles são crianças, têm colegas briguentos e professores ruins.’ Isso me ajudou a entender certas coisas — as pessoas, talvez meus amigos, meus professores. Isso me influenciou a ler mais”.

Multiplique esses testemunhos — cada um deles sincero, cada um levemente diferente de acordo com as circunstâncias do locutor — por milhões, e o efeito de Rowling no mundo à nossa volta se torna vagamente imaginável. E não são somente os jovens que adoram os livros de Harry Potter; eles foram avidamente adotados por incontáveis adultos e instigaram uma séria atenção acadêmica. Vance Smith, um professor assistente de Inglês na universidade de Princeton, que está passando esse ano como um membro visitante no Instituto de Estudos Avançados, antigo campo de trabalho de Einstein, acaba de dar uma palestra intitulada Harry Potter e Esse Mundo Medieval Em Constante Mudança para um seminário de graduandos. Ele elogia, entre outras coisas, o uso inteligente do latim por Rowling e sua “importante e rigorosa pauta medieval”.

Desde Charles Dickens que um romancista da língua inglesa não alcançava o comando sobre uma inteira sociedade como Rowling — jovens e não tão jovens, de recursos financeiros limitados e com dinheiro de sobra — e a analogia de Dickens rapidamente deixa de ser útil. Nenhum dos seus romances foi campeão simultâneo de vendas em dúzias de línguas; o mundo do século XIX foi um lugar notadamente mais lento que o nosso. E o público de Dickens não possuía nenhuma das distrações que seduzem os leitores de Rowling: nada de rádio, filmes, música gravada, TV, videogames, jogos de computadores ou internet. Por anos, a cultura literária foi retratada como respirando com dificuldade, sustentada unicamente por professores intransigentes e currículos escolares conservadores. A morte do autor estava certamente próxima. E então veio Rowling.

Ninguém pode explicar o fenômeno literário sem precedentes que é Harry Potter, começando por Rowling, agora com 35 anos, cuja vida mudou completamente graças ao produto de sua imaginação. Sete anos atrás, ela era a mãe solteira de uma pequena filha, vivendo em um apartamento de dois quartos em Edimburgo, ouvindo o barulho de ratos correndo atrás das paredes. Agora ela é internacionalmente conhecida e ganha, de acordo com várias estimativas, algo em torno de $30 milhões a $40 milhões por ano. Certa vez, durante um episódio de má sorte, ela temeu os olhares hostis que atrairia enquanto enfrentava a fila da agência de correios local para reivindicar seu cheque semanal de auxílio-desemprego. Quando ela visitou os EUA e o Canadá em outubro, ela apareceu, com 10.000 pares de olhos sobre ela, e fez uma leitura no Toronto SkyDome. Nada na saga cheia de maravilhas de Harry Potter parece remotamente tão implausível quanto o triunfo de sua autora.

Rowling conseguiu manter uma vida privada apesar do turbilhão de atenção e adulação rugindo sobre ela. Ela agora possui uma casa confortável em Edimburgo que mantém longe de intrusos. Quando não está viajando, ela leva a filha Jéssica, de sete anos, à escola toda manhã e consegue, quase sempre, passear e olhar vitrines na rua Princes, em Edimburgo, sem ser reconhecida por fãs.

Ela fez uma extensa publicidade durante verão e outono para Harry Potter e o Cálice de Fogo, não para aumentar as vendas — uma idéia absurda dada a enorme e contida demanda — mas para tornar-se disponível para alguns de seus jovens leitores. Em outubro, ela foi a público para um projeto não relacionado à Harry Potter, mas de preocupação pessoal para ela. Ela concordou em se tornar a primeira embaixadora, isto é, porta-voz, do Conselho Nacional de Famílias de Pais Solteiros, uma instituição de caridade britânica, e doou $725.000 à causa.

Rowling possui uma razão muito boa para tentar manter o mundo à distância. Ela é, afinal de contas, uma escritora ativa, comprometida a produzir mais três romances que finalizarão os sete anos que Harry e seus colegas de classe passam em Hogwarts. E uma notícia agourenta sobre esse assunto surgiu mais tarde nesse ano: o agente de Rowling, Christopher Little, anunciou que não haveria um novo romance de Harry Potter antes de 2002 (imagine um ranger de dentes mundial — de leite, permanentes e falsos). Mas haverá dois novos e curtos livros com o pseudônimo de Rowling chegando neste inverno, baseados em títulos da biblioteca de Hogwarts: Quadribol Através dos Séculos, por Kennilworthy Whisp, e Animais Fantásticos e Onde Habitam, por Newt Scamander. Rowling doará os lucros das vendas para a Fundação Harry Potter na Comic Relief, do Reino Unido, uma instituição de caridade que ajuda crianças no mundo em desenvolvimento.

Com nenhum livro novo à espreita, os viciados em Harry irão necessariamente focar sua antecipação durante o próximo ano na versão cinematográfica do primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal, dirigido por Chris Columbus e agendado para estrear em novembro pela Warner Bros. O estúdio, que divide uma empresa-mãe com a Time, já começou a abastecer suas lojas com produtos de Harry Potter. Esse é um assunto sensível, e todos os envolvidos esperam que prossiga tranquilamente. Rowling sabe que produtos baseados em filmes se tornaram essenciais ao mercado de filmes para crianças, mas ela expressou reservas sobre a comercialização de Harry Potter.

De um jeito, o jovem bruxo saiu de seu controle; ele está lá fora, em todo lugar, e legiões de pessoas têm uma sensação de propriedade. Mas da maneira mais importante Harry ainda pertence a ela. Seu futuro está na cabeça dela, assim como o futuro de todo o universo fictício que ela criou.

Traduzido por: Dérick Moreira em 21/01/2009.
Revisado por: Isadora T. Moraes e Thais Teixeira Tardivo em 05/02/2009 e 31/05/2009.
Postado por: Ohanna S. Bolfe em 04/06/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.