Schulman, Sandra. “Bruxos e Ogros e Monstros – Meu Deus!”. Dish Magazine, dezembro de 2001.
É um quebra cabeça que somente um bruxo conseguiria resolver.
Como uma mãe pobre vivendo com auxílio financeiro do governo – com uma séria crise de depressão – escreve uma simples estória de fantasia sobre um jovem bruxo chegando à maioridade e se torna uma sensação mundial? Com Harry Potter, e um simples aceno de uma caneta mágica, claro!
Todos nós sabemos a história agora! Joanne Katheleen Rowling, uma modesta escritora de 36 anos, britânica, formada na universidade da Inglaterra, pertencente à classe média, outrora uma mãe solteira vivendo com pensão, é agora considerada a segunda mulher mais rica da Inglaterra, perdendo somente para Madonna. Ela vendeu 116 milhões de livros em 200 países, em 47 idiomas que incluem albanês e zulu, e foi classificada com as 15ª pessoa mais influente do show business hoje em dia. “Eu nunca sonhei que isso fosse acontecer,” ela diz. “Meu lado realista me permitiu pensar que eu poderia conseguir uma boa crítica em algum jornal nacional. Essa era minha visão de pico”.
Certo então. No caso de você ter estado em Marte ultimamente, a série Harry Potter é sobre um menino de 11 anos que repentinamente descobre que é, na verdade, um bruxo. Ele vai à Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, e lá suas aventuras começam. Os livros Harry Potter foram originalmente escritos usando as duas iniciais de Rowling – assim jovens meninos não saberiam que o livro foi escrito por uma mulher! Foi lançado recentemente o quarto livro da saga de sete, Harry Potter e o Cálice de Fogo, que com 640 páginas é um dos maiores livros infantis de todos os tempos. É também, argumentavelmente, o mais ambicioso. Pela primeira vez, ela toca em temas como envolvimento político, inveja, fama, romance e a morte de um aliado de Potter, todos rituais de passagem. “É o fim de uma era no contexto de toda a série dos livros,” ela diz. “Para Harry, sua inocência se foi”.
Em 1993, ela era de fato uma pobre mãe solteira após ter deixado seu marido, Jorge Arantes, um jornalista que ela conheceu em Portugal enquanto ensinava inglês. “Eu me casei em 16 de outubro de 1992. Eu me separei em 17 de novembro de 1993. Então essa foi a duração do que eu considero ter sido um casamento,” ela explica. Então, o que aconteceu exatamente? “Eu nunca falo sobre isso. Mas obviamente você não deixa um casamento depois de um período de tempo tão curto como esse a não ser que haja sérios problemas. Eu não sou o tipo de pessoa que desiste assim sem haver problemas sérios. Minha relação antes dessa durou sete anos. Eu sou uma garota do tipo longa-duração. E eu tive um bebê (Jessica) com esse homem. Mas não funcionou. E estava claro para mim que era hora de ir, e então eu fui. Nunca me arrependi disso”.
Bichento, Fofo e Gringotes
Ela de fato escreveu muito de Harry Potter em um café de Edimburgo enquanto tomava um expresso por duas horas (mínimo) enquanto sua filha Jessica dormia em seu carrinho. Ela de fato mandou isso para um agente que magicamente disse, sim, muito obrigado. “As pessoas querem que a vida seja perfeita,” ela diz. “Isso é sem dúvida verdade. Mas você sabe as quatro grandes verdades de Buda: a primeira é ‘A vida é sofrimento’. Eu amo isso. EU AMO ISSO. Porque eu acho que SIM. A vida não deve ser perfeita. E é um conforto. É um conforto para todos nós que fizemos algo errado. E então você encontra o seu caminho de volta, bizarramente. E eu tenho certeza que vou errar de novo em algum ponto – embora, eu espero, não em uma escala tão grande”.
Mas essa quantidade de sucesso é surpreendente para qualquer escritor, especialmente para uma em seus 30 anos que esteve preocupada todos os dias com sua sobrevivência por anos. Ela pode acreditar no que aconteceu com ela? Ela acorda e diz ‘Não acredito nisso’? “Praticamente todas as manhãs,” ela admite.
Joanne Rowling nasceu no General Hospital em Chipping Sodbury, 1965. Seu pai era um aprendiz de engenheiro no Rolls-Royce e trabalhava com motores de aeronaves. Sua mãe era parte francesa e parte escocesa. Seus pais se conheceram aos 19 anos em um trem saindo de King’s Cross – Rowling alega ser a estação mais romântica do mundo – e se casaram aos 20. Rowling nasceu nove meses depois e então veio sua irmã Di.
A jovem família viveu em Yate, fora de Bristol e então Winterbourne. Foi aí, na rua de casas geminadas, que ela viveu quatro casas de distância de uma família chamada Potter. Ela pegou emprestado o nome deles, assim como pegou emprestado muitos outros, porque ela é uma colecionadora de palavras. Ela gosta especialmente de nomes estranhos.
Lembrol
É impossível conversar com Rowling sobre sua infância sem falar também sobre Harry Potter e sua vida na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Parte disso é porque ela explorou pedaços de seu passado e os deu a Harry e seus amigos, Hermione e Rony. Mas parte disso é também porque Rowling passa tanto tempo dentro do mundo de Harry, e é real para ela. Cada personagem tem uma árvore genealógica, uma mente, até mesmo requisitos alimentares. Ela está no comando, então ela sabe o futuro deles, mas ela não deixa escapar muito. Ela gosta de segredos. Ela teve a idéia de Harry em um trem atrasado e soube desde o começo que seriam sete livros – um para cada ano que ele passaria na escola interna – e ela escreveu o capítulo final do livro há anos. Esteve na casa dela por muito tempo antes de ela perceber que deveria ser guardado em algum lugar mais seguro.
Encontrar um diretor para a produção do filme baseado no primeiro livro da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal, da Warner Brothers não levou muito tempo. Tendo realizado o maior desejo de um autor, controle artístico da versão cinematográfica de seu trabalho, Rowling estava determinada a gravar o filme no Reino Unido com um elenco britânico. Ela gostou de Chris Columbus, que tinha dirigido antes “Esqueceram de Mim” e “Uma babá quase perfeita“.
“Minha filha Eleanor estava lendo o livro na época e insistiu que eu lesse também,” Columbus lembra. “Eu comecei a lê-lo, terminei em um dia e não conseguia parar de pensar sobre transformá-lo em um filme. Mas, naquela época, o filme já estava nas mãos de outro diretor. No entanto, eu não fiquei intimidado por isso. Eu senti que se eu pudesse articular minha paixão e obsessão pelo material, seu eu pudesse especificar claramente como eu faria o filme, o Estúdio perceberia que eu era o homem certo para o trabalho”.
O passo seguinte era conhecer a autora, J.K. Rowling. “No começo eu fiquei nervoso, sendo um grande fã dos livros,” Columbus diz. “Mas eu me senti confortável com Jo, imediatamente. Eu expliquei que protegeria a integridade do livro. Eu contei a ela como eu queria manter a escuridão e os limites do material intactos. Eu também achei que Jo ficou animada pelo fato de eu querer que ela se envolvesse no processo de criação. E ela foi uma colaboradora inestimável. Sua inspiração e suas idéias foram absolutamente maravilhosas”.
“Não foi fácil achar um menino que personificasse as várias qualidades de Harry Potter,” o produtor David Heyman explica. “Nós queríamos alguém que pudesse combinar a idéia de admiração e curiosidade, a idéia de ter vivido uma vida, ter experimentado a dor; uma alma velha em um corpo de criança. Ele precisava ser aberto e generoso àqueles a sua volta e ter bom julgamento. Harry não é ótimo academicamente, ele tem defeitos. Mas é isso que o faz tão atrativo. Ele faz todos nós acreditarmos que mágica é possível”.
Em uma prateleira no escritório de produção de Heyman estava uma cópia do vídeo de “David Copperfield,” estrelando Daniel Radcliffe. “Eu peguei a caixa com o vídeo, apontei para o rosto de Daniel e disse, ‘Esse é quem eu quero! Esse é Harry Potter!’ O diretor de elenco disse, ‘Eu já lhe disse antes, ele não está disponível e os pais dele não estão interessados que ele faça esse filme’”.
“Dando crédito aos Radcliffes, eles estavam completamente conscientes da enormidade do projeto e para o bem do filho deles, não iriam tomar essa decisão inconsequentemente,” diz Columbus. “Nós deixamos bem claro à eles que protegeríamos o filho deles. Nós sabíamos desde o começo que Dan era Harry Potter. Ele tem a mágica, a profundidade interior e a escuridão que é tão rara em uma criança de onze anos de idade. Ele também tem um senso de sabedoria e inteligência que eu não vi em nenhuma outra criança de sua idade. Nós sabíamos que tínhamos feito a escolha certa após mandarmos à Jo (Rowling) uma cópia do teste de Daniel para as telas”.
Daniel Radcliffe, onze anos, tinha ficado sabendo sobre as audições para o tão procurado papel alguns meses antes, por um amigo da escola, mas dispensou suas chances. “Eu pensei, há milhões de meninos concorrendo para esse papel e eu sei que não vou conseguir!”. Radcliffe lembra carinhosamente. Após completar várias audições e aquele fatídico teste para as telas, a ligação que mudou a vida de Daniel finalmente chegou.
“Eu estava tomando banho e conversando com minha mãe quando o telefone tocou e meu pai entrou e me contou que eu tinha conseguido o papel,” Radcliffe relembra maravilhado. “Eu estava tão feliz, eu chorei muito! Aquela noite eu acordei às duas da manhã e acordei minha mãe e meu pai e eu perguntei ‘Isso é real? Eu estou sonhando?’ Eu estava tão animado!”.
Quanto ao personagem de Hermione, alguns vêem nela Rowling quando jovem, trabalhadora, estudiosa e preocupada; Rowling diz que ela mesma era dolorosamente ocupada ‘swotty’ (gíria britânica para estudiosa), com cabelos muito curtos. Ela alega ter se soltado mais tarde e defende Hermione intensamente.
“Minha editora americana diz que eu sou má com Hermione porque ela representa a mim mesma. Mas eu não acho que eu seja má com ela. Eu a amo afetuosamente. Eu entendo de onde ela está vindo. Vem de acreditar em si mesmo para ser franca e sentir que você não é bom em nada mais e que você tem que conquistar algo. Eu entendo Hermione completamente e eu realmente a amo e não quero representá-la como uma coisinha mal-humorada. Hermione não é forte o suficiente? Ela é a mais brilhante dos três e eles precisam dela. Harry precisa muito dela”.
Desde que aprovou o roteiro para o filme e para os ramos que ele produz, Rowling parece estar pronta para defender sua visão de Harry Potter até o fim. “Eu faria qualquer coisa para evitar que Harry se tornasse caixas de fast-food por todo lugar,” ela disse. “Eu faria meu máximo. Esse seria meu pior pesadelo.” E sobre a comercialização do quarto livro, ela disse, “Eu tenho bem claro na minha mente o que eu gostaria que estivesse por aí e o que eu não gostaria”.
Trouxas intrometendo-se
Rowling tem procurado manter um controle similar sob o acesso público em sua vida particular, mas isso não tem sido sempre possível. Por mais que ela tenha tentado, nos primeiros anos de seu sucesso, fingir para si mesma que o reconhecimento não mudaria sua vida, mudou de qualquer forma; entrevistas, aparições na TV e tours promocionais para os livros e o filme, assim como uma premier bem divulgada em Londres, são somente partes disso. Ver a si mesma como uma celebridade, sob o constante olhar da imprensa e da atenção pública, tem sido difícil para essa mulher naturalmente tímida.
“Mas então eu vou para casa, e a vida se retoma seu padrão normal. Não é particularmente interessante – ver amigos, trabalhar, criar uma filha – é a parte mais importante da minha vida, incluindo Harry,” ela diz.
Rowling tem um namorado atualmente e os rumores dizem que ela em breve se casará com o atraente Dr. Neil Murray, 30 anos, seu namorado há um ano. Antes que os dois possam apertar os nós para sempre, no entanto, Dr. Murray deve finalizar seu divórcio com a namoradinha desde a universidade e colega de trabalho Dra. Fiona Duncan. Os próximos ao casal acreditam que isso será resolvido em breve.
O que virá a seguir no mundo mágico de Harry Potter? O manuscrito para o quinto livro estava previsto para ser entregue à Editora Bloomsbury no começo desse ano, mas Rowling está atrasada e está tomando mais tempo para terminar de trabalhar nele. Uma porta-voz da editora acrescentou, “A decisão da data de publicação não será tomada até que tenhamos o manuscrito. Nós estamos numa situação na qual nós esperamos até vermos, não há um prazo”. Quando a Bloomsbury anunciou em Março que o quinto livro não seria lançado a tempo, as ações da empresa caíram cinco pontos.
Salgueiro Lutador!
O atraso na publicação do quinto livro causou frustração entre os fãs de Harry Potter ao redor do mundo, com sua data de lançamento sendo fonte de massiva especulação nos mais de cem websites na internet feitos por fãs de Harry Potter. Poderia Rowling estar depressiva com “bloqueio criativo” novamente, ou ela está apenas aproveitando demais a fama para poder escrever? Enquanto isso, o Amazon.com anunciou mês passado que o livro não seria lançado até julho de 2002 e desenvolveu uma ferramenta em seu website para os fãs que desejam ser os primeiros a encomendarem uma cópia. E sobre os filmes, o elenco já começou a ser escolhido para a próxima seqüência de Potter, com prazo para o ano que vem.
Mas para o momento, e na vida de J.K. Rowling e de todo o resto de nós, trouxas, parece que será definitivamente uma temporada de Felizes Feriados Harry esse ano!
Traduzida por: Renata Grando em 14/10/2007.
Revisado por: Fabianne de Freitas em 23/10/2008.
Postado por: Vítor Werle em 27/10/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.