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Posted by on jul 13, 2000 in 2000, Ano, Conteúdo, Curiosidades, Entrevistas JKR, Livro 1, Livro 2 |

Entrevista com J.K. Rowling: Hot Type

Solomon, Evan. “Entrevista com J.K. Rowling: Hot Type”. CBCNewsWorld (Canadá), 13 de julho de 2000.

Moderador: Evan Solomon

Parte 1:

Evan: Isso é o que diz a lenda: que tudo veio a você ao mesmo tempo.

J.K. Rowling: Não, não, não, não, não. Não, Harry veio até mim. Hogwarts veio até mim, não em sua totalidade, mas muitos dos personagens realmente vieram em uma espécie de… ímpeto.

E: Foi como uma aparição divina?

JK: De fato, sim, realmente foi. Então, estava em uma viagem de trem de quatro horas. Não deveria ter tido quatro horas; estava atrasado. E Harry estava lá. Pessoas como Nick Quase Sem Cabeça e Pirraça, os habitantes do castelo, estiveram lá. A cicatriz de Harry esteve lá e eu sabia como isto tinha acontecido. Isto é uma coisa muito estranha, mas sei que não estou sozinha nisto entre os escritores. Foi como se me dessem uma parte da informação e apenas tive de descobrir o resto. Não foi realmente como se eu o inventasse. Eu trabalhei para trás e para frente para ver o que devia ter acontecido.

E: Quase como remover a cortina para ver o que estava…

JK: Sim. Sim. Mas não, isto não me veio tudo ao mesmo tempo. É bem trabalhoso, montar o enredo. Quero dizer, eles são enredos complexos de vez em quando, e isto tomou uns dois anos, realizar tudo isso propriamente.

E: Quando você está pensando nessas idéias, porque algumas das melhores partes são as idéias como quadribol, que é…

JK: Sim, eu amo quadribol.

E: Sério? De onde você tira essas idéias? Diga-me das origens do quadribol.

JK: Posso falar vastamente sobre isso. Tive uma discussão forte com um ex-namorado. Eu estava escrevendo os livros Harry Potter fazia… aproximadamente um ano, eu acho que havia trabalhado em Harry até aquele ponto, talvez um pouco menos, e eu tinha decidido que uma das características de união de qualquer sociedade é o esporte, você sabe. Quase qualquer sociedade na qual você possa pensar, eles têm os seus próprios jogos e esportes. E decidi que queria… e então tivemos essa briga. Não sei se isto foi por causa e efeito. Duvido que seja. Mas na verdade saí do apartamento e fiz uma reserva em um hotel por uma noite e em vez de sentar lá e ficar deprimida sobre esta briga, sentei e inventei o quadribol.

E: Você sempre armazena suas idéias? Os escritores estão sempre rabiscando e dizendo que ‘Essa é a idéia perfeita.’ É este seu método?

JK: Sim. De fato tive uma idéia esta manhã no trem. Quando saí da cama esta manhã, de repente pensei ‘Oh, é isto que podíamos fazer no livro cinco’. Então, sim, é maravilhoso quando isto acontece, quando simplesmente vem até você.

E: Existe um senso entre algumas pessoas que dizem que os bons personagens são chatos e os vilões são sempre os mais interessantes. E existe uma famosa fala sobre Milton, que escreve Paradise Lost, que Deus é um chato e o diabo, interessante.

JK: Bem, veja bem, Harry é bom. Eu pessoalmente não acho Harry chato de maneira alguma. Quero dizer, ele tem os seus defeitos. Rony e Hermione são personagens ambos muito bons, mas eles são… Minha voz parece incrivelmente alta quando paramos este trem. (Risos)

E: (risos) Não, é adorável.

JK: Não, não fico entediada com a bondade. Não fico entediada com bondade.

E: Você se diverte mais escrevendo os vilões? Porque Voldemort (o bruxo sinistro que matou os pais do Harry) é o vilão principal.

JK: Sim, ele é um malvado. Me divirto mais? Gostei de escrever Dumbledore e Dumbledore é o exemplo da bondade. Mas gostei de escrever Gilderoy e gostei de escrever a Rita. Porque eu encontro neles personagens engraçados.

E: Então você não tem um predileto?

JK: Não, na verdade, não acho que tenha. Realmente gostei de escrever Duda também. É um grande divertimento escrever sobre Duda.

E: Você sabe, os personagens têm as suas próprias vidas. Eles têm as suas próprias histórias. Os escritores muitas vezes dizem, ‘amei aquele personagem e a parte mais trágica do meu ano passado foi ter que matá-los’.

JK: Bem isto está vindo.

E: Você já sabe quem irá morrer nos próximos livros?

JK: Sei sobre todos que irão morrer, sim.

E: E alguns dos personagens que amamos que você talvez também ame?

JK: Estou definitivamente matando pessoas que amo, sim. (Acena para fãs do lado de fora) É horrível, não é? (Risos) De fato é. Chorei escrevendo esse aqui [livro quatro] pela primeira vez. Chorei enquanto realmente escrevia. Esse realmente me derrubou.

E: Ele começa com um assassinato e depois há um no fim, que não direi de quem é. E você chorou então?

JK: Sim.

E: Mas no futuro há bem mais…

JK: (profundas risadas) Há coisa pior chegando.

E: Há? Existem mesmo coisas piores, não é?

JK: Eu não sei por que estou rindo. Isto é uma grande histeria (olha para as câmaras) há todas essas crianças olhando para mim (do exterior do trem). Se eles soubessem que eu falo sobre matar seus personagens prediletos (acena energicamente para os fãs). Olá!

E: As pessoas amam o Rony, por exemplo. As crianças pensam que você irá matá-lo porque ele é o melhor amigo do Harry.

JK: As crianças pensam, exatamente, porque elas são afiadas e viram tantos filmes nos quais o melhor amigo do herói sai perdendo. Portanto eles pensam que estou tomando isso pelo lado pessoal matando Rony. Mas talvez isto seja um blefe duplo… (Risos)

E: Agora que você sabe que eles esperam por isso, você irá dar isso a eles?

JK: Não, decidi… Não que eu me sentasse com uma lista e decidisse escrever, ‘Você vai, você vai, você vai’. Há razões para as mortes em cada caso, quanto à história. Por isso estou fazendo isto.

E: Este livro é conveniente para aqueles com seis e sete anos que amaram Harry Potter e a Pedra Filosofal?

JK: Depende da criança, mas tenho que dizer que com palavra ‘vá’, eu nunca disse que esses livros foram… veja, eu sabia o que estava vindo. Então tenho mães orgulhosas que me dizem ‘Ele tem seis anos e ele os ama,’ e estou pensando, eu pessoalmente não teria dito ‘vá em frente’ para alguém de seis anos. Pessoalmente não, porque eu sabia o que estava vindo, eu sabia que eles adquiririam coisas mais pesadas. A história é sobre um mundo que está ficando mais obscuro. Portanto depende da criança. Minha filha está com quase sete anos. Ela absolutamente os adora.

E: Mesmo este?

JK: Ela ainda não terminou este ainda.

E: Este é o livro crucial, porque depois deste livro, tudo se modifica. O mundo inteiro parece atravessar uma transformação radical.

JK: Bem, ele é o fim de uma era. O livro quatro é o fim de uma era para Harry.

E: Ele cresceu. Isto é um direito.

JK: Exatamente. Ele não está mais protegido. Ele foi muito protegido até agora. Mas ele é muito jovem para ter essa experiência. A maior parte de nós não adquire isto até um pouco mais tarde na vida. Ele está chegando aos 15 anos e é isso agora. (Um fotógrafo joga a sua câmera contra a janela e parte um ramo de quadros.) Ele está muito exposto agora, como você sabe se você leu o livro. Se você não tiver lido o livro, não vou contá-lo.

E: Mas há definitivamente um direito da passagem sobre ser um adulto… (uma briga segue entre o fotógrafo e o segurança. O homem grita ‘não me empurre. Não me empurre.’).

JK: Oh Deus.

E: Isto realmente está ficando grosso. (O fotógrafo furiosamente defende o seu caso à segurança.)

JK: O meu pior pesadelo é que as crianças vão ser machucadas nessa briga. Passamos por isso antes. Ao que parece, a imprensa local na nossa última parada, onde paramos para colocar a água no motor, tinha divulgado que eu estaria autografando livros lá. Então, havia 200 crianças esperando, e nós não estávamos dando autógrafos. Não houve nenhuma segurança ou nada. (Muitos fãs, tanto jovens como velhos, estão correndo do lado de fora do trem. Um homem de meia-idade mostra um bilhete contra a janela, que diz ‘Por favor, nos dê cinco minutos.’)

JK: Por favor, nos dê cinco minutos. (Ela cobre a sua cara com suas mãos e suspira.)

E: Por que você não para por cinco minutos?

JK: (A um assistente) Nós temos algum livro aí? Podíamos assinar alguns, podíamos distribui-los se algumas pessoas tiverem cometido algum engano. (Uma cadeia humana de assistentes passa uma corrente infinita de livros da multidão à Rowling que os assina com a proficiência relâmpago.) Muito obrigada, isto é melhor. Agora sim. Nos Estados Unidos, fui a uma loja e eles disseram que eles tinham visto uma pessoa assinar mais rápido do que eu, porque eles contaram quantas cópias fiz em duas horas, e foi Jimmy Carter.

JK: (O trem apita) Oh não, esse somos nós? (O trem sai lentamente para fora da estação enquanto Rowling acena exuberantemente a uma longa fileira de fãs. Uma mulher idosa acena e limpa uma lágrima de seu rosto. Uma menina corre junto com o trem, acenando com toda a sua força.) Oh Deus, é de quebrar o coração, não é? Isto se parece com uma longa tortura. São sempre as pequenas meninas sardentas, porque eu fui uma pequena menina sardenta. Elas aquecem o meu coração.

E: Inacreditável. Isso é difícil.

JK: Sim, é. Isto é. É horrível na verdade. É realmente horrível. Bem, você viu, é realmente sórdido. Então, um jornal disse a crianças de 10 anos que iria dar autógrafos. E aí você tem a polícia na plataforma dizendo ‘Não saia. Isto causará bagunça.’ Portanto é atormentador ficar como estou, apenas sentada aqui vendo crianças chorarem. É horrível. Sim, então isto não é muito divertido.

E: Mas há coisas boas nisso…

JK: Sim, muitas coisas boas. O outro lado disto é uma coisa boa, quando eles estão excitados. Na verdade, a melhor coisa, são as mães que se aproximam de mim e dizem ‘Ele nunca leu antes. Ele nunca teve o costume de ler’. Isto é o melhor. É normalmente ‘ele’, tenho que dizer. Geralmente não ‘ela’. Normalmente meninos, sim.

E: É essa a coisa, os livros de Harry Potter começaram a fazer os meninos lerem. É bem gratificante.

JK: Isto é o melhor, sim.

Parte 2:

Evan: Você trabalhou para a Anistia Internacional. Durante dois anos.

J.K. Rowling: Sim, eu trabalhei. Assistente de pesquisa. Os direitos humanos abusam na África Francófona. Os jantares políticos eram fascinantes. Eu sabia tudo sobre a situação política no Togo e Burkina Faso.

E: E você ainda sabe.

JK: Não, eu não sei. Não mais.

E: Mas aqui está onde isto se destaca: Hermione e os direitos dos elfos. Os direitos civis estão presentes em Cálice do Fogo.

JK: Oh sim, sim.

E: Essa é uma questão verdadeira.

JK: Sim, foi um pouco autobiográfico. Minha irmã e eu, nós fomos este tipo de adolescente – (falando com drama) fomos esse tipo, ‘sou o único que realmente sente essas injustiças. Ninguém mais entende como me sinto’. Acho que muitos adolescentes passam por isto.

E: Na Inglaterra eles chamam isso de ‘diretamente em’ ou algo.

JK: Exatamente. Bem, é divertido escrever sobre ela porque Hermione, com as melhores das intenções, se torna meio fanática. O meu coração fica inteiramente com ela, conforme ela atravessa isso. Ela desenvolveu uma consciência política. Meu coração está completamente com ela. Mas o meu cérebro me diz, o que é uma coisa do processo de amadurecimento, que na verdade ela engana-se sobre essas mesmas pessoas que está tentando ajudar. Ela os ofende. Ela não é muito sensível ao seu …

E: Ela é um tanto condescendente aos elfos que não têm direitos.

JK: Ela pensa que é tão fácil. É parte do que eu dizia antes sobre o processo de amadurecimento, perceber que você não tem tanto poder quanto pensa que poderia, e ter que aceitar isto. Então você aprende que é difícil modificar coisas e que isso não acontece durante uma noite. Hermione pensa que está conduzindo-os a uma rebelião gloriosa em uma tarde e então descobre que a realidade é muito diferente, mas foi divertido escrever isso.

E: E você está trabalhando essas questões que, para você como uma pessoa, são obviamente cruciais a sua vida. Quero dizer, essas questões sobre relações entre raças e direitos civis.

JK: Sabe, as crianças estão interessadas nessas coisas. Elas estão. Não sou somente eu. Acho que elas também estão.

E: Deste modo, estamos protegendo as nossas crianças desse tipo de coisa? Porque certamente na América do Norte, há essa idéia de que deveríamos proteger as nossas crianças…

JK: Na minha última viagem para lá, era época do Dia das Bruxas. Eu fiquei surpresa que minha televisão do hotel… você vê, minha filha estava no quarto do hotel, e três programas sucessivamente estavam preocupados em ‘como fazer com que nossas crianças não fiquem mais assustadas com o Dia das Bruxas’. Três sucessivamente. Esses programas de entrevistas. ‘Bem, assegure-se que elas os observem colocando as decorações, assim elas podem ver que não é verdadeiro. Explique-lhes que é tudo por diversão’. E estou lá sentada pensando, você está tentando proteger as crianças das suas próprias imaginações, e você não pode fazer isto. É assim que você as torna crianças assustadas, na minha opinião. Você as torna crianças assustadas dizendo, ‘não é assustador. Não há nada lá para assustar você’. As crianças ficarão assustadas e elas terão que viver com isso e lidar com isto. Você não pode evitar que elas sintam medo. Uma criança feliz não é aquele que nunca experimentou o medo ou a quem nunca foi permitido experimentar o medo.

E: O medo é uma coisa saudável?

JK: É uma coisa saudável. É uma questão de sobrevivência. O que acontece a uma criança que foi tão protegida na sua idade… Quero dizer, como uma criança pode ter chegado aos 14 anos sem nunca ter experimentado o medo, mas digamos que isto seja possível? Seria uma experiência destruidora para esse menino ou menina quando sentirem o medo pela primeira vez.

E: Então, do que deveríamos proteger nossas crianças?

JK: Estamos tentando protegê-las dos nossos próprios medos, acredito, e isto não é saudável. Isto não é bom.

E: Do que é saudável protegê-las?

JK: Certo. Obviamente os queremos fisicamente seguros. Isto é um instinto muito natural. Faço o mesmo com minha filha. A minha reação a um livro assustador ou a um filme assustador seria assistir com ela e discutir com ela, ver como ela reagiu a isso. Mas não me entenda mal. Há coisas que não quero que minha filha de quase sete anos veja. Definitivamente existem coisas, como sexo explícito. Não, ela é muito nova. Isto é como dar uma arma carregada a uma criança de sete anos e dizer “brinque com isso”. Não, essa é outra questão. Quero dizer, o sexo é algo que discutimos, mas não quero que ela assista a certos tipos de filmes. Não quero que ela assista a filmes nos quais as pessoas batem na cabeça uns dos outros à toa. Não, absolutamente não. Mas quando é algo desse tipo…

E: Porque é difícil estipular a linha aqui, não é? Porque alguém pode ler o seu livro e dizer ‘bem, há assassinato…’

JK: Pessoas morrem, mas você se preocupa quando eles morrem? Você tem absolutamente alguma idéia de quão maldoso seja tomar a vida de outra pessoa? Sim, acho que em meu livro você tem. Acho que sim. Acho que você vê que é uma coisa horrível. Tenho um respeito enorme à vida humana. Não acho que você leria nenhuma das mortes naquele livro e pensaria, ‘sim, bom, ele se foi, vamos em frente’. De modo nenhum. Acho que deixo muito claro onde as minhas simpatias estão. E aqui estamos lidando com alguém, estou lidando com um vilão que realmente considera a vida humana incrivelmente barata. Isto é o que acontece: um aperto do gatilho. Foi. Para sempre. Isto é mau. Isto é uma coisa terrível, terrível, mas você tem razão, sei onde traço a linha. Outras pessoas traçarão a linha em um lugar diferente e eles discordarão de mim.

E: Mas isto é uma autora com um sentido da responsabilidade moral. Os autores deveriam ter um sentido da responsabilidade moral?

JK: Quando se trata de escrever livros, funciono com um conjunto de regras diferente. Na verdade, escrevo o que quero escrever. Por causa da natureza da discussão que estamos tendo, tenho que analisar essas regras, mas quando estou escrevendo, não sento e penso nisso como, há a minha linha, e aqui estão as lições morais que estamos ensinando às nossas crianças. Nada disso alguma vez passou pela minha cabeça. Eu escrevo o que quero escrever.

E: Mas a história tem que ser escrita.

JK: Exatamente. Eu escrevo o que a história é. Eu escrevo o que sinto que tenho que dizer.

E: Essa é uma linha difícil, certo? Porque a história pode exigir algo que pode desafiar as coisas das quais, pessoalmente, você gosta. As pessoas têm perguntado, ‘Bem, Harry encarou a morte e ele é um órfão. Agora que ele está crescendo, ele enfrentará outros desafios?’ Desafios sexuais? Há, de fato, paqueras neste livro. O que mais? Encontraremos drogas? As questões que a adolescência vê: drogas, gravidez na adolescência. Essas são verdadeiras questões de adolescentes.

JK: Certo. Drogas e gravidez na adolescência, eles devem ser discutidos na literatura infantil? Sim, definitivamente. Penso que há muito pouco que não deva ser discutido na literatura infantil. De cabeça, na verdade, não consigo pensar em nada, se for tratado propriamente. Não posso pensar em um único tópico. Contudo, nos livros de Harry Potter, não acho que será muito fiel ao tipo de livro se Hermione se encontrar grávida com 13 anos de idade. Não. Porque eles não são esse tipo de livro. Francamente, Harry, Rony e Hermione têm bastante com que lidar sem começar a se envolver com substâncias ilegais. Você sabe, eles estão contra outras coisas.

E: Wiccans (da religião wicca), disseram ‘Oh, isto é fabuloso. Ela é uma apologista e ela é campeã de bruxas brancas…’

JK: Não, eu não sou.

E: E pessoas de escolas internas estão dizendo ‘Vêem? É por isso que as escolas internas são boas’. Você é campeã dessas causas?

JK: Eu disse isto antes. Os dois únicos grupos de pessoas que parecem pensar que estou sinceramente ao seu lado são praticamente, wiccans e escolas internas, e não faço parte de nenhum desses grupos.

E: Você não mandaria sua filha para uma escola interna, mandaria?

JK: Não, eu não mandaria. Não. Existem circunstâncias nas quais posso entender porque uma família faria isso. Mas você poderia saber que minha filha não irá a uma escola interna. Vou me sentar nela antes que eu a deixe ir a uma escola interna. Quero mantê-la em casa o máximo que puder.

E: Algumas pessoas que você satiriza mais neste livro, as pessoas más, os Malfoys, eles valorizam muito as classes sociais, eles são racistas contra os trouxas. É justo dizer que esses são neo-conservadores ou Thatcheristas? (Acenos de cabeça de J.K.) Há um verdadeiro lado político que você discute nos livros?

JK: Acho que neste livro também, você entende totalmente… com Voldemort, eu não quis criar esta figura de um cara mau, no qual você põe um chapéu preto e diz ‘Certo, agora você atira naquele cara porque ele é mau’.

E: Como os Dursleys, que são mais uma figura má?

JK: Sim e não. Você encontrará Dursleys, na Inglaterra. Você encontrará. Exagerei-os abertamente. Sim, Voldemort. No segundo livro, em Câmara Secreta, de fato ele é exatamente o que eu disse antes. Ele pega o que ele percebe ser um defeito nele, em outras palavras a não-pureza do seu sangue, e projeta-o nos outros. Isto se parece com Hitler e o ideal Ariano, com o qual ele mesmo não se adequava. E Voldemort está fazendo isto também. Ele toma a sua própria inferioridade, e vira isso contra outras pessoas e tenta exterminar nos outros aquilo que odeia em si mesmo.

Parte 3:

E: Há um mito de que você seria uma mãe vivendo em um apartamento não aquecido em Edimburgo. Você estaria escrevendo Harry Potter duas horas por dia.

J.K. Rowling: Em guardanapos, é o que dizem. (risos) Um jornalista americano me disse, ‘É verdade que você escreveu todo seu primeiro livro em guardanapos?’ Eu realmente quis dizer, ‘Não, em saquinhos de chá. Eu costumava guardá-los’.

E: Qual é a história certa aqui?

JK: A história verdadeira, como a maior parte do que acontece na imprensa, há um lado verdadeiro e há um lado de enorme de exagero.

E: (Com uma imitação de sotaque britânico) Meu Deus!

JK: (risos) Então, durante seis meses… não é muito longe dessa história, mas certas partes foram encobertas.

E: Você estava recebendo ajuda de caridade?

JK: Sim.

E: Você vivia em um apartamento não aquecido?

JK: Não, tínhamos o aquecedor. Sim, tivemos o aquecedor. Tivemos ratos também, mas tivemos o aquecedor. Durante seis meses vivi exclusivamente com pensões. Foi horrível. Consegui um emprego de secretária clerical de meio período. Quero dizer, realmente de meio período, como umas duas horas por semana. Mas naquela época a lei dizia que você só podia ganhar até 15 libras semanais a mais do que seu benefício, o que não o deixa muito mais rico, mas naquele tempo 15 libras eram muito dinheiro. Bem, precisei disto. Então, tinha emprego e nós ainda vivíamos principalmente com a ajuda da pensão. Então voltei à faculdade para adquirir uma qualificação de professora, que me permitiria ensinar francês na Escócia. Então ainda estávamos quebradas, mas não vivíamos de fato na caridade porque eu tinha essa doação. E logo depois disso, embora eu estivesse em parte em benefícios durante algum tempo novamente, porque não tive um emprego de professora em tempo integral, nunca estivemos quebradas como tínhamos estado durante os 18 primeiros meses em Edimburgo. Estávamos muito, muito quebradas financeiramente nessa época.

E: Jo, por que você decidiu escrever durante este período? A maioria das mães solteiras que não têm dinheiro e que têm uma criança, elas somente querem fazer dinheiro. Esquecem a sua ambição de escrever, esquecem os seus sonhos. Elas têm que ser um pouco mais práticas.

JK: Bem, me senti culpada por continuar a escrever, na verdade, muito culpada.

E: Você sentiu que como uma mãe você não foi…?

JK: No primeiro ano não, porque tentei muito conseguir um trabalho pago. E a conclusão era que nenhuma creche pública ia aceitar um bebê tão novo, a menos que ela estivesse correndo algum risco. Após eu ter sido qualificada como professora, realmente me senti culpada por continuar a escrever. Pensei, ‘talvez você devesse simplesmente se mudar. Talvez você devesse simplesmente voltar a Londres’, onde eu tinha morado antes, e conseguir um emprego de professora em tempo integral lá e desistir disso. Eu me perguntava, estaria eu caçando um arco-íris e sacrificando… não o bem-estar de minha filha, porque ela era menininha muito feliz. Mas talvez ela pudesse ter tido mais brinquedos e mais roupas, eu sentia.

E: Como uma mãe, você se sentiu um fracasso? Você não tinha dinheiro. De repente você tem esta criança.

JK: Senti-me muito zangada. Não sei se me senti fracassada, mesmo quando primeiro voltei à vida, foi meio difícil. Senti-me muito zangada comigo mesma. Por muito tempo fiquei zangada comigo.

E: Como se você tivesse, o que, não feito o máximo que podia?

JK: Sim. E ao mesmo tempo estava orgulhosa de mim, e esta é a verdade. E haverá gente vendo isso, mulheres vendo isso, exatamente na situação em que estive, e posso dizer a elas, ‘não olho para mim mesma no passado e penso ‘que perdedora’. Olho para mim então, e fico muito orgulhosa, porque eu fazia o trabalho de três pessoas. Eu estava fazendo um trabalho pago. Foi o único ganha-pão, e eu estava sendo mãe e pai. Se alguém pensa que isso é fácil, tente fazer algum dia. E eu estava escrevendo um livro. Portanto, de maneira nenhuma olho para trás penso ‘que perdedora’. Sabe, você não é uma perdedora por estar vivendo apenas daquele pouco dinheiro, e controlando aquele pouco dinheiro para se assegurar de que você chegue até o fim da semana. E mantendo seu filho alimentando, de maneira barata. E simplesmente sempre colocando seu filho em primeiro lugar.

E: Há uma lenda agora de que você está reclusa ou a mídia subiu foi à sua cabeça, e agora você está dizendo ‘Sem mais entrevistas’.

JK: Não. Isto nem me aborrece. Isso me faz rir, realmente me faz rir. Faz amigos meus rirem. Não estou reclusa. Há duas razões pelas quais não dei muitas entrevistas recentemente. Uma é como digo, eu quis trabalhar. Uma entrevista toma meio dia útil para mim, e eu trabalhava 10 horas por dia neste livro. Não podia permitir este tempo. Para mim, era um desperdício de energia. Preferia escrever o livro. E a outra coisa, que minha própria experiência diz que as pessoas tendem a esquecer, eu ainda sou uma mãe solteira. A expectativa parece ser que uma vez que você faz um pouco de dinheiro, você entregará a sua criança a um batalhão de babás e então você vai fazer o que tiver vontade. Bem, o fato é que quero criar minha filha e isso significa que quero passar o tempo com minha filha. Não há como ser capaz de fazer isto se eu fizer viagens promocionais a cada país que me publica. Portanto é por razões muito prosaicas que estive mantendo um perfil relativamente baixo ultimamente.

E: E ainda a fama invade. Quero dizer, estamos no trem e em cada parada estão centenas de crianças e pais…

JK: Isto é uma coisa boa, no entanto.

E: Estas são as coisas das quais você gosta.

JK: Realmente, amo, amo, amo encontrar as crianças, porque isto é como ensinar sem dor, você vê. Eu era professora e gostava de ensinar. Encontrar tantas crianças no contexto no qual as encontro agora, isto é divertido. Não tenho que disciplinar. Elas querem fazer confusão, eu posso participar se quiser. Isto é divertido. Nunca esperei estar nos jornais. Pessoalmente nunca esperei estar nos jornais. A minha ambição para esses livros, sendo franca, era conseguir uma crítica. Muito livros infantis nem chegam a ter críticas – esqueçam boas ou más críticas. Pessoalmente, não, nunca esperei estar nos jornais, então é uma experiência estranha quando acontece com você.

E: As pessoas sempre perguntam se a fama mudou você? Como você está diferente? Não acho que essa seja a questão, mas você se protege contra mudanças? Como você diz, você ainda quer ser uma mãe solteira, mas como você pode fazê-lo agora quando todo o mundo a conhece?

JK: Na verdade, não sou uma pessoa muito reconhecível. Não tenho nenhum problema em andar em qualquer lugar ou fazer coisas normais e as pessoas não me reconhecem muito, de maneira nenhuma. Nas raras ocasiões em que sou reconhecida, as pessoas são extremamente educadas. Eu nunca passei pela situação de alguém vir até mim e ser desagradável, pelo contrário. Então é inteiramente possível que eu leve uma vida normal. E por favor, Deus, deixe sempre permanecer assim. Porque você sabe, eu realmente não gostaria do contrário. Eu odiaria, na verdade.

E: Há uma famosa história de que você escreve em cafés. Você ainda pode escrever em cafés? Com 35 milhões de livros?

JK: Sim.

E: Ninguém incomoda você? ‘Posso ter o seu autógrafo?’ quando você está no meio de um grande acontecimento?

JK: Muito raramente.

E: Há uma diferença entre a reação americana e a reação britânica? No sentido de que nos Estados Unidos você é uma celebridade e os americanos tratam as suas celebridades de um modo diferente do que você é tratada aqui.

JK: Eu não gosto da idéia de ser uma celebridade. Realmente não gosto. Fico desconfortável com isso.

E: É ingênuo fingir que você não é?

JK: Até certo nível, acho que é realista, porque as crianças não se viram para me ver. Acho que eu poderia ser homem, mulher, velha, jovem. Contanto que eu tenha escrito os livros, elas estarão interessadas em ver quem tinha escrito os livros de Harry Potter, mas não acho que a vontade delas seja eu, pessoalmente. Sei por fatos que a vontade delas não sou eu pessoalmente, você sabe, como eu sou ou o que eu falo. Eles estão somente curiosos para descobrir quem escreveu os livros. Portanto espero e acredito que os livros sejam a atração e não eu pessoalmente.

E: Esta manhã eu li o Daily Mail

JK: (Estremece) Oh. O que você estava fazendo lendo isso?

E: Porque está no hotel. É o único jornal que nos deram.

JK: Certo. Desculpa lamentável.

E: Eu sei, mas é a melhor que tenho. Realmente é.

JK: (Dramaticamente) Muito bem então, o que o Daily Mail está dizendo agora?

E: O Daily Mail disse que há um perseguidor atrás de você. Este é o lado escuro da fama?

JK: Você sabe, eles realmente poderiam querer entrar em contato comigo e me contar sobre esse perseguidor, porque acho que eu provavelmente saberia se eu estivesse sendo perseguida. Isto não é uma coisa boa, certo, mas às vezes me sinto quase do tipo, ‘Oh, vamos, alguém a persiga! Estamos sem histórias. Onde está a sua iniciativa? Vamos, com certeza vale a pena persegui-la?’ Bem, não, ninguém me está me perseguindo. Portanto eu gostaria de agradecer o Daily Mail por convidá-los a fazer isso porque é muito legal da parte deles.

Parte 4:

Evan: Hora de falarmos sobre os Dementadores.

JK.. Rowling: Ah, os dementadores, sim.

E: Os dementadores, hmm, eles são o símbolo da depressão. (J.K. – Mmm hmm). Agora, odeio fazer conexões biográficas entre personagens e autores, mas esse (rindo)…

JK: Você poderia também. (Risos) Vamos então.

E: Porém há uma conexão biográfica e falamos sobre isto, sobre a depressão em sua vida, não somente obviamente um período horrível, mas algo no fim que foi importante para você.

JK: Hm, eu fiquei depressiva, hm, eu diria – seria 1994 – realmente sofri um período que me disseram ser depressão clínica. Não sei, disseram-me que foi. Sim, fiquei depressiva durante algum tempo. Não me envergonho disto, um monte de gente é depressiva e nunca sofri disso novamente e passei por isso. Mas os dementadores, uh, é tão difícil traçar a origem de algo. Eu vi essas coisas e sabia o que queria que eles fizessem, mas eles se tornaram, conforme realmente pensei sobre o que eles faziam, eu percebi que era isso que ia fazer. Isto é normalmente o modo como acontece comigo. Não penso conscientemente ‘E agora, criarei o símbolo da depressão’ mas conforme estou criando-os percebo o que estou fazendo. Você sabe, o que inconscientemente continua. Portanto eles criam uma ausência da sentimentos, que é a minha experiência da depressão. Isto é uma ausência…

E: Esta é a sua definição deles.

JK: (Concorda com a cabeça) Mmm.

E: Agora, você diria que para você, sabe, toda vida tem momento cruciais, mas para você, esse foi um momento crucial, um ponto de virada na sua vida?

JK: Ter uma depressão?

E: Sim, quero dizer, esse foi o fundo do poço? (J.K. para e pensa.) O que aconteceu? Agora, isto foi depois do seu casamento, certo?

JK: Sim. Sim. Foi, acho que foi o que você chamaria de uma depressão reacionária, como quando certas coisas acontecem, e essa foi a sua reação, obviamente. Penso muito, tive anos muito turbulentos. Mudei de país duas vezes. Minha mãe morreu. Essa foi a grande coisa. Nada foi maior do que a morte da minha mãe.

E: Certo. E você tinha 25 anos?

JK: Eu tinha 25 anos. Isto começou este tipo de trem de infortúnios e desventuras. Me casei. Nos separamos. Ter minha filha foi uma coisa maravilhosa, mas uma responsabilidade enorme, e fiquei preocupada. Eu estava sempre preocupada sobre estar sem dinheiro, você sabe, e criar uma filha.

E: Essa foi a coisa, que sua mãe faleceu, quando você tinha 25 anos, de esclerose múltipla.

JK: Sim, e ela era muito nova. Tinha 45 anos.

E: E isto foi…

JK: Isto não foi bom.

E: Isto foi o pior, obviamente.

JK: Essa foi a pior coisa que já me aconteceu. Com certeza. Sim. Sim. Isto foi um choque enorme. Por dentro, você vê, me senti culpada. Senti-me, bem, como eu poderia estar chocada? Você podia ver como ela estava doente. Mas eu não esperava que acontecesse tão rápido. Era alguma coisa sobre o fato de ela ainda ser tão jovem. Simplesmente pensei que ela estaria por perto durante mais alguns anos, e, hm, ela não esteve. Então foi um verdadeiro choque. Foi horrível.

E: E isto começou?

JK: Bem acho que de fato, que é, ou foi, bastante típico de mim, embora eu realmente me afligisse, eu quase, hm, eu não quis ficar assim aflita. Quero dizer, acho que esse é um bom modo de se entrar em uma depressão própria. Você sabe, se recusar a sentir aquilo, apenas se manter indo e mudando. Então viajei para o exterior. De fato tive uma época maravilhosa ensinando no exterior. Foi um dos melhores empregos que já tive, quanto aos bicos, porque eu sempre soube que nenhum desses trabalhos eram realmente para mim. Eu sempre soube que eu iria escrever. E encontrei meu ex-marido e etc. Eu tive uma filha linda. Mas todo esse tipo de coisa se complicou quando eu deixei meu ex-marido, porque eu tive que sentar e pensar no que tinha acontecido. Lá estava eu, não tinha muito dinheiro, não tinha um emprego. A primeira vez na minha vida adulta em que eu não estava trabalhando. Muito preocupada com o dinheiro, e como iria criar minha filha. E tudo aconteceu de uma vez. Então sim, realmente fiquei bastante deprimida.

E: Isto aparece nos seus livros, que você sente a falta da sua mãe e está lidando com isso, como Harry, somente vendo a sombra, mas isto nunca pode voltar.

JK: Lidar com a perda é uma parte forte dos livros. Lidar com a perda. Sim. Não posso entrar em detalhes tanto quanto eu gostaria porque ainda tenho mais três livros para lançar e isto não é uma propaganda comercial, você pode pegá-los na biblioteca e você não tem que comprá-los, estou dizendo somente que arruinarei os próximos livros se eu entrar em detalhes sobre isso. Mas este é um tema central forte – lidar com a morte, sim, e enfrentar a morte.

E: Em um dos livros Dumbledore diz que “a morte é somente o próximo passo para um grande mistério, a próxima grande aventura”. Acho que essa é a fala.

JK: Eu gostaria… não sou tão sábia como ele. Eu gostaria de ver dessa forma. Eu realmente vejo a morte desta forma, de muitos modos. A morte ainda me assusta, como assusta a maioria das pessoas. Porque ainda há muita coisa que quero fazer, e não quero ter que deixar minha filha muito cedo.

E: Isto é difícil de aceitar.

JK: (Acenos de cabeça) Mmm hm. Deixar as pessoas. Acho que particularmente deixar seus filhos. Isto é uma coisa difícil.

E: Quando você fala sobre lidar com a morte e a perda nos livros, isso vem de você própria – você teve a perda de sua mãe – isto veio de uma espiritualidade pessoal? Quero dizer, você é uma pessoa religiosa? A sua espiritualidade vem de um lugar certo?

JK: Realmente acredito em Deus. Isso parece ofender a Carolina do Sul mais do que qualquer coisa. Acho que eles pensariam… bem, essa é a minha experiência limitada, que eles têm um problema mais por eu acreditar em Deus do que eles teriam se eu fosse uma ateísta impenitente.

E: Você de fato acredita em Deus.

JK: Sim. Sim.

E: Em magia e…

JK: A magia no modo como acontece nos meus livros, não, não acredito. Não acredito nisto. Não. Isto é tão frustrante. Novamente, há tanto que eu gostaria de dizer, e voltar atrás quando escrever o livro sete. Mas então, talvez você não terá nem que dizer isto porque terá descoberto de qualquer maneira. Você terá lido.

E: Mas na sua própria vida, quero dizer, você é praticante?

JK: (Acenos de cabeça) Mmm hm. Bem, vou mais do que a casamentos e batizados. Sim, vou.

E: E na sua própria vida, a igreja e essa espécie da espiritualidade ajudariam você a lidar com a perda de sua mãe?

JK: Não, na verdade não ajudou na época. Não (balança sua cabeça).

E: Portanto você voltou a isso.

JK: Sim, eu diria que sim. Tenho alguns problemas com a religião convencional organizada. Alguns problemas. (Longa pausa) Mas… mas, sim, é um lugar ao qual eu iria num monte de preocupação. É provavelmente um lugar ao qual eu iria num momento de preocupação. Eu não esperaria que ela fornecesse todas as respostas, porque eu esperaria encontrar algumas delas dentro de mim.

E: Certo, mas o lado institucional dela, você sabe, as regras…

JK: Tenho certos problemas com alguns desses aspectos. Sim tenho.

E: E as pessoas me pediram para te perguntar… uma das coisas mais comuns… como ela acreditou em si mesma? Ela está por baixo. Ela é uma mãe solteira. Houve um momento no qual você simplesmente pensou ‘Vou fazer isso e não importa o que aconteça’ ou isto foi uma força sua?

JK: Isso era algo que eu sempre iria fazer. Você sabe, eu sempre ia tentar ter um livro meu publicado. Este não foi o primeiro livro que eu escrevi. Quero dizer, Pedra Filosofal não foi o primeiro livro que eu escrevi, embora eu nunca tenha tentado publicar os outros dois. Eles eram livros para adultos.

E: Eram livros para adultos?

JK: Mmm hmm. Mas dentro de mim, eu sentia que eles não estavam prontos para serem lançados, e eu acho que estava completamente certa sobre isso. Eu não estava sendo modesta. Harry, por outro lado, eu acreditava nele mais do que acreditava nesses outros, e eu simplesmente estava determinada a fazer isso. Não era tanto como… bom, deve ter tido uma certa auto-confiança nisso. Simplesmente deve ter tido, não é?

E: Alguém mais acreditou em você?

JK: Não. Bem, eu suponho… uma coisa um pouco cruel de se dizer sobre os meus amigos. Hm, alguém mais? Certamente uma pessoa, uma amiga, naquela época a quem eu contei que estava escrevendo um livro. Veja, fui sempre muito reservada sobre meus escritos e ela, eu acho, definitivamente pensou, você sabe, que eu estava iludida.

E: Isto foi como ‘Oh Deus, aqui vai ela de novo?’

JK: Sim. (Sarcasticamente) E agora escreverei um livro, porque isto me trará um monte de dinheiro. Acho que é muito irônico quando digo essas coisas porque acho que é como ela me viu no momento. A realidade é que nunca esperei fazer dinheiro escrevendo. Pensei que ensinar ia nos dar dinheiro suficiente para viver e me senti culpada, até mesmo depois que o livro foi aceito para publicação, por realmente não tentar um emprego de professora em tempo integral. Eu acumulava as minhas horas, mas sempre esperava que eu pudesse encontrar uma desculpa somente para conseguir um dia livre por semana para escrever.

E: Você achava que tinha talento?

JK: Bem, esperava que eu tivesse. Foi um verdadeiro alívio descobrir… Suspeitava que havia uma coisa que pudesse fazer direito, que era escrever.

E: Você é boa em alguma outra coisa?

JK: Não. Não, sou vergonhosamente ruim na maioria das outras coisas, acho. Uma pessoa muito desorganizada. Fui o inferno em escritórios. Fui boa em ensinar inglês como uma língua estrangeira. Gostei de fazer isto. Acho que fui boa nisto. Sou boa em cuidar de aquários. Não consigo pensar em mais nada, na verdade, realmente não consigo.

JK: Você se lembra do momento no qual conseguiu… você descobriu depois das rejeições, que era aquilo, você tinha conseguido uma editora?

E: Foi o melhor… isto soa muito bem, é a verdade. Depois do nascimento da minha filha, o momento mais feliz da minha vida foi ter minha filha sendo entregue a mim no hospital. Sensação indescritível. O segundo momento foi quando o meu agente telefonou para mim e disse ‘temos um negócio com a Bloomsbury’. Nada que aconteceu desde então, e incluo o comércio e a lista de bestsellers do New York Times e tudo isso, o que tem sido, não pense mal de mim, fabuloso, nada igualou o momento quando eu soube que o meu livro seria publicado. Foi, ahh, que momento. Estive nas nuvens durante dias, não posso explicar.

Traduzida por: Carolina Salgueiro em 25/05/2007.
Revisada por: Renata Grando em 12/10/2007.
Postado por: Vítor Werle em 26/09/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.

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