William Plummer & Joanna Blonska. “Feitiço encardenador”. Revista People, 12 de julho de 1999.
A autora britânica J.K. Rowling dá voltas em um conto encantado sobre um jovem bruxo que vai de bruxas malvadas à feiticeiras.
Joanne Rowling vendeu mais que Jeffrey Archer, e Delia Smith quando seu segundo livro infantil alcançou o topo da parada britânica de mais vendidos uma semana após sua publicação no ano passado. Essa semana, excitação pelo seu terceiro livro, as impressões continuam e excedem as de “Hannibal“, a seqüência mais esperada de “Silêncio dos Inocentes” de Thomas Harris, criou uma fuga nacional.
Foi publicado ontem, para o alívio de mães ansiosas, exatamente às 15h45min – o lançamento foi atrasado para garantir que as crianças não estivessem ausentes para pegar uma cópia.
De fato, ninguém está mais surpreso com seu sucesso do que a própria Joanne, que tem aquele leve olhar de um ganhador da loteria.
Não é surpresa que ela começou nossa conversa no escritório de seu editor com: “Isso tem sido demais. Meus nervos estão um pouco gritantes. Você se importa se eu estafar?”.
Seu novo livro Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é a terceira parte da sua série brilhante sobre o órfão Harry que descobre que é um bruxo.
Crianças que foram atraídas pela história engraçada, esquisita e criativa de seus primeiros dois livros ficarão, sem sombra de dúvidas, fisgados novamente.
O talento de Rowling é tanto que não apenas suas palavras levam crianças de nove anos lerem, mas ela criou um mundo imaginário amado por adultos, também. Enquanto o jovem Harry, com seus poderes mágicos é um herói de culto – editora Bloomsbury já fez uma nova capa para as edições anteriores para seus leitores adultos – Joanne tem sido comparada com Roald Dahl.
Sua única escapatória de seu apartamento miserável, frio e de apenas um quarto era escrever em blocos de folha A4 em uma cafeteria aconchegante, sustentada por tudo que ela podia comprar – um café.
Agora ela é uma escritora que ganhou prêmios e a melhor em vendas. Seu primeiro conto, Harry Potter e a Pedra Filosofal, vendeu 80.000 cópias, ganhou o Smarties Book Prize em 1997 e já foi publicado em sete países, enquanto os direitos de filme para sua segunda aventura, Harry Potter e a Câmera Secreta, foi vendido por uma soma de seis dígitos para a Warner Brothers.
Suas histórias de riqueza da noite pro dia são tão extraordinários que você se pergunta se um bruxo não agitou uma varinha por cima dela também.
Joanne, 33, tem de fato, escrito há tanto tempo quanto ela possa lembrar.
Quando ela tinha cinco anos ela escreveu sobre um coelho que tinha sarampo. Na universidade ela escreveu sobre relacionamentos. Ela continuou escrevendo nos intervalos de almoço no trabalho, quando ela estava grávida também, e – para impedir que ela ficasse, “completamente, encarando com uma cara de maluca” – quando a sua vida atingiu o fundo do poço.
“Sempre esteve lá, como uma compulsão”, ela explica. “Eu também tenho exatamente o temperamento certo de um escritor. Eu sou um pouco introvertida e posso ficar longos períodos sozinha”.
Joanne, que é bem magra e tem um cabelo castanho bem cheio, nasceu em julho de 1965 e cresceu perto de Bristol e da Floresta de Dean. Ela tem uma irmã mais velha, Di, uma ex-enfermeira agora estudando Direito. Seu pai, Peter, é um engenheiro diplomado aposentado. Sua falecida mãe, Anne, era técnica de laboratório que amava ler. Joanne, que herdou o entusiasmo de sua mãe por livros, era uma criança com ‘cara de pudim’ que usava óculos e era um tanto estudiosa e tímida.
Ela fazia amigos inventando aventuras estrelando colegas de escola e lembra de sentar no pátio rodeado de crianças ansiosas para descobrir um pouco mais. Sua imaginação também lhe forneceu uma escapatória quando, aos quinze anos, ela soube que sua mãe tinha esclerose múltipla. “Eu fiquei atônita quando meus pais me contaram”, diz Joanne.
“Eu sinto tanto que ela não soube que eu tive um livro publicado e que nunca conheceu minha filha”.
A mãe de Joanne teve a doença por dez anos, os últimos dois em uma cadeira de rodas. Ela morreu em 1990 com quarenta e cinco anos de idade e o pai de Joanne já se casou novamente.
Joanne fazia francês e literatura clássica na Universidade Exeter. “Eu queria fazer inglês, mas eu achava que todo mundo iria dizer: ‘Mas pra que vai servir isso?’. Embora eu esperasse ser uma escritora, eu nunca pensei que isso seria possível, então contava apenas para meus amigos mais próximos”, ela diz.
Depois de se formar ela foi para Londres e arranjou um emprego como assistente de pesquisa na Anistia Internacional. Ela dividia um apartamento em Clapham, sul de Londres, e continuou a escrever nos momentos vagos.
“Eu dava desculpas ridículas para não me juntar com meus colegas de trabalho para o almoço e eu era tão cautelosa sobre os lugares que ia, um colega me perguntou se eu estava tendo um caso. Foi aí que comecei a escrever em cafés e pubs e nunca achei difícil bloquear o barulho de fundo”, ela diz.
Ela pensou sobre a idéia de Harry em um trem de Manchester para Londres, seis meses antes de sua mãe morrer, mas o processo foi lento. Foi a morte de sua mãe que a fez re-pensar sua vida.
“Ela morreu tão jovem, eu decidi que eu tinha que fazer outra coisa. Eu queria viajar e arranjar um emprego ensinando Inglês em Oporto, Portugal.”, ela diz.
Lá ela conheceu um jornalista português. Eles se casaram em 1992 e Jessica nasceu no ano seguinte.
“Eu estava pra lá de feliz sendo uma mãe”, ela diz. Joanne é particularmente sensível sobre esse tempo em sua vida e ela não quis dizer o primeiro nome do ex-marido. Embora ela continuasse escrevendo Harry Potter – isso incluiu dez primeiros capítulos diferentes – sobre tudo, foi um período turbulento.O casamento desmoronou em três anos. ”Embora as coisas fossem difíceis, eu não me arrependo do casamento porque me deu a minha filha e eu não mudaria nada disso”, ela diz.
Joanne decidiu fazer um começo limpo e ela e Jessica se mudaram para Edimburgo, onde sua irmã mora. Ela tinha fundos o suficiente para alugar um apartamento de um quarto, com aquecimento inadequado.
“Eu achei que seria temporário até eu encontrar um emprego e uma creche para Jessica.”
Ao invés disso, Joanne ficou presa em uma armadilha de miséria. Jessica foi recusada em uma creche estadual – “eles me falaram que ela estava sendo bem cuidada demais” – e Joanne não poderia pagar uma creche particular até conseguir um emprego e ela não conseguia arranjar um emprego até conseguir uma creche.
Durante seis meses ela viveu com uma renda de $180 por semana. Um trabalho relativo à escritório de meio turno lhe rendeu $35 extras por semana. Ela se sentia mortificada com a sua situação.
“Foi um grande choque e um abalo enorme para minha auto-estima. Eu me tornei depressiva mas ao contrário, me colocava pra cima. Eu sempre fui muito consciente sobre escrever, mas pensava: “Aqui estou eu, vinte e nove anos com renda mínima. O que de pior pode acontecer?’. Eu falava pra mim mesma: ‘Ser negada por todas as editoras no país’. Fazia-me escrever furiosamente.”.
Ela digitava o livro terminado em uma antiga máquina de escrever que ela comprou por $80 quando ela trabalhava em Londres.
Em junho de 1996, ela mandou para um agente e uma editora. ”O agente me mandou o manuscrito de volta, e para meu desespero sem a pasta, que tinha me custado $7, dizendo que 80.000 palavras era muito para um livro infantil”. O segundo agente que ela tentou, Christopher Little, escreveu de volta imediatamente para dizer que havia gostado e queria contratá-la. Ele mandou o manuscrito para Bloomsbury que ofereceu um adiantamento de $5.800.
“Foi o meu momento mais feliz”, Joanne sorri. O livro foi publicado em junho de 1997. Marcou o início de uma montanha russa.
Uma editora americana pagou $235.000 pelos direitos: um adiantamento nunca oferecido para um livro infantil.
“Por uma rota tortuosa extraordinária, eu acabei exatamente onde eu queria estar”, diz Joanne.
“Eu sinto um alívio enorme que a minha filha e eu estamos agora financiamente seguras, e ainda um pouco atônita que estou sendo paga para fazer a coisa que eu mais amo no mundo. Não pode ficar melhor do que isso.”
Traduzido por: Leticia Vitória em 13/06/2006.
Revisado por: Helena Alves em 21/06/2006.
Postado por: Fernando Nery Filho em 05/05/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.