Woods, Audrey. “Harry Potter e a chave mágica de J.K. Rowling”, Associated Press, 6 de julho de 2000.

Edimburgo, Escócia (AP). J.K. Rowling, criadora do jovem bruxo Harry Potter, está chegando alguns minutos atrasada para uma entrevista – não exatamente cinco, na verdade.

Uma modesta figura usando uma calça preta e uma enfeitada jaqueta de pele vermelha, ela desce lentamente a escadaria do hotel, procurando no lounge por um repórter e um fotógrafo.

“Você está procurando por mim?” ela pergunta, defensivamente, um pouco envergonhada e muito educada para levar em conta o óbvio – que muitos repórteres ficariam felizes de esperar muito mais que cinco minutos para falar com um fenômeno da literatura como Joanne Kathleen Rowling, que até agora revelou tão pouco sobre si mesma.

Após um pequeno tropeço nas escadas, ela joga sua bolsa no chão em frente à sua suí­te e procura nela por sua chave.

“Eu sei que ela está aqui!”

E então ela vai – para a porta, e para os corações e cabeças de milhões de crianças, seus professores, seus pais e muitos outros adultos que gostam de seus livros simplesmente porque eles são bons de se ler.

Como o grupo progressivamente crescente de fãs sabe, Harry Potter freqüenta a escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e tem incrí­veis e perigosas aventuras com seus amigos, Rony e Hermione, e um grupo dos mais criativos personagens que surgiram em páginas impressas nos últimos anos.

A transformação de Rowling de uma esforçada mãe solteira para uma das autoras mais vendidas é bem conhecida, e a estrela de 34 anos ainda está crescendo.

Seu quarto livro da série de Harry Potter, “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, que foi publicado à meia-noite de sexta pela Scholastic, não está somente voando das prateleiras, está indo diretamente para as milhões de mãos por uma cortesia dos correios.

Será que a criadora desse mundo mágico imaginava que tantas pessoas teriam Harry em seus corações – e em 40 idiomas?

“Nunca em um milhão de anos”, ela diz, ainda um pouco surpresa e um pouco atordoada nos dias antes da publicação do quarto livro. Ela é intensa e séria sobre seu trabalho, mas realista e muito alegre.

“Certamente, de acordo com todos os editores que recusaram Harry Potter, eu estava certa em pensar que se algum dia os livros fossem publicados seria muito difí­cil que eles vendessem muitas cópias”, ela diz.

“Um deles disse que qualquer coisa que se passe em um internato como é Hogwarts não venderia bem hoje em dia”, ela acrescenta com um sorriso. “Mas a única coisa que todos eles diziam era que os livros eram muito longos, o que é um pouco assustador quando você pensa que o quarto livro tem mais de 600 páginas. Isso até me surpreendeu, o tanto que era grande.”

Cada livro é maior que o anterior. E três volumes da saga ainda estão para ser escritos.

A série completa – que vendeu 35 milhões de copias pelo mundo – vem sendo tramada desde 1995, quando Rowling acabou o primeiro livro, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, escrito nos cafés de Edimburgo enquanto ela tentava manter o corpo e a mente juntos após o fracasso do casamento.

“Eu estava incrivelmente quebrada”, ela diz. Durante a visita no natal de 1993 à sua irmã, ela percebeu que a cidade era pequena o bastante e então ela podia andar para todos os lugares com o carrinho de sua filha e economizar o dinheiro da passagem.

Ela foi uma contadora de histórias quando criança no oeste da Inglaterra e nunca parou de ser, mesmo enquanto estudava francês na Exeter University e trabalhava como secretária bilí­ngüe. Ela eventualmente foi para Portugal para dar aulas de inglês como segunda lí­ngua e usar seu tempo livre para trabalhar na história de um jovem bruxo. Já em Edimburgo, ela sentava nos cafés e começava a trazer Harry e seus amigos para a vida.

Muito do apelo dos livros é devido aos personagens, do amável gigante Hagrid e seu dragão bebê Norberto aos tenebrosos guardas da Prisão de Azkaban, que sugam a alma das suas vítimas com o Beijo do Dementador e esfriam o ar quando se movem.

Os personagens mágicos – e aos normais trouxas que vivem no universo paralelo como nós os conhecemos – não foram concebidos de forma metódica, Rowling explica.

“Eles normalmente vêm totalmente prontos. Harry veio quase completamente formado. Eu sabia que ele era um bruxo e que ele não sabia que era um bruxo. E então passou a ser um processo de trabalhar em um plano de fundo para descobrir como poderia fazer isso, e depois descobrir o que acontecia depois.”

“Os livros ainda são muitos bons, mas a última aventura foi um ‘absoluto assassinato’,” ela diz, principalmente o final do ano que levou para escrever.

“Eu tive que ter certeza que até certo ponto o livro estava correto, porque esse é o livro principal dos sete e é muito importante na trama… Mas isso deu um terrí­vel trabalho,” ela diz. “Agora que eu terminei, é meu favorito. E não era para ser.”

Seu trabalho não é sem controvérsia. Alguns pais fizeram objeções a alguns passagens assustadoras nos livros anteriores e também à palavra bruxaria (witchcraft).

Rowling diz que ela não desejava preocupar as crianças, mas ela quer escrever a história a sua maneira. “Eu tenho uma boa razão para fazer isso. Há certas coisas que eu quero explorar e se isso for a última coisa que eu fizer, não serei censurada, é claro.”

É uma aposta segura; a maioria dos leitores gostam do caminho que ela está seguindo. A venda inicial do livro nos EUA e na Grã-Bretanha totalizou 5,3 milhões de cópias.

“Esse ní­vel de sucesso mudou a vida dela, mas ela consegue viver as coisas completamente normais”, ela diz.

Ela planeja ficar em Edimburgo, mesmo com os milhões de dólares que seus livros renderam que podem levá-la aonde ela quiser. E ela considera uma das maiores vantagens de seu sucesso a chance de conhecer jovens leitores.

“Conhecer crianças que leram os livros é puramente um indescrití­vel prazer,” ela diz.

O respeito e afeto de Rowling por crianças é tangível, e não há mistério para sua conexão com elas. Mas com os leitores adultos é mais difí­cil de explicar.

“Eu sempre senti que um bom livro é um bom livro. … Eu nunca senti que há um grande abismo entre a literatura para crianças e para adultos”, ela diz.

Ela também não escreve com planos de dar lições de moral.

“Eu escrevo para mim mesma. Eu não escrevo para crianças imaginárias: ‘O que elas têm que aprender agora?'”

Isso vale, também, para o humor – uma das jóias dos livros.

“Isso era o que eu achava engraçado”, ela diz. “Não o que eu pensava que as crianças achariam engraçado. Eu também acho que isso vale para crianças de 8 anos. Elas podem ler os livros e não entender todas as piadas, mas mesmo assim achar o livro engraçado.”

Humor, é claro, nem sempre viaja bem entre culturas. E como seus leitores americanos são muitos, isto é uma preocupação.

“Na primeira vez que eu li para crianças americanas eu estava apavorada”, Rowling diz. “A passagem que eu estava lendo, eu havia lido incontáveis vezes antes e eu sempre sabia aonde a primeira risada vinha”.

Ela sabia que não tinha nenhuma garantia que as crianças americanas iriam entender aquela parte do humor. “Mas as gargalhadas vieram… e foi exatamente igual a todos os outros locais”, ela diz. “Isso é universal nas crianças.”

Então o que se falar sobre mudar algumas das palavras nas versões americanas, as crianças poderiam entendê-las?

Rowling finge bater sua cabeça no sofá em simulada frustração. “Muito foi feito por isso”, ela suspira, não que tenha sido feito onde as palavras realmente significavam outra coisa.

Seu editor americano apontou que a palavra “jumper” – na Inglaterra suéter ou saltador – quer dizer em inglês dos Estados Unidos um tipo de roupa. Ela não tinha idéia.

“Ele perguntou, ‘Nós podemos mudar isso para suéter?’ que também é tão inglês quanto’.” Rowling estava de acordo.

Rowling é menos feliz com repórteres que dizem que o filme do primeiro livro deveria ter sido filmado nos EUA, com um elenco americano, antes que Steven Spielberg tivesse desistido de dirigir. Houveram criticas, também, para a escolha de Chris Columbus de “Esqueceram de mim” para dirigir o filme, e para a preocupação de que o filme seria “Hollywoodizado.”

“Chris estava tão focado em manter o filme o mais britânico possí­vel quanto eu”, ela diz. “Eu obviamente queria o filme o mais verdadeiro possí­vel em relação ao livro … e os livros são extremamente britânicos”.

“E como uma criança americana provou em seus desenhos, eles não estão nem de longe preocupados com isso. Eles podem lidar com isso realmente bem. Veja bem, isso foi feito para parecer que eles não entenderiam que as coisas são diferentes na Inglaterra. É claro, eles entendem.”

O filme será feito na Inglaterra, ela diz.

Rowling também se sente forte sobre a controvérsia da palavra bruxaria (witchcraft), que fez com que algumas escolas banissem seus livros das aulas.

“Eu estou realmente confusa que ninguém que leu o livro possa pensar como eu em uma devoção ao oculto de uma maneira séria”, ela diz. “Eu não acredito em bruxaria, no sentido que eles estão falando, de maneira alguma.”

“Eu não sou certamente uma bruxa,” ela diz com uma risada, “e você ficaria surpreso em saber quantas outras pessoas inteligentes me perguntaram isso.”

Ela discorda que bruxaria está fora dos limites de um livro para crianças.

“Eu acho que isso é a origem para uma grande diversão, drama. Mágica será tema de literatura infantil enquanto a raça humana existir”, ela diz.

O que mais a incomodou não foi o fato dos pais desaprovarem que seus filhos leiam os livros, “mas o fato deles terem tentado censurá-los – e eu sou realmente contra isso”.

Rowling diz que se ela escrever um livro para adultos, não vai ser porque acha que deve, para ser levada a sério. “Eu nunca vi escrever para crianças como sendo algo de segunda classe”, ela diz.

“Eu sempre serei a autora de Harry Potter. Na verdade, eu não tenho problemas com isso, eu não consigo me ver sentindo remorsos por ter escrito os livro.”

Traduzido por: Lucas Emmanuel em 18/09/2006
Revisado por: Adriana Pereira em 23/04/2007 e Antônio Carlos de M. Neto em 22/03/08
Postado por: Fernando Nery Filho em 29/04/2007
Entrevista original no Accio Quote aqui.