Grossman, Lev e Sachs, Andrea. “Harry Potter e os spoilers sinistros”. Time Magazine Online, 28 de junho de 2007.

Você poderia achar que o produto mais importante que a editora Scholastic lançará este verão é Harry Potter e as Relíquias da Morte, o sétimo e último livro na série de sucesso praticamente infinito de Rowling. Mas estaria errado. Relíquias da Morte, que estará à venda no badalar da meia-noite de 21 de julho, é uma mera conseqüência, o catalisador de algo maior. O verdadeiro produto é algo que os executivos da Scholastic chamam, a reverentes sussurros, de “o momento mágico”.

Esse é o momento de inefável e intangível êxtase que ocorre quando um leitor abre sua cópia nova em folha de $34.99 de Relíquias da Morte pela primeira vez. “Ao longo de todo o processo, todos que tocam esse (manuscrito) têm a mesma meta em mente,” diz Arthur A. Levine, o editor de Rowling. “Meia-noite. Crianças”. O momento mágico é algo raro e delicado: acontece apenas quando o leitor pega o livro em estado de pura ignorância, sem nenhum conhecimento prévio sobre seu conteúdo. Para o momento mágico acontecer, a teoria diz, a mente do leitor deve ser preservada em um estado de pura inocência – deve estar, em linguagem da Internet, livre de spoilers. Então, para proteger o momento mágico da contaminação informacional – via Internet ou conversas casuais, ou através das Rita Skeeters da mídia global – a Scholastic criou uma infra-estrutura em torno de Relíquias da Morte diferente de tudo o que o mundo da edição já viu.

Na terça-feria, 3 de julho, se mantiverem o padrão, aproximadamente doze pessoas se reunirão em uma sala de conferência no sexto andar da sede da Scholastic em Manhattan, como têm feito quase toda terça-feira esse ano. Eles são membros do centro de confiança Harry Potter, as pessoas encarregadas de cada aspecto do sétimo lançamento de Harry Potter nos EUA. O grupo inclui, entre outros, Levine; Lisa Holton, presidente da divisão de mercado da Scholastic, e seus chefes de venda, marketing, produção, comunicação e fabricação; e o conselho geral da companhia. “Essa sala é realmente a sala mais paranóica,” diz Holton. “Nós não falamos com nossos filhos e cônjuges por meses”. A seriedade com que os membros do centro de confiança Harry Potter consideram sua missão coletiva não pode ser negligenciada. “Nós sempre soubemos que a série já é um clássico moderno,” diz Holton. “Se você pensa nisso em termos de literatura, não consigo pensar em outra série – não apenas na literatura infantil, mas na literatura adulta – que faça o que J.K. Rowling faz. Nem mesmo Dickens chega perto”.

O trabalho do centro de confiança Harry Potter começa quando Rowling finaliza seu processo criativo. No caso de Relíquias da Morte, isso aconteceu em 11 de janeiro de 2007, quando Rowling – de quem o nome, que seja dito agora e de uma vez por todas, rima com bowling (boliche) e não com howling (uivo) – escreveu a última palavra da saga Harry Potter em uma suíte do hotel Balmoral em Edimburgo. A tarefa de viajar à Inglaterra para pegar o manuscrito ficou com Mark Seidenfield, o advogado que lida com todos os assuntos referentes a Harry para a Scholastic. Pra ter absoluta certeza que o manuscrito estava seguro no avião, sentou-se sobre ele.

Mas ele não o leu. Mesmo estando tão perto do lançamento do livro, poucas pessoas na Scholastic tiveram contato real com o conteúdo de Relíquias da Morte – “pouquíssimas,” de acordo com Kyle Good, o chefe de comunicações da Scholastic. Entre estas pouquíssimas está Levine, que tem o trabalho de editar a escritora mais famosa do mundo. (“Ela é muito difícil, mas não é cega,” ele diz. “Ela parece realmente valorizar quando nós a questionamos. Ela dirá, ‘Ah, eu sabia que isso estava em minha mente, mas se não está dando certo desse jeito, por que não fazemos desse outro?’”). Outra leitora prematura foi a aplicada Cheryl Klein, 28 anos, que tem o cargo de “editora de coesão”. Os livros de Rowling se tornaram tão complexos – e seus fãs tão obsessivamente críticos – que é preciso uma Potterlogista (alguém que conhece os mínimos detalhes da série Potter) para garantir que o universo ficcional de Rowling se mantenha consistente. “Eu presto atenção aos vários neologismos que aparecem na série,” diz Klein. “Por exemplo, com os Bertie Bott’s Every Flavor Beans (Feijõezinhos de Todos os Sabores), eu averiguo se é sempre escrito B – o – t – t – apóstrofo – s. Every Flavor não é hifenizado, e Flavor não tem u. É cansativo: Klein admite, por exemplo, que em Harry Potter e a Câmara Secreta, a Murta Que Geme senta em um vaso com encanação em forma de U, enquanto em Harry Potter e o Cálice de Fogo, ela ocupa um vaso com encanação em forma de S (esse erro acabou saindo, deve ser dito, antes do exercício do cargo de Klein, que começou após o Cálice). Klein tem o pior e o melhor trabalho do mundo, dependendo de como você o enxerga.

Como todos os outros na Scholastic, Klein mantêm o silêncio ao redor de Harry Potter. “A maioria das pessoas sabe que é melhor não perguntar,” ela diz. “Isso inclui meus amigos, minha família e todos os outros”. Depois de Rowling ter revisado o manuscrito, por sugestão de Klein e Levine, Klein voou para a Inglaterra para apanhar o novo esboço. No caminho ela foi parada por uma checagem de segurança, ao acaso, em Heathrow. “A mulher abre a minha bolsa e começa a vasculhá-la. E ela diz, ‘Uau, você tem muito papel aqui.’ E eu pensei, Ah meu Deus, ela vai olhar pra eles e vai ver os nomes Harry, Rony e Hermione. Mas eu apenas sorri e disse, ‘Sim, muito papel!’ E ela disse, ‘Uhum,’ e fechou a bolsa. Aquele foi o desfecho dos dois minutos mais assustadores da minha vida”.

A princípio, o número de cópias do manuscrito de Relíquias da Morte manteve-se em um número bastante limitado. Uma foi para o designer do livro. Também inclusa no círculo restrito estava Mary GrandPré, a artista da Flórida que ilustra as versões americanas. (Se você tiver visto a capa inglesa de Relíquias da Morte, sabe o quão sortudos são os americanos por terem GrandPré.) “Ela é uma mulher maravilhosa,” diz Good. “Ela tinha uma idéia de como Harry se parecia, mas quando foi desenhar seu rosto de fato, teve realmente muitos problemas. Ela sabia sobre seu cabelo despenteado, seus óculos, mas como seria o formato do seu queixo? Ela levantou, olhou no espelho e então rabiscou o próprio rosto”.

Enquanto GrandPré estudava o formato do próprio queixo no espelho, procurando por inspiração, as pesadas engrenagens da indústria de Harry Potter começavam a se mover. Quanto mais cópias uma editora produz de um determinado livro, mais as medidas de proteção multiplicam-se, e Relíquias da Morte tem a maior marca já atingida na primeira prensagem de um livro em toda a história. Em 21 de julho, a Scholastic terá enviado, sozinha, 12 milhões de cópias para o mercado americano. A ameaça ao momento mágico é real. Em 2003, um operador de empilhadeira de uma gráfica britânica foi pego vendendo páginas de Harry Potter e a Ordem da Fênix. Um mês antes de Harry Potter e o Enigma do Príncipe chegar às lojas, dois homens foram presos na Inglaterra por tentarem vender uma cópia a um repórter. Um deles está cumprindo quatro anos e meio de prisão atualmente. Conseqüentemente, a Scholastic não informará as localizações das gráficas que usa, ou mesmo o número delas (enquanto a Bloomsbury, a editora britânica da série, nega vorazmente um rumor sobre estar forçando os empregados das fábricas a imprimirem Relíquias da Morte durante a madrugada). Os livros prontos vão para as lojas em contâineres, selados com um plástico preto, em caminhões monitorados por GPS.

Mas o alcance da Scholastic se limita até esse ponto, e uma vez que os livros são entregues, a segurança fica nas mãos dos donos das livrarias, que assinam um longo e minucioso acordo legal exigindo que mantenham as caixas lacradas até 00:01 do dia 21 de julho. “Ninguém aqui as vê,” diz Kim Brown, vice-presidente de merchandising da Barnes & Noble, a qual contrata uma firma de segurança terceirizada para proteger os caminhões trancafiados nos quais estoca suas cópias de Relíquias da Morte. “Nós temos uma seção especial para os livros de Harry Potter em nossos centros de estocagem,” diz Sean Sundwall da Amazon.com. “Só um número muito pequeno de pessoas tem permissão de vê-los – ou respirar sobre eles – e um número ainda menor de pessoas pode tocá-los”.

Está tudo bem quando se trata dos grandalhões, mas as bibliotecas e livrarias menores não contam com o nível de segurança Azkaban. “Está escrito HARRY POTTER sobre as caixas, então as pessoas ficam todas excitadas,” diz Dona Harper, que é dona da Brystone Children’s Book em Fort Worth, Texas, junto com sua mãe e irmã. “Atrás do balcão, eles ficam cobertos com um pano antes de serem abertos, só por precaução. Nós ficamos nervosas que alguém tente invadir, mas isso ainda não aconteceu”. Para donos de pequenos negócios, encurralados entre as demandas de milhões de fãs sedentos e as de uma grande corporação protegendo seu maior negócio, a experiência pode ser desconcertante. “Eu não posso nem lhe dizer onde os livros estarão!” diz Liz Murphy, dona da Learned Owl Book Shop em Hudson, Ohio. “Nós tivemos que ceder as nossas vidas”.

Tudo isso a serviço daquele momento mágico, quando os leitores viram a primeira página do que Rowling promete ser a última novela já publicada sobre Harry Potter. Quando os executivos da Scholastic se iniciam na leitura de J.K. Rowling, o nível alcançado por sua retórica parece não ter limite. “Cada um de nós pode imaginar aquele momento à meia-noite do qual estivemos todos falando,” diz Levine. “Todos nós amamos estar naquelas festas. Estamos todos fazendo isso por aquele momento intenso em que vemos a realização de nossas vidas bem à nossa frente!”.

Se o objetivo da exaustiva campanha de sigilo da Scholastic é transformar o lançamento de Relíquias da Morte em um evento comparável a uma première de filme ou ao final de uma adorada série de TV, então, de qualquer forma, malfeito feito. Há mais do que um murmúrio sobre “Quem matou J.R.?” no ar, e a sensação satisfatória de que a palavra escrita está finalmente promovendo a comoção característica dos mais novos produtos do mercado. “As crianças estão muito animadas,” diz Harper. “E os adultos tanto quanto elas. Se eles forem até os balcões enquanto os caixas estiverem sendo abertos, você provavelmente ouvirá um tipo de gritinho ou alguns ‘oohs’ e ‘ahs’ e alguns suspiros”.

Mas com toda essa ênfase no momento mágico, há o risco de as pessoas esquecerem por que livros são livros, de fato, e não filmes ou programas de TV. Eles não têm a ver com festas à meia-noite, publicidade ou mesmo momentos, mágicos ou não. Ler é, afinal, o mais solitário, contemplativo e antigo de todos os prazeres da mente. “Nós gostaríamos de simplesmente vendê-los como os outros livros,” Harper admite, um tanto esgotada. “Apenas recebê-los e vendê-los. A coisa pode se tornar um tipo de circo”. Se Harry fosse real, ele acharia toda essa agitação extremamente embaraçosa. Afinal, se tudo com o que as pessoas se importassem fossem os acontecimentos da história, então por que elas apareceriam em profusão para assistir às versões cinematográficas dos livros, o quinto deles (Harry Potter e a Ordem da Fênix) chegando aos cinemas 10 dias antes da publicação do sétimo livro?

Ironicamente, o centro de confiança Harry Potter poderia ser culpado de subestimar o poder dos livros que tenta vender tão intensamente. A estratégia do momento mágico promove um mito sobre o trabalho de Rowling – e sobre a leitura, em geral – que seria o fato de que o prazer de um livro é um encantamento que pode ser facilmente quebrado. Em 8 de junho, um hacker que se autonomeia “Gabriel” anunciou em um site que ele havia feito exatamente o que o centro de confiança Harry Potter mais temia: roubado o texto de Relíquias da Morte. Alegando que tinha conseguido acessar um computador de um empregado da Bloomsbury, através de um e-mail contendo um Cavalo de Tróia, ele postou o que afirma serem pontos essenciais da trama (que não serão repetidos aqui). Ele pintou suas ações como um contra-ataque cristão à um trabalho que promovia a “fé neo-pagã”. Gabriel diz: “Nós publicamos esses spoilers pra fazer da leitura do próximo livro algo inútil e entediante”.

Há grande chance de os spoilers serem falsos. Gabriel não ofereceu a mínima evidência que suportasse sua autenticidade e, de qualquer maneira, gabar-se de coisas que você não fez de fato é bem típico da cultura hacker. Mas mesmo que os spoilers fossem verdadeiros, não importaria.

Nesse ponto, tanto o hacker como o editor compartilham um equívoco chave sobre o que se trata a leitura. As pessoas lêem livros por inúmeros motivos; descobrir como a história acaba é um entre muitos, e não é nem mesmo o mais importante. Se fosse, por outro lado, ninguém iria querer ler um livro duas vezes. Ler se trata de passar um tempo com personagens e entrar em um mundo ficcional e brincar com as palavras e viver a história página por página. Aceitar a idéia de que pode alguém conseguir arruinar uma novela por revelar o seu final é o mesmo que dizer que você poderia arruinar a Mona Lisa por revelar que ela é a imagem de uma mulher com uma parte central. Spoilers são um mito: eles não estragam (spoil). Nenhuma campanha de sigilo fará Harry Potter e as Relíquias da Morte melhor do que já é, e nenhum site poderia sequer remotamente transformá-lo em algo inútil e entediante.

Traduzida por: Tiago Monteiro em 12/04/2008.
Revisada por: Adriana Couto Pereira em 22/06/2008.
Postado por: Vítor Werle em 26/09/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.