Renton, Jennie. “Loucos pelo Harry”. Candis Magazine, novembro de 2001.

Mais de 100 milhões de cópias dos livros Harry Potter foram vendidas pelo mundo, fazendo de sua autora uma multimilionária. E neste mês o garoto bruxo faz sua estréia na tela. Jennie Renton fala com J.K. Rowling sobre a inspiração por trás do sucesso extraordinário de Harry.

Jennie Renton (JR): Como a idéia dos livros de Harry Potter lhe ocorreu?

JKR: De repente. ‘Garoto, não sabe que é bruxo, mandado para escola de bruxaria’. Isso era o essencial. Eu comecei a pensar em como seria uma escola de bruxaria e fiquei excitada com isso.

JR: Você teve alguma noção de que Harry Potter e a Pedra Filosofal seria tão bem-sucedido?

JKR: Eu lembro que um dia, eu estava escrevendo há horas, e quando parei estava intoxicada com cafeína. Eu estava andando pela Brigdes [a estrada em que fica o Nicolson’s Cafe, em Edimburgo, onde Joanne Kathleen escreveu os primeiros rascunhos da série Harry Potter] pensando, ‘a dificuldade vai ser fazer isso ser publicado, mas se for, haverá um punhado de pessoas que realmente irão amar’. E aí eu pensei: ‘Oh, fala sério’. E aconteceu que bem mais que um punhado de pessoas gostar. Vendeu tão bem que agora posso só escrever, como trabalho, e essa sempre foi a minha ambição de vida.

Os livros já foram traduzidos para 25 línguas. Eu tenho ficado fascinada com as diferentes capas que eles usaram nos vários países. A capa italiana mostra o Harry jogando xadrez, mas ele não está de óculos – talvez eles não gostem de garotos de óculos. A capa alemã é angulosa e assustadora, com um tabuleiro de xadrez gigante. Os britânicos dão atenção ao transporte – o trem que leva Harry a Hogwarts pela primeira vez, e depois o Ford Anglia voador em Câmara Secreta.

JR: Embora os livros Harry Potter sejam para crianças, muitos adultos também os adoram.

JKR: É legal ouvir isso. Eu passei tanto tempo construindo esse mundo – cinco anos escrevendo sobre Harry antes de qualquer um ler uma palavra. É embaraçante o tanto de árvores que morreram por mim. Eu escrevo tudo – e perco imediatamente. Está tudo enchendo caixas.

Eu odeio livros que têm falta de continuidade e deixam questões não respondidas. Buracos me irritam demais. Então eu tento ser meticulosa e ter certeza de que tudo funciona de acordo com leis, mesmo que estranhas, para que todos entendam exatamente como e por quê. Eu tenho uma imaginação visual. Tenho que imaginar algo claramente antes, e aí eu escrevo. Os livros do Harry supostamente são cheios de surpresas, mas eu tento ter certeza de que eles se desenvolvem de um modo real.

JR: É fácil escrever uma série?

JKR: O problema que você encontra em uma série é como os personagens crescem – e se eles têm permissão de crescer. As personagens de Enid Blyton, nos livros ‘Os Famosos Cinco’ (ou ‘Os Cinco’), agem de uma forma pré-adolescente pela série toda. Eu quero que Harry Potter e seus amigos cresçam e fiquem velhos, embora eu vá manter tudo humorístico e bem dentro do tom dos livros. Eu quero que eles, eventualmente, tenham 17 anos e descubram namoradas e namorados, e tenham sentimentos sexuais. Por que não deixá-los ter?

JR: Você inveja a juventude sem fim de Peter Pan?

JKR: Peter Pan, embora seja uma história maravilhosa e mágica, me parece ser sobre ficar preso na juventude, e eu não penso na infância como uma época particularmente feliz. Para mim, houve momentos de alegria, mas eu também posso lembrar de sentir um medo que não senti sendo adulta. Sentimentos de insegurança e incapacidade. Toda criança se sente impotente às vezes.

JR: Suas histórias são inspiradas pela realidade?

JKR: Às vezes, não percebo de onde minhas idéias vêm. Uma amiga me perguntou se eu lembrava de quando nós vimos Hogwarts pela primeira vez. Eu não tinha idéia do que ela estava falando, até que ela disse, ‘no dia que nós fomos a Kew Gardens e vimos aqueles lírios chamados Hogwarts’. Eu tinha visto sete anos antes e eles borbulharam em minha memória. Quando Hogwarts me ocorreu como um nome para a escola, eu não imaginei de onde tinha saído.

O Ford Anglia voador foi baseado em um carro real, dirigido por Séan Harris, o primeiro de meus amigos a aprender a dirigir. Nós estudamos juntos. Na época eu morava no meio do nada e dependia dos meus pais para ser transportada. Às vezes Séan me levava em seu carro. A visão daquele carro significava liberdade para mim… meu coração ainda salta quando eu vejo um Ford Anglia! É por isso que, quando eu pensei no carro voador de Rony, eu imediatamente imaginei um Ford Anglia.

JR: Qual você pensa que é a atração de contos sobre a vida em um internato?

JKR: Na ficção, internatos vêm como uma família substituta. Os pupilos estão com seus contemporâneos e livres de seus pais, e da culpa ligada a decepcioná-los. Eu fui educada por um sistema compreensivo. Eu nunca estive dentro de um internato.

JR: Novos pupilos de Hogwarts colocam um chapéu mágico falante. Mas Harry fica perturbado com o que o chapéu lhe diz.

JKR: Eu estou trabalhando no fato de que nossas escolhas, e não nossas habilidades, mostram o que nós realmente somos. Isso é trazido à tona na diferença entre Harry e seu arquiinimigo, Tom Riddle. Em Câmara Secreta, o chapéu diz a Harry que se ele entrar na Sonserina, lar dos bruxos desvirtuados, ele se tornará um bruxo poderoso. Ele escolhe não fazer isso. Mas Tom Riddle, que foi deformado por ambição e falta de amor, sucumbe ao desejo por poder. Embora achem que ele morreu há anos atrás, seu espírito maligno manipula acontecimentos através de um diário encantado.

JR: O que a fez pensar na idéia do diário?

JKR: Minha irmã tinha o costume de colocar seus pensamentos mais íntimos em seu diário. Seu maior medo era de que alguém o lesse. Foi assim que a idéia de um diário que é contra você veio a mim. Você estaria confiando tudo a páginas que não são inanimadas.

JR: Quais são seus autores favoritos?

JKR: Dos autores contemporâneos, eu acho que Roddy Doyle é um gênio. Mas os meus três favoritos são Nabokov, Colette e Jane Austen. Eu leio e releio meus livros favoritos até que eles se despedacem, literalmente. Eu já passei por três cópias de Emma – elas caem na banheira e eu tenho que comprar outras. Minha ambição é escrever livros que o leitor não irá necessariamente entender completamente de início. Nada me faz mais feliz do que quando uma criança me traz uma cópia de Harry que parece gasta – isso prova que elas leram e releram.

JR: Tendo sido ‘concebido’ em Edimburgo, Harry irá visitar a Escócia?

JKR: Na verdade Hogwarts é na Escócia. Eu deliberadamente não falo isso, porque eu quero que as pessoas imaginem ser em qualquer lugar que elas quiserem.

JR: O que você pensa sobre esse sucesso tão rápido como escritora?

JKR: Eu ainda estou meio abalada por estar vivendo a vida que sempre sonhei em viver. Pelo menos uma vez por semana sinto um arrepio estranho na espinha.

JR: O filme da Warner, Harry Potter e a Pedra Filosofal, será lançado no fim do mês.

Traduzida por: Raisa Garcia em 27/09/2007.
Revisada por: Adriana Couto Pereira em 30/09/2007.
Postado por: Vítor Werle em 26/09/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.