Grossman, Lev. “Poções do amor e magia trágica”. Time Magazine, 17 de julho de 2005.

Um fato curioso sobre a magia de Harry Potter é que ela não parece assim tão difícil de ser feita. Você agita a varinha, diz as palavras “Lumus! Expelliarmus! Accio chaves do carro!” e se você não é um trouxa ou um aborto, se tem as coisas certas ou os midi-chlorians(1) ou seja lá o que for, você está pronto pra começar. Quão difícil é isso? E aquela Hermione Granger é considerada um gênio…

O que J.K. Rowling faz também não parece assim tão difícil. Ela não é uma estilista exibida ou uma Grande Pensadora, mas em Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Scholastic: 652 páginas), o sexto livro da série Potter, ela tece um número memorável de linhas narrativas em um todo complexo, tocante e elegantemente balanceado, sem nenhum esforço aparente. Rowling adora surpreender os leitores e o livro anterior, A Ordem da Fênix, parece ser o angustioso preâmbulo de uma guerra de bruxos a todo o vapor, bem contra mal, varinha contra varinha. Mas O Enigma do Príncipe acaba sendo outra coisa: uma tapeçaria elegante, como uma fuga(2), ao estilo de O Prisioneiro de Azkaban. “E agora,” como Dumbledore disse a Harry, “vamos sair para a noite em busca dessa sedutora volúvel, a aventura.” O fato de isso soar até legal no contexto é uma evidência da aptidão dramática de Rowling.

Nós começamos com as eternas e eternamente divertidas imagens de sempre. É verão e Harry vai da casa dos Dursleys para a dos Weasleys, para o Beco Diagonal, para Hogwarts (somos poupados das habituais tagarelices do Chapéu Seletor este ano). Snape, depois de muito tempo, conseguiu finalmente o cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Draco está preparando suas usuais e genéricas maldades. Harry, agora com 16 anos, é nomeado capitão do time de quadribol da Grifinória, e descobre ao acaso um misterioso livro de poções que antigamente pertencia a – espere – um certo Príncipe Mestiço. Enquanto isso, Dumbledore e Harry, com a ajuda daquela sempre útil, reveladora e auxiliadora Penseira, estudam atentamente os detalhes do passado de Voldemort para achar pistas de suas intenções. Ah, e alguém está tentando matar os estudantes de Hogwarts. Como Hagrid diz com uma piscada óbvia, “é como a Câmara Secreta outra vez, não é?”.

Para os verdadeiros adeptos, O Enigma do Príncipe será puro prazer. Tem quadribol, travessuras nas aulas de poções, aulas de aparatação, muitos amassos (Rony e Hermione estão lentamente resolvendo sua mútua paixão de longa data) e algumas adoráveis situações com uma poção dourada chamada Felix Felicis que dá sorte extra àquele que a beber. Mas este é o penúltimo livro da série e, apesar de toda a diversão, o estado de espírito está ficando sombrio. Você não pode deixar de sentir que Rowling está levando os favoritos dos fãs – sua Tonks, sua Luna, seu Bicuço, seu Fred e Jorge – para um passeio final sob a luz do sol antes que o caos tome conta de Harry. Tendo construído cuidadosamente um aconchegante universo fictício nos cinco primeiros livros, Rowling tem agora a tarefa de destruí-lo, e há várias cenas de horrores genuinamente surreais, incluindo um lobisomem perverso (nada meigo como Lupin). O livro termina com um infortúnio violentamente chocante que altera permanente e dolorosamente tudo que estava estabelecido na vida de Harry. O que significa que novamente alguém morre.

Os leitores adultos de Harry, este aqui inclusive, tendem a querer que os romances de Rowling signifiquem algo, e neste livro um tanto transitório há ingredientes demais no caldeirão para que este ferva. Mas se há uma preocupação permanente aqui é o amor: tanto correspondido quanto não, inapropriado, corrompido, negado, reprimido e obsessivo. Rowling usa esse tema tanto na comédia (fique de olho no sofrido Rony quando ele toma uma poção do amor) quanto na tragédia. A história do começo da vida de Voldemort representa uma paródia sombria da vida de Harry, Voldemort também foi um órfão criado por trouxas, desesperado para se sentir especial, mas enquanto o poder de Harry vem do amor puro e verdadeiro de sua mãe, Voldemort é o produto de um amor deturpado e forçado magicamente, do qual apenas o mal poderia surgir.

Para Rowling, o amor é muito mais importante que a magia. Para ela, o verdadeiro mistério é o coração humano. Ela sempre esteve mais interessada na mão que empunha a varinha, na maneira como o encantamento ilumina o bruxo que o lança.

Fonte: http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1083942-2,00.html

N/R.:
(1) midi-chlorians: versão traduzida para o português do termo midichlorians. O termo, originado de Guerra nas Estrelas, define os organismos microscópicos existentes nas células de seres vivos, que facilitam a interação com a Força e podem ser utilizados para contabilizar a sensitividade de cada um.
(2) fuga: aqui, refere-se ao estilo de composição musical contrapontístico e polifônico, onde um tema se repete várias vezes em diferentes vozes, muito comum durante o período Barroco.

Traduzido por: Isadora T. Moraes em 11/02/2009.
Revisado por: Juliana Poli Bonil em 04/03/2009.
Postado por: Vítor Werle em 05/03/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.