Por que Harry Potter não lança um feitiço sobre mim: o blockbuster de J.K. Rowling será um enorme sucesso ao redor do mundo, mas quão boa realmente é a série Harry Potter?

Holden, Anthony. “Por que Harry Potter não lança um feitiço sobre mim: o blockbuster de JK Rowling será um enorme sucesso ao redor do mundo, mas quão boa realmente é a série Harry Potter?”. The Observer, 25 de junho de 2000.

Fique em casa durante a semana após o próximo sábado. As principais ruas da nação serão tomadas por massas de pais e crianças debandando para obter, não o último brinquedo da moda ou jogo de computador ou o produto derivado de um filme, mas um livro. Você sabe, uma daquelas coisas fora de moda, antes dos audiobooks e dos e-books, com montes de palavras impressas em folhas novinhas em branco firmemente encadernadas entre capas duras.

Em qualquer outra circunstância, esta seria a causa para uma alegria surpreendente. O livro não está morto, vida longa ao livro, etc. Mas, francamente, depende do livro. Se as pessoas estivessem lutando para comprar a instigante tradução feita por Seamus Heaney de “Beowulf“, ou a excitante biografia de Berlioz por David Cairns, ou até mesmo minha própria turbulenta vida de Shakespeare, eu estaria naturalmente abrindo champanhe e subindo com entusiasmo os estandartes dos postes literários de nossa nação.

Mas não é. “Harry Potter e o Torneio Maldito” é mais um fenômeno do que um livro. Um fenômeno de marketing. A Bloomsbury não vendeu cópias suficientes dos três volumes de J.K. Rowling, lançados até agora, sem recorrer à propaganda exagerada e avançada, digna de um Wonderbra(1)? Eles não têm fé na habilidade de venda do produto por seus próprios méritos?

A antecipação foi cuidadosamente intensificada ao rodear a trama em segredos, que vai além do tentador rumor de que um dos personagens morre. Nenhuma cópia para resenhas foi liberada. A autora não deu entrevistas. Após a publicação, um trem privado a levará ao redor do país (privilégio concedido, uma vez, a outro célebre autor, Edward Heath) para autografar exemplares. Qual é, gente, por que não apenas vender como um livro normal ao invés de criar uma propaganda desproporcional em torno dele como se fosse um CD das Spice Girls?

Talvez, na verdade, seja porque ele não é muito bom. Eu enfrento com bravura a ira de milhões ao ousar dizer isso, mas não é realmente necessário um grande estraga-prazeres para se preocupar com o que estes livros estão fazendo com o gosto literário de milhões de potenciais jovens leitores. O valor das ações da Bloomsbury triplicou desde que Potter se juntou à sua lista. Enquanto os seus homens do marketing elaboram novas e atraentes estratégias de vendas para os três volumes restantes, eles se escondem atrás de slogans aparentemente dignos e incontestáveis como ‘Qualquer obra que faça as crianças lerem deve ser Uma Boa Coisa’.

Chame-me de super-trouxa, mas tenho que discordar. Como exercício para o cérebro, ler Harry Potter (ou ouvir alguém lê-lo para você) é uma atividade que, de certa forma, requer menos do que assistir Neighbours(2). E aquilo é, ao menos, vagamente sobre a vida real. Estes são livros infantis sem profundidade, desenhos da Disney escritos em palavras, nada mais.

É um paradoxo interessante o fato de que quanto mais popular (ou mais vendido) um livro adulto é, vide Barbara Carland ou Jeffrey Archer, menos considerado literatura ele é, enquanto a popularidade de um livro infantil tem grandes reivindicações literárias feitas em seu nome. No caso de Harry Potter, esta mera sugestão é simplesmente embaraçosa.

Seria altamente improvável que eu lesse qualquer um dos livros da série de J.K. Rowling para crianças não fosse eu exigido (e pago) para ler o terceiro fascículo, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban“, como jurado do prêmio literário Whitbread deste ano. No tempo devido, encontrei-me surpreendido.

Ansioso para descobrir qual era o motivo de tanto alvoroço, estava esperando desfrutar de uma passeio mágico em algum emocionante mundo fantástico original, par a par com clássicos infantis como “Alice no País das Maravilhas“, “A Ilha do Tesouro” ou “Peter Pan“, que cuidadosamente questionam os valores do mundo adulto do ponto de vista de uma criança. Ao invés disso, acabei lutando para terminar uma versão tediosa e mal escrita de Billy Bunter(3) em vassouras.

Diversos jurados do Whitbread concordaram comigo. Comparado com “Minha Mãe Tatuada” de Jacqueline Wilson, seguindo o estilo da vida real contemporânea, que credita seus jovens leitores com algum interesse no complexo mundo ao redor deles, a saga de Potter era essencialmente condescendente, muito conservadora, pouco original, deprimentemente nostálgica por uma Grã-Bretanha que existiu apenas na época em Greyfriars(4) St. Trinian(5). E nós todos estávamos, no fim das contas, avaliando um prêmio por escrita, não por marketing.

Enquanto outros deixaram escapar os meus comentários na supostamente reservada sala de avaliação do Whitbread, eu não tenho receio de revelar que Wilson parecia derrotar Rowling merecidamente, pelo prêmio de livro infantil – tornando-se assim candidato ao Livro do Ano – até que a maioria no sistema dos votantes repentinamente mudou no meio das reuniões. Como a segunda escolha da maioria dos jurados, Potter venceu por pouco, assim entrando para o round final para o prêmio total de £20.000. As regras gerais do Whitbread também foram alteradas de antemão neste ano, para tornar o livro infantil vitorioso candidato ao Livro do Ano ao lado das obras vencedoras de ficção, biografia e poesia. Todas as nossas antenas estavam então alertas para um outro golpe de marketing para Harry Potter. Mas não foi isso que me levou a um protesto que criou manchetes improváveis no dia seguinte. Foi o assombro de que qualquer pessoa poderia pensar que o trabalho de Rowling está no mesmo patamar do de Heaney ou Cairns. Eu não estava pronto para emprestar meu nome à tal falta de senso, e expressei isso. A situação se tornou incontrolável.

Na minha maior defensiva (mas antes de ser chamado de ‘idiota pomposo’ na televisão), fiquei alarmado ao ouvir duas celebridades, que eram jurados, Jerry Hall e Imogen Stubbs, testemunhando como seus filhos gostavam que lessem Potter para eles. Os filhos deles, eu bufei, tinham a permissão de escolher o Livro do Ano? ‘Vocês deveriam estar lendo Beowulf à eles,’ eu disse bruscamente, irritado. ‘É o mesmo tipo de coisa, heróis desafiando dragões e tudo isso, mas a linguagem é muito mais emocionante.’ Para o crédito deles, Hall e Stubbs concordaram educadamente comigo, prometeram ler Heaney para suas crianças, e acabaram ajudando-o a salvar o dia. Por pouco.

Naquele fim de semana, a nação parecia estar sofrendo de um colapso nervoso coletivo, enquanto os jornais de domingo discutiam se somos uma Grã-Bretanha de Beowulf ou uma Grã-Bretanha de Harry Potter. Somos, é claro, nenhuma das duas. Somos um país com padrões literários em dramático declínio, em crescente decadência até o mais baixo denominador comum pelos fornecedores de todos os tipos de entretenimento em massa, sem cultura. O sucesso dos livros de Potter é mais uma prova deprimente do “emburrecimento” de todas as nossas vidas conduzidas por Murdoch, ou o que Hensher chamava de ‘a infantilização da cultura adulta’.

Cerrando os dentes e lutando com os dois primeiros antes de um veredicto, mantenho-me atônito devido a sua enorme popularidade. Os primeiros três livros venderam 21 milhões de cópias nos EUA e mais sete milhões na Grã-Bretanha e nos países de língua inglesa.

Boa sorte, eu digo, à Joanne Rowling, que com a ajuda dos homens de marketing fez uma fortuna já estimada em £15 milhões, com a expectativa desta se duplicar quando Steven Spielberg fizer os filmes. Fico satisfeito com o jeito modesto com o qual ela aparenta lidar com seu enorme sucesso, sensatamente mantendo-se o mais afastada possível da vida pública.

Aparentemente, ela também, foi persuadida a agüentar a indignidade de se esconder atrás de suas iniciais para poupar os meninos da vergonha de ler um livro escrito por uma mulher. E não é, suspeito eu, culpa sua que a mitologia Potteriana representa equivocadamente uma escritora de classe média com ensino superior, que escolheu deixar seu marido português como uma mãe proletária abandonada, trabalhando arduamente e morando em um sótão na Escócia.

O motivo da minha objeção é o estilo de prosa ordinária e não-gramática, que me deixou com uma dor de cabeça e uma sensação de oportunidade perdida. Se Rowling é abençoada com este dom mágico de adentrar as jovens mentes, eu apenas poderia desejar que ela fizesse melhor uso disso. Seus personagens, diferentemente da vida real, são preto-e-branco. Suas tramas são previsíveis, o suspense é mínimo, o sentimentalismo jorra de cada página. (Harry, como tantos outros jovens heróis antes dele, TINHA de ser outro comovente órfão?)

Ainda mais deprimente é a fraca explicação desta mãe solteira cheia de recursos, vivendo com auxílio do governo enquanto escrevia o primeiro livro, ao enviar seu tão genérico herói, digno de Molesworth(6) para um bom e velho colégio interno inglês. Por que é que Hogwarts (o nome é um indicativo do alcance de sua imaginação) não poderia ser uma escola estadual ou uma escola secundária moderna bem defendida ou uma antiga e sólida escola primária – um tipo de escola com a qual a maioria destes milhões de jovens leitores podem se identificar?

Por que, levando-se em consideração a exaustiva tradição da literatura infantil inglesa desde “Schooldays”(7) de Tom Brown em diante, ela precisava enviar Harry para o Hall do neo-Dotheboys (8), completo com rituais tão misteriosos como hierarquias de nomes estranhos e esportes internos com regras incompreensíveis? Muito da saga Potter poderia ter sido escrita nos anos 50, como Suzanne Moore aponta: ‘Que criança, nos dias de hoje, que você conhece come bolo inglês e fala sobre galochas? Não é à toa que eles o adoram nos EUA.’ O velho conto de fadas da Inglaterra, com verdadeiros fachos de luz dos Tudor e uma rainha que anda em uma carruagem dourada puxada por cavalos: esta não é a maneira como o mundo ainda nos vê, é como os Potterianos gostariam que víssemos a nós mesmos.

Estas são algumas das razões pela qual eu disse, durante e depois da avaliação do Whitbread, que a vitória de Harry Potter ‘teria enviado um sinal ao mundo, como a monarquia e a cúpula, de que a Grã-Bretanha é um país que se recusa a crescer e se levar a sério.’ Eu não argumentei em seguida, como foi divulgado, que livros infantis não podem ser uma excelente literatura. É claro que podem, se eles forem bem escritos, se alcançarem a imaginação do leitor e abrirem mentes virgens para o poder mágico das palavras.

Apesar de todas as longas sombras de seus vários vilões, o mundo de Harry Potter é essencialmente um lugar familiar e, logo, seguro para os jovens leitores perambularem. Sua excitação ao menor senso de perigo é cuidadosamente controlada por uma certeza de que a virtude prevalecerá – nenhum tipo de risco à la Roald Dahl para Rowling – e suas mentes são limitadas por qualquer pausa reflexiva na narrativa ofegante, por qualquer encorajamento para avaliar os certos e errados sobre o que está acontecendo.

Não que o mundo de Potter ofereça muitas oportunidades para filósofos morais. Os pais falecidos de Harry eram bons, sem maiores complicações. Seus malvados tio e tia eram certamente ruins, como o super vilão Lord Voldemort. Dado seus estilos de prosa sem atrativos, estes livros acabam lendo-se sozinhos.

Eles não estão ensinando, para as crianças, as alegrias da literatura nem estão desafiando-as a questionar as supostas certezas de suas vidas cotidianas.

A literatura infantil é o que é: a invenção de um mundo alternativo cativante no qual, em sua melhor forma, as duras verdades do comportamento adulto são vislumbradas através dos olhos da inocência. Harry Potter não oferece tal aventura transcendental. Ele é um herói infantil para os nossos tempos culturalmente pobres, elevando o escapismo acima do esclarecimento.

Eu gostaria de poder desejar que o novo volume de Rowling me provasse errado, que ela prendeu a atenção de uma audiência apenas para elevá-las, no meio de sua saga, dos terrenos banais em que estão enraizados para um mundo mágico em que suas almas possam ascender. Levando-se em consideração as evidências até agora, isso parece muito improvável. Conforme Harry alcança a puberdade – a série está programada para cobrir sete anos adolescentes – ele com certeza se tornará um bruxinho com espinhas que eventualmente conquista a garota.

Para os 150.000 adultos que pagaram um valor extra para comprar exatamente o mesmo livro com uma capa adulta, para evitar embaraços ao lê-los em público (ou até mesmo em casa), bem, arrumem algo melhor para fazer. Recomendo a vocês as palavras de George Walden: ‘Os livros Harry Potter são o que são: contos para crianças. Diferentemente de “Alice no País das Maravilhas” ou “Just William“(9), ou “Os Simpsons“, que podem ser desfrutados por todas as idades porque eles são tão bem escritos e funcionam em tantos níveis diferentes, os livros da série Harry Potter funcionam em apenas um.’

O primeiro volume começa com a frase: ‘o Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, nº4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.’ Qualquer adulto que não parou pelo bonitinho ‘muito bem, obrigado’ é, presumivelmente um assinante do Beano(10), agarrando-se em um cobertor de conforto. Redescobrir sua criança interior é perfeitamente normal, mas a relutância em deixar coisas infantis de lado é, como outro bestseller sugeriu há muito tempo, bem mais preocupante. Pode-se apenas rezar para que, tendo crescido com Harry Potter, seus milhões de jovens fãs não passem o resto de suas vidas presas em um passado assustador. Como disse um escritor adulto uma vez, há um mundo em outro lugar.

Fonte: http://observer.guardian.co.uk/review/story/0,6903,335923,00.html

N/R:
(1) Marca de lingerie muito popular nos Estados Unidos e Canadá.
(2) Série de TV australiana lançada em 1985.
(3) Personagem criado por Charles Hamilton sob o pseudônimo de Frank Richards, apareceu pela primeira vez em uma história publicada na revista The Magnet em 1908.
(4) Escola onde estudava Billy Bunter e cenário de suas histórias.
(5) Colégio interno para meninas criado pelo cartunista Ronald Searle.
(6) Série de livros escritos por Geoffrey Willians em parceria com o cartunista Ronald Searle.
(7) Romance escrito por Thomas Hughes, ambientado em uma escola para meninos.
(8) Orfanato mencionado no romance “Nicholas Nickleby” de Charles Dickens.
(9) Primeiro livro da série de contos infantis sobre o menino William Brown escrito por Richmal Crompton.
(10) Revista em quadrinhos britânica.

Traduzido por: Lilian Ogussuko em 29/01/2009.
Revisado por: Fabianne de Freitas em 13/02/2009.
Postado por: Vítor Werle em 13/02/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.



 
 
 
 
 
 
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