Grossman, Lev. “Quem morre em Harry Potter? Deus”. Time, 12 de julho de 2007.
Joanne Rowling tem três fantásticas casas e mais dinheiro que a Rainha, mas ela ainda não tem o nome do meio: K é apenas uma invenção, adicionada por efeito quando ela publicou seu primeiro livro. Começando com a primeira letra, ela tem dirigido uma série sustentada por um crescente drama como a literatura jamais havia visto. Vendendo 325 milhões de livros em 66 línguas, ela fez praticamente sozinha com que seu romance fosse um meio de massa mundial. Com o quinto filme de Harry Potter estreando no dia 11 de julho e o sétimo e último livro, Harry Potter e as Relíquias da Morte, estreando na meia-noite de 21 de julho, a franquia vem alcançando o grande clímax.
O trabalho de Rowling é tão familiar que esquecemos o quanto ele é radical. Olhe para seus antepassados literários. Em Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien funde seu ardente catolicismo com o profundo e nostálgico amor pela paisagem inglesa. C.S. Lewis era um devoto anglicano, cuja a forma de Crônicas de Nárnia estende argumentos para a fé cristã. Agora olhe para os livros de Rowling.
O que está faltando? Se você quer saber quem morre em Harry Potter a resposta é fácil: Deus. Harry Potter vive em um mundo livre de religiões ou espiritualistas de qualquer tipo. Ele vive rondado por fantasmas, mas não há nenhum que necessite de oração. Rowling tem mais em comum com celebridades ateias como Christopher Hitchens do que com Tolkien e Lewis. O que Harry Potter tem em vez de Deus? Em uma superficial e profunda resposta, Rowling diz que o poder de Harry vem do amor. O encanto deste conceito representa uma mudança cultural. No novo milênio, a mágica não vem de Deus, ou da natureza, ou de nada maior e mais místico que o sentimento humano.
Optamos, então, por uma escritora cujo sonho é viver em uma sociedade mágica, na qual a psicologia e a tecnologia têm superado o sagrado. Quando o fim chegar, onde isso deixará Harry? Ele enfrentará escolhas mais difíceis do que seus antecessores da fantasia enfrentaram. Frodo foi visto pela última vez, deixando a cidade com os elfos. Lewis mandou as crianças da família Pevensie para a paradisíaca terra de Aslam. É improvável que tanto conforto espere Harry em Relíquias da Morte.
Traduzida por: Júlia Nazar Pessoni em 27/08/2008.
Revisado por: Marcela Cristina de Magalhães em 19/09/2008.
Postado por: Vítor Werle em 08/10/2008.
Matéria original aqui.