Gibbs, Nancy . “Segundo lugar: J.K. Rowling”. Time Magazine, 19 de dezembro de 2007.

Quando a última batalha terminou e os últimos segredos da jornada de sete livros e de 17 anos foram revelados, Jo Rowling fez o que qualquer pessoa de luto, agradecida e emocionalmente exausta faria: ela saqueou o minibar.

Ela sabia desde o começo que Harry Potter sobreviveria à sua provação, a questão era como ela lidaria com a dela. Nesta época, há um ano atrás, ela estava no prazo final, refugiada no Hotel Balmoral em Edimburgo para escapar da bagunça de casa, escrevendo o capítulo clímax no qual seu herói caminha para a floresta negra para sacrificar sua vida por aqueles a quem ama. E enquanto ela sabia que tudo acabaria bem no final, “Eu realmente estava conduzindo-o para sua morte, pois estava para acabar de escrever sobre ele,” ela diz. É seu capítulo preferido em seu livro preferido, mas quando ela terminou, “Eu simplesmente me acabei em lágrimas e não conseguia parar de chorar. Abri o minibar e bebi uma daquelas garrafinhas patéticas de champanhe”.

Rowling considera seu tempo com Harry como “um dos relacionamentos mais longos da minha vida adulta,” seu porto seguro durante o luto, o casamento e o divórcio turbulentos, a maternidade solteira, mudanças de país, o medo do fracasso e a alegria transcendental no dia em que um sábio homem da Bloomsbury ofereceu à ela $2.250 e concordou em imprimir 1000 livros. Quando Harry Potter e as Relíquias da Morte começou a ser vendido no último mês de julho, vendeu 15 milhões de cópias mundialmente nas primeiras 24 horas, quebrando o recorde que foi de cada um dos três últimos livros. (Colocando em perspectiva, O Enigma do Príncipe de 2005 vendeu mais cópias em seu primeiro dia do que O Código Da Vinci em um ano inteiro). Enquanto isso, a versão cinematográfica do Livro 5, Ordem da Fênix, gerou $645 milhões e foram revelados planos para um parque temático em Orlando, Flórida. A revista Forbes colocou Rowling em segundo lugar, atrás apenas de Oprah, como a mulher mais rica no mundo do entretenimento, à frente de Martha Stewart e Madonna, e como a primeira pessoa a se tornar bilionária escrevendo livros.

Então, a jornada que começou em 1990 finalmente terminou em 2007, deixando à Rowling um tempo um pouco maior para apreciar recitais de balé, compras de supermercado e trabalhos intensivos, muitas vezes engenhosos, para a caridade. Uma mulher de muita energia e de temperamento irritadiço, ela agora parece quase serena, vestida de preto com um longo suéter cinza com cinto, unhas pintadas de vermelho escuro e um anel preto estiloso do tamanho de uma noz. Mas enquanto estamos sentadas e conversamos bebendo café, você nota a saudade quando o assunto volta a ser Hogwarts, como se tivéssemos recuado a um lugar seguro porém onde não podemos ficar por muito tempo. “Eu só posso dizer, e muitos dos meus fãs mais militantes acharão isso quase impossível de acreditar,” ela diz, “mas eu acho que ninguém lamentou mais do que eu. Isto deixou o buraco mais enorme da minha vida”.

Você consegue perceber que ela ainda não dá muitas entrevistas. Ela ora é engraçada, ora zomba de si mesma, ora é séria, mas sempre sem defesas ou ensaios, principalmente já que agora, depois de todo esse tempo, ela pode falar sobre as coisas que mantinha em segredo porque seus leitores não queriam ter sua satisfação estragada ao saber como as coisas terminariam. “É uma sensação de liberdade enorme, enorme” ela diz, ser capaz de responder à qualquer pergunta, contar os antecedentes da história em salas de bate-papo com fãs obsessivos que querem saber os nomes do meio dos personagens até a terceira geração. Ela não precisa realmente falar com a Barbara Walters (que a nomeou como a personalidade mais fascinante do ano), porque seus fãs sabem onde encontrá-la: em seu website, que inclui notícias, um diário, uma lixeira para responder aos rumores mais idiotas e respostas tanto para as perguntas frequentemente feitas quanto para as nunca feitas. Ela tem todos eles em sua cabeça ou em suas agendas, sem mais nada para esconder.

Não são apenas os segredos de Harry que podem agora ser revelados. São os dela também. O maior mistério, apropriadamente, tem a ver com a própria alma da Rowling. Assim que seus contos alcançaram a fama, eles foram denunciados por clérigos fundamentalistas dos E.U.A. até a Rússia e ao mundo Islâmico. O Papa alertou sobre suas “seduções sutis” que podem “distorcer o Cristianismo em sua alma”. Um dia, quando Rowling comprava brinquedos em Nova Iorque, um homem a reconheceu. Sua voz se torna severa quando ela se lembra de como ele trouxe seu rosto bem perto do dela. “Ele disse, ‘Estou rezando por você,’ em um tom que era mais apropriado para dizer, ‘Queime no inferno,’ ” ela diz, “e eu não gostei disso porque estava com meus filhos. Foi desagradável. Se alguma vez eu esperei estar cara a cara com um fundamentalista cristão zangado, não foi na FAO Schwarz”.

Passando por tudo isso, Rowling não reagiu. Ela temia em falar demais sobre sua fé pois ficaria muito claro quem sobreviveria e quem iria morrer e quem poderia até fazer os dois. Depois de seis livros sem menções a Deus ou as Escrituras, no último livro Harry descobre um verso bíblico no túmulo de seus pais que, Rowling diz, é o tema da série inteira. É uma passagem de I Coríntios em que Paulo trata da Ressurreição de Jesus: “O último inimigo a ser derrotado é a morte”.

No fim das contas, Rowling, como seu herói, é uma Apanhadora(1). Ela fala sobre possuir uma grande curiosidade religiosa desde sua infância. “Ninguém na minha família era crente. Mas eu era muito atraída pela fé, mesmo quando duvidava,” ela diz. “Eu certamente tinha essa necessidade de algo que não estava conseguindo em casa, então eu fui a única que saiu procurando por uma religião”. Quando menina, ia para a igreja sozinha. Ela ainda comparece regularmente e seus filhos foram todos batizados. Seus defensores cristãos sempre pensaram que sua fé brilhava através de suas histórias. Um chamou os livros de “a maior oportunidade evangélica que a Igreja já perdeu”. Mas Rowling aponta que sempre houve um outro lado na guerra santa. “Pelo menos, ainda que eles tenham sido atacados sob um ponto de vista teológico,” ela diz, os livros “foram elogiados e levados ao púlpito, e, o mais interessante e satisfatório para mim, o foram por várias fés diferentes”. Os valores nos livros, ela observa, não são de modo algum exclusivamente cristãos e ela é cautelosa para não parecer promover um fé sobre outra ao invés de convidar as pessoas para explorar e lutar com as questões difíceis.

A pauta religiosa de Rowling é bastante clara: ela não tem uma. “Eu não planejei converter ninguém ao Cristianismo. Eu não estava tentando fazer o que C.S. Lewis fez. É perfeitamente possível viver uma vida bastante ética sem a crença em Deus e acho que é perfeitamente possível viver uma vida salpicada de maldades com a crença em Deus”. E agora ela sobe em seu próprio púlpito e você consegue perceber como tudo isso importa para ela se isso já não estava claro pelo seu tratado de 4.100 páginas sobre a tolerância. “Sou contra qualquer tipo de fundamentalismo,” ela diz. “Inclusive na minha própria religião”.

Ela certamente encontrou seus discípulos. Os críticos podem menosprezar os fãs adultos de Rowling considerando-os “kidults,”(2) mas especialmente, conforme a série se desenrolou, sua audiência se expandiu para muito além das crianças e seu impacto para bem além do entretenimento. Somando-se a algumas 300 bandas de rock bruxo, uma penca de fanfictions e inúmeros websites, os livros inspiraram grupos como o Harry Potter Alliance, um grupo online fundado por Andrew Slack, 28 anos, um consultor em Boston, com o lema “A arma que temos é o amor”. Quando Relíquias da Morte foi lançado, o grupo organizou house parties(3) da Austrália até a América do Sul e de costa a costa dos E.U.A. para aumentar a conscientização sobre o genocídio em Darfur, em uma campanha ao estilo “O Que Harry Faria?”. As festas contaram com performances de bandas como Remus Lupins e Moaning Myrtles e um podcast com especialistas em África, incluindo Joe Wilson, também conhecido como Sr. Valerie Plame. “Podemos ser como a Armada de Dumbledore, que acordou o mundo para o retorno de Voldemort, e acordar nossos ministérios e nosso mundo para acabarem com o genocídio em Darfur,” Slack encorajou os membros do Harry Potter Alliance em um tom de séria camaradagem. Nos dias seguintes, a coalização antigenocídio dos estudantes viu um aumento de 40% em alistamentos para divisões colegiais e um aumento de 52% em ligações para sua linha direta, 1-800-GENOCIDE.

Quando questionada a respeito do grupo, Rowling praticamente levita do sofá, derrubando seu café no processo. “É incrível, é humilde e é inspirador ver pessoas saindo por aí e fazendo isso em nome de seu personagem,” ela diz. Ela está especialmente contente pela escolha da missão do grupo e a antiga trabalhadora da Anistia Internacional dentro dela ressurge. “Contra o quê os meus livros pregaram o tempo todo? Intolerância, violência, lutas pelo poder, não importa o quê. Todas essas coisas estão acontecendo em Darfur. Então eles realmente não poderiam ter escolhido uma causa melhor”.

Mas é também mais um exemplo de como ela nunca terá o controle de Harry novamente. Ela sabe que agora ele é maior do que ela e nem sempre de maneiras que ela aprecia. Pais podem precisar deixar suas crianças, mas artistas querem sua posse eterna e você pode sentir sua ambivalência, ou até mesmo algo mais feroz e protetor, quanto à possibilidade de legiões de escritores que querem tomar a história de Harry como sendo deles. Alguém declarou na maior Potterfest(4) do último verão que, como Rowling deixou a caixinha de areia, esta estava aberta para todos brincarem. Mas isso não é brincadeira para ela. Ela pode lhe dizer exatamente que personagem estava esboçando na noite de Ano Novo de 1990 no momento em que sua mãe morreu. (Era a Professora Sprout, “contraste pragmático” de McGonagall, ela diz. “Eu começara havia seis meses e estava finalizando a composição da mesa principal”.) Saber onde você estava quando leu Harry Potter pela primeira vez, ela diz, não é a mesma coisa que saber onde você estava quando o criou. Se você puder solucionar os quebra-cabeças e quebrar os códigos em seu website, pode ver seus antigos desenhos, páginas editadas de manuscritos e vislumbrar o quão profunda é a sua devoção. “Ele ainda é meu,” ela diz. “Muitas pessoas podem sentir que o possuem. Mas ele é um personagem muito real para mim e ninguém pensou mais sobre ele do que eu”.

Ele também é uma propriedade de um bilhão de dólares da mídia e uma figura cultural global. Agora traduzido para 65 línguas, os livros se juntaram ao seleto grupo que se estende de Cinderela até Guerra nas Estrelas, dando às pessoas uma forma de discutir cultura e comércio, política e valores. O professor de inglês de Princeton, William Gleason compara o impacto da série ao furor em torno de A Cabana do Pai Tomás(5) antes da Guerra Civil. “O livro penetrou em todos os níveis da sociedade,” ele diz. “É notável como estes dois momentos são similares”. E ele não vê isso como uma moda passageira ou como o triunfo de um marketing esperto. “Eles falaram profundamente para um número suficiente de leitores e por isso serão lidos e relidos por crianças e adultos por um bom tempo,” ele diz. Estudiosas feministas escrevem ensaios sobre a jornada de autodeterminação de Hermione. Professores de Direito citam a história de Dobby para ensinar leis contratuais e direitos civis. O professor de direito da Universidade do Tennessee, Benjamin Barton, publicou Harry Potter and the Half-Crazed Bureaucracy,(6) no Michigan Law Review, que examinou a visão de Rowling sobre a legitimidade do governo. Sua conclusão? “Rowling pode fazer mais pelo libertarianismo do que qualquer outra pessoa desde John Stuart Mill”. Um pesquisador da Universidade Rutgers nomeou uma planta rara da floresta tropical no Equador de Apparata, do verbo aparatar pois ela parecia surgir do nada. Intelectuais franceses debatem se as histórias doutrinam as crianças para o capitalismo de mercado livre. Na Turquia, os livros foram absorvidos na discussão sobre a geografia cultural do país: Harry é um símbolo do imperialismo ocidental ou das tradições perdidas de misticismo e alquimia do Oriente? Em novembro, uma professora da sétima série do Paquistão convidou sua classe a comparar a crise do país a Harry Potter. A classe imediatamente escalou Pervez Musharraf como Voldemort e Benazir Bhutto como Bellatrix. “Potter é como uma mancha de Rorschach(7),” diz o professor de governo de Georgetown, Daniel Nexon, “para pessoas articulando preocupações quanto à globalização em seu ambiente cultural. É incrivelmente significativo que Potter até mesmo adentre estes debates”.

E isto está no topo do impacto, até mesmo seus críticos reconhecem, inspirar uma geração de leitores obsessivos sem medo de livros gordos e tramas complexas. “Eles são fáceis de subestimar por causa do que eu chamo de as três Relíquias Mortais para acadêmicos,” diz James Thomas, um professor de Inglês da Pepperdine University. “Eles simplesmente não podem ser bons pois são recentes demais, populares demais e juvenis demais”. Mas ele argumenta que os livros fazem mais do que entreter. “Eles tornaram milhões de crianças mais espertas, mais sensíveis e certamente mais letradas e provavelmente mais éticas e cientes da hipocrisia e da cobiça pelo poder. Eles tornaram as crianças melhores adultos, eu acho. Eu não conheço nenhum outro livro que tenha feito esse tipo de mágica com tantos milhões de leitores em tão pouco tempo na história das publicações”.

Era o fim de um longo dia de janeiro quando a última página do último capítulo estava completa. Rowling havia terminado de pôr os números das páginas e se achou sozinha em sua suíte no Balmoral sentindo, ela se recorda, uma certa “euforia de fim-de-épico”. Assim, ela dançou um pouco pelo quarto e então em um repentino momento de criativa destruição, pegou sua caneta e escreveu na base do busto de Hermes que ficava na alcova da janela, “J.K. Rowling terminou de escrever Harry Potter e as Relíquias da Morte neste quarto (552) em 11 de janeiro de 2007″.

O final, naturalmente, era a parte mais controversa do livro. Teria sido tão mais genial apenas matar o Harry. “Eu sabia disso desde o começo,” ela diz, mas isso nunca fez parte de seu plano. Para ela, a coisa mais nobre, a bravura real, é se recompor após um trauma. Alguns fãs ficaram desapontados pelo fato de que depois de todas as suas aventuras, a maior preocupação de Harry é se seu filho irá se encaixar em Hogwarts. “É um final amargo e doce ao mesmo tempo,” ela diz. “Mas isso é perfeito, porque é isto que acontece com nossos heróis. Somos humanos. Eu sempre argumentava que ‘o amor é a força mais importante, o amor é a força mais importante.’ Então eu queria mostrá-lo amando. Algumas vezes é dramático: significa que você deve abrir mão de sua vida. Mas algumas vezes significa ter certeza de que a mala de alguém está feita e esperar que eles estejam bem na escola”.

Rowling tem algumas próprias recomposições a fazer. Seu tempo, ela diz, será dividido entre seus filhos, suas caridades e sua escrita. Mas ela tem apenas que olhar para George Lucas para avaliar que a pressão do retorno à Hogwarts será feroz, e parte dela, autoinfligida. Ela já teve que lidar com a pressão de não desapontar a fã mais próxima a ela: sua filha Jessica, de 14 anos. O que acontecerá quando seus dois filhos mais novos descobrirem, daqui há uma década, as histórias por si próprios e souberem que a mamãe tem o poder de fazer mais delas? “Houve vezes desde o término, momentos de fraqueza,” ela diz, “quando eu disse, ‘É, tudo bem,’ para o oitavo livro”. Mas ela está convencida de que está fazendo a coisa certa em tirar um tempo de folga, fazer outra coisa. Agora ela está trabalhando em dois projetos, um romance adulto e um “conto de fadas político”. “Se, e este é um grande ‘se’, eu algum dia escrever um oitavo livro sobre o mundo [dos bruxos], duvido que Harry seja o personagem central,” ela diz. “Sinto que já contei a história dele. Mas estes são grandes ‘se’. Vamos dar 10 anos e ver como nós nos sentimos então”. É uma aposta bem segura como sua audiência se sentirá. Mas nós teremos apenas que esperar e nos preparar para sermos surpreendidos.

– com reportagem de Gina Elliot e Laura Fitzpatrick/Nova Iorque e Laura Blue/Londres

N.T.:
(1) Apanhadora: No original, Seeker, que aqui significa, literalmente, aquele que procura.
(2) kidults: Pessoas da meia idade que participam da cultura jovem e de atividades tradicionalmente feitas para crianças.
(3) house parties: festas de grandes grupos de pessoas que se reúnem em uma casa.
(4) Potterfest: Convenção de Harry Potter.
(5) A Cabana do Pai Tomás: Livro de Harriet Stowe publicado em 1852 a favor do abolicionismo nos Estados Unidos, foi o romance mais vendido do século XIX.
(6) Harry Potter and the Half-Crazed Bureaucracy: Em tradução livre, “Harry Potter e a Burocracia Meio Doida”.
(7) mancha de Rorschach: Teste elaborado por Hermann Rorschach que consiste no exame de lâminas de borrões de tinta, a fim de se obter um quadro psicológico do indivíduo analisado.

Traduzido por: Lilian Ogussuko em 21/02/2009.
Revisado por: Juliana Poli Bonil em 22/02/2009.
Postado por: Vítor Werle em 05/03/2009.
Entrevista original aqui.