Adler, Margot. “Harry Potter”. NPR Radio, 27 de outubro de 2000.
Cortesia do Sugarquill’s Transcription Project.
Áudio: Offsite NPR Radio.
Bob Edwards, anfitrião: Harry Potter trouxe um período mágico para a indústria editorial. O último livro a respeito do jovem bruxo em treinamento, “Harry Potter e o Cálice de Fogo” ainda é um bestseller mesmo tendo sido lançado depois do verão. Cálice de Fogo e os outros três primeiros livros da série juntos venderam mais de 40 milhões de cópias só nos EUA. Um filme de Harry Potter está previsto para o próximo ano. A autora já está trabalhando no próximo volume da série de sete livros. Ela falou com Margot Alder do NPR Radio.
Margot Adler, repórter (MA): Eu sei que quando leio um livro como uma criança, os personagens acabam se tornando parte da minha fantasia. E você tem convivido com Harry Potter por mais de 10 anos.
J.K. Rowling, autora (JKR): Sim.
MA: Eu gostaria de saber, ele está menos com você agora, ou está mais? Ele sobe em seus ombros? Você sabe do que estou falando.
JKR: Continua muito comigo, sempre. Naturalmente, quero dizer, esse é um projeto que consume muito de mim, uma série de sete livros. Eu tenho 127 personagens. São muitos personagens para eu manter em jogo. É uma trama cada vez mais complexa, como sempre planejei. Obviamente é um foco enorme do meu tempo, da minha energia e também de uma parte enorme da minha vida.
MA: Eu mantenho um desejo desesperado para ver o filme…
JKR: Eu sei, acho, sabe…
MA: …E esse sentimento de “oh, eles vão destruir o que imaginei, o meu Harry Potter”. Sabe?
JKR: Acredito que, você sabe, para pessoas que passaram quatro anos com Harry, duvido que ver o filme possa prejudicar o Harry ou a Hogwarts que imaginaram. Mas entendo o que você quer dizer. Acho que muitas pessoas vão sentir isso. Elas realmente querem ver o resultado. Eu encontrei uma leitora bastante inteligente outro dia, isso é que é o maravilhoso a respeito dos livros, ela me disse, “eu sei qual é a aparência de Neville”, e eu disse, “descreva-o pra mim”. Ela disse, “bem, ele é baixo, é negro e usa dreadlocks”. Bem, pra mim ele é baixo, gordinho e loiro, mas é isso o interessante sobre livros. Sabe, ela só está vendo algo diferente. Pessoas trazem suas próprias imaginações. Elas devem colaborar com o autor na criação desse mundo.
MA: Agora você tem ainda pelo menos três anos para escrever o 5º, 6º e 7º livros da série.
JKR: Sim.
MA: E levando em conta que Harry Potter esteve – o que? – 10 anos em criação, existem outros projetos engatilhados? Eu não estou dizendo que você deve nos contar sobre eles, mas existem projetos além de Harry?
JKR: Existem algumas idéias, mas como eu disse, são 127 personagens nesse longo processo, não estou ansiosa para terminar Harry. Eu não quero perder essa “cinética”, então eu não penso em parar de escrever a série por um tempo, de modo que não quero me afastar e voltar depois. Será como uma perda terminar os livros; eles têm sido uma grande parte de minha vida. E também não quero me apressar sobre a série nem estendê-la desnecessariamente.
MA: E você disse que com o livro cinco você seria um pouco mais relaxada, certo?
JKR: Um bocado mais, e só estou dizendo isso porque o livro quatro – e não foi culpa de ninguém. Não foi culpa do meu editor, e não foi minha culpa. Foi uma – culpe minha inspiração. Minha inspiração foi errada. Ela me conduziu a um beco sem saída, e eu tive que remover do livro, e eu voltei atrás e reescrevi e ainda amei a escrita, mas foi muita pressão em um certo momento. E eu estava realmente me pressionando. Claro que eu queria terminar o livro para minha satisfação, e eu também não queria decepcionar as pessoas por perder o prazo. Nós estipulamos um prazo, mas fiz isso colocando dias muito, muito longos e trabalhando sob mais pressão do que normalmente trabalho. Você sabe, estou escrevendo o livro cinco agora. Estará pronto quando estiver.
MA: Tem algo em relação ao quinto livro, qualquer pequeno detalhe, que você possa nos dizer?
JKR: Eu poderia te dar o título.
MA: Mm hmm.
JKR: “Harry Potter e a Ordem da Fênix“.
MA: A Ordem da Fênix.
JKR: Uh-huh. Mas não digo mais nada.
MA: Está certo. Como você está se protegendo de toda a fama para ter tempo de escrever?
JKR: Na maior parte do tempo não é tão difícil assim. Sabe, as pessoas me perguntam, “você ainda consegue andar pela rua sem ser reconhecida?”. Muito facilmente. O aspecto mais difícil é que você encontra pessoas que querem algo, e muitas dessas pessoas querem por causas muito, muito boas, mas tem de haver uma interrupção, porque não conseguirei mais trabalhar se eu fizer tudo o que as pessoas pedem a mim. Então há instituições beneficentes que eu ajudo, mas obviamente preciso recusar muitas. Sem considerar meu desejo de continuar sendo uma romancista, eu quero ver minha filha. Eu não quero – sabe, ela vem primeiro, Harry em segundo.
MA: Você quer ter uma vida.
JKR: Sim, uma vida seria bom. Eu nem mesmo pensava sobre isso. Eu me lembro de ter tido uma vida. Eu estava certa…
MA: Você se lembra de quando tinha uma vida?
JKR: Sim, era divertido.
MA: Mas houve um lado positivo para todo esse reconhecimento?
JKR: Oh, um grande lado positivo. O grande lado positivo é de se encontrar com crianças e leitores. Isso é muito agradável. Não há absolutamente nada de negativo em se encontrar com leitores, nada. Nada mesmo. Quero dizer, eu nunca me encontrei com uma criança que não fosse nada menos que encantadora, de verdade. É maravilhoso. Eu adoro ler para elas. Adoro responder suas perguntas. Por outro lado, de fato, isso é muito chato, mas jornalistas têm me perguntado o título do livro cinco e eu finalmente – essa manhã, eu cedi e contei a um menino de oito anos de idade porque eu só queria ver sua expressão quando eu dissesse. Mas às vezes eu penso, “o que eu fiz?”. E normalmente isso acontece em dias em que alguns jornalistas vêm e batem à minha porta, e nunca espero por isso, e particularmente não posso dizer que gosto disso. Mas a maior parte do tempo é realmente maravilhoso.
MA: Sabendo o que você sabe agora sobre as experiências desses últimos quatro anos, há alguma coisa que você faria diferente?
JKR: Retrospectivamente, coisas bem triviais. Em geral não, não mesmo. Em termos de escrita, você sempre olha para o seu trabalho, seus livros e pensa: “por que disse isso deste jeito? Por que fiz isso deste jeito?”. Acho que o desejo de mudar continua mesmo depois dos livros estarem impressos. Por outro ladro, sobre lidar com tudo o que aconteceu, ainda estou aprendendo. Mas de modo geral, sabe, eu sou uma pessoa feliz. Acho que estaria sendo muito ingrata se te dissesse que não sou. Essa manhã conheci os vencedores de uma competição da Scholastic. Eles tinham que dizer “como Harry Potter mudou a minha vida”. Eles tiveram 10.000 registros. Você acredita?
MA: Dez mil?
JKR: Aham. Foi uma experiência ótima. Você passa por uma experiência dessas, de repente jornalistas que batem à sua porta não parecem tão importantes mais.
Traduzido por: Bruno Maranhão em 06/07/2006.
Revisado por: Virag Venekey em 04/05/2007 e Fernanda Midori em 22/11/2011.
Postado por: Fernando Nery Filho em 04/05/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.