Dickinson, Amy. “Sementes da ficção”. Time Magazine, 21 de junho de 1999.

Todo mês de junho, a escola de minha filha distribui uma ambiciosa lista de livros que os alunos de cada série têm que ler durante o verão. Ela e eu ficamos eletrizadas de ver que os títulos deste ano incluíam Harry Potter e a Câmara Secreta, de J.K. Rowling, seqüência da sensação do ano passado, Harry Potter e a Pedra Filosofal. Então, na semana passada corremos à nossa livraria favorita para comprar logo um exemplar. Enquanto voltávamos para casa, minha filha o abriu prontamente e começou a lê-lo em voz alta. Ela ria. Ela gargalhava. Ela fazia um sotaque inglês. E eu adorei um destes momentos brilhantes nos quais você percebe que, apesar das intempéries maternais, as coisas acabam sendo jeito que têm que ser.

Primeiro, uma confissão: nunca gostei de ler em voz alta para minha filha. Lá – eu disse isso. Todos os dias em seus primeiros cinco anos, eu lia obediente histórias protagonizadas por ratos vestidos de marinheiro ou girafas com problemas de auto-estima. Lia canções de ninar e histórias bíblicas. Quando me pediam, usava uma voz esganiçada ou falava um dos meus (dois) sotaques. Algumas noites, caía no sono em sua cama com um livro de historinha erguido como uma barraca na minha cara, sonhando com dragões e coelhos com relógios de bolso.

Mas ler em voz alta sempre me fez me sentir como um ator numa peça sobre boas mães. Ansiava pela idade em que minha filha poderia ler sozinha.

Não surpreendentemente, ela se tornou uma leitora sem ânsia ou inspiração. Tentei conduzi-la a livros que amara quando criança – aqueles que eu lia de lanterna debaixo das cobertas – mas ela nunca pegou Os Pioneiros nem Nancy Drew. Ela não parecia gostar de biografias de lendas esportivas ou de sufragistas, como eu na sua idade. Ela tratava a leitura como eu o fazia – como um trabalho.

No verão passado, ela olhou a lista de leituras requisitadas como se fosse um longo e terrível trabalho escolar. Em agosto, ela estava apenas na metade do primeiro dos quatro romances. E foi aí que eu me tornei o comandante do nosso campo de leitura. Todo dia eu reservava ao menos uma hora para a leitura de ficção. Desligávamos a TV e o rádio e sentávamos juntas, para ler. Minha filha lia E.B. White. Eu lia Elmore Leonard e Walker Percy. Perguntei a ela sobre The Trumpet of the Swan. Ela me questionava sobre Chili Palmer.

Nosso cronograma de leitura continuou bem. Minha filha começou a quarta série com a lista terminada, e ambas adquirimos um hábito diário de leitura de ficção. No outono passado, nos unimos a algumas outras mães e filhas da escola e formamos um grupo de leitura. A partir de uma lista proporcionada por uma livraria local, escolhemos títulos apropriados para adolescentes e os lemos juntas. Uma vez por mês nos reunimos na casa de um dos membros para comer pizza e discutir nosso livro.

Algumas observações eram impressionantes, outras, banais. Mas a conversa é sempre vívida, e gostamos tanto disso, que decidimos continuar com o grupo no verão e no próximo ano escolar.

A melhor coisa quanto ao grupo de leitura para mim e a minha filha é o prazer de ler o mesmo livro todo o tempo. Nesta primavera, descobrimos Harry Potter juntas – lendo de cabo a rabo nosso exemplar. Não compartilhara um livro com ela desde os primórdios, quando eu era a executora de nosso ritual noturno de leitura. Finalmente, minha filha descobriu a alegria interior de ler. E agradeço por ela tê-lo passado a mim.

Traduzido por: Renan Lazzarin em 25/12/2008.
Revisado por: Daniel Mählmann em 04/06/2010.
Postado por: Vítor Werle em 10/01/2009.
Artigo original no Accio Quote aqui.