Wyman, Max. “’Você pode levar um tolo até um livro, mas você não pode fazê-lo pensar’: Autora tem palavras sinceras para a direita religiosa”. The Vancouver Sun (British Columbia), 26 de outubro de 2000.

J.K. Rowling não usa mais aqueles cachos vermelhos que se tornaram familiares para milhões quando sua criação, Harry Potter, a lançou à estratosfera da fama internacional. Ela tingiu suas madeixas encurtadas de um loiro genérico, deixando visíveis as raízes escuras.

Privilégio de mulher, nós pensamos. Mas não: o longo cabelo vermelho e a franja a deixavam muito reconhecível, ela diz.

A nova aparência emoldura olhos intensos, escuros e um rosto pálido e sério. Aqui em um dos locais mais suntuosamente famosos e celebrados da história literária, ela lidou com uma sessão de meia hora de perguntas com um grupo de crianças selecionadas, e outra meia hora educada, mas lânguida de entrevistas com a mídia de Vancouver.

Ela já está acostumada com isso agora. O quarto livro da série, Harry Potter e o Cálice de Fogo, acabou de ser lançado, com as vendas apenas da edição de capa dura no Canadá chegando a um milhão. Estrela? É claro, mas há um bom senso, uma despretensiosidade na forma como ela lida consigo mesma.

A maioria das perguntas já foi feita um milhão de vezes, mas ela trata a todas com cortesia e bom humor temperados com uma graça britânica sutil e ácida.

Agora eu consegui 15 minutos de entrevista exclusiva, cara a cara, e, dadas às restrições de tempo, eu decidi focar em um tópico que tem se tornado cada vez mais importante conforme os quatro livros foram sendo lançados: o significado moral das histórias, e o uso apropriado do poder.

Se você se manteve a par das noticias de Rowling, você lembrará que ela ficou repetidamente sob o fogo de algumas partes da direita religiosa por escrever sobre magia e bruxaria, e por retratar o infinito conflito entre o bem e o mal através de personagens sensacionais talhados audazmente.

Harry Potter, um estudante da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, é constantemente jogado contra forças malígnas, particularmente o vilão mais terrível, Lord Voldemort.

Até agora, apesar dos pesares, Potter e as forças da virtude e da decência triunfaram. O significado moral parece claro.

“Parece para você”, diz Rowling. “E para mim é tão cegamente óbvio. Mas quando isso começou a se tornar um problema eu gastava uma enorme quantidade de tempo explicando o que eu achava que era tão óbvio”.

“Agora eu estou começando a ficar impaciente porque eu sinto que você pode levar um tolo a um livro, mas não pode fazê-lo pensar. E você pode me citar, na verdade, pois estou começando a perder a paciência com isso”.

Foi o mais irritada que ela ficou a manhã inteira. Mas você não pode culpá-la. Os livros dificilmente seriam mais claros sobre suas intenções. No fim do último, uma das forças do bem, o diretor de Hogwarts Dumbledore, lamenta uma morte que ocorreu e diz:

“Lembrem-se, se chegar a hora de terem de escolher entre o que é certo e o que é fácil, lembrem-se do que aconteceu com um rapaz que era bom, generoso e corajoso, porque ele cruzou o caminho de Lord Voldemort”.

Isso, diz Rowling, foi a chave para ela: a escolha entre o que é certo e o que é fácil, “porque é assim, é assim como a tirania começa, com o povo sendo apático, pegando a via fácil e de repente se encontrando em sérios problemas”.

Esse, ela disse, foi o primeiro momento na série em que ela chorou enquanto escrevia.

Mesmo o capítulo do primeiro livro que (ela percebeu depois) foi baseado na morte de sua mãe, “mesmo isso não me fez chorar; eu não havia chorado até escrever isso”.

Esse senso de responsabilidade moral, ela vê isso transformando Harry numa figura moral na qual as crianças devem se espelhar?

“Eu o vejo como uma pessoa boa, mas um ser humano”, ela diz. “Ele é vulnerável, ele sente medo frequentemente, ele tem uma consciência muito forte, e eu acredito que assim como a esmagadora maioria dos seres humanos – talvez eu seja absurdamente otimista – a maior parte das pessoas tenta fazer a coisa certa, de seu jeito”.

Ele parece, eu digo a ela, como uma definição da própria Rowling, embora ela costume dizer aos entrevistadores que ela é mais como a amiga de Harry, Hermione. “Sim”, ela admite, “existe muito de mim no Harry, mas provavelmente de mim como uma pessoa mais velha. Harry possui uma alma velha, e você encontra crianças assim”.

Harry, é claro, consegue combater um mal sobrenatural com forças sobrenaturais próprias, e Rowling é bem clara ao dizer que ela, pessoalmente, não acredita nesse tipo de magia – “não mesmo”. Ela é cristã?

“Sim, eu sou”, ela diz. “O que parece ofender a direita religiosa muito mais do que se eu dissesse que não acredito em Deus. Todas as vezes que me perguntaram se eu acredito em Deus, eu disse que sim, porque eu realmente acredito, mas ninguém nunca foi mais a fundo a respeito disso, e eu devo dizer que isso me convém, porque se eu falar muito livremente sobre isso acho que o leitor inteligente, seja de 10 ou 60 anos, será capaz de adivinhar o que vem por aí nos livros”.

Um marco na mitologia de Rowling é o fato de que as linhas criativas planejadas para todos os sete livros estão firmemente estabelecidas desde que ela começou a escrever o primeiro; ela inclusive já escreveu o último capítulo do livro sete. Por que estragar a diversão?

Então nós falamos sobre poder, que parece estar na base das histórias: o poder mágico, o poder dos pais sobre as crianças, a batalha entre o poder do bem e o poder do mal – “sim”, ela diz com empolgação, “abuso de poder, por que as pessoas iriam buscá-lo”.

E eu a faço uma pergunta pessoal: dado que em nossa sociedade dinheiro é igual a poder, e muito dinheiro (Harry a tornou a mulher que mais ganhou dinheiro na Inglaterra) é igual a muito poder, como ela pretende usar esse poder?

“Eu já comecei a usá-lo”, diz ela, em referência aos 1,14 milhões de dólares canadenses que ela doou recentemente para um centro de caridade inglês para pais e mães solteiros. “E a fama também pode ser igual a poder. Então eu comecei a usar os dois onde eu acho que posso fazer alguma diferença”.

Ser mãe solteira é um assunto próximo ao seu coração; desde o colapso do seu casamento no começo dos anos 90, ela criou sua filha Jessica, agora com 7 anos, sozinha.

“É algo que realmente atravessa qualquer estilo de vida e qualquer histórico pessoal – étnico, social, econômico… sejamos francos, são principalmente mulheres que se encontram nessa posição. E eu costumava me perguntar quando alguém ia se levantar e mostrar como as coisas eram: dizer ‘não, realmente, nós não somos todas adolescentes irresponsáveis que não soubemos usar um método contraceptivo’, – uma visão que era bastante prevalecente na mídia naquele tempo, parcialmente porque nós na Inglaterra tínhamos um governo de direita que gostava de usar pais e mães solteiros como bode expiratório…

“A maioria de nós são pessoas cujos relacionamentos deram errado. Também temos de incluir as pessoas que ficaram viúvas e que acabam sendo pichadas com o mesmo pincel extremamente negativo. O próximo herdeiro do trono é um pai solteiro”.

Ela ficou relutante em assumir essa tarefa de defensora (“com toda sinceridade, estou lutando por um tempo de escrita agora, e eu só quero, em primeiro lugar, ver minha filha”), mas ela pensou, bem, “alguém tem que fazer, então que seja você”.

Embora ela possua o tipo de dinheiro hoje em dia que a permitiria conceder à filha todo tipo de cuidado e conforto, ela cuida dela sozinha, levando-a para a escola diariamente, embora uma babá a apanhe de tarde e fique com ela até às 17h, “o que me dá um dia inteiro de escrita”.

Jessica leu todos os livros de Potter, diz Rowling, “e ela leu o último sozinha… até o capítulo 30”. É ai que o livro se torna sombrio e violento, e Rowling decidiu ler para ela: “Ela precisava de apoio durante aquele final. É o livro mais sombrio até agora”.

Seguindo a linha de produção da fábrica Potter está o filme de Harry Potter, e (estou recebendo sinais de mãos abanando do pessoal da publicidade agora: eu já estendi os 15 minutos para 20) eu a faço uma pergunta que meu sobrinho de 13 anos, Tom, me enviou da Inglaterra: “Você acha que o novo filme pode arruinar as imagens das crianças sobre Harry e Hogwarts e tornar os próximos livros menos agradáveis por causa das imagens definidas tanto dos personagens quanto da escola?”.

A resposta é um não definitivo, e ao mesmo tempo uma forte afirmação de sua fé em seus leitores.

“Se as pessoas já inventaram um Harry em sua imaginação, eu ficaria muito surpresa se o filme pudesse estragar isso. Nenhum filme jamais estragou meus livros favoritos. Acredito que os meus leitores serão capazes de diferenciar o Harry do filme e o Harry real e acho que eles não terão qualquer dúvida sobre qual é o verdadeiro Harry. As pessoas subestimam as crianças”.

Traduzido por: Patrícia Abreu em 08/01/2009.
Revisado por: Dérick Andrade Moreira em 29/01/2009.
Postado por: Vítor Werle em 30/01/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.