McGinty, Stephen. “Pottermania – Foco – Perfil – J.K. Rowling”. The Sunday Times (UK), 17 de outubro de 1999.
Milhares de americanos estão se enfileirando para conhecer J.K. Rowling, a mãe solteira que conjurou o aprendiz de feiticeiro Harry Potter de dentro de um café em Edimburgo. Ela é a única autora que conseguiu os três lugares do topo da lista de mais vendidos do New York Times ao mesmo tempo. Stephen McGinty fala sobre o bruxo literário.
A fila começou antes do amanhecer em Manhattan. Na calçada da Books of Wonder, empresários sapatearam, mães bebiam café de garrafas térmicas e crianças bocejavam com sono. Às 11 da manhã, um grande Lincoln preto melhorou a situação. A multidão de 800 pessoas se animava enquanto J.K. Rowling saía do carro.
Era seu terceiro compromisso do dia. Às 7 da manhã a autora dos romances de Harry Potter foi uma convidada de Katie Couric, a apresentadora do Today Show, o programa matinal mais popular da América. Duas horas depois Rosie O’Donnell, a atriz e apresentadora adotava o mesmo tratamento entusiasmado. Pelo meio da manhã Rowling já havia entrado nas salas de 10 milhões de americanos.
Na Books of Wonder, contudo, a mudança no status de Rowling de uma simples autora famosa em turnê com seu livro para fenómeno global era mais óbvia. Rowling, com blusa preta e calça cinza, sorriu e riu para seu exército de fãs jovens e não tão jovens. Ela autografou mais de 1.000 cópias de seu novo romance, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, em apenas duas horas.
Lá, para gravar todo rabisco feito por ela, estavam fotógrafos, uma equipe de câmeras e dúzias de jornalistas. “A atmosfera estava elétrica”, disse Jennifer Lavonier, a gerente da loja. “Homens e mulheres e crianças estavam todos encantados por ter suas cópias autografadas. É o mais perto que eu já vi da Beatlemania com livros”.
A comparação soa verdadeira. Exatamente como os Beatles impressionaram a América quando roubaram os três primeiros lugares nas competições musicais americanas nos anos 1960, Rowling tem abalado a instituição literária. Pela primeira vez na história os três lugares do topo da lista de mais vendidos do New York Times estão ocupados pela mesma autora: Rowling.
Os Estados Unidos estão simplesmente loucos por Harry Potter. A cada noite milhões de crianças são postas para dormir com os contos do aprendiz de feiticeiro de 10 anos de idade e seus amigos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Para conhecer a procura frenética pelos três livros existentes de Harry Potter, seis gráficas em todo o país funcionam 24 horas por dia, sete dias pro semana. Harry também recebeu outra honra: uma capa da revista Time.
Até hoje 8,2 milhões de cópias do trio dourado, Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry Potter e a Câmara Secreta e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, foram vendidos na América. Ainda que o primeiro livro tenha sido publicado só há um ano atrás em setembro de 1998. Naquela época, uma sessão de autógrafos de Rowling na Books of Wonder atraiu menos de 100 fãs.
Segunda-feira passada Rowling começou uma turnê de três semanas, de costa a costa, montes de autógrafos, entrevistas e aparições na televisão que esgotariam um presidente. Uma viagem para ver “O Rei Leão” na Broadway na noite de quarta-feira foi um pequeno intervalo antes de dois programas de televisão e três sessões de autógrafos em livrarias no dia seguinte.
No Today Show Rowling admitiu que o fenômeno era um pouco difiícil de acreditar. Quando ela começou a escrever o primeiro livro seu sonho mais louco se estendia somente a tê-lo publicado. “Quando você imagina o que vai acontecer, você pensa em ver o livro impresso e talvez indo bem. Nada podia ter me preparado para o que tem acontecido”. A reação na América a tem deixado impressionada. “Na minha fantasia mais louca eu não poderia ter imaginado isso. Eu não poderia nem chegar perto”.
Apesar das multidões, das vendas fenomenais de seus livros e da proliferação de sites dedicados a Harry Potter, nem todo mundo está enfeitiçado pelo herói de óculos. Algumas editoras americanas estão considerando se unir e insistir para o New York Times retire os livros da lista de mais vendidos. Eles dizem que são livros de histórias infantis e inadequados. A verdadeira razão é inveja profissional: eles simplesmente não podem competir.
Outra mudança para a celebridade extraordinária de Rowling na América veio quando o Conselho de Educação da Carolina do Sul concordou em analisar se Harry Potter deveria ser permitido nas escolas depois que um grupo de pais reclamaram. Elizabeth Mounce, um dos pais pedindo a proibição, argumentou que os livros têm um tom sério de morte, ódio, falta de respeito e absoluto mal. A Associação Americana de Bibliotecas reportou que houve tentativas em Nova Iorque e Michigan de remover os livros das escolas.
Novamente há comparações com os Beatles. Seus discos foram queimados em reuniões populares em todo o Cinturão da Bíblia em 1967 depois de John Lennon imprudentemente disse que a banda era “mais popular que Jesus”.
Rowling defende seu trabalho com confiança. No Today Show da NBC ela disse: “Se você está escrevendo sobre o mal, você tem a responsabilidade genuína de mostrar o que isso significa e é por isso que os estou escrevendo desse jeito”.
Seu livro mais recente é considerado mais assustador do que os dois anteriores, com personagens chamados dementadores, que sugam almas, e um bruxo do mal, Sirius Black, que tenta matar Potter. Mesmo assim ela já explicou que no seu proximo livro um popular personagem central morrerá. “Estou escrevendo sobre alguém que é maligno. E ao invés de fazê-lo um vilão sem falas, o único jeito de mostrar como é maligno tirar uma vida é matando alguém que o leitor gosta”.
A pressão do direito cristão é algo que a editora americana de Rowling pode facilmente resistir, forrados como eles estão pelas dezenas de milhões de dólares que os livros fazem. Eles mantém seu trabalho na mais alta estima. Judy Corman, vice-presidente de comunicações corporativas da Editora Scholastic, disse: “Eles serão vistos como clássicos modernos da literatura infantil por anos, junto com livros como Alice no País das Maravilhas, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia“.
O incrível sucesso de Rowling pode ser visto quando comparado com outros grandes trabalhos infantis. O Senhor dos Anéis, publicado em 1954, vendeu 50 milhões de cópias nos imprevisíveis 45 anos. Mas nem J.R.R. Tolkien nem C.S. Lewis aproveitou tal sucesso instantâneo. Até hoje há 17 milhões de cópias dos livros de Harry Potter impressos em mais de 30 línguas, com o último romance vendendo mais rápido que Stephen King e John Grisham na Grã-Bretanha. Apenas Hannibal, a seqüência de O Silêncio dos Inocentes, vendeu mais na Grã-Bretanha este ano.
O agente de Rowling, Christopher Little, disse nunca ter tido antes um autor que vendeu tantas cópias tão rápido. “Na história da publicação nós nunca vimos nada como Harry Potter. As obras de Tolkien e C.S. Lewis podem ser comparáveis em alguns aspectos, mas o sucesso deles foi construído em muitos anos. O boca a boca em torno de Harry tem sido como um raio em um pátio”.
“O único livro comparável na verdade é ‘A Year in Provence‘ de Peter Mayle porque a divulgação fez do livro um grande sucesso. A chave para o sucesso de Harry é que tem sido realmente global”.
Acredita-se que Rowling ganhou aproximadamente 4 milhões por direitos autorais, mas a venda dos direitos para o cinema e seus ganhos futuros vão provavelmente passar disso. Alguns predizem que nos próximos 10 anos ela pode chegar a 30 milhões. Quando chamado para comentar, Little disse que o número soava “dramaticamente baixo”.
As vendas também foram boas para a editora de Rowling, a Bloomsbury. A firma anunciou este mês que seu lucro bruto havia aumentado em 34% para 3,2 milhões, e o preço de suas ações mais que triplicaram nos últimos 12 meses. Harry Potter lançou um feitiço sobre seu balanço geral.
Giles Gordon, um representante literário com Curtis Brown, concorda que Rowling se tornará incrivelmente rica. Pai de duas garotinhas, Lucy, 8 anos, e Clare, 6 anos, que não dormem sem ouvir algumas páginas das aventuras de Harry Potter, ele acredita que o apelo está no modo antigo de contar história. “Você o lê em voz alta e não é o livro mais bem escrito, mas não segue moda e escreve com uma consciência social. É absolutamente antigo, mas muito atraente”.
Hoje Rowling está a 5.000 milhões e muitos milhões de libras da pobre mãe solteira, uma imagem que entrevistas e perfis mostram interminavelmente. É verdade que Rowling começou a escrever os romances enquanto desempregada e trabalhava em rascunhos no Nicolson’s, um café em Edimburgo, enquanto sua filha, com cinco anos agora, dormia em seu carrinho. Mas Rowling foi a universidade e teve pais de classe média. Ela diz que a imagem da “garota pobre que venceu na vida” está começando a irritar.
Apesar de sua riqueza ela continua a viver quietamente em Edimburgo e evita os holofotes a não ser que seja para promover seu trabalho. Enquanto ela tem fãs ocasionais vadiando do lado de fora de sua casa, até agora ela não atraiu os perseguidores que seguiram escritores como Stephen King e Patricia Cornwell.
Ela parece timida e quieta na instituição literária escocesa, apesar de amigos dizerem que ela é qualquer coisa menos isso. Rebecca da Bloomsbury, que a conhece há muitos anos, insiste que ela não é nenhum dos dois. “O dinheiro não a mudou, ela só ficou ainda mais ocupada. Ela continua muito engraçada e incrivelmente encantadora”.
Rowling admite que sua vida no momento é um pouco esquizofrênica. Como a autora admitiu a Couric: “Eu tenho uma vida muito estranha no momento. Metade de minha vida é exatamente como era no passado. Eu passo o meu tempo fazendo o serviço de casa, cuidando de minha filha e escrevendo romances. Você poderia descrevê-la como tediosa. Então de repente eu venho para a América e é maravilhoso. O número de pessoas nas sessões de autógrafos, as entrevistas e publicidade são suficientes para fazer minha cabeça girar”.
Seu perfil nos Estados Unidos só vai crescer. Um fator será o lançamento do primeiro filme de Harry Potter nos próximos dois anos. Steven Spielberg tem expressado grande interesse em dirigir e a Warner Brothers, produtora do filme, já está planejando um parque temático.
Apesar dos boatos anteriores de que o filme seria “americanizado” espera-se agora que ele seja feito na Grã-Bretanha. Esta semana o governo esteve por trás de planos para um busca em todo o país nas escolas britânicas por um garoto adequado ao papel de Harry.
Até o filme ser lançado o público americano vai gritar por cada novo episódio da saga de Potter. Rowling planeja escrever sete livros, um a cada ano. Eles serão aguardados ansiosamente. Este ano milhares de pais compraram cópias do romance mais recente na Inglaterra pela internet, dois meses antes do lançamento na América.
Enquanto uma pequena parte da população americana se preocupa com os elementos “satânicos” da magia de Potter, a maioria dos professores está simplesmente feliz que alguém esteja persuadindo as crianças a ler de novo.
Como Jennifer Lovenier, a gerente da Books of Wonder, diz: “Em uma era do DVD, videogames e internet é preciso um tipo muito forte de magia para fazer tantas crianças abrirem um livro. Eu acho que todos nós devemos algo a J.K. Rowling por isso”.
A VIDA ENCANTADA DA PRIMEIRA DAMA DA FANTASIA
1966: Nascida em Chepstow, Gales; educada em uma escola em Floresta de Dean e na Universidade Exeter .
1990: Teve a primeira idéia para Harry Potter enquanto pega um trem entre Londres e Manchester. Ela trabalhou dois anos na Anistia Internacional antes de completar um curso para ensinar inglês como uma língua estrangeira em Manchester.
1991-1994: Passou três anos ensinando Inglês em Portugal e se casou com um jornalista português. Começou a fazer notas para o primeiro livro de Harry Potter.
1994: Nasce a filha Jessica. Quatro meses depois Rowling deixa seu marido e se muda para Edimburgo para ficar perto de sua irmã, Di.
1996: Recebeu uma doação de 8.000 da Scottish Arts Council (Conselho Escocês de Artes), que ela gastou cuidando de sua filha para conseguir terminar seu primeiro romance.
1997: “Harry Potter e a Pedra Filosofal” foi publicado pela Bloomsbury. As vendas rapidamente atingiram 50.000 em capa dura.
Setembro de 1998: “Pedra Filosofal” é publicado na América.
Dezembro de 1998: “Câmara Secreta” ganha o equivalente ao Booker infantil, The Smarties Prize.
8 de julho de 1999: “Prisioneiro de Azkaban” é publicado na Grã-Bretanha. Nos primeiros dois dias vendeu mais que Hannibal, vendendo 68.159 cópias. O livro continua e vende mais de 500.000 cópias.
8 de setembro de 1999: “Prisioneiro de Azkaban” é publicado na América, alcançando vendas fenomenais. Steven Spielberg diz que deseja dirigir um filme de Harry Potter.
4 de outubro de 1999: Harry Potter é a capa da revista Time.
9 de outubro de 1999: Rowling embarca em sua turnê de três semanas pela América, vendendo 8,2 milhões de cópias de seus livros nos EUA e mais de 17 milhões em todo o mundo.
13 de outubro de 1999: Pais na Carolina do Sul preocupados com o “mau” nos livros de Rowling.
14 de outubro de 1999: Rowling aparece no Today Show e no Rosie O’Donnell Show em Nova Iorque.
Traduzido por: Frederico Oliveira em 30/01/2006.
Revisado por: Patricia Abreu em 08/05/2007 e Vinicius Alvarez em 09/03/2008.
Postado por: Fernando Nery Filho em 04/05/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.