Boquet, Tim. “J.K. Rowling: a feiticeira por trás de Harry Potter”. Reader’s Digest, dezembro de 2000.
A autora J.K. Rowling explica a magia do jovem e estranho menino que lançou um feitiço sobre o ramo editorial e sobre sua vida.
“Não agüento esperar! Não agüento esperar”, chora Alula Greenberg-White de 10 anos, se apertando de expectativa. São 9 horas da manhã do lado de fora de uma grande livraria no norte de Londres e Alula está no começo de uma fila com 100 crianças e pais excitados. Eles olham pela janela para pilhas do romance de 640 páginas, olhos procurando pela pequena ruiva sardenta que os trouxe até ali – e para as livrarias ao redor do globo – e que está em algum lugar lá dentro fazendo um café.
“Eu realmente não sou uma pessoa da manhã,” admite J.K. Rowling enquanto mexe os dedos em preparação para outra maratona de assinaturas de Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto volume do fenômeno editorial.
Crianças de mais de 30 países estão simplesmente loucas por Harry, seu herói de óculos que descobre no 11º aniversário que é um bruxo. Para os poucos que não sabem: Harry herdou seus poderes mágicos de seus pais que foram massacrados pelo bruxo malvado Lord Voldemort. Harry, que sustenta uma cicatriz em forma de raio na testa, também trabalho de Voldemort, passa a ter uma série de aventuras na Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts. Ela é situada em um remoto castelo escocês, onde a correspondência é entregue aos pupilos por suas corujas.
Rowling encantou as crianças com sua imaginação e um elenco vívido: a terrível Hermione Granger e o corajoso Rony Weasley, amigos de Harry, o sinistro professor Snape e Hagrid, o querido guarda-caças que gosta de uma bebida e tem uma paixão por dragões bebês. As primeiras quatro histórias da série se acomodaram permanentemente no topo das listas de mais vendidos. Até hoje, eles venderam surpreendentes 41 milhões de cópias.
Em 8 de julho, dia da publicação de Cálice de Fogo no Reino Unido, 372.775 cópias de capa dura foram vendidas. Nos EUA onde Rowling é conhecida por ser a primeira autora do mundo a ocupar simultaneamente as três primeiras posições da lista de mais vendidos do The New York Times, uma nação de crianças com olhos turvos ficou até a meia noite para levar 3,8 milhões de volumes.
Nesta época digital onde dizem que crianças não dão nada por palavras impressas, Joanne Kathleen Rowling levou mais crianças à leitura do que qualquer outro autor vivo.
E com um filme do primeiro livro em produção e produtos licenciados de Harry chegando às lojas, ela tem um dos mais elevados perfis do planeta. Porém a realidade é uma pessoa de fala mansa, como um passarinho, de 35 anos, que se ajeita no sofá enquanto considera a pergunta: o que Harry tem que cativa todas as línguas e culturas? “Magia é um apelo universal. Eu não creio que ela exista do modo como é descrito nos meus livros, mas eu adoraria que fosse real,” ela diz, rápida como o Expresso de Hogwarts, que, no começo de todas as aventuras, leva as crianças para a escola a partir da plataforma nove e meia na estação King’s Cross de Londres.
“O ponto de origem de todo o mundo de Harry é ‘O que seria real?’. E eu trabalho a partir disso”. Ela nunca teve um público alvo em mente. “Eu comecei a escrever esses livros para mim, mas eu realmente gosto dos meus leitores. Eles são pessoas adoráveis”. Ela olha para a fila do lado de fora, que agora já passa de 300. “As crianças são o sonho dos autores. Elas não estão interessadas em figuras de vendas. Elas querem saber por que a saga vai para determinada direção. Eles sabem os livros de trás para frente e falam sobre os personagens como se eles fossem vivos, nossos amigos em comum”. Eles refletem perfeitamente os sentimentos de Rowling.
Mas com seus dormitórios em escolas públicas e os pontos por casas, não é tudo muito britânico? “Onde quer que eu vá, as crianças parecem gostar da ‘britanidade’ das histórias, mesmo que eles provavelmente estejam tendo uma visão muito rosada de como as escolas britânicas são!”
J.K. Rowling: a feiticeira por trás de Harry Potter 2 – Tim Bouquet.
E todos eles sabem a história de Rowling. Ela nasceu em 1965 em Chipping Sodbury, Gloucestershire do Sul, um local de nascimento apropriado para alguém que gosta de nomes estranhos, mas aceitáveis. Escrevendo desde os seis anos e com dois romances não publicados na gaveta, ela estava em um trem em 1990 quando Harry chegou à sua mente, totalmente pronto. Ela passou os cinco anos seguintes construindo os sete livros, um para cada ano da escola.
Rowling diz que ela começou a escrever o primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal, em Portugal, onde ela era professora de inglês e casada com o jornalista Jorge Arantes. O casamento durou apenas um ano, mas produziu a bebê Jessica. Ao deixar Portugal, ela chegou a Edimburgo em 1993 para ficar com sua irmã mais nova, Di, uma advogada, com dinheiro suficiente apenas para dar entrada em um flat e algum equipamento de bebê. “Eu estava deprimida e irritada. Irritada por ter destruído minha vida e deixado minha filha mal”. Ela foi visitar um amigo de sua irmã que tinha um filho bebê. “Seu quarto era cheio de brinquedos. Os de Jessica cabiam em um caixa de sapatos. Eu fui para casa e chorei até não poder mais”.
As lágrimas não duraram. A valentia de Harry tocou as crianças porque ele é cheio de ansiedade, mas se dá bem com sorte e coragem. Rowling concorda que ela se parecia com ele. “Não é pura sorte”, ela explica. “Ele tem vontade de ultrapassar aquilo, e eu nunca perdi isso. Quando você está realmente agitado, você não senta e chora, você tenta e sai disso”. Entretanto, histórias de uma mãe solteira empobrecida vivendo em uma quitinete infestada de ratos e escrevendo seu caminho para a riqueza em uma cafeteria de Edimburgo são invenções jornalísticas. “Eu sou uma mãe solteira, eu escrevia, e ainda escrevo, em cafés e eu estava falida”, diz Rowling, que recentemente doou £500.000 para o Conselho Nacional para Famílias de Pais Solteiros e se tornou a primeira embaixadora da caridade. “Aquelas histórias do começo negligenciaram o fato de eu vir da classe média, sou graduada em Francês e Literatura Clássica e que trabalhar como professora substituta era o meu plano para sair da pobreza”. E a quitinete? Era um apartamento de dois quartos infestado de ratos. No começo ninguém queria publicar Harry Potter. “O fato de ser uma escola interna era muito não-PC até onde os editores sabiam”, Joanne explica. Disseram a ela que a história, como as suas construções sentenciais, eram muito complexas e muito longas. “Isso me enervava porque eu sabia que esse seria o menor livro da série!” Recusando-se a se comprometer, ela finalmente achou uma editora, Bloomsbury, e, armada com £8.000 do Conselho de Artes Escocês, seguiu para o livro dois, Harry Potter e a Câmara Secreta.
Em 1997 ela recebeu seu primeiro cheque pelo royalty de Pedra Filosofal. Até então Rowling era uma pessoa felizmente obscura. No livro três o mundo, carregado pelo boca a boca e por um marketing austero, enlouqueceu por Harry, colocando uma fileira de zeros no balanço bancário de Rowling e virando sua vida de ponta-cabeça. Dia e noite ela tinha jornalistas batendo sem resposta em sua porta. O sucesso, eles diziam, transformou J.K. Rowling em uma reclusa paranóica. Como sempre, a verdade é simples. Joanne sai sim de casa, mas escrever quatro livros inteiros consumiu muito tempo, especialmente por conta de uma falha em massa no lote de Cálice de Fogo que demorou três meses para ser consertado, atrasando a entrega do manuscrito. “Eu não sou o sonho de nenhum editor!”, ela ri.
Traduzido por: Patrícia Abreu em 26/07/2006.
Revisado por: Vítor Werle em 02/03/2008.
Postado por: Fernando Nery Filho em 04/05/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.