Feldman, Roxanne. “A Verdade sobre Harry”. School Library Journal, setembro de 1999.
ESQUEÇA AS HISTÓRIAS PUBLICADAS. A AUTORA DE HARRY POTTER NÃO ERA UMA MÃE SOLTEIRA ESFORÇADA QUE DECIDIU ESCREVER E – BINGO – CRIOU UM CLÁSSICO INSTANTÂNEO.
CHEGUEM PARA LÁ Sr. CLANCY, Sr. KING E Sra. HIGGINS CLARK. DÊEM ESPAÇO PARA J.K. Rowling. Em três breves anos, a escritora britânica de 33 anos se transformou da romancista azarada que-ainda-será-publicada em um dos autores mais quentes da Terra. Seu primeiro romance, Harry Potter e a Pedra Filosofal (Scholastic, 1998), a história de um órfão que foi enviado para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, voou para as listas de mais vendidos e, para ser bem medido, teve muito sucesso com os críticos, ganhando o Britain’s Smartie Prize, e sendo nomeado o livro infantil do ano no Reino Unido. Sorte de principiante?
Nem em um milhão de anos.
As duas continuações da série de Harry – Harry Potter e a Câmara Secreta e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (ambos publicados este ano pela Scholastic) – estão ainda mais interessantes do que o original. O trio vendeu mais de dois milhões de cópias em 115 paises. E nem todas essas cópias foram para crianças. No momento, Harry ocupa as três primeiras posições na lista de mais vendidos para adulto do Amazon.com. E a cortina final do bruxo-em-treinamento não pode ser vista ainda: Rowling já está trabalhando no quarto Harry e planeja escrever uma saga de sete livros. (Ela também planeja cruzar os EUA em uma turnê literária, começando mês que vem.)
Joanne Rowling é uma recém chegada a ambas, fama e fortuna. Depois de se graduar na Universidade Exeter (onde estudou francês), Rowling conseguiu um emprego como secretária. (A melhor coisa sobre o trabalho, ela confessou uma vez, é que podia “digitar histórias no computador quando ninguém esta olhando”.) Sete anos atrás, ela se mudou para Portugal e ensinada inglês. E então, claro, veio o Harry. Atualmente, Rowling e sua filha de cinco anos, Jessica, vivem em Edimburgo, na Escócia. Essa entrevista por telefone aconteceu no meio de junho.
– Quais eram suas expectativas para o Harry, inicialmente?
– Eu realmente não tinha idéia do tipo de recepção que ele teria. Se ele seria publicado, porque eu nunca tinha tentado publicar nada antes. Eu sabia como seria difícil ter um livro publicado. Eu era uma autora totalmente desconhecida. Eu certamente não esperava o que aconteceu. Foi um choque.
– Há algum conceito errado sobre você?
– Quando eu leio matérias incorretas de que eu decidi me tirar da pobreza escrevendo, eu fico indignada. Quando eu tive a idéia para o Harry e quando comecei a escrever o [primeiro] livro, eu estava trabalhando em tempo integral, assim como era dona da minha vida, e não era uma mãe solteira. Eu terminei os livros nessas condições. Mas assim obviamente soa melhor. Soa como um conto de panos para os ricos.
– Você é constantemente retratada como uma sensação surgida da noite para o dia.
– Isso não poderia estar mais longe da verdade. De fato, comecei a escrevê-lo em 1990.
– No que você trabalhava antes disso?
– Histórias curtas. Vários romances começados-e-abandonados antes de eu encontrar meu caminho. Seria completamente irreal dizer que [meu sucesso] veio da noite para o dia ou de lugar de nenhum. Digo até que fico indignada quando me falam isso, porque eu trabalhei muito duro e tive meu tempo de aprender a escrever antes do Harry.
– É verdade que você trabalhava o Harry em um café enquanto sua filha dormia ao seu lado?
– Era mais difícil escrever porque eu era uma mãe solteira nessa época e não tinha dinheiro para cuidar de uma criança. É absolutamente verdadeiro que eu costumava escrever em cafés. Eu tinha basicamente que encontrar um café que permitisse pedir um pouco de café e ficar escrevendo por duas horas enquanto minha filha cochilava. Uma parte substancial do [primeiro] livro foi escrito e re-escrito nessas condições.
– Como surgiu a idéia para o Harry?
– Eu tive a idéia para o Harry em um trem, no verão de 1990… Eu estava sentada no trem. Eu estava olhando pela janela. Até onde eu me lembro, eu estava olhando algumas vacas. Não o assunto mais inspirador. [Embora o cartunista] Gary Larsen poderia discordar, agora que eu pensei nisso. [A idéia] simplesmente veio. Não posso te dizer por que ou o que a alavancou – se é que foi alavancada por alguma coisa. Eu vi Harry incrivelmente claro. A idéia era basicamente uma escola de bruxaria e eu vi o Harry muito, muito nítido.
– Algum dos personagens é autobiográfico?
– Hermione é vagamente baseada em mim. Ela é uma caricatura de mim aos 11 anos, de que não estou particularmente orgulhosa. Ela é um tanto chata de várias formas. Gosto dela como um personagem, mas sei que muita gente não seria.
– Eu conheço meninas que parecem muito com a Hermione – amáveis e enfadonhas ao mesmo tempo.
– Eu conheci muitas meninas que dizem que se reconheceram na Hermione. Eu acho que é uma coisa bem feminina, tentar ser a melhor. Hermione é uma personagem que eu entendo realmente bem. Eu tento conscientemente deixar claro que embaixo da superfície agravante, há alguém bastante insegura, vista a sua constante luta para ser a melhor. Eu acho que leitores meninos podem ter aversão a esse ponto da Hermione. Meninas tendem a se identificar bem mais com ela. É provavelmente uma característica particularmente feminina que meninas jovens escondam suas inseguranças sentimentais, ou qualquer inadaptação, tentando alcançar as melhores notas. Hermione vai perder muito disso. De fato, ela já perdeu um bocado na Câmara Secreta – como eu fiz conforme fiquei mais velha.
– O que você gostava de ler quando estava amadurecendo?
– Eu adorava E. Nesbit. Eu acho que os livros dela eram maravilhosos. Meu livro favorito quando criança se chamava “Little White Horse” da Elizabeth Goudge. Eu gostava de [Noel] Streatfeild, que fez aqueles livros de meninas sobre sapatilhas de ballet e outras coisas. Eu era um pouco velha para Roald Dahl. Eu li “A Fantástica Fábrica de Chocolate” quando tinha uns 11 anos, e realmente gostei dele. Mas muitas de suas coisas mais novas, como “Matilda” e “The Twits”, eu não li.
[n.t.: aparentemente, “Little White Horse” (O pequeno cavalo branco) e “The Twits” (Os Twits) não foram publicados no Brasil.]
– Alguns leitores comparam vocês dois.
– Eu vou ser honesta com você, aceito isso como um enorme elogia, porque ele é muito popular… Entretanto, eu não acho que sejamos similares. Eu acho que isso é superficial, muito superficial – porque pelo que eu sei do Roald Dahl, ele é muito bom em detalhes ardilosos – nós temos algo em comum. Mas em nível mais profundo, somos bem diferentes. Isso não quer dizer que eu sou melhor do que Roald Dahl. Ele é um mestre absoluto no que ele fez. Eu só acho que nós nos propomos a fazer coisas diferentes. Eu acho que os personagens dele mais características de desenhos animados do que os meus. Eu também acho – fora de moda como essa palavra é – que meus livros são mais “morais”.
– Como você era quando criança?
– A ambição da minha vida sem foi ser escritora em tempo integral… Isso foi tudo o que eu quis desde os seis anos. Eu não posso mostrar o quanto eu queria isso. Mas eu não falava sobre isso. Eu realmente nunca falei sobre isso, porque tinha vergonha. E porque meus pais eram o tipo de pais que pensariam “Ah sim, isso é ótimo, querida. Mas onde está o plano de pensão?”
– Fale sobre suas primeiras tentativas como escritora.
– A primeira história que eu escrevi era sobre um coelho. [Eu a escrevi] quando eu tinha seis anos. A história inteira era [sobre o Coelho] pegando sarampo. Eu escrevi histórias sobre coelhos por uns dois anos. Eu definitivamente tinha uma fixação por coelhos… Eu de fato tenho um coelho agora. Talvez isso me ajude a me livrar da fixação.
– Como as crianças responderam aos seus livros?
– Conversar com crianças sobre os livros é a coisa mais agradável que se pode fazer. Eles são ótimos.
– Sobre o que eles ficam mais curiosos?
– Eles ficam muito ansiosos para saber quem eu vou matar. Muito, muito, muito ansiosos. Isso me fascina. Eu acho que entendo o porquê. Eles ficam muito preocupados com o Rony. Eles viram tantos filmes em que o melhor amigo do principal morre [que] eu acho que eles se tornaram incrivelmente espertos e sabem os truques dos contadores de histórias, basicamente. Eles sabem que se o Rony morresse, Harry teria um ódio tão grande, que se tornaria pessoal.
– Você planeja matar o Rony?
– Não posso falar sobre isso.
– Os primeiros dois livros de Harry Potter foram muito leves. A série continuará assim?
– [Os livros] estão ficando mais sombrios, e isso é inevitável. Se você está escrevendo sobre Bem e Mal, há um momento em que você tem que falar sério. Isso é algo sobre o que eu realmente tive que pensar.
– Como assim?
– Bem cedo, eu tive que considerar como descrever um ser mau, como Lord Voldemort [nos livros um e dois]. Eu podia seguir por dois caminhos: eu podia tanto mostrá-lo como um vilão pantomimo… [que significa] muito barulho e trovejadas e ninguém realmente se machuca. Ou [eu poderia] fazer algo um pouco mais sério – que significa que você tem que mostrar algumas mortes. E pior do que isso, você tem que mostrar a morte de personagens com quem os leitores se importam. Eu escolhi a segunda rota.
– E os nomes estranhos que você usa?
– A maioria das palavras me veio à mente prontas e eu tive que procurar de onde elas vieram. E eu só posso especular de onde foi. Eu acho que eu derivei “Muggle” [a palavra que os bruxos usam para descrever humanos sem poderes mágicos] da palavra “mug”, que na Inglaterra significa uma pessoa estúpida ou um cara que é facilmente enganado.
[n.t.: Muggle foi traduzido como trouxa pela Lia Wyler no Brasil.]
– Eu li em algum lugar que você coleciona nomes esquisitos.
– É absolutamente verdade. Nomes sempre me fascinaram. É uma indulgência poder inventar nomes e usar nomes estranhos nos livros do Harry. Será bem difícil para [eu trabalhar na] a próxima coisa que eu escrever. Se for realista, eu terei que desistir desses nomes. Cara!
– Como se pronuncia “Quidditch” [n.t.: quadribol, em inglês], o nome do jogo de bola que você inventou?
– Se fala KWI-ditch [tônico na primeira sílaba].
– De onde veio esse nome?
– Eu conheci uma jornalista britânica de um jornal bem sério há algum tempo. Ela me disse: “Você obviamente tirou a palavra ‘Quidditch’ de ‘quiddity’, que é a palavra que significa a essência de uma coisa”. E eu olhei para ela e pensei, “Oh, eu realmente queria dizer “sim”. Porque isso parece bem mais legal do que a verdade”. Mas a verdade é que eu inventei essa palavra por uma razão totalmente excêntrico. Eu simplesmente queria uma palavra que começasse com Q. Não me pergunte porquê. Simples assim. Eu ainda tenho o caderno com todas as palavras começadas com Q que eu intentei. Na página, você pode ver que eu escrevi Quidditch e circulei cinco vezes. Eu simplesmente gostei do jeito que ela soava.
– Você imaginou que poderia fazer tanto sucesso?
– Quando eu comecei, meu agente me disse, “eu não quero que você saia desse encontro pensando que vai fazer fortuna”. Então eu lhe disse, totalmente verdadeira: “Eu sei que não vou fazer dinheiro com isso. Eu sei que não vou ficar famosa. E está bem”. Tudo o que eu queria era ver o livro publicado. Essa era a verdade. Eu era muito, muito, muito realista… Eu sabia que a maioria dos escritores infantis não é muito conhecida. Eu estava bem com isso. Eu só queria que alguém publicasse o Harry para que eu pudesse ir a uma livraria e vê-lo. [Eu queria] poder, de alguma forma, me sustentar escrevendo, então eu não tive que desistir.
– Você considerou desistir?
– O que me apavorava era pensar que eu não conseguiria justificar para mim mesma continuar escrevendo. Eu achava que seria muito egoísta com a minha filha se eu poderia lhe dar uma vida melhor fazendo outra coisa… Por mais que eu amasse escrever, ela ainda precisaria de sapatos novos. Se escrever não desse para comprar sapatos novos, então pareceria auto-indulgência. Era para isso que eu rezava, para que desse o suficiente para ser financeiramente justificável continuar escrevendo.
– Eu sei de muito leitores felizes por você nunca ter feito esse sacrifício.
– Eu tive muita sorte porque nunca tive que desistir do meu maior sonho. Mas eu estava pronta para fazê-lo se precisasse. Mas agora minha filha e eu temos segurança. Não posso dizer o que isso significa para mim.
– Roxanne Feldman é bibliotecária na Escola Dalton na cidade de Nova York.
Traduzido por: Patrícia M. D. de Abreu em 01/02/2006.
Revisado por: Helena Alves em 21/06/2006.
Postado por: Fernando Nery Filho em 05/05/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.