Vieira, Meredith. “Harry Potter: o capítulo final”. Dateline (NBC), 29 de julho de 2007.
Fonte: MSNBC
Entrevistador: Meredith Vieira
Contexto: Esta transmissão reuniu cenas mostradas nos dois dias anteriores no Today Show juntamente com trechos inéditos.
Crédito da transcrição: Meann, baseado parcialmente na transcrição da MSNBC
Vídeo: http://video.the-leaky-cauldron.org/video/828
Transcrições relacionadas: Today Show Parte Um | Today Show Parte Dois.
[Aparece o clipe de título, clipes de abertura]
Narração (Meredith Vieira): Para J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter, a hora de revelar os segredos e responder as perguntas chegou.
[clipes do programa]
Narração: Estejam avisados, J.K. Rowling tem as respostas e as histórias que você desconhece sobre o bruxo a quem ela deu vida, matou e, novamente, deu vida.
[clipes do programa]
Narração: E vamos saber dos atores que alcançaram o estrelado nesta legendária série.
[clipes do filme A Ordem da Fênix e do programa]
Narração: Você saberá as respostas através desta entrevista exclusiva com J.K. Rowling que trazemos para você; então não diga que não avisamos.
[câmera se aproxima do exterior do Castelo de Edimburgo]
MV: Muito bem, aqui não é exatamente o Beco Diagonal, ou Hogsmeade, ou a Rua dos Alfeneiros, mas este é o mundo de J.K. Rowling. Boa noite e bem vindos ao Dateline, sou Meredith Vieira. Fãs de Harry Potter, esta é sua chance. Agora que o último livro sobre Harry Potter foi lançado, J.K. Rowling pode finalmente compartilhar segredos há muito tempo guardados sobre sua série mágica. Ela vai falar, como nunca antes, sobre seus personagens, suas tramas e os lugares incríveis que ela criou. E vamos discutir o que acontece no último livro, então, se você ainda não terminou de lê-lo, considere isso um aviso enquanto começamos nossa fascinante e desenfreada conversa com J.K. Rowling.
Narração: No histórico Salão Principal do Castelo de Edimburgo, o antigo lar da realeza escocesa, a rainha do mundo das publicações sentou-se comigo e com catorze jovens fãs.
JKR: Alguém aqui já terminou?
[Fãs levantam suas mãos e alguns dizem “sim”]
JKR: Vocês gostaram?
Fãs: Sim.
JKR: Oh, isso é muito bom, então.
MV: Finalmente acabou.
JKR: Eu sei.
MV: Como é a sensação?
JKR: Incrível.
MV: Incrível bom? Incrível mau? Um pouco dos dois?
JKR: No momento é uma ótima sensação, para ser honesta. Sinto que é um ótimo momento.
Narração: Para J.K. Rowling, conhecida pelos amigos e familiares como Jo, Harry Potter e as Relíquias da Morte, o sétimo e último livro na série Harry Potter, significa que, enquanto a escrita possa estar terminada, isso não é exatamente um adeus.
MV: Você acha que teve que dar adeus ao Harry?
JKR: Hm. Sim e não, pois isso soa um pouco fora de moda, mas eu sinto que sei o que ele está fazendo agora, então ele sempre estará presente em minha vida.
Narração: Sempre cuidadosa quanto a manter a trama em sigilo, Jo inicialmente não queria comentar muito na frente dos jovens fãs que ainda não terminaram de ler.
MV: … porque eu sei como você se sente sobre os spoilers e houveram muitos deles pelo caminho.
JKR: Absolutamente. Para as pessoas que leram seis volumes e querem muito saborear um sétimo e chegar até o final sozinhos, eu acho que é bastante justo, e ninguém tem o direito de estragar isso.
Narração: Mas agora, um aviso claro. Quando estivermos prestes a discutir detalhes do Livro 7, colocaremos um Sinal de Alerta de Spoiler como este [aparece o sinal de alerta de spoiler]. Se você ainda não terminou de ler o livro, abaixe o volume e o mantenha assim até que o aviso suma da tela. Pois Jo Rowling, no final das contas, claramente fala dos que vivem, morrem, e as razões para tais decisões.
MV: Você nos deixou um pouco curiosos.
JKR: Um pouquinho, mas eu devo admitir que seria humanamente impossível responder cada pergunta que os fãs têm. Porque estou lidando com um nível de obsessão de alguns de meus fãs que não terão sossego até que eles saibam os nomes do meio dos tata-tataravós de Harry.
[MV e público de crianças riem]
MV (para os Fãs): Bem, vocês ficaram um pouco obcecados.
JKR: Não, eu adoro isso. Dou todo o apoio. Fico feliz por eles se sentirem assim. Mas é um livro, sabe. Talvez haja uma enciclopédia um dia, e isso seria diferente – não seria a mesma coisa. Mas dentro de um romance você tem que resistir ao impulso de contar tudo.
Narração: [câmera se move até mostrar a ilustração do capítulo Uma Falha No Plano] Uma coisa que alguns fãs ansiosos, incluindo a mim, não puderam resistir, de qualquer forma, foi começar pelo final do livro para descobrir a resposta para a pergunta que todos queriam saber: O jovem bruxo, Harry Potter, vive ou morre?
JKR: Alguém pulou para a última página antes de ler? [Algumas crianças levantam suas mãos, Jo ofega] Você pulou?
MV: Eu pulei. Eu sei…
JKR: Você não fez isso!
MV: Sim, eu fiz! Eu não pude… não consegui esperar.
JKR: Eu deveria ter publicado o último capítulo separadamente. Isso te forçaria a ler até o…
MV: Mas nós lemos o início! A gente voltou depois. Mas foi você quem criou, sabe, é culpa sua…
JKR: Dezessete anos de trabalho… você meio que espera que as pessoas cheguem no final do modo que você queria que elas chegassem. Desculpe se pareço controladora. [risada]
MV: Acho que é seu direito, depois de dezessete anos. Você criou todo um… digo, não só um mundo, mas uma linguagem. Por exemplo: “Quadribol”, “trouxa”, “polissuco”…
JKR: Adoro fazer isso. Eu adoro esses tipos de palavra. E escrever algo que eu não tenha mais que criar palavras vai ser bem, bem triste de certa forma, pois… sim, é parte da diversão para mim.
MV: Você tem uma palavra preferida dentre todas as que criou?
JKR: Eu gosto muito de “Quadribol”
[clipe da cena do Quadribol do filme Pedra Filosofal e definição de Quadribol]
MV (para os Fãs): Vocês também gostam?
Fãs: Sim.
JKR: “Quadribol” é provavelmente minha favorita ainda.
MV: E como você a inventou?
JKR: Sabe, na verdade eu não sei. Eu acho que ainda tenho o caderno onde fiquei rabiscando. Por alguma razão, eu definitivamente quis que começasse com “Q”. Então escrevi muitas palavras com Q. Eu acho que foi Quadribol provavelmente porque… combina com “campo”(2). Sabe, parecia legal poder dizer “campo de Quadribol”.
Narração: Tudo bem, aqui vai o primeiro alerta de spoiler. [Sinal de Alerta de Spoiler] Jo falou sobre os personagens principais – [clipe do filme Ordem da Fênix] o jovem bruxo Harry Potter e seus dois melhores amigos.
MV: Você já quis ou já considerou seriamente matar Harry, Hermione ou Rony?
JKR: Sim, definitivamente.
MV: Sério, mesmo?
JKR: Sim, nos estágios da construção da trama, com certeza era uma possibilidade, e estou orgulhosa, estou muito orgulhosa pelo fato de que à medida que chegamos ao último livro, vários leitores acreditaram que a morte de Harry era uma possibilidade real. Orgulhosa não porque isso significa que deixei as pessoas ansiosas, orgulhosa porque isso significa que os livros estão carregados com uma sensação genuína de mortalidade. Tinha que haver o sentimento de que o herói morreria. E essa era a minha intenção, que você sentisse mesmo que qualquer um estava vulnerável. E porque é assim… que seria, sabe? Se você pega um personagem assim que está determinado a matar – estou falando de Voldemort, claro, não de Harry – então é assim que seria. Ninguém… ninguém está seguro. Poderia acontecer com qualquer um.
Narração: [clipe de Arthur Weasley em Ordem da Fênix] Um personagem, Arthur Weasley, o pai do amigo de Harry, Rony, visto aqui em Harry Potter e a Ordem da Fênix, teve uma nova oportunidade de viver.
JKR: Quando eu fiz os rascunhos dos livros, o Sr. Weasley deveria morrer no Livro 5.
MV: O que aconteceu então? Por que ele se safou?
JKR: Bem, eu troquei por outra pessoa, e não quero dizer quem é essa pessoa por causa das pessoas que ainda não. Mas eu tomei a decisão enquanto fui escrevendo Fênix de que pouparia o Sr. Weasley e mataria outra pessoa. E se você terminou o livro… espero que provavelmente saiba que a outra pessoa é um pai. Porque eu queria que houvesse um eco da perda dos pais de Harry. E você provavelmente sabe de quem estou falando se você terminou o livro. Mas tem dois personagens que morrem no Sétimo, em vez dele. Então o Sr. Weasley é atacado, como vocês sabem, no Quinto. Mas ele teria morrido se eu tivesse seguido o plano original. Mas ele sobreviveu. Eu tive que mantê-lo vivo de certa forma, pois não suportaria matá-lo.
MV: Mas houve dois personagens que não tinham que morrer e acabaram morrendo.
JKR: Sim, sim. Eu os troquei pelo Sr. Weasley. Mas eles não morreriam até o Sétimo.
MV: Então, como uma escritora, houve certos personagens que você não conseguiria abrir mão?
JKR: Se tem um personagem que não conseguiria abrir mão, esse é o Sr. Weasley. E acho que parte do motivo para isso é que houve poucos bons pais nos livros. De fato, pode-se considerar que Arthur Weasley foi o único bom pai em toda a série.
Narração: [clipe de Ordem da Fênix] Jo foi relutante em perder o Sr. Weasley, pois Harry já havia perdido muitas figuras paternas: seu padrinho Sirius Black e o diretor da escola de Hogwarts, Dumbledore. Eles foram vítimas na luta contra o maligno arqui-vilão Voldemort, que matou os pais de Harry quando este ainda era um bebê.
MV: Mas você se preocupou de alguma forma, Jo, quando você estava escrevendo os livros, por ter tantos fãs, crianças escrevendo e dizendo: “Por favor, não mate o Harry”, que você poderia ter…
JKR: Bem…
MV: … devastado muitas crianças se matasse Harry, Hermione ou Rony?
JKR: Claro que isso me afeta. Lembro-me que antes de Fênix ser lançado encontrei um menino que me disse: “Por favor, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca mate o Hagrid, o Dumbledore ou o Sirius”. Oh, meu Deus. E ele era um garoto bem legal que teve alguns problemas em seu passado. E ele definitivamente estava dizendo: “Não mate nenhuma dessas pessoas que foram pais para Harry”. E eu sabia que eu já tinha feito isso. Eu já tinha matado Sirius e não pude fingir que olhando para ele eu não me senti muito mal.
MV: Mas deve ser bem doloroso, como você disse, quando um rapazinho chega a você e implora: “Por favor, não”.
JKR: Bem, foi, sim. Nesse caso, isso se destaca em minha memória, mas houve muitos outros. As pessoas chegavam para mim e realmente imploravam por seus personagens favoritos.
Narração: E agora, um grande alerta de spoiler. [Sinal de Alerta de Spoiler] No Livro 7, Jo matou os amigos íntimos de Harry Potter: Lupin e Tonks [clipe de Ordem da Fênix] e, ao fazer isso, ela deixou o bebê recém-nascido deles órfão, assim como Harry.
JKR: Eu queria que houvesse um eco do que aconteceu com Harry só para mostrar a maldade ilimitada presente no que Voldemort estava fazendo. O fato de que você deixou órfãos e deixou crianças que, então, devem encontrar seu caminho no mundo sozinhas e desprotegidas. E foi por isso que matei os dois que, você sabe, nesse livro. O que eu odiei; odiei fazer isso porque eu os amo como personagens.
Narração: A seguir, [clipe que mostra as fotos de família de Jo, autógrafos de livros] amor, família, mágoa. Como a vida de Jo Rowling ecoa através de seus livros. [clipe de vídeo do programa] Quando Harry Potter: O Último Capítulo continuar.
Narração: [clipe do exterior do Castelo de Edimburgo] Em outro aposento histórico do Castelo de Edimburgo, [cenas de MV e JKR com as crianças dentro do Castelo] Jo Rowling sentou-se para discutir sua história pessoal e como escrever os últimos capítulos da saga Potter concluiu um incrível capítulo da vida dela.
MV: Terminar essa série para você é um alívio, ou há um sentimento de luto? Ou talvez uma combinação de ambos?
JKR: Definitivamente ambos.
MV: Sério?
JKR: Uma grande carga de emoções se encerrou em uma só. Imediatamente depois de terminar de escrever tornei-me uma pessoa de difícil convivência. Os dois primeiros dias foram terríveis. Terríveis.
MV: Em que sentido? Diga-me o que você fez.
JKR: Eu só fiquei muito deprimida. O que é provavelmente difícil para as pessoas imaginarem é o quão ligado os 17 anos de trabalho estão com o que estava acontecendo em minha vida na época.
Narração: [clipe de várias aparições de JKR] Sua história de vida já bastante conhecida parece tão mágica quanto os livros que ela criou. Mas o que não é tão conhecido assim é que a magia foi temperada com tristeza e perda, o que teve um papel fundamental na criação dos livros de Harry Potter. Como uma prenuncia de eventos de sua própria vida, seus pais se encontraram e ficaram noivos de trem viajando pelo campo inglês.
E Joanne Rowling nasceu em um vilarejo no oeste da Inglaterra há 42 anos, completos esta semana.
[clipes com fotos de família de Jo] Seu pai, Peter, era o supervisor de uma fábrica; sua mãe, Ann, técnica de um laboratório.
Ainda criança, “Jo” divertia-se com sua irmãzinha “Di” com tentativas precoces de criar histórias emocionantes…
JKR: Eu escrevi um livrinho sobre um coelho chamado Coelho e Suas Aventuras. E eu mesma desenhei as ilustrações, também, e mostrei para minha mãe que, como as mães fazem, leu com entusiasmo e disse que era maravilhoso. E o que é interessante para mim é que eu tinha seis anos de idade. E eu pensei: “Bem, será que vai ser publicado?”. Eu sabia exatamente o que queria fazer.
Narração: [clipe de trilhos e um trem] Avançando 20 anos, até 1990, Jo Rowling criou um tipo de história muito diferente. Ela estivera visitando um namorado em Manchester, Inglaterra, e estava voltando para Londres em um trem quando a inspiração veio.
JKR: A pura verdade. Sim. Eu estava em um trem indo de Manchester para Londres. E a idéia surgiu. Apenas surgiu.
MV: Alguma coisa desse tipo já tinha acontecido com você antes?
JKR: Sim. Sinceramente. Digo, outras idéias simplesmente surgiram em minha mente porque eu acho que se você é um escritor e escrever é o que você mais faz, as idéias vêm, sim, para você. Mas nada nunca viera a mim tão… com tanta… eu tive a idéia e pensei: “Deus, eu adoraria escrever isso”. Quando saí do trem fui direto para casa e comecei a escrever.
Narração: [clipe mostra o Big Ben e as fotos da mãe de Jo] Morando em Londres, então, ela manteve sua história sobre o garoto bruxo para si mesma. Sua mãe estava gravemente doente e morreu seis meses depois que sua filha começou a escrever a história sobre Potter.
MV: Sua mãe soube que você estava escrevendo o livro?
Jo: Não. É um dos meus maiores arrependimentos. Ela nunca soube. Nunca contei a ela.
MV: Ela esteve doente por um bom tempo. Ela lutou contra a esclerose múltipla por dez anos.
JKR: Sim, dez anos.
MV: Como a partida dela, a morte dela afetou o livro?
JKR: Definitivamente, a morte de mamãe teve uma profunda influência nos livros, pois eu já estava escrevendo sobre Harry Potter há seis meses quando ela morreu. E no rascunho inicial, os pais de Harry foram mortos sem alarde e de um jeito quase grosseiro. Eu não pensei nisso por muito tempo. Seis meses depois e minha mãe morre, eu simplesmente não podia matar uma mãe fictícia tão cruelmente. Não… não foi cruel, mas… não foi o que se tornou… e acho que a partir daquele momento, a morte se tornou algo central, se não o tema central, para os sete livros.
MV: Você quer dizer morte em termos de perda, e não simplesmente a morte dos personagens?
JKR: Sim… absolutamente. O assunto que mostra como reagimos à morte, o quanto a tememos. Claro, eu acho que é uma parte chave dos livros, pois Voldemort é o tipo de pessoa que faria de tudo para não morrer. Ele tem pavor da morte. E de certa forma, todos os meus personagens são definidos por suas atitudes em relação à morte e a possibilidade de morrer.
Narração: [clipe de um trem e trilhos] A perda da mãe afetou Jo Rowling de outra forma. Era hora de se mudar… de dizer adeus às Ilhas Britânicas.
MV: Você decidiu ir embora. Largar o namorado antigo, ir para Portugal. Durante aquele tempo, se casou, teve uma filha. Jessica.
JKR: Eu tenho uma filha. Jessica.
MV: Se divorciou. E então, voltou.
JKR: Foi.
MV: Para um mundo um tanto diferente. Você recebia ajuda monetária do governo…
JKR: Muito diferente.
MV: … naquele período?
JKR: Aquele foi obviamente um período muitíssimo difícil porque sempre estive trabalhando, até aquele momento. Minha intenção nunca foi morar em Edimburgo… foi claramente porque minha irmã morava aqui e eu vim para passar o Natal com ela.
Narração: [clipe com cenas do Café e do apartamento de Jo] Ela escreveu sobre Harry em um café em Edimburgo com sua bebê, Jessica, dormindo ao seu lado. Ela morava em um pequeno apartamento. Então, depois que um editor viu os três primeiros capítulos do livro e pediu para ver o resto, ela se apressou para terminá-lo.
JKR: Estava determinada a tentar. Estava determinada a tentar porque, francamente, minha vida estava um caos naquele momento, o que mais poderia dar errado? Todo mundo me recusar. Grande coisa.
Narração: [clipe mostrando a capa de Pedra Filosofal, fachada do prédio da Scholastic] Mas os tempos difíceis estavam prestes a acabar. Harry Potter e a Pedra Filosofal foi finalmente comprado pela pequena editora britânica Bloomsbury por 4 mil dólares. Cerca de um ano mais tarde, em 1997, seu agente ligou para dizer que a editora americana Scholastic estava participando de um leilão para poder publicar Harry Potter.
JKR: Ele me ligou e disse: “Há um leilão acontecendo em Nova York”. E, novamente, eu não tinha a mínima idéia do que ele estava falando. Eu pensei: “Por que ele está me contando isso?” Ele teve que ser bem específico. “Um leilão pelo seu livro. Por que razão eu iria te contar, sobre uma venda de móveis?”.
MV: Nossa, você consegue ser tão lenta, Jo. [risadas, bate uma mão contra a testa]
JKR: Sabe, eu sempre… para ser honesta, a vida me surrou tanto nos dois anos anteriores que, quando se começa a receber notícias boas, você fica desconfiado.
MV: Não era uma boa notícia. Era uma excelente notícia. Eles nunca ofereceram aquela quantia de dinheiro por um livro infantil; mais de 100 mil dólares.
JKR: Inacreditável. Foi inacreditável… eu comecei a pensar: “Podemos comprar uma casa”. Agora estava tudo garantido para mim.
Narração: [clipe da sessão de autógrafos dos livros, foto da capa da revista Forbes, fotos dos livros de Harry Potter] Desde então, seu sucesso financeiro se tornou legendário. Forbes estimou sua fortuna em mais de um bilhão de dólares. Mas, publicar sete longos livros num espaço de tempo tão curto teve seu preço.
JKR: Eu disse que poderia escrever um livro por ano. Mas os romances estavam ficando maiores e então veio Cálice; quase morri para entregar no prazo em que eles queriam publicá-lo. E foi culpa minha.
Narração: [fotos de Jo e Neil] Mas agora sua vida está muito menos estressante e muito menos solitária. Depois de nove anos como mãe solteira, em 2001, um novo homem surgiu em sua vida: seu marido, Neil Murray.
JKR: O que eu não esperava nem em um milhão de anos. Eu nunca sonhei que me casaria novamente, nunca mesmo. Eu estava passando por um momento em que pensei que deveria, e eu estava verdadeiramente, muito grata. Sabe, eu me sentia solitária, às vezes, e nunca encontrara alguém com quem gostaria de estar junto por um longo prazo… então, eu apenas pensei: “Bem, essa é minha vida”. Não estou destinada a ter isso. E então, claro, no momento em que aceitei aquilo, eu conheci o Neil.
Narração: [fotos de Jo e Neil, cenas de um trem] O casal tem um filho e uma filha juntos. Oh, a propósito: Quando Jo e Neil ficaram noivos, outro trem apareceu na história. Não o Expresso de Hogwarts.
JKR: Meu marido me pediu em casamento em um trem.
MV: Você provavelmente pensou: “Oh, isso é tão romântico”.
JKR: Bem, pensei mesmo. Foi no Expresso do Oriente. Eu sempre quis andar no Expresso do Oriente.
Narração: [clipes de Jo em eventos de arrecadação de fundos] Agora ela está dedicando seu tempo para a família e para as suas causas prediletas, como ajudar mães solteiras e encontrar a cura para a esclerose múltipla, a doença que tirou a vida de sua mãe. E agora, ela tem um momento para refletir.
JKR: O terminar, obviamente, me fez olhar muito para trás. É quase inacreditável para mim, às vezes, o que aconteceu. E, claro, há certos momentos em que acho que sonhei tudo.
Narração: [clipe de Daniel Radcliffe e dos filmes] A seguir, quando Harry encontrou Hollywood e fez três fãs de Potter se tornarem estrelas.
Narração: [clipe dos eventos de lançamento do Livro 7] O tão aguardado livro da autora J.K. Rowling, Harry Potter e as Relíquias da Morte, superou um recorde de vendas de 15 milhões de cópias ao redor do mundo em apenas 24 horas quando finalmente foi posto à venda às 00:01 hr do dia 21 de julho. Duas semanas antes, esse entusiasmo foi quase alcançado quando Harry Potter e a Ordem da Fênix, o quinto e novíssimo filme na franquia, estreou. [clipe de Ordem da Fênix]
Enquanto os filmes de Harry Potter estavam sendo uma das franquias mais bem sucedidas e mais adoradas de Hollywood, inicialmente Jo Rowling estava relutante por ver suas histórias retratadas na telona.
MV: Quando a proposta foi feita a você pela primeira vez você disse não.
JKR: Sim.
MV: Você não estava interessada.
JKR: Hum-hum.
MV: O que a fez mudar de opinião?
JKR: Bem, de longe a maior razão era que eu estava pedindo um acordo que dissesse que eles seguiriam minha história mesmo que o resto dos livros não estivesse escrito. O que eu não queria era vender os direitos para os personagens e permitir que eles fizessem seqüências que eu não tivesse escrito. Esse era meu pior pesadelo. Então, eu estava muito feliz por nunca ter filmes de Harry Potter se eu não pudesse ter essa garantia.
MV: E você está contente com os filmes?
JKR: Estou muito contente com eles. Eu acho que manter todo o elenco britânico, sabendo-se que toda a filmagem acontece na Grã-Bretanha e todas as crianças são britânicas foi uma grande e verdadeira realização. E digo isso sem me desculpar, pois sei que ainda encontrarei fãs americanos que não se sentem da mesma forma.
MV: Mas você assiste e diz: “Esse é o mundo que eu antevi”?
JKR: Visivelmente é tão próximo que chega a ser praticamente indistinguível, principalmente Hogwarts. Eles me pediram informações sobre como as coisas deviam parecer. Então quando estávamos visitando os sets na primeira vez foi completamente assustador porque era como se eu estivesse andando dentro de minha própria cabeça, principalmente no Salão Principal; o Beco Diagonal (era) muito parecido.
Narração: Claro, a paixão Potter chegou a seu ápice neste verão com a estréia do filme e o lançamento do livro sete tão próximos um do outro.
Emma Watson: É um tipo de mania Harry Potter. Nunca vi algo tão grandioso.
Daniel Radcliffe: Você sente isso nas estréias. Porque você vê todos os fãs lá. E você pensa: “Esses caras realmente amam isso”. Mas, igualmente, você pensa que isso vai além dessas pessoas. Porque não é uma coisa superficial. Harry é um personagem que conseguiu entrar nas consciências coletivas de milhões de pessoas de todas as idades ao redor do mundo.
Narração: Para Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, que interpretam Harry, Hermione e Rony, a paixão deles por Harry Potter existia muito antes de se tornarem parte do elenco.
Daniel Radcliffe: Eu tinha lido os dois primeiros e, depois que consegui o papel, eu obviamente pensei: “bem, tenho que ler outros, claro”. E li e simplesmente amei. E, sabe, sou um tipo de caso aparte, sério, de alguém que não gostava de ler em absoluto e daí ler os livros de Harry Potter e, a partir daí, devorar o máximo de literatura que eu possivelmente agüento; o que é, eu acho, o efeito que eles tiveram em todo mundo.
Emma Watson: Eu era uma grande fã dos livros mesmo antes de me apresentar nas audições para ao papel. Eu acho que estava lendo o terceiro antes de ter feito qualquer coisa. E meu pai costumava lê-los para mim e para meu irmão todas as noites antes de dormirmos.
[clipe de Ordem da Fênix]
Narração: Enquanto algumas franquias parecem perder a graça depois do primeiro filme, cada filme de Harry Potter tem sido energizado pelas voltas e reviravoltas e a evolução dos personagens em cada livro.
Daniel Radcliffe: É um fenômeno. Eu acho que parcialmente isso tem a ver com o personagem de Harry… é simplesmente a narrativa mais maravilhosa, do tipo que te arrasta desde a primeira página, sabe. É o tipo de coisa em que você diz: “Tudo bem. Bom, eu… eu… eu vou ler só mais um capítulo e aí eu paro”. E você chega à última página do capítulo e pensa: “eu vou… tudo bem, vou ler só o próximo”. Então, é totalmente compulsivo…
MV: Daniel, Emma e Rupert, que interpretam os três personagens principais, como você se sente em relação a eles? Digo, eles estão incorporando seus personagens.
JKR: É, é uma relação estranha… sinto-me como uma madrinha ou alguma coisa assim. Eu sinto, sabe, todos eles têm pais perfeitamente bons. Então não é verdade e eu não poderia dizer que me sinto muito parental. Mas eles se sentem ligados a mim de uma forma bizarra pelo que eles fizeram. Eles cresceram com os personagens que criei e eles incorporaram esses personagens.
Narração: E para Daniel, Emma e Rupert, o sentimento é mútuo.
Daniel Radcliffe: Jo sempre foi muito amável comigo e com todos nós. Ela nos apóia muito. E se você pedir um conselho, ela o dará. Mas ela nunca, sabe, o forçaria a aceitar porque ela tem um grande entendimento de que os filmes são uma coisa e os livros são outra.
Rupert Grint: Ela é muito legal. É tão fácil conversar com ela… fiquei meio surpreso por ela ser humilde e tão normal, é muito legal.
Narração: Será que esta relação significou que os atores conseguiram alguma informação sobre a trama? Cuidado… aqui vai outro spoiler.
[Sinal de Alerta de Spoiler]
MV: Eles sabem o que acontece? Eles sabiam antes que este livro saísse?
JKR: Eles sabiam certas coisas. Digo, nenhum deles sabia o final. Mas eu contei para os três algumas coisas sobre seus personagens.
MV: Algum deles perguntou: “Você vai me matar”?
JKR: Sim, Dan perguntou, sim.
MV: Daniel perguntou? E você contou para ele?
JKR: Eu o convidei para jantar… e num certo momento durante o jantar ele se inclinou para mim e disse: “Olha, eu tenho… eu tenho que perguntar… eu morro?” E eu pensei rápido e então sussurrei para que ninguém mais ouvisse, e disse: “você tem uma cena de morte”. Mas o Dan é muito esperto. E estou bem certa de que ele foi embora àquela noite pensando: “É, eu tenho uma cena de morte, mas o que isso significa?”
JKR: Eu não disse que ele morreria. Então, espero que ele esteja feliz.
MV: É, é a carreira dele, afinal. [risos]
Narração: [clipe do plano de arte para o parque temático] E em breve a franquia Harry Potter vai voltar à vida de uma forma totalmente diferente num parque temático na Flórida que pertence à nossa companhia-mãe, NBC Universal.
MV: Eu não acho que você vá precisar esperar na fila, será?
JKR: Tomara que não. [risos]
MV: Seria uma completa injustiça.
JKR: Não, vai ser incrível porque será um lugar no qual poderei levar meus três filhos. Porque eles estão planejando um brinquedo para crianças mais jovens. Então eu mal posso esperar. Vai ser ótimo.
Narração: [clipe de aparições de JKR e dos filmes de HP] E Jo diz que mesmo que ela esteja triste que sua parte na jornada Harry Potter acabou, os filmes e o parque temático significam que o mundo d’O Menino Que Sobreviveu vai continuar a viver de uma maneira muito tangível.
JKR: Para mim, é maravilhoso poder esperar por essas coisas. Ainda tem mais dois filmes pela frente e o parque temático… e isso significa que aquele mundo não acabou para mim. Então, mesmo que os livros estejam terminados, eu sinto que ainda tenho uma conexão com o mundo de Harry. E isso provavelmente facilitou o final para mim.
MV: Então você não quer mesmo deixar Harry?
JKR: Bem, eu quero e não quero. É simplesmente ótimo pensar que se eu precisar de uma dose de Harry Potter eu posso visitar o set e encher o saco deles. [risos]
Narração: A seguir, mais revelações sobre o último livro, incluindo esta: [clipe do programa sobre o Hagrid] Bem, será? Quando Harry Potter: O Capítulo Final continuar.
MV: E agora, segredos revelados por J.K. Rowling. O tipo de coisa que você sempre quis perguntar por anos, como por que ela matou certos personagens, por que certos personagens sobreviveram, e Harry? Será que ele foi inspirado em algum garoto da vida real? Vamos retornar agora para o Castelo de Edimburgo e para J.K. Rowling.
E voltamos para o interior do Castelo, estamos prestes a entrar no recôndito dos segredos de Potter. Nosso grupo de 14 jovens fãs de Potter fazem suas perguntas.
MV: … o que você quer perguntar?
Criança: Para você, qual é a parte mais satisfatória de todo o fenômeno Harry Potter?
JKR: Esta. Conversar com pessoas como você sobre os livros… digo, eu adorei escrever. Mas, fora isso, me comove que tantas pessoas gostaram tanto deles e o do que é melhor que isso? Nada é melhor do que isso.
[clipe da Leitura Ao Luar]
Narração: Então, preparem-se fãs de Potter, pois Jo Rowling pode finalmente por tudo em pratos limpos. Agora que o último livro de Harry Potter foi lançado, ela não mais precisa guardar segredos.
JKR: Este livro esteve sob os lençóis por tanto tempo; muito mais tempo do que as pessoas imaginam. Então…
MV: Então é um alívio para você poder…
JKR: Sim, oh, é um imenso alívio. É onde a grande pressão acaba; é maravilhoso.
Narração: E deixamos para as crianças perguntarem tudo o que elas queriam saber.
MV: Na verdade, Lucas ainda está lendo o livro. Você tem alguma pergunta?
Lucas: Sim. Harry Potter é baseado em alguém que você conhece? E por que você escolheu o nome Harry Potter?
JKR: Ele não é baseado em ninguém que eu conheça. Então não acredite em ninguém que apareça do nada afirmando que é Harry Potter. Não, Harry é inteiramente imaginário… e o nome… eu estava procurando por um nome que fosse bem mundano de uma forma, mas um nome que eu gostasse. Então ele virou Harry. E aí, demorei um pouco para encontrar Potter. E Potter era o sobrenome de uma família que morava perto da minha casa quando eu era criança. E o filho dessa família afirmou que era Harry Potter, mas ele não é. Sim, eu só peguei o nome. [suspiro] Mais de uma pessoa já afirmou ser Harry. É interessante que ninguém afirma ser Hermione. [risos] Embora, talvez, isso seja porque eu sou bem franca e digo que Hermione foi, pelo menos parcialmente, baseada em mim quando eu era mais jovem.
MV: … pelo menos parte dela é você quando – (CONVERSA) – garotinha. De que forma?
JKR: Irritante.
MV: Irritante?
JKR: Sim. [risos] [clipe de Hermione de Ordem da Fênix] Mas eu fui me soltando um pouco à medida que cresci, e o mesmo acontece com ela através dos livros, sob a influência saudável de Harry e Rony. Hermione é, um pouco, um exagero. Mas eu era profundamente insegura, assim como Hermione é, eu acho que está claro, se você ler o livro, ela encobre um monte de inseguranças ao tentar alcançar boas notas etc. O lugar que ela se sente mais segura é em uma sala de aula com sua mão erguida no ar.
MV: Tenho certeza de que essas crianças estão olhando para você e provavelmente pensando que você é a pessoa mais legal do mundo por ter sido insegura…
JKR: Bem, todo mundo é inseguro de alguma forma, não é? Poucas pessoas não são.
MV: Por que você era… o que a fez insegura?
JKR: Bem, devo admitir que pelo mesmo motivo que Hermione. Eu me achava bem simples e eu sentia, sabe, que eu definitivamente não era a perfeita criança popular, e a maioria das pessoas não são, afinal. Então, eu acho que é por isso que as pessoas se identificam tanto com Harry, Rony e Hermione porque os três são, de certas forma, deslocados.
Narração: Tudo bem, se lembra dos alertas de spoilers? Vamos ter um dos grandes agora.
[Sinal de Alerta de Spoiler]
Narração: Tem a ver com o Hagrid. O adorável guarda-caça de proporções gigantes.
MV: Muitas pessoas estavam preocupadas pensando que Hagrid morreria.
JKR: É.
MV: Isso já foi um plano?
JKR: Sim… qualquer um estava vulnerável. Qualquer um. Mas, na verdade, desde o comecinho eu queria que Hagrid fosse quem carregaria o Harry para fora da floresta. Isso foi planejado há tanto tempo. E eu queria que Hagrid acreditasse que Harry estava morto, então eu tive aquela imagem na minha cabeça, de que Hagrid sobreviveria para fazer aquilo, para carregar Harry.
MV (para os Fãs): Alguém de vocês se preocupou pensando que Hagrid morreria?
JKR: Eu acho que muitas pessoas se preocuparam com isso… (CONVERSA)
MV: É. Eu acho que era uma delas.
JKR: Sério? Na verdade, a minha irmã. A última coisa que ela me disse antes de abrir o livro foi: “Se Hagrid morrer, nunca vou perdoá-la”. Mas não foi por causa dela que o mantive vivo. Mas vou fingir que sim. Quem sabe eu ganhe um presente de Natal melhor? [risos]
Narração: [clipe de Dumbledore de Ordem da Fênix, foto de Relíquias da Morte] No Livro 7 descobrimos que um personagem querido, Dumbledore, o sábio e benevolente diretor de Hogwarts, teve seus próprios segredos sombrios, provando que ser mágico não o faz menos humano.
JKR: Dumbledore sabia o que sua fraqueza era e ele descobriu isso com 17 anos. Ele descobriu que sua fraqueza e sua tentação era o poder. Ele reconheceu que não era digno de confiança se possuísse o poder. Então ele permaneceu em Hogwarts. E foi importante para eu ver que Dumbledore tomou esta decisão. E Harry, eu acho, o admira ainda mais por isso.
Narração: [clipe de Snape de Ordem da Fênix] Enquanto isso, o aparentemente repugnante Severo Snape, o bruxo que matou Dumbledore na frente de Harry, mostra um lado um tanto heróico no último livro.
JKR: Desde o começo eu sabia o que Snape era. Se eu penso que ele é um herói? Até um ponto, sim, mas ele não é um personagem evidentemente bom. Snape é um homem complicado. Ele é amargurado. Ele é… rancoroso. Ele é um tirano. Todas essas coisas são verdadeiras sobre ele, mesmo no final desse livro. Mas, ele foi corajoso? Sim, imensamente. Ele foi capaz de amar? Muito, definitivamente. Então ele é um ser humano muito falho, como todos nós. Harry o perdoa, como sabemos através do epílogo, Harry vê mesmo o bem em Snape, no final das contas. Eu queria que houvesse redenção e eu queria que houvesse perdão. E Harry perdoa, mesmo sabendo que Snape o odiou sem motivo até o fim. É totalmente, totalmente injusto que ele o odeie tanto, mas, fazer o quê?
MV: Jackson?
Jackson: Tem alguma coisa que você queria ou não queria ter escrito em Harry Potter? Principalmente mortes.
JKR: Não, as mortes foram todas muito bem consideradas. Eu não mato personagens fictícios sem motivo. Então eu não me arrependo de nenhuma delas. Há pequenas tramas que eu mudaria se pudesse voltar. Eu certamente editaria Fênix um pouco mais porque eu acho que é muito grande.
Fã – Menina: Qual morte foi a mais difícil para você? Fora as do sétimo livro?
JKR: Qual morte?
Fã Menina: Sim.
JKR: Provavelmente Dumbledore. E não gostei de ter matado o Sirius.
Narração: Sirius Black, o padrinho de Harry Potter. [clipe de Sirius de Ordem da Fênix]
JKR: Antes de Fênix ser publicado… pela primeira vez eu entrei na internet e vi os fansites sobre Harry Potter. Eu nunca tinha feito aquilo antes. E numa tarde eu fiz. E olha, aquilo foi uma revelação e tanto. Eu não fazia idéia do tanto de coisa que existia por aí. E um dos sites que eu encontrei era todo dedicado a Sirius Black.
MV: Oooh.
JKR: Eu não tinha idéia de que havia um fansite só pra ele, seu próprio fã clube fundado por umas garotas adolescentes, eu acho. Todas elas amavam Sirius. E eu sabia que ele tinha umas três semanas de vida. Foi terrível…
Narração: E alguns jovens leitores tiveram perguntas bem adultas a fazer.
Fã: Os assassinatos de nascidos trouxas por Voldemort parecem muito com uma limpeza étnica. Quanto da série é uma metáfora política?
JKR: Bem, é uma metáfora política. Mas eu não sentei e pensei: “Eu quero recriar o nazismo alemão no mundo bruxo”. Porque, embora haja, bem conscientemente, reflexos do nazismo alemão, há também associações com outras situações políticas. Então realmente não posso escolher uma.
MV: Harry também é referido como O Eleito. Então, tem a religião…
JKR: Bem, isso claramente é uma conotação religiosa. E sempre foi difícil falar sobre isso porque até chegarmos ao Livro 7, concepções do que acontece após a morte, etc. entregaria muito do que estava por vir. Então… sim, minhas crenças, meu conflito com a fé religiosa e assim por diante são bem evidentes neste livro, eu acho.
MV: E qual é esse conflito?
JKR: Bem, meu conflito é realmente o de continuar acreditando.
MV: Continuar acreditando?
JKR: É… eu… eu… sim.
VO: Ok, e agora, outro alerta de spoiler. Então abaixe o volume se não quiser saber. Jo Rowling vai preencher algumas das lacunas do epílogo para seus fãs.
Chelsea: No final você nos conta que Neville é um professor em Hogwarts. O que Harry, Hermione e Rony fazem?
JKR: Harry e Rony absolutamente revolucionaram o Departamento de Aurores no Ministério da Magia. Então eles estão agora realizados, eles são peritos. Não importa a idade que eles tenham ou o que fizeram. Então Harry e Rony direcionaram a recriação do novo Departamento de Aurores. E devido ao tempo, 19 anos depois, eu imaginaria que o Harry chefiaria esse departamento, o que não é corrupto de maneira alguma. É um ótimo lugar para se estar. E Hermione… creio que agora ela já ocupa uma alta posição no Departamento da Execução das Leis de Magia. Onde eu imaginaria que a inteligência dela e seu conhecimento de como as artes das trevas operam realmente a dariam, sabe, uma sólida instrução básica. Logo, todos eles estão no ministério, mas este é um novíssimo ministério. Eles fizeram um novo mundo.
Narração: A seguir, depois de matar alguns de nossos personagens favoritos, qual foi a parte mais difícil para J.K. Rowling? [clipe de vídeo do programa] Ela te dirá o porquê, quando Harry Potter: O Capítulo Final continuar.
Narração: [clipe com cenas do Castelo de Edimburgo e os terrenos arredor] E agora, mais coisas do que eu chamo “A Câmara Secreta de Jo Rowling” das profundezas do Castelo de Edimburgo. E logo para começar, um alerta de spoiler. Aqui, ela falou mais sobre o epílogo do Livro 7 e se ele poderia levar a uma nova série de livros Potter no futuro.
MV: Você deixou uma brecha para a possibilidade, pois no epílogo tem o Harry, Hermione e o Rony e eles têm seus filhos e…
JKR: Mas não… eu não deixei uma brecha por essa razão. Eu não escrevi o epílogo pensando: “Certo. Vamos planejar o estágio para uma nova série de livros para a próxima geração”. É que… eu queria mostrar que a vida continuava. E que mesmo onde houve mortes, sabe, havia vida nova e tudo o mais.
Narração: De fato, ela diz que Teddy, o filho agora órfão do professor Lupin, é uma das principais razões para ela ter escrito o epílogo.
JKR: Para saber que Teddy Lupin… o filho de Lupin está obviamente bem. Que há uma relação entre ele e Harry, que ele deve estar muito feliz e que ele tem uma namorada linda já que a pessoa que ele está beijando no epílogo é a filha mais velha de Gui e Fleur.
MV: E por que isso foi importante?
JKR: Porque ele ficou órfão. E eu quero mostrar que ele está bem. E quero mostrar que pelo fato de o mundo ser um lugar melhor, ele está tendo uma vida melhor… e aí eu começava a chorar. Então, obviamente, Teddy Lupin é muito importante para mim. Eu só… é. Eu matei os pais dele, então eu quis que ele ficasse bem.
Narração: [clipe dos gêmeos Weasley de Ordem da Fênix] Então ela falou da escolha de vida e morte que tomou entre os gêmeos Weasley, Fred e Jorge, irmãos do melhor amigo de Harry, Rony.
JKR: Sempre soube que seria Fred. Voltando um pouco no tempo, acho que a maioria das pessoas esperaria que fosse o Jorge.
MV: Por que você acha isso?
JKR: Porque o Fred é o líder. Ele sempre foi o provocador. Ele é levemente mais difícil do que Jorge. Jorge é um pouco mais gentil. O Fred é normalmente o mais engraçado mas, ao mesmo tempo, o mais cruel dos dois. Então as pessoas devem ter pensado que o Jorge seria o mais vulnerável e, portanto, o que morreria.
MV: Mas foi mais fácil para você matar o Fred do que o Jorge?
JKR: Não foi fácil.
MV: Não?
JKR: Não foi fácil. Teria sido terrível matar qualquer um dos dois. Foi horrível matar o Fred. Eu odiei.
Narração: Mas o momento mais difícil para ela chegou enquanto ela escrevia outro capítulo.
JKR: Eu chorei muito, muito mesmo depois de escrever o Capítulo 34, no qual o Harry entra na floresta pela última vez, segundo ele. Porque eu tive que viver aquilo com Harry e sentir o peso de sua desilusão e de seu medo, pois ele acredita que está sendo enviado para a sua própria morte por Dumbledore, quem ele achou que queria que ele sobrevivesse. Então isso foi profundamente emocionante de se escrever.
MV: Por que foi importante para você, Jo, escrever sobre a crueldade e a desumanidade?
JKR: Não sei muito bem. Mas era o que eu mais queria escrever. E é sobre escolha. E lhe é mostrado aquele Voldemort. Humm… suponho que podemos chamá-lo de psicopata. Mas ele, de muitas maneiras, é o que é e está além de redenção. Embora sendo Harry Potter e por isso eu posso ter liberdades pois tenho magia neste mundo, é mostrado no finalzinho do livro que ele teve, sim, uma oportunidade de redenção, pois ele colocara em seu corpo uma gota de esperança e amor…
MV: O sangue de Harry.
JKR: Certo. Então isso significou que se ele tivesse criado a coragem para arrepender-se, ele teria ficado bem. Mas, claro, ele não o fez. E essa é a escolha dele. Mas as pessoas à sua volta, isso é o mais interessante de certa forma. As pessoas que se voltaram para o mal por proteção, por poder, sadismo. Mas as pessoas que têm, sim, uma escolha, que fizeram mesmo uma escolha, como os Malfoys desse mundo. E eu acho que sempre vale a pena analisar por que as pessoas escolhem tomar tais decisões.
Narração: [clipe com fotos da página de dedicatória do Livro 7] Mas um propósito que ela quis alcançar não teve nada a ver com o livro sete. Era sobre sua gratidão para com os leitores que ficaram com Harry e com ela por dez anos.
MV: Tem que ser humilde de certa forma também.
JKR: É, totalmente. Curiosamente, antes de o Sete sair eu conheci dois ou três fãs e todos disseram a mesma coisa para mim: “Eu li o primeiro quando tinha dez anos. Eu li o primeiro quando tinha onze anos”. E agora estou olhando para homens e mulheres de 20 anos de idade.
MV: O que você diz para esses fãs? Porque têm muitos que…
JKR: Eu só digo que eles não podem imaginar o que isso significa pra mim. E eles não podem, mesmo.
MV: Você sentiu, ao escrever o sétimo livro, ou qualquer um dos outros, mas particularmente o sétimo, um sensação de responsabilidade para com esses fãs?
JKR: Sabe, sempre… bem, sim. Eu definitivamente tive uma sensação de responsabilidade pois que eu queria que fosse o melhor dos melhores livros que eu pudesse escrever. Porque eles estavam esperando por isso e havia tanta expectativa. Sempre me perguntam: “Bem, você não se sente culpada por matar pessoas, personagens que as crianças adoram?”. E parece horrível e cruel dizer: “Não”. Mas a verdade é que quando você escreve você tem que pensar somente no que está escrevendo… você não pode sentar e pensar: “Bem, eu ia matar o Hagrid, mas, sabe, as pessoas o adoram”.
Narração: E agora que a história de Harry Potter foi contada, Jo Rowling tem a oportunidade de trabalhar na sua história pessoal.
MV: E o que o que você planeja para o futuro?
JKR: Com certeza vou tirar uma folga. E vou aproveitar por um tempo o sentimento de que eu não tenho que cumprir um prazo.
MV: Você quer escrever outro livro?
JKR: Oh, claro que sim. Claro que sim. Não estou dizendo que não vou escrever. Só estou dizendo que vou apreciar escrever sem ter que publicar por um tempo. E isso é um privilégio, sabe? E eu sei que sou a mulher mais sortuda do mundo.
Narração: E ela guardou um último bocadinho sobre o livro para o final, o que significa que também é hora para um último alerta de spoiler.
[Sinal de Alerta de Spoiler]
MV: O fim do livro: eu tinha lido que a última palavra seria “cicatriz”. Mas a última…
JKR: E era por muito, muito tempo. Por muito tempo a última frase era alguma coisa assim: “Somente aqueles que ele amava podiam ver a cicatriz (1)”. E isso era uma referência ao fato de que enquanto eles estavam na plataforma, as pessoas o estavam cercando. E aquele Harry estava meio que ladeado por, sabe, as pessoas amadas. Então elas eram os únicos que estavam perto o suficiente para ver a cicatriz, mesmo que os outros estivessem olhando. E isso teve um tipo de ambigüidade também. Será que a cicatriz está mesmo ali? Mas eu mudei porque eu queria, quando fui escrever isso, queria uma frase bem consolidada implicando que Harry ganhara. E que a cicatriz, ainda que esteja lá, é só uma cicatriz agora. E eu quis dizer que estava acabado. Está feito. E talvez um pouquinho disso fosse para dizer para as pessoas: “Não, Voldemort não vai voltar novamente. Não vamos ter Parte Dois. O trabalho de Harry está feito”. E foi por isso que eu mudei.
MV: Para “Tudo estava bem”.
JKR: “Tudo estava bem”, é.
MV: E você soube que estava acabado ao escrever essa frase.
JKR: Foi… eu senti um tipo de [suspiros]. E aquilo… pareceu certo. É… e queria mesmo que Harry tivesse um pouco paz.
MV: Foi 17 anos e sete livros, o que você espera que as pessoas tirem disso?
JKR: A coisa mais lisonjeira que já me disseram, e já me disseram isso muitas vezes, é que os livros de Harry Potter foram os primeiros livros que fizeram as pessoas se interessarem pela leitura. Conheci muitas crianças e, às vezes, pessoas mais velhas, que cresceram com eles, que disseram, sabe: “Foi o primeiro livro que eu realmente quis ler”. E não tem nada melhor que isso. Se foi isso que Harry fez, então essa é a melhor coisa que eu já pude ouvir.
MV: E, como você mesma colocaria: “Tudo está bem”.
JKR: Exatamente.
Fonte: Leaky Vídeo Galleries
N.T.:
(1) No inglês: “Only those who he loved could see the lightning scar”, que literalmente seria traduzido como “Somente aqueles que ele amava podiam ver a cicatriz em forma de raio”; “em forma de raio” foi suprimido para dar sentido ao curso da entrevista.
N. R.:
(2) As palavras Quadribol e campo, Quidditch e pitch respectivamente, rimam quando faladas ou escritas no idioma original. Tal trocadilho é impossível de se traduzir para o português.
Traduzido por: Pablo Júnio em 21/02/2009.
Revisado por: Fabianne de Freitas em 28/04/2009.
Postado por: Ohanna S. Bolfe em 04/05/2009.
Matéria original no Accio Quote aqui.