J.K. Rowling, Hogwarts e tudo

Grossman, Lev. “J.K. Rowling, Hogwarts e tudo”. Revista Time, 17 de julho de 2005.

Enquanto o muito aguardado Harry Potter e o Enigma do Príncipe chega às lojas, J.K. Rowling fala abertamente com Lev Grossman sobre fantasia, pais e como a mágica está quase no fim.

Aqui está uma J.K. Rowling que vive nos corações e mentes de crianças de todos os lugares. Ela tem uma varinha de condão e cabelos tecidos a ouro, e quando ela ri, de seu riso suave minúsculas bolhas de sabão prateadas saem de sua boca.

Essa J.K. Rowling, contudo, não existe. Aqui está uma análise da Jo Rowling real (no caso, pronuncia-se “Rolin”, e não “Rouling”) trabalhando há cinco anos em Harry Potter e o Cálice de Fogo. “Cálice, oh, meu Deus. Aquele foi o perí­odo que eu estava mastigando Nicorette. Depois eu comecei a fumar novamente, mas não parei o Nicorette. E eu juro pela vida dos meus filhos, eu ia para a cama de noite e tinha palpitações e tinha que levantar para beber um pouco de vinho para me colocar entorpecida o suficiente”.

As criancinhas de todos os lugares devem estar agradecidas pela real Jo Rowling. Porque se a imaginária tivesse escrito os livros de Harry Potter, pense como seriam incrivelmente monótonos.

O cabelo real de Rowling é um tipo de dourado embora no momento tenha aproximadamente uma polegada de raiz escura. O que é compreensí­vel, já que nos últimos seis meses ela deu à luz seu terceiro filho, a menina Mackenzie, e terminou o sexto livro da série Harry Potter, Harry Potter e o Enigma do Prí­ncipe, que foi lançado exatamente à meia-noite da sexta feira. Aos 39 anos, Rowling é uma mulher alta e bonita com um rosto longo, um nariz ligeiramente torto e olhos interessantemente velados. Sentada numa mesa de conferência numa cabana adjacente à sua majestosa casa de Edimburgo (não apenas dela e nem sua mais majestosa), ela fala rapidamente, até mesmo um pouco nervosa. Ela usa a palavra obviamente com uma freqüência um pouco maior do que uma pessoa comum, e ela gosta de dizer coisas escandalosas, e depois explode numa gargalhada alta para mostrar que está apenas brincando. Rowling está vestida toda de preto – um suéter preto folgado, calça preta. Um relance embaixo da mesa revela botas pretas brilhantes, com saltos de ponta de aço, com no mí­nimo três polegadas de comprimento.

Fãs mandam para Rowling varinhas e penas aos montes, mas ela admite, um pouco envergonhada, que ela na verdade nunca as usa e que as varinhas vão direto para a sua filha mais velha, Jessica. A escritora de fantasias mais popular do mundo nem mesmo gosta especialmente de romances de fantasia. Nunca sequer ocorreu a ela, até publicar Pedra Filosofal, que havia escrito um. “Esta é a verdade nua e crua”, diz ela. “Você sabe, os unicórnios estavam lá. Existia o castelo, Deus sabe. Mas eu realmente não sabia que era isso que eu estava escrevendo. E eu acho que talvez a razão de isso nunca ter me ocorrido é que eu não sou muito fã de fantasia”. Rowling nunca terminou de ler “O Senhor dos Anéis”. Ela nem leu as “Crônicas de Nárnia” de C.S.Lewis, aos quais seus livros são muito comparados. Existe algo na sentimentalidade de Lewis em relação a crianças que a deixa irritada. “Tem um momento lá onde Susan, a menina mais velha, se perde em Nárnia porque se interessa por batom. Ela se torna sem religião principalmente porque descobre sexo”, diz Rowling. “Eu tenho um grande problema com isso”.

Certamente Rowling não tem medo de sexo, como habilmente demonstra em Ordem da Fênix – onde Harry descobre-o com a bonita e aflita Cho Chang. Harry e seus amigos têm 16 anos agora e seria realmente estranho se Harry não tivesse nada na mente além de varinhas e pomos. “Por causa das demandas da aventura que Harry está seguindo, ele tem uma experiência sexual menor do que os rapazes da sua idade”, afirma Rowling. “Mas eu realmente queria que meu herói crescesse. Os hormônios de Rony atingem o limite no livro seis”. Cai­ numa gargalhada grande. “Basicamente Rony percebe que Hermione tem feito algo, Harry tem feito algo e ele nunca chegou perto disso!”.

São precisamente as faltas de sentimentalismo, sua firmeza, realidade crua, sua fuga de usar clichês básicos de fantasia, é que faz de Rowling essa grande escritora de fantasia. O gênero tende a ser profundamente conservador “politicamente, culturalmente, psicologicamente”. Visto de fora, parece um mundo idealizado, romantizado, pseudofeudal, onde cavaleiros e damas bailam ao som de Greensleeves. Os livros de Rowling são diferentes disso. Eles se situam nos anos 90 – não em algum lugar atemporal como Nárnia, mas no dia-a-dia atual da Inglaterra trouxa, com carros, telefones e Playstations. Rowling adapta um gênero tradicionalmente conservador para seus próprios objetivos. A sua Hogwarts é secular e sexual e multicultural e multirracial e até de certa forma multimí­dia, com todos aqueles fantasmas falantes. Se Lewis aparecesse lá, vamos admitir, ele se tornaria provavelmente um Comensal da Morte.

Reconheçamos, os livros de Rowling começam como convites a uma grande variedade de evasões: Ooh, Harry não é realmente um pobre órfão, ele na verdade é um bruxo rico que toma um trem secreto para um castelo e etc, etc. Mas assim que eles continuam, você percebe que enquanto as partes engraçadas são como puro algodão doce, os problemas são muito reais – constrangimento, preconceito, depressão, raiva, pobreza, morte. “Eu estava tentando mudar o gênero”, explica Rowling, com franqueza. “Harry entra nesse mundo mágico, mas será que é melhor que o mundo que ele deixou? Só porque ele encontra pessoas mais legais, a magia não faz o seu mundo ser significativamente melhor. Os relacionamentos fazem seu mundo melhor. A magia complica a sua vida de muitas formas”.

E diferente de Lewis, cujos livros estão cheio de teologia, Rowling recusa-se a ver a si mesma como uma educadora moral para as milhões de crianças que lêem os seus livros. “Acho que não é de todo saudável para o meu trabalho eu pensar em tais termos. Então não penso”, diz ela. “Eu nunca penso em termos de ‘o que vou ensinar para eles?’, ou, ‘O que seria bom que eles vissem lá?'”.

“Embora”, acrescenta ela, “lições de moral estão traçadas, inegavelmente”. Mas ela não deixa muito claro. No Cálice, o bom-coração Cedrico Diggory morre sem razão alguma. Em Fênix, nós descobrimos que o pai de Harry, que ele idealizou, era um valentão arrogante. As pessoas não são boas ou más por natureza; elas mudam e se transformam e lutam. Assim como Dumbledore contou para Harry, ‘são nossas escolhas, Harry, que mostram quem somos de verdade, não nossas habilidades’. Está garantido que Harry não vai sucumbir à raiva e crueldade. Mas nunca paramos de sentir que ele poderia”. (Interessantemente, embora Rowling seja um membro da Igreja da Escócia, os livros estão livres de referências a Deus. Nesse ponto Rowling é bem fechada. “Uhm, Eu não acho que eles sejam tão leigos”, diz ela, escolhendo bem as palavras. “Mas, obviamente, Dumbledore não é Jesus”).

Não há limites para a sofisticação de Harry Potter. Desde que a Pedra Filosofal foi publicada em 1998, os eventos mundiais têm estado num ponto onde eles exigem dos livros mais do que eles têm a dar. Em Fênix, o quinto livro da série, Harry está envolvido numa guerra semi-civil com um lí­der obscuro e escondido e que é apoiado por uma rede de agentes secretos dispostos a recorrer a táticas de crueldade chocante, cuja existência é ignorada pelo governo, até que um desastre força a questão. As crianças que cresceram com Harry Potter – vocês poderiam chamá-los de Geração Hex – são as crianças que cresceram com uma ameaça perceptiva de terrorismo, e é inevitável que eles façam a conexão em algum ní­vel entre as duas coisas.

Isso não é necessariamente ruim. Mas o acontecimento mais esperado das séries é a indiferença do inimigo de Harry, Voldemort (cujo nome Rowling pronuncia com um “t” mudo). Nos livros passados, Voldemort conseguiu tomar corpo, mas ele ainda não tem nenhuma motivação real. Você não entende de onde vem todo esse entusiasmo ilimitado em ser mau. “Vocês vão entender”, afirma Rowling. “Obviamente existe um grande laço ali, e no livro seis, Harry descobre muito da história de Voldemort. No entanto ele nunca foi um cara legal”. Ela ri.

Não, ele não foi. Enigma do Príncipe percorreu um longo caminho, finalmente, para desvendar isso, através da tomada de Rowling sobre a psicologia do mau, principalmente através de uma espécie de documentário da vida passada de Voldemort pela penseira. Muito da compreensão de Rowling sobre a origem do mal tem a ver com o papel de um pai na vida familiar. “Quando revejo os cinco primeiros livros publicados”, diz ela “eu percebo que é uma espécie de reunião de pais ruins. É onde o mal parece florescer, em lugares onde os pais não fazem bem seu trabalho”. Muito disso com certeza vem das suas próprias experiências: sua relação com seu pai foi acidentada e o pai da sua filha mais velha não faz mais parte da vida de Rowling.

Apesar de seu enorme sucesso, que elevou a sua fortuna pessoal a centenas de milhões, você ainda pode sentir a enorme e arrasadora ambição de Rowling pelo seu trabalho, que parece ser alimentada, pelo menos em parte, pelos seus sentimentos de insegurança e dúvidas. Talvez seja pela sua bem conhecida história de um dia ter sido uma mãe divorciada e sem carreira vivendo quase um ano de auxí­lio público, mas ela ainda questiona constantemente a sua escrita, revisando-a como um boxeador assistindo as fitas de suas lutas. “Eu acho que Fênix poderia ter sido mais curto. Eu sabia disso, mas fiquei sem tempo e sem energia no final”, afirma. Ela está preocupada que Cálice foi elogiado demais. “Em cada livro, existem coisas que eu poderia voltar e reescrever”, diz ela. “Mas acho que realmente tirei o excesso desse. Eu usei três meses apenas para sentar e ver e rever o plano, refinei realmente, analisei sob todos os ângulos. Eu aprendi, talvez, dos erros passados.

Tal foco exagerado na perfeição pode deixar Rowling um pouco indisponí­vel para as pessoas que estão perto dela. Ela conta a história de uma conversa que ela teve com sua irmã mais nova – Di, 38 anos – sobre o diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore, de quem às vezes Di sente um pouco de falta de compaixão com suas obrigações. “Ela disse, ‘É como você’. E eu perguntei, ‘O que isso quer dizer?’. E ela respondeu ‘Você é um pouco isolada’. Aquilo foi, você sabe, desconfortável, e provavelmente um tantinho intuitivo. Eu provavelmente não perceberia tão facilmente se ela não falasse, ‘Essa pessoa é minha melhor amiga no mundo'”.

Rowling está prestes a se despedir de um útimo amigo: Enigma do Príncipe é o sexto livro dos sete planejados, e isso é tudo que ela escreveu. “Eu vou ficar muito triste de nunca mais escrever uma frase sobre Harry-Rony-Hermione”, diz ela. Mas seus sentimentos não estão de todo misturados. “Parte de mim vai estar agradecida quando acabar. A vida familiar vai se tornar mais normal. Vai ser uma chance de escrever outras coisas”.

Calma aí­, “outras coisas”? É desconcertante pensar em Rowling além de Harry e o time com outros personagens. Mas pelo menos podemos dizer que Harry é o último bruxo de Rowling. Daqui por diante, apenas trouxas. “Eu acho que posso afirmar categoricamente que eu não vou escrever outra fantasia depois de Harry”, diz ela, tornando a si mesma e a seus publicitários, que estão perto, visivelmente nervosos. “Espera aí, agora estou criando pânico. Oh, meu Deus! Sim, eu tenho certeza disso. Eu acho que terei esgotado as possibilidades disso. Para mim”. Ela não dá muitas pistas além dessa, mas aborda o projeto com seu ceticismo costumeiro. “Nós vamos ver se é suficientemente bom para ser publicado. Quero dizer, isto é uma preocupação real, porque, obviamente a primeira coisa que vou escrever depois de Harry pode ser completamente desastroso, e, você sabe, as pessoas vão comprá-lo. Então, você sabe, você fica com essa insegurança real”.

Mas inseguranças futuras podem esperar. Rowling ainda tem o livro sete para se preocupar. Ela já começou a escrever. “Vai ser um livro muito diferente”, diz ela, “porque eu meio que escrevi uma deixa no final do sexto, e vocês ficaram com uma idéia muito clara do que Harry vai fazer no próximo”.

“E”, acrescenta ela num momento de orgulho não caracterí­stico, “vai ser emocionante!” Então ela se corrige imediatamente numa diminuição pessoal. “Vocês não sabem! Pode ser que vocês leiam o sexto e pensem, Ah, eu nem ligo”.

Mas isso, de fato, é pura fantasia. Obviamente.

Traduzido por: Virág em 10/03/2007.
Revisdo por: Adriana Couto 08/07/2007 e Antônio Carlos de M. Neto em 21/03/2008.
Postado por: Fernando Nery Filho em 11/07/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.



 
 
 
 
 
 
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