Hattestone, Simon. “Harry, Jessica e eu”. The Guardian, 08 de julho de 2000.
Joanne Kathleen Rowling é um tipo de mulher prática e realista – considerando que é uma escritora multimilionária. A própria filha dela vem primeiro, claro que, mesmo que eles tenham um menino-feiticeiro na família. Por Simon Hattenstone.
Eu há pouco fui cercado no pátio de playground, enterrado em uma conversa de meninas de 10 anos. Eu apenas tinha sussurrado que eu ia ver J.K. Rowling, e isso era o bastante. Você pode me arrumar o autógrafo dela? Você descobrirá o nome do livro novo? Pergunte a ela quem morre? Quem vai beijar o Harry?
Ninguém pergunta o que J.K. significa, quantos anos ela tem, se ela é casada, possui filhos. Eles sabem – Joanne Kathleen, 34, casou, separou, mãe solteira, filha de seis anos Jessica, Jessie para nós.
Eu me afasto meio chocado. Um dos pais apressou-se depois de mim. “Você tem muita sorte”, ele diz. “Ela não dá entrevistas frequentemente, é um pouco reclusa. Tudo admitido por ela, eu ouvi, foi um pouco de Harry Potter”.
Os adultos estão quase tão excitados quanto as crianças. Um amigo me diz que os livros são, na verdade, adultos disfarçados de criança iluminada. Cuidado com o tema recorrente, ele diz. – desavença e perda; sua esposa o chama para o chá, e diz que ele sempre teve uma queda por internatos.
Harry Potter e a Pedra Filosofal foi publicado em 1997. Houve novas histórias sobre isso na época porque Rowling recebeu um adiantamento de mais de US$100.000 nos EUA. Os primeiros três livros da série de sete venderam mais que 35 milhões de cópias. O quarto livro conseguiu venda adiantada de dois milhões. Ano passado, Rowling ganhou 14,5 milhões de libras, fazendo-a a terceira mulher britânica mais bem paga, bem frente às Spice Girls. As cifras e hipérboles também aumentaram.
Nós combinamos de nos encontrarmos num hotel em Edimburgo. Ela não permite jornalistas na sua casa; sua filha sempre foi mantida longe da imprensa. O hotel é camuflado como uma casa urbana. Nenhum nome do lado de fora, apenas um número. É antiquado e vedado, e me recordo da entrada invisível da Plataforma 9 1/2, onde Harry e seus companheiros alunos de bruxaria pegam o trem para a escola mágica de Hogwarts. Os livros de Harry Potter são pedaços bem-definidos da nostalgia. Nostalgia de um mundo que poucas crianças contemporâneas poderiam conhecer. Internato, pontos para as casas, uma garota CDF, um herói insípido, um melhor amigo levemente desobediente: isso poderia ser o “Cinco Famosos” ou Billy Bunter ou Just Willians. A publicista dela me levou até a suíte de J.K. Rowling. Ela estava sentada entusiasmada – com o cabelo louro-morango, jaqueta de veludo vermelho e cigarro. Ela era uma atraente feiticeira em uma moldura graciosa.
Ela costumava lecionar francês em um colégio secundário escocês. Ela diz que o que a atraiu para o planeta Potter foi “anarquia controlada”, e ela me conduziu à sua experiência de classe. Ela não acha que era uma má professora, mas acha que teve pensamentos ruins. Às vezes, ela encarava as crianças tão atentas na suas forças e vulnerabilidade. “Eu lembro de estar em uma classe muito difícil em que ensinei, e as coisas se saíram bem. Eu não sei por que – talvez seja minha personalidade – mas eu estava em pé, encostada contra a carteira, esperando a próxima pessoa dizer. ‘O que eu devo fazer?’ e eu pensava, ‘Eles podem me ter. O que os está impedindo?'”.
Eles tiravam sarro dela, escarneciam de seu sotaque britânico. Mas nunca estavam seguros se ela era uma pobre de Londres ou alguém da classe alta, assim ela lhes ensinou como era na Floresta do Deão.
Eu digo a ela como, na minha escola, nós levávamos nossa professora de inglês ao colapso colocando alfinetes na sua cadeira. Ela ri muito alto, e eu começo a me senti culpado 25 anos depois. “Isso é bom pra você – hahaha!” Ela riu como uma pistola de Gatling – essa foi a risada alta que eu ouvi. De repente parou, e ela estava falando com calma. “Ela chorou na classe?” Eu acenei. “Viu, isso é mal. Eu nunca chorei, eu senti vontade, mas nunca chorei.” Rowling é uma otimista da vida.
Sua heroína é a escritora Jessica Mitford. Ela lembra ter visitado-a com sua tia-avô Ivy em Somerset quando tinha 14 anos, e fala sobre essa mulher incrível. “E ela disse, ‘Você sabe o que ela fez Jo, ela comprou uma câmera na conta de seu pai e então foi viajar. ‘ A jovem Joanne pensou que ela era maravilhosa. Depois, descobriu que Mitford era também uma ativista dos direitos civis que sofreu mais do que parece na tragédia. “Ela teve uma falta total de pena de si mesma. E ela perdeu três filhos durante a guerra, que foi a pior coisa que poderia acontecer.”
Depois da universidade, Rowling trabalhou para a organização da Anistia Internacional dos direitos humanos. Ela já sabia que queria escrever, mas era sua melhor opinião próxima – “um dia de trabalho que me importa.” Ela mastigou duramente um cigarro antes de me dizer como arruinou sua vida. Como Mitford, ela deixou a Inglaterra para viajar. Ela acabou lecionando inglês numa escola estrangeira em Portugal, onde se apaixonou por Jorge Arantes, casou-se com ele, tiveram uma filha, começou a escrever Harry Potter, e desabou por amor. Quando ela disse ao Jorge como se sentia, ele a mandou embora. Ela voltou no dia seguinte com a polícia, pegou Jessica, e retornou para Bretanha, na fase mais obscura de sua vida. Ela não tinha nenhum dinheiro, nenhum emprego, nenhum lugar para morar. “Quase tudo se foi”. Ela ainda temia ser mandada de volta para Portugal lutar por uma custódia.
Ela pensou em se mudar para Londres, onde muitos dos seus amigos vivam. Mas eles seram solteiros, sem filhos e descuidados. Londres não é o melhor lugar para uma mulher com obrigações. Então a garota nascida em Chepstow, criada na Floresta de Dean, foi para Edimburgo, onde sua irmã morava. “Eu conhecia duas ou três pessoas, e ficava inacreditavelmente sozinha. Estava mesmo furiosa.” Ela se ressente de ter Jessica? “Não, nunca. Eu estava furiosa comigo mesma.” Por quê? “Não sei. Eu nunca esperei me ver nessa situação, e fiquei muito furiosa comigo mesma. Mas eu certamente nunca pensei em voltar atrás, e nunca, nem por um segundo, cogitei abrir mão de Jessica. Ela que me faz seguir adiante”.
Ela não era particularmente ambiciosa por si mesma, nem tentava traçar sua vida. “Eu apenas nunca esperei fazer tanta confusão que acabasse encontrando a mim mesma num frio apartamento infestado de ratos, cuidando de minha filha. Eu estava brava porque sentia que a estava decepcionando.”
Um dia ela visitou a amiga de sua irmã e percebeu que estava quebrando pedras. “Ela tivera um bebê apenas dois meses antes de mim, e eu vi o quarto de Thomas cheio de brinquedos, e no momento que eu guardei os brinquedos de Jessica, eles couberam numa caixa de sapato, literalmente. Eu voltei para casa e me acabei de chorar.” Mas dentro de seis meses, Rowling se achava num trabalho de digitação. Ela então recebeu um certificado de pós-graduação em educação. Um ano depois estava lecionando francês, e Harry Potter e a Pedra Filosofal foi publicado. Seu primeiro pagamento foi de 600 libras. Um ano depois, ela estava milionária e desistiu de lecionar. Tudo soa terrivelmente fácil, mas claro que não foi.
Quando ela deixou o trabalho de lecionar, não foi por causa da fama súbita, foi porque seu contrato tinha expirado. “A professora sênior no departamento estava muito preocupada comigo. Eu disse que lecionaria como substituta, e ela disse, ‘Você vai ficar bem? ‘ E eu disse, ‘Bem, não está tudo arruinado e obscuro – Eu publiquei um livro! ‘ Ela disse, ‘Não acredito!’ Não que ambas pensássemos que você ficaria por aqui; era só que você fazia o serviço muito bem.”
Há anos, Joanne Rowling foi uma escritora de closet. Sua irmã sabia que ela estava escrevendo, seu marido distante sabia, sua amiga mais velha (a quem o segundo livro foi dedicado, e foi modelo do amigo de Harry, Ron) sabia. Mas era só. Uma vez ela disse a outra amiga que estava escrevendo uma trama, e a amiga a impediu. “Eu acho que ela pensou que eu estava me iludindo, que estava numa situação sórdida e um dia sentei e pensei, sabe, eu escreverei uma trama. Ela provavelmente pensou que eu estava querendo um esquema para enriquecer rápido.”
A cada duas horas toda semana, ela deixava Jessica com uma amiga e se refugiava em um café para escrever. Ela nunca teve tempo para fantasia, certamente não era uma fã. “Eu li ‘O Hobbit’ e li C.S. Lewis quando tinha cerca de oito anos. Mas eu não gosto de fantasia como um gênero. Hoje, pessoas parecem pensar que há um unicórnio num livro, eu vou amar. E daí elas me dão esse livro…” Invariavelmente, eles estão errados. Ela se contentaria com um bom Roddy Doyle. Ela pode ter estudado clássicos, mas seu quadro de referência tende a ser popular – Q Magazine, Father Ted, The Royle Family. O que ela parecer curtir do universo de Harry é sua criação, regida pela sua própria lógica. Considerando que muitos de nós não temos uma pista se Harry está excedendo seus poderes, ela sabe exatamente o que ele pode e não pode fazer. Ela se empolga bastante quando pessoas dizem a ela que acham que os pais mortos de Harry voltarão à vida no final do livro sete. “Nós petrificamos pessoas, e tivemos que garantir a possibilidade de danos fatais, mas uma vez você está morto, está morto. Nenhum poder mágico pode ressuscitar um pessoal morta de verdade.”
Uma das alunas dela descobriu eventualmente que ela estava escrevendo um livro. A garota estava sem caneta ou papel; Rowling deu a ela o material obrigatório e mandou-a anotar algo no bloco de notas na carteira. “Ela estava bem longe da carteira, e eu me vieri e disse ‘Maggie volte e sente-se, e ela disse (imitando uma voz de Jean Brodie) ‘Senhora, você é escritora? ‘” Rowling se sentiu embaraçada, exposta. “Eu acho que disse, ‘Não, é apenas um hobby. ‘”
Rowling é estritamente modesta. Ela admite que é uma história notável, mas não muito notável como os jornais gostariam que vocês acreditassem. Sempre simplificando, sempre exagerando, ela diz – as regras de ouro. Assim o apartamento de dois quartos se tornou um conjugado alugado; os jornais convenientemente não mencionaram que ela era de uma família de classe-média, que ela teve uma formação em francês e clássico. Eles preferiam caracterizá-la como mãe solteira e divorciada, sem dinheiro.
“Eu detectei um tom de ‘Ah, mãe solteira’, como se pela definição, se você se achou naquela situação, você deve estar realmente subjugada, o que é exatamente o contrário, porque eu conheço pais solteiros e, sem exceção, eles são pessoas que têm um trabalho pago, e também fazem o trabalho de dois pais, e realmente trabalham duro como condenados” Ela diz que precisava de mais ajuda, mas sua agente de saúde disse que não era necessário porque ela estava enfrentando bem. “Eu sei que é certo que colocaria crianças em risco quem ganhasse prioridade, mas significa que muitas pessoas, a maioria, estão na minha situação onde eles enfrentam, mas apenas um pouco de ajuda faz a vida ficar muito melhor para uma criança.”
Ela pergunta se eu lembro do discurso que John Major fez sobre a doença da sociedade que está sendo causada pelas mães solteiras. Ela apenas tem voltado para a Grã-Bretanha a cada dois meses, e agora toda hora ela ouve Majors sendo descrito como um homem decente e empalidece. Ela diz que pessoas exploram sua história, dependendo de que modo o vento político assopra. “Há um senso de ‘Oooh, que milagre!’ Como se fosse sobre-humano para pais solteiros obterem qualquer coisa. Mas então eu descobri ocasionalmente um ‘Bem, eles podem fazer se tiverem que fazer’, o qual é igualmente injusto.” Ela diz que ela é capaz de ter sucesso porque tudo o que precisa é caneta e papel, e então de alguma maneira ela se ajeita numa máquina de escrever. Se quisesse ser uma estilista ou uma artista plástica, isso talvez não fosse suficiente.
“Uma mãe solteira e sem dinheiro,” ela diz. “O tom doloroso dessas palavras.” Pelo menos, ela diz, quando eles a chamam de divorciada sem dinheiro é uma atitude. “A mulher chapada no bar, e então quando Charlie me deixou…'” Rowing gesticula.
Ela aproveitou mais o segundo estágio do sucesso. “Dessa maneira apenas antes da realização do terceiro livro, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Nesse ponto, ela podia garantir um fundo como escritora começou a analisar a atração de Potter. “Eu nunca quis que o foco fosse eu. A maioria dos escritores não busca a publicidade. Eu tenho certeza que há poucos… Jeffrey Archer, mas ele não é bem um escritor, é?” Oohh! “Oh, vamos, você sabe o que eu estou dizendo. Há certo tipo de ficção onde publicidade é crucial, mas para a grande maioria de escritores que não é o que você procura, é?”
É uma boa questão. Rowling não deve ser ligada em publicidade, mas sua editora, Bloomsbury, certamente é. Quanto mais os livros vendiam, mais a mÃédia queria de Rowling. E quando ela recusou o interesse deles, eles decidiram que ela se tornara uma reclusa. Tempos atrás, seu ex vendeu a história dele. Rowling não reagiu, embora isso obviamente a chateasse. “Nunca foi um sentimento bom”. Mas ele foi bom sobre ela, disse o quanto a queria muito de volta e menosprezou o dinheiro? “Bom não é realmente a palavra certa. Bom ou horrível não é a questo. É apenas a versão dele do nosso casamento,” ela diz. Houve um tempo que Raymond Briggs criticava os livros, e os jornais estavam batendo na porta dela exigindo uma defesa. Então ela não ganhou o Whitbread, e eles voltaram para outro comentário. Agora outra controvérsia se assoma – Rowling acabou de falhar ao tentar ganhar o prêmio Carnegie para literatura infantil.
“A terceira fase foi, ‘Ela está recuando, está se tornando reclusa.’ Se eu não der uma entrevista ao longo do mês, eles querem saber por quê.” Em muitos aspectos, Harry Potter permitiu-a assumir o controle de sua vida; mas ele também trouxe exigências. Ela disse que é legal como estranhos se sentem confiantes que sabem exatamente porque ela escreveu os livros. “Eu informo frequentemente que escrevi o primeiro livro como escapismo, porque minha vida era tão horrível. Bem, essa não é toda a verdade. Quando eu comecei escrever os livros, eu estava trabalhando, numa relação muito feliz, a vida estava boa, ninguém tinha morrido. Tudo estava bem.”
Eu pergunto para ela qual é a coisa mais extravagante que já fez com todos seus milhões. Ela diz que houve um tempo em que estava se esforçando com o enredo do livro quatro, logo depois que a história de Jorge sobre o casamento deles foi publicada. Ela estava sentada no seu café favorito escrevendo, estava lá havia duas horas, e o papel estava branco por causa de sua auto-piedade. “Eu sempre me senti deprimida, e realmente preocupada com o livro, e então achei que havia uma maneira de melhorar essa situação e fui até uma joalheria e gastei muito dinheiro com um anel muito caro que tinha visto na semana anterior. E você sabe, quando gastamos mais dinheiro do que o planejado, tudo parece barato por comparação – então eu comprei presentes para minhas duas melhores amigas. E devo dizer que ajudou.”
Onde está o anel agora? “Em casa.” Como ele é? “Obsceno. Mas este foi o ponto. É uma pedra quadrada de corte grande, azul-marinho. Você não pode digitar com ele porque é muito pesado. É uma daquelas coisas que você tira em certas ocasiões; não uso no dia-a-dia porque você realmente pode machucar alguém com ele.” Rowling considera o anel um ato de extravagância porque não houve nenhuma justificativa para ele. Ela recentemente comprou uma boa casa, mas não considera isso uma extravagância porque isso fará a vida mais confortável para Jessica.
Rowling, Jessica e Harry. Isso faz uma família íntima. E quando ela fala sobre Harry, fica muito ansiosa que o estúdio de Hollywood não estrague e arruine o modo como ele está alcançando a puberdade e descobrindo as garotas, ela soa como uma mãe coruja. Ela disse que é possessiva em relação a ele. Qual é a pior coisa que alguém faria com ele? Ela me ignora. “Eu posso fazer com ele tudo o que quiser. Eu posso torturá-lo tanto quanto quiser. Ele é meu.”
Jéssica tem ciúmes de Harry? “Oh não, ela sabe, e ela está certa, ela é a principal. Ela tem um ego saudável, na melhor forma.” Inicialmente, Rowling contou que Jessica não leria seus livros enquanto tivesse menos de sete anos. Mas quando ela começou a escola, as crianças mais velhas a interrogavam sobre Harry e ela não estava em condições de responder. “Aconteceu tão freqüentemente que, no final, eu tive que me pronunciar – eles a deixariam, por favor, em paz para que ela pudesse brincar com seus amigos.” Quando Jessica começou a, pelas costas da mãe, perguntar a outras pessoas o que aconteceu em Harry Potter, ela decidiu que era injusto mantê-la longe dos livros. “Eu estava mais nervosa lendo para ela do que para qualquer um.” Por quê? “Porque se ela virasse e dissesse que era besteira, quero sair para brincar com alguém – hahahaha! Eu ficaria bem com isso, mas haveria dificuldades porque se o chá dela fosse meia hora mais tarde, e eu tivesse que dizer, ‘Num minuto, num minuto, eu só estou terminando isso.’ Provavelmente seria mais fácil para ela aceitar se gostasse do resultado final.” Como ela não dirá a ninguém sobre o enredo do novo livro, ela não contará a Jessica. Um segredo é um segredo.
Considerando a própria vida de Rowling, ela parece surpresa que o mundo de Harry seja tão tradicional, tão removido das (biting) realidade de pais únicos e adoção. É um mundo muito conservador, eu digo. Ela obtém uma respiração profunda e tranqüila. “Então eu estou falando de novo. Os dois grupos de pessoas que constantemente me agradece são wiccans (bruxas brancas) e internatos. E realmente, não precisa. Eu não pertenço a nenhum deles. Novas discriminações me deixam completamente gelada, e Jessie nunca irá para um internato. Eu fui a um inclusive.” Ela sempre quis ser parte desse mundo? Não, ela diz, a primeira vez que ela encontrou alguém que estivera no internato foi na universidade. “Eu pensei que soava horrível. Não porque era tão apegada à minha casa – eu mal podia esperar a hora de voltar pra casa – apenas que a cultura não era única que eu aproveitei. Aconteceria de eu conhecer pessoas que queriam levar seus filhos para longe”.
Ela ficou irritada. “Eu tenho um tipo de frustração com esse mundo conservador porque…” Ela explica, e um pouco defensivamente, que a escola teve que ser um internado porque a maioria das magias acontece no meio da noite e, se fosse uma escola diária, você não teria o mesmo senso de comunidade. De alguma maneira, ela argumenta que Harry reflete o mundo moderno porque ele é mestiço – o pai dele foi um bruxo, sua mãe era uma bruxa nascida trouxa (humana) – da qual puxou um pouco.
É sobre a única reivindicação que Rowling fez para os seus livros do Potter. Ela nunca sugeriu que eles considerassem um clássico. Ela é pragmática: sabe que bestsellers raramente são boa literatura. Quando eu digo que eles são bem escritos, ela parece ficar encantada e me diz como às vezes escreve obsessivamente.
Que limites os livros para mim é a falta de profundidade emocional e psicológica. Um desses poucos momentos ativos, e surpreendentes ocorre no primeiro livro, quando Harry vê um espelho mágico… E vê seus pais mortos. Mais tarde ele aprende que esses espelhos oferecem um reflexo do que muitos querem na vida. Rowling disse que isso é um raro elemento autobiográfico nos romances. “O espelho é quase doloroso para meus próprios sentimentos sobre a morte da minha mãe. Ela morreu quando eu tinha 25 anos, então eu estava há seis meses escrevendo o livro quando ela morreu. E ela tinha 45 anos.” Ela disse se estivesse olhando no espelho, ela veria exatamente o que Harry viu. Pessoas procuram aspectos da vida dela nos livros. Como disse, são frutos da imaginação.
Às vezes, quando Rowling está falando sobre seu sucesso, ela parece trêmula, suspeita disso. Claro, ela ama ter dinheiro, diz, mas talvez desejasse ter apenas um pouco menos de sucesso. Ela se preocupa com a quantia de dinheiro, e também se preocupa em falar sobre fatos que a preocupam. “Sim, eu estou falando sem culpa. É uma situação muito estranha. Então novamente, há uma solução… você pode abrir mão. Você não pode sentar aí e dizer, ‘Ah, é trágico, eu tenho muito dinheiro’, porque ninguém parará você pedindo uma quantia”. E o que você está fazendo então? “Um pouco”, ela diz brevemente. Pelo menos, ela não sente como se fosse dinheiro sujo.
Eu pergunto a Rowling se algo assim pode acontecer sem causar mudanças. Ela leva tempo para responder. Você sente que ela amaria dizer, não, claro que isso não altera nada, mas não seria verdade. “Não, eu não acho que é possível, honestamente”. Ela admitiu que ficou mais difícil confiar nos motivos das pessoas, e ao mesmo tempo outras estão assustadas com ela. Ela menciona uma boa amiga que fez no pátio da escola. A mulher não sabia que ela escrevia os livros de Harry Potter. “Ela me disse que se soubesse quem eu era, nunca falaria comigo. Eu disse, ‘Oh, droga!’ Ela disse, ‘eu teria pensado que você estava pensando que eu só fui falar com você por causa disso…’ Eu ri. Ela era muito engraçada com isso. Então quando nos encontramos numa situação normal, nos tornamos muito amigas. Isso é perfeitamente possível…” De repente, ela pareceu um pouco auto-consciente. “Você sabe que há muitas pessoas que não sabem sobre Harry Potter, milhões de pessoas não que não tem uma noção. Eu não sou Mick Jagger!”
Rowling ainda insiste que o sétimo Harry Potter será o último. Ela sentirá falta de Harry? Ela diz que não está esperando terminar, mas há algum conforto nisso. Menos demanda de fotografias, por enquanto. “Se eu puder honestamente dizer a mim mesma que, no final do livro sete, eu escrevi a história que tive a intenção de escrever, e não mudei nada porque algum revisor disse, ‘Tenhamos mais algumas líderes de torcida’; se eu puder olhar a mim mesma no espelho e dizer eu fiz da maneira que eu queria, então estou bem com isso.”
Ela gostaria de fazer uma tentativa em ficção adulta, e tem um gabinete de arquivos cheios de notas. “Sim, eu ainda escreverei. Mas realmente penso que é bastante possível que quando terminar Harry e ir ao gabinete de arquivos onde as notas estão, acharei que são besteiras.”
Eu a sigo escada abaixo para onde ela está levando sua foto. O fotógrafo pergunta se ela se importa em ter uma foto tirada com uma vassoura que ele comprara. Ela estremece e responde. “Vamos ser honestos, eu me sinto ridícula assim, sejamos diretos,” ela diz, lançando uma risada de metralhadora Gatling – ao invés disso, deve-se dizer, ela manifesta uma autêntica angústia com as fotos.
Ela se nomeia J.K. porque imagina ser uma moderna Tolkien? “Não, foi idéia da editora.” ela diz. “Eles eram cautelosos por eu ser uma mulher.” A Bloomsbury acha que não alcançariam os meninos, então eles a fizeram hermafrodita. “Eu estava tão agradecida com a publicação que isso não importava para mim”. Nós conversamos algo mais sobre a vida pós-Harry Potter, e ela se coloca crescentemente entusiasmada. “Você sabe, um dia eu gostaria de experimentar a vida como mulher”, ela diz.
Harry Potter e o Cálice de Fogo será publicado pela Bloomsbury em 8 de julho, custando $ 14,99.
Traduzido por: Juliana Maron dos Santos em 05/05/2007.
Revisado por: Adriana Couto Pereira em 12/05/2007.