Ulin, David L.. “A criadora de Potter não é ilusão”. Los Angeles Times, 16 de outubro de 2007.
O shopping Hollywood & Highland parecia a Plataforma 9 ½ da Estação King’s Cross na manhã desta segunda-feira, quando 1.600 estudantes, muitos segurando varinhas, usando túnicas e chapéus de bruxos, desceram até o Kodak Theatre para uma rara leitura de J.K. Rowling, cujos livros de Harry Potter venderam mais de 140 milhões de cópias somente nos Estados Unidos.
Sentada em um enorme trono dourado com travesseiros vermelhos e felpudos, em um palco com grandes réplicas das sobrecapas de seus livros, ela leu uma passagem das primeiras páginas de Harry Potter e as Relíquias da Morte, na qual Harry se despede de seus parentes, os Dursley, antes de responder a uma dúzia de perguntas pré-selecionadas de crianças de 8 a 17 anos de idade.
Rowling, que não aparecia nos E.U.A desde 2000, está em uma visita com duração de uma semana, a chamada turnê de lançamento do livro, com paradas em Nova Orleans na quinta-feira e no Carnegie Hall, em Nova Iorque, na sexta.
Para lidar com o que a autora admite ter se tornado uma situação “incontrolável”, a Scholastic, editora americana de Rowling, criou um plano original para distribuir os ingressos: 40 escolas foram escolhidas ao acaso pela LAUSD(1), e então cada uma recebeu um “Chapéu Seletor” para selecionar 40 estudantes para comparecer ao evento.
Cada vencedor também ganhou uma cópia grátis do último livro da série Potter, Relíquias da Morte, a autora autografará todas as 1.600 cópias depois de sua leitura.
Para Rowling, que foi professora, estar em contato com escolas é importante. Quando assumiu o palco, aplaudida de pé e ao som de berros e gritos, ela brincou: “Não era assim quando eu era professora. Se fosse, talvez eu nunca tivesse parado”.
É normal estar esgotada com o fenômeno Potter, o qual se tornou uma força cultural e de marketing avassaladora, e que agora vemos como uma influência inevitável. Nesta turnê de lançamento do livro, Rowling não está dando entrevistas. Antes da leitura de segunda-feira, ela participou de uma coletiva de imprensa de 20 minutos, a única mídia que fará nos E.U.A.
Da perspectiva de um leitor, entretanto, há algo de atraente nisto, como também há em sua insistência em adequar estes eventos para os leitores mais jovens, seus fãs mais devotos. A ideia é falar com os leitores diretamente, ou tão diretamente quanto sua enorme celebridade permitir. É uma recompensa incrível, ela insiste, ter este tipo de contato: “Sinceramente, esta é a parte que eu realmente gosto”.
De fato, ela estava relaxada e aberta na coletiva de imprensa, falando sobre o papel da religião em seus livros: “Como Graham Greene(2),” ela disse, “minha fé é que minha fé retornará”, e apontando que, embora esteja “sempre escrevendo,” ela se sente como se estivesse de férias pois “pela primeira vez em 10 anos, não tenho um prazo final”.
Quando alguém perguntou como ia indo uma possível enciclopédia de Harry Potter, Rowling simplesmente riu. “Não está pra ser lançada,” ela disse, “e eu nem comecei a escrevê-la. Nunca disse que seria a próxima coisa que eu faria”.
Essa pergunta, e a resposta de Rowling, mostram os desafios que ela encara agora que a série Potter acabou. Questionada sobre com qual gênero trabalharia em seguida, ela respondeu: “Eu realmente não penso dessa forma. Sério, será o que vier a mim”.
Mais tarde, no palco, ela se referiu à esta conversa ao responder uma questão de um estudante, sugerindo que escrever não funciona dessa maneira, que não é tão lógica, que nós não escolhemos tanto nossas histórias quanto elas nos escolhem. “Quero me apaixonar por algo,” ela disse aos estudantes reunidos, “da mesma forma que me apaixonei pela ideia de Harry, antes que eu comece a escrever qualquer outra coisa”.
O assunto a que Rowling se referia é negligenciado na maioria das discussões sobre sua obra, o fato de que antes de Harry Potter se tornar uma marca registrada internacional, havia uma escritora brincando com suas imaginação, com uma visão criativa, um desejo de trazer um mundo à vida. É isso que atraiu todos estes leitores, o modo como os livros refletem o coração e a alma de sua autora. É também o porquê da improbabilidade do fenômeno Potter ser repetido, mesmo quando Rowling finalmente escrever outro livro.
E ainda assim, se há uma mensagem aqui, é que contar histórias é importante, pode nos conectar, e é assim que comunicamos importantes verdades sobre nós mesmos. Se isto soar como mera ilusão, apenas considere aqueles 1.600 estudantes, berrando como se a autora fosse uma estrela de rock, maravilhados tanto por sua presença como por suas palavras.
Quando uma estudante perguntou quem a havia inspirado quando garota, Rowling admitiu que ninguém em sua família havia pensado que se tornar escritora era uma coisa inteligente de se fazer. “Irônico, realmente,” ela murmurou, para a risada compreensiva da multidão.
E então, ela comentou novamente sobre a importância dos professores, que a encorajaram quando ninguém mais o fez. “Bons professores de inglês,” ela insistiu, “valem seu peso em ouro”.
NR:
(1) – Los Angeles Unified School District (Distrito Escolar Unificado de Los Angeles)
(2) – Henry Graham Greene (1904-1991), escritor inglês, autor de O Expresso do Oriente (1932), a religião foi temática importante em sua obra, retratava dilemas morais e espirituais da época através de seus personagens.
Traduzida por: Lilian Ogussuko em 10/02/2009.
Revisado por: Juliana Poli Bonil em 21/04/2009.
Postado por: Ohanna S. Bolfe em 22/04/2009.
Entrevista original aqui.