King, Stephen. “Adeus, Harry”. Enterteinment Weekly, 05 de julho de 2007.
Nosso colunista sabe, por ter escrito sua série A Torre Negra, que toda história precisa de uma conclusão – mesmo que um fim não possa agradar a todos.
Estou tendo um dia de sentimentos mistos: feliz porque estou lendo o manuscrito de um romance que é cheio de magia, mistério e monstros; triste porque finalmente estará acabado amanhã e na minha prateleira, com todos seus segredos revelados e seus personagens sobreviventes livres para viver suas próprias vidas (isso se os personagens têm vida após o fim do romance – eu sempre achei que sim). É chamado The Monster of Templeton, por Lauren Groff, e será publicado ano que vem.
Você pensou que eu estivesse falando de Harry Potter? Não seja bobo – nem mesmo seu Tio Steven pegaria essa (embora eu tenho certeza que você concorda que ele deveria, ele deveria). Mas eu espero enfrentar esses mesmo sentimentos , apenas mais fortes, quando as páginas de Harry Potter e as Relíquias da Morte chegarem às últimas. Droga, eu tive problemas dizendo adeus a Tony Soprano, e vamos admitir – ele era um insignificante. Harry é um dos mocinhos. Um dos melhores mocinhos, na verdade, e o mesmo vale para seus amigos.
O sentimento de tristeza que sinto com a aproximação do fim de The Monsters of Templeton não é apenas porque a história vai acabar; quando você lê uma boa – e essa é uma muito boa – esses sentimentos são aprofundados pela percepção de que você não vai entrar em nada tão divertido de novo por um bom tempo. Essa melancolia particular é ainda mais profunda quando a história é dividida em múltiplos volumes. Eu senti isso conforme me aproximava do fim da trilogia Gormenghast de Mervyn Peake, mais forte do que quando me aproximei da conclusão da tarefa de Frodo em Senhor do Anéis, com grande dor, quando, como escritor, eu cheguei ao fim de A Torre Negra, que se extendeu por sete volumes e um século de escrita.
Quando se trata de Harry, parte de mim – uma grande parte, na verdade – mal pode dizer adeus. E eu aposto que J.K. Rowling se sente da mesma forma, embora eu também aposte que esses sentimentos se misturam com o alívio em saber que o trabalho finalmente está acabado, por bem ou por mal.
Eu sou um adulto, pelo amor de Deus – um maldito trouxa! Pense em como deve ser para aquelas crianças que tinham 8 anos quando Harry estreou em Harry Potter e a Pedra Filosofal, com sua modesta (500 cópias) e desenhada edição. Essas crianças têm agora 18 anos, e quando elas fecharem o último livro, estarão de certa forma fechando o livro em sua própria infância – verões mágicos gastos no balanço da varanda, ou lendo embaixo de cabanas em acampamentos com lanternas em mãos, ou ouvindo as gravações de Jim Dale em longas viagens para ver a vovó em Cincinnati ou o Tio Bob em Wichita. Meu conselho às famílias contendo leitores Harry Potter: se abastecam de lencinhos. Você vai precisar. Tudo fica pior por um fato inevitável: não é somente Harry. É hora de dizer adeus a todo o elenco, desde a Murta-que-geme até Perebas, o rato (também conhecido como Rabicho). O que leva a uma interessante questão – irá o último livro da série satisfazer os velhos (e devotos) leitores de Harry?
Embora a única coisa da qual possamos ter certeza seja que Relíquias da Morte não irá terminar em um blackout de 10 segundos (você vai ouvir muito isso nas próximas semanas), minha opinião é que um grande número de leitores não ficará satisfeito mesmo que Harry sobreviva (estou apostando que ele irá) e Voldemort se vá (estou apostando nisso também, embora o mal nunca se vá por muito tempo). Eu sou em partes levado pela minha experiência com A Torre Negra (a satisfação do leitor com o final foi baixa – embora titty, já que foi a única que tive); em partes por minha crença de que muito poucos trabalhos longos terminam tão animadores quanto a série do Anel de Tolkien, com sua linda peregrinação para os Portos Cinzentos; mas principalmente pelo fato de que há tristeza, a inevitável partida de personagens que foram profundamente amados por muitos. Os blogs da internet estarão cheios de isso foi ruim e isso foi errado, mas vai acabar em algo que muitos vão sentir e poucos vão sair e logo falar: nenhum final pode ser certo, porque não deveria estar acabado. A magia não deveria ir embora.
Rowling quase certamente irá seguir com outros trabalhos, e eles podem ser maravilhosos, mas não será a mesma coisa, e eu tenho certeza que ela sabe disso. Os leitores vão poder voltar atrás e reler os livros existente – como eu já voltei com Tolkien, como minha esposa volta às maravilhosas história do mar de Patrick O´Brian com o Capitão Aubrey e o Dr. Maturin, como outros fazem com romances com Travis McGee ou Lord Peter Wimsey – e reler é um grande prazer, mas não é como o coração batendo forte, o suspense o-que-vai-acontecer-agora que os leitores Potter vêm apreciando desde 1997. E, é claro, o público de Harry é diferente. É, em grande parte, formado por crianças que irão passar por esses únicos e terríveis sentimentos pela primeira vez.
Mas há um conforto. Há sempre mais histórias boas, e de tempos em tempos há grandes histórias. Elas chegam se você esperar por elas. Nenhuma história pode ser ótima sem uma conclusão. Tem que haver um fim, porque essa é a condição humana. E já que é assim, eu estarei na fila com meu dinheiro em mãos no dia 21 de julho.
E, eu devo admitir, dor em meu coração.
Traduzida por: Renata Grando em 31/08/2008.
Revisado por: Marcela Cristina de Magalhães em 19/09/2008.
Postado por: Vítor Werle em 08/10/2008.
Coluna original aqui.