Gaisford, Sue. “Dando voz a Harry e Cia”. BBC Worldwide, abril de 2001.
É um prazer claramente pessoal ouvir Stephen Fry lendo os livros [da série Harry Potter]. Alguns de nós, adultos, gostamos apenas de assentar-nos no sofá e nos concentrar, enquanto outros preferem escutar enquanto cortam cenouras na cozinha, aproveitando o banho ou acelerando numa auto-estrada.
Mas, é claro, nós estamos transgredindo: essas gravações foram feitas para crianças. Há uma menina prontamente equipada em sua fantasia de bruxa antes que a fita seja posta para tocar, enquanto a própria filha de J.K. Rowling, Jessica, que é, a mãe admite, “completamente obcecada” pelas fitas, prefere estar ajeitadinha na cama antes da história começar.
Isso, na verdade, é um pequeno problema. Quando Rowling estava escrevendo o quarto e mais recente livro sobre o jovem bruxo, a paz criativa de suas noites foi perturbada pela voz de Fry, em fita, lendo os livros anteriores para sua sonolenta filha de 7 anos. “Como disse a Stephen, não era muito confortável! Harry aparentava estar em todos os lugares, enquanto tentava me concentrar nas suas novas aventuras”. Mas ela compreende e compartilha do vício de Jessica. “Eu tenho, ooh, um monte de livros falantes. Minha irmã ri de mim e diz que é um hábito muito mais comum em senhoras de idade, mas não ligo. Sempre gostei quando liam para mim”.
Ela está absolutamente encantada com a leitura de Fry de seus próprios livros. “Eu amo”, ela exclama. “Eu absolutamente adoro! Quando o nome dele foi sugerido pela primeira vez, eu disse ‘Oh, [por favor,] que seja ele!’”. Quando perguntada sobre o que no desempenho dele a alegrava tanto, ela explica que acha que “ele tem uma voz muito, muito atraente”. É bastante formal, mas há um toque de anarquia que é simplesmente correto para os livros. E ele não força tanto na atuação. Ele é como o tio de alguém que é muito bom em ler em voz alta. É um sentimento muito íntimo”.
O próprio Fry acha que parte do apelo das histórias é o seu mundo concretamente realizado: as crianças adoram “conhecimento e soberania dentro de um mundo imaginado. Daí o apelo de coisas tão diversas como Sherlock Holmes e Tolkien”. Entretanto, até esses dois são ofuscados pelo bruxinho que usa óculos. “Nenhum deles apresenta uma mistura tão única de humor, medo e diversão”. Como todo fã de Harry Potter, ele tem dificuldades em escolher seu favorito. “Eu amo ser Dumbledore porque, como todo ator, poder silencioso, dignidade e grandeza são minhas partes favoritas… Mas, eu acho que no geral é cara ou coroa entre Hermione e Rony. Apesar de que, claro, não devemos nos esquecer do próprio Harry. Ou Hagrid. Ou Professora McGonagall. Ou Sra. Weasley. Droga, eu amo todos eles!”, ele suspira alegremente.
O livro mais recente e mais longo até agora, Harry Potter e o Cálice de Fogo, foi lançado dia 2 de abril em fita cassete, em um conjunto de duas caixas. Como os outros, sua produção foi observada por Helen Nicoll, fundadora-mãe da Cover to Cover. Essa companhia tem, por quase 20 anos, se especializado exclusivamente em leituras inalteradas. Foi conseqüentemente uma escolha óbvia para Rowling, que tem a fama de não permitir que seus livros sejam reduzidos. Ela está feliz em confirmar: “Eu apenas disse: vamos fazer a coisa toda ou nada. Eu fico enormemente frustrada quando os livros são reduzidos e eu ainda estou para conhecer uma criança que não gostou do que fizemos”.
Um resultado dessa atitude foi a limpeza do horário da Rádio 4 no dia do encaixotamento, de forma que a leitura de Fry de Harry Potter e a Pedra Filosofal saísse completa e sem interrupções. Helen Boaden, controladora da Rádio 4, arriscou mas valeu a pena, porque o estilo de Rowling é tão convincente que aqueles que vieram para ridicularizar acabaram convertidos. A transmissão atingiu 4,5 milhões de ouvintes, incluindo um garoto mais velho que havia escrito para reclamar, mas que depois escreveu de volta para dizer que amou.
O filme do primeiro livro, agora em produção, é altamente fiel ao original. “Há uma quantidade limitada de pequenos cortes, mas estou impressionada com a quantidade de coisas que eles conseguiram colocar no filme. Preste atenção, se eles algum dia filmarem o quarto livro, eles terão problemas. Há algumas cenas lá que… Deus sabe como eles irão fazê-las”. E ela ri. “Este será o desafio deles, não é?”.
Tamanho é o poder da imaginação humana que problemas desse tipo não existem no mundo do áudio. Ao invés disso, para Stephen Fry, o desafio é lembrar e reproduzir as vozes que ele mesmo criou para cada um do extenso elenco de personagens de cada livro sucessivo. Para lembrá-lo, Helen Nicoll cuidou para que um CD com pequenas partes das gravações anteriores fosse produzido para ele, mas ele raramente precisou dos CDs. As vozes não foram baseadas conscientemente em alguém que ele conhecia. “Elas, às vezes, acabam saindo acidentalmente similares a de velhos professores, amigos e por aí vai, mas esta não é a intenção”, diz ele.
Sua única decepção diz respeito a austera Professora McGonagall: “Eu lamento não ter dado [à ela] um sotaque escocês.É tudo culpa da primeira cena dela em Harry Potter e a Pedra Filosofal onde ela é um gato, e eu comecei a fazer o gato com uma voz e esqueci que ela se transformaria de volta depois”. Fora isso, ele parece saber instintivamente como os personagens deveriam soar. Jo Rowling concorda entusiasticamente. Ela cita o exemplo do encantador, tendencioso ao desastre, personagem Hagrid, sobre quem ela se preocupou. “Foi no início. Stephen estava gravando o primeiro dia do primeiro livro e eu estava voando de Edimburgo para escutá-lo e o vôo atrasou. Eu estava desesperada para contar a ele que Hagrid era de West Country a fim de que não o fizesse um habitante de Glasgow ou de Liverpool e quase a primeira coisa que ele disse foi ‘Eu fiz Hagrid como sendo de Somerset, tudo bem?’ Eu fiquei tão aliviada!”.
Quando nos conhecemos, ela ainda tinha que ouvir a última leitura, mas estava confiante no resultado. “Estou muito ansiosa para ouvir Cálice de Fogo interpretado pelo Sr. Fry”.
Traduzida por: Sarah Campos Guimarães em 20/05/2007.
Revisado por: Dérick Andrade Moreira em 20/09/2008.
Postado por: Vítor Werle em 10/10/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.